Percy Jackson e os Olimpianos

O Ladro de Raios

Rick Riordan



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Marcador 1

E se os deuses do Olimpo estivessem vivos em pleno sculo XXI? E se eles ainda se apaixonassem por
mortais e tivessem filhos que pudessem se tornar heris? Segundo a lenda da Antigidade, a maior parte 
deles, marcados pelo destino, dificilmente passa da adolescncia. Poucos conseguem descobrir sua 
identidade. 

 

Percy Jackson est para ser expulso do colgio interno... de novo.  a sexta vez que isso acontece. Aos 
12 anos, est  apenas uma das ameaas que pairam sobre esse garoto, alm dos efeitos da sndrome do 
dficit de ateno, da dislexia... e das criaturas fantsticas e deuses do Monte Olimpo, que, ltimamente, 
parecem estar saindo dos livros de mitologia grega do colgio para a realidade. E, ao que tudo indica, 
esto aborrecidos com ele. 

 

Vrios acidentes e revelaes inexplicveis afastam Percy Jackson de Nova York, sua cidade, e o lanam 
em um campo de treinamento muito especial, onde  orientado para enfrentar uma misso que envolve 
humanos diferentes  metade deuses, metade homens -, alm de seres mitolgicos. O raio-mestre de 
Zeus fora roubado, e  Percy quem deve resgat-lo. 

 

Com a ajuda de novos amigos  um stiro e a filha de uma deusa  Percy tem dez dias para reaver o 
instrumento de Zeus, que representa a destruio original, e restabelecer a paz no Olimpo. Para conseguir 
isso, precisar fazer mais do que capturar um ladro. Ter de encarar o pai que o abandonou resolver um 
enigma proposto pelo orculo e desvendar uma traio mais ameaadora que a fria dos deuses. 

 

Marcador 2 

Rick Riordan nasceu em 1964, em San Antonio, Texas, Estados Unidos, onde mora com a mulher e dois 
filhos. Durante quinze anos ensinou ingls e histria em escolas pblicas e particulares do So Francisco. 
Alm da srie Percy Jackson e os olimpianos, publicou a premiada srie de mistrio para adultos Tres 
Navarre. 

 

 

 

Para Haley, que ouviu a histria primeiro. 

 

 

 

SUMRIO: 

UM  sem querer, transformo em p minha professora de iniciao  lgebra. 

DOIS  trs velhas senhoras tricotam as meias da morte. 

TRS  Grover de repente perde as calas. 

QUATRO  minha me me ensina a tourear. 

CINCO  eu jogo pinochle com um cavalo. 

SEIS  minha transformao em senhor supremo do banheiro. 

SETE  meu jantar se esvai em fumaa. 

OITO  ns capturamos uma bandeira. 

NOVE  oferecem-me uma misso. 

DEZ  eu destruo um nibus. 

ONZE  nossa visita ao emprio de anes de jardim. 

DOZE  um poodle  o nosso conselheiro. 

TREZE  meu mergulho para a morte. 

QUATORZE  eu me torno um fugitivo conhecido. 

QUINZE  um deus compra cheesburgers para ns. 

DEZESSEIS  a ida de uma zebra para Las Vegas. 

DEZESSETE  vamos comprar camas dgua. 

DEZOITO  Annabeth usa a aula de adestramento. 

DEZENOVE  de certa forma, descobrimos a verdade. 

VINTE  a luta contra meu parente imbecil. 

VINTE E UM  meu acerto de contas. 

VINTE E DOIS  a profecia se cumpre. 

 

 

 

#
UM  Sem querer, transformo em p minha professora de iniciao  lgebra. 

 

Olhe, eu no queria ser um meio-sangue. 

 

Se voc est lendo isto porque acha que pode ser um, meu conselho  o seguinte: feche este livro agora 
mesmo. Acredite em qualquer mentira que sua me ou seu pai lhe contou sobre seu nascimento, e tente 
levar uma vida normal. 

 

Ser meio-sangue  perigoso.  assustador. Na maioria das vezes, acaba com a gente de um jeito penoso 
e detestvel. 

 

Se voc  uma criana normal, que est lendo isto porque acha que  fico, timo. Continue lendo. Eu o 
invejo por ser capaz de acreditar que nada disso aconteceu. 

 

Mas, se voc se reconhecer nestas pginas  se sentir alguma coisa emocionante l dentro -, pare de ler 
imediatamente. Voc pode ser um de ns. E, uma vez que fica sabendo disso,  apenas uma questo de 
tempo antes que eles tambm sintam isso, e venham atrs de voc. 

 

No diga que eu no avisei. 

 

Meu nome  Percy Jackson. 

 

Tenho doze anos de idade. At alguns meses atrs, era aluno de um internato, na Academia Yancy, uma 
escola particular para crianas problemticas no norte do estado de Nova York. 

 

Se eu sou uma criana problemtica? 

 

Sim. Pode-se dizer isso. 

 

Eu poderia partir de qualquer ponto da minha vida curta e infeliz para prov-lo, mas as coisas comearam 
a ir realmente mal no ltimo ms de maio, quando nossa turma do sexto ano fez uma excurso a 
Manhattan  vinte e oito crianas alucinadas e dois professores em um nibus escolar amarelo indo para o 
Metropolitan Museum of Art, a fim de observar velharias gregas e romanas. 

 

Eu sei, parece tortura. A maior parte das excurses da Yancy era mesmo. 

 

Mas o sr. Brunner, nosso professor de latim, estava guiando essa excurso, assim eu tinha esperanas. 

 

O sr. Brunner era um sujeito de meia-idade em uma cadeira de rodas motorizada. Tinha o cabelo ralo, 
uma barba desalinhada e usava um casaco surrado de tweed que sempre cheirava a caf. Talvez voc 
no o achasse legal, mas ele contava histrias e piadas e nos deixava fazer brincadeiras em sala. 
Tambm tinha uma impressionante coleo de armaduras e armas romanas, portanto era o nico 
professor cuja aula no me fazia dormir. 

 

Eu esperava que desse tudo certo na excurso. Pelo menos tinha esperana de no me meter em 
encrenca dessa vez. 

 

Cara, como eu estava errado. 

 

Entenda: coisas ruins me acontecem em excurses escolares. Como na minha escola da quinta srie, 
quando fomos para o campo de batalha de Saratoga, e eu tive aquele acidente com um canho da 
Revoluo Americana. Eu no estava apontando para o nibus da escola, mas  claro que fui expulso do 
mesmo jeito. 

 

E antes disso, na escola da quarta srie, quando fizemos um passeio pelos bastidores do tanque dos 
tubares do Mundo Marinho, e eu de, alguma forma, acionei a alavanca errada no passadio e nossa 
turma tomou um banho inesperado. E antes disso... Bem, j d para voc ter uma idia. 

 

Nessa viagem, eu estava determinado a ser bonzinho. 

#
Ao longo de todo o caminho para a cidade agentei Nancy Bobofit, aquela cleptomanaca ruiva e sardenta, 
acertando a nuca do meu melhor amigo, Grover, com pedaos de sanduche de manteiga de amendoim 
com ketchup. 

 

Grover era um alvo fcil. Ele era magrelo. Chorava quando ficava frustrado. Devia ter repetido de ano 
muitas vezes, porque era o nico na sexta srie que tinha espinhas e uma barba rala comeando a nascer 
no queixo. E, ainda por cima, era aleijado. Tinha um atestado que o dispensava da Educao Fsica pelo 
resto da vida, porque tinha algum tipo de doena muscular nas pernas. Andava de um jeito engraado, 
como se cada passo doesse, mas no se deixe enganar por isso. Voc precisa v-lo correr quando era dia 
de enchilada na cantina. 

 

De qualquer modo, Nancy Bobofit estava jogando bolinhas de sanduche que grudavam no cabelo 
castanho cacheado dele, e ela sabia que eu no podia revidar, porque j estava sendo observado, sob o 
risco de ser expulso. O diretor me ameaara de morte com uma suspenso .na escola. (ou seja, sem 
poder assistir s aulas, mas tendo de comparecer  escola e ficar trancado numa sala fazendo tarefas de 
casa) caso alguma coisa ruim, embaraosa ou at moderadamente divertida acontecesse durante a 
excurso. 

 

- Eu vou mat-la  murmurei. 

 

Grover tentou me acalmar. 

 

- Est tudo bem. Gosto de manteiga de amendoim. 

 

Ele se esquivou de outro pedao do lanche de Nancy. 

 

- Agora chega. - Comecei a levantar, mas Grover me puxou de volta para o assento. 

 

- Voc j est sendo observado - ele me lembrou. - Sabe que ser culpado se acontecer alguma coisa. 

 

Quando me lembro daquilo, preferia ter acertado Nancy Bobofit no ato. A suspenso na escola no teria 
sido nada em comparao com a encrenca que eu estava prestes a me meter. 

 

O sr. Brunner guiou o passeio pelo museu. 

 

Ele foi na frente em sua cadeira de rodas, conduzindo-nos pelas grandes galerias cheias de ecos, 
passando por esttuas de mrmore e caixas de vidro repletas de cermica preta e laranja muito velha. 

 

Eu ficava alucinado s de pensar que aquelas coisas tinham sobrevividos por dois mil, trs mil anos. 

 

Ele nos reuniu em volta de uma coluna de pedra com quatro metros de altura e uma grande esfinge no 
topo, e comeou a explicar que aquilo era um marco tumular, uma estela, feita para uma menina mais ou 
menos da nossa idade. Contou-nos sobre as inscries laterais. Estava tentando ouvir o que ele tinha a 
dizer, porque era um pouco interessante, mas todos ao meu redor estavam falando, e cada vez que eu 
dizia para calarem a boca, a outra professora que nos acompanhava, a sra. Dodds, me olhava de cara 
feia. 

 

A sra. Dudds era aquela professorinha de matemtica da Gergia que sempre usava um casaco de couro 
preto, apesar de ter cinqenta anos de idade. Parecia m o bastante para entrar com uma moto Harley 
bem dentro do seu armrio. Tinha chegado em Yancy no meio do ano, quando nossa ltima professora de 
matemtica teve um colapso nervoso. 

 

Desde o primeiro dia, a sra. Dodds adorou Nancy Bobofit e concluiu que eu tinha sido gerado pelo diabo. 
Ela me apontava o dedo torto e dizia: .Agora, meu bem., com a maior doura, e eu sabia que ia ficar 
detido depois da aula por um ms. 

 

Certa vez, depois que ela me fez apagar as respostas em antigos livros de exerccios de matemtica at 
meia-noite, disse a Grover que achava que a sra. Dodds no era gente. Ele olhou para mim, muito srio, e 
disse: 

 

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- Voc est certssimo. 

 

O sr. Brunner continuou falando sobre arte funerria grega. 

 

Finalmente, Nancy Bobofit, abafando o riso, falou algo sobre o sujeito pelado na estela, e eu me virei e 
disse: 

 

- Quer calar a boca? 

 

Saiu mais alto do que eu pretendia. 

 

O grupo inteiro deu risada. O Sr. Brunner interrompeu seu histria. 

 

- Sr. Jackson - disse ele -, fez algum comentrio? 

 

Meu rosto estava completamente vermelho. Eu disse: 

 

- No, senhor. 

 

O sr. Brunner apontou para uma das figuras na estela. 

 

- Talvez possa nos dizer o que esta figura representa. 

 

Olhei para a imagem entalhada e senti uma onda de alvio, porque de fato a reconhecera. 

 

-  Cronos comendo os filhos, certo? 

 

- Sim  disse o sr. Brunner, e obviamente no estava satisfeito.  E ele fez isso porque... 

 

- Bem... - eu quebrei a cabea para me lembrar. - Cronos era o deus-rei e... 

 

- Rei? - perguntou o sr. Brunner. 

 

- Tit - eu me corrigi. - E... ele no confiava nos filhos, que eram os deuses. Ento, hum, Cronos os 
comeu, certo? Mas sua esposa escondeu o beb Zeus e deu a Cronos uma pedra para comer no lugar 
dele. E depois, quando Zeus cresceu, ele enganou o pai, Cronos, e o fez vomitar seus irmos e irms. 

 

- Eca! - disse uma das meninas atrs de mim. 

 

- ...e ento houve aquela grande briga entre os deuses e os tits - continuei -, e os deuses venceram. 

 

Algumas risadinhas do grupo. 

 

Atrs de mim, Nancy Bobofit murmurou para uma amiga: 

 

- Como se fssemos usar isso na vida real. Como se fossem falar nas nossas entrevistas de emprego: 
.Por favor explique por que Cronos comeu seus filhos.. 

 

- E por que, Sr. Jackson - disse o sr. Brunner -, parafraseando a excelente pergunta da Srta. Bobofit, isso 
importa na vida real? 

 

- Se ferrou  murmurou Grover. 

 

- Cala a boca - chiou Nancy, a cara ainda mais vermelha que seu cabelo. 

 

Pelo menos Nancy tambm foi enquadrada. O sr. Brunner era o nico que a pegava dizendo algo errado. 
Tinha ouvidos de radar. 

 

Pensei na pergunta dele, e encolhi os ombros. 

 

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- No sei, senhor. 

 

- Entendo. - O sr. Brunner pareceu desapontado. - Bem, meio ponto, Sr. Jackson. Zeus, na verdade, deu a 
Cronos uma mistura de mostarda e vinho, o que o fez vomitar as outras cinco crianas, que,  claro, sendo 
deuses imortais, estavam vivendo e crescendo sem serem digeridas no estmago do tit. Os deuses 
derrotaram o pai deles, cortando-no em pedaos com sua prpria foice e espalharam os restos no Trtaro, 
a parte mais escura do Mundo Inferior. E com esse alegre comentrio,  hora do almoo. Sra. Dodds, quer 
nos levar de volta para fora? 

 

A turma foi retirada, as meninas segurando a barriga, os garotos empurrando uns aos outros e agindo 
como bobes. 

 

Grover e eu estvamos prestes a segui-los quando o sr. Brunner disse: 

 

- Sr. Jackson. 

 

Eu sabia o que vinha a seguir. 

 

Disse a Grover para ir andando. Ento me voltei para o professor. 

 

- Senhor? 

 

O sr. Brunner tinha aquele olhar que no deixa a gente ir embora - olhos castanhos intensos que poderiam 
ter mil anos de idade e j ter visto de tudo. 

 

- Voc precisa aprender a responder  minha pergunta - disse ele. 

 

- Sobre os tits? 

 

- Sobre a vida real. E como seus estudos se aplicam a ela. 

 

- Ah. 

 

- O que voc aprende comigo - disse ele -  de uma importncia vital. Espero que trate o assunto como tal. 
De voc, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson. 

 

Eu queria ficar zangado, aquele sujeito me pressionava demais. 

 

Quer dizer, claro, era legal em dias de torneio, quando ele vestia uma armadura romana, bradava .Ol!. e 
nos desafiava, ponta de espada contra o giz a correr para o quadro-negro e citar pelo nome cada pessoa 
grega ou romana que j viveu, o nome de sua me e que deuses cultuavam. Mas o sr. Brunner esperava 
que eu fosse to bom quanto todos os outros a despeito do fato de que tenho dislexia e transtorno do 
dficit de ateno, e de que nunca na vida tirei uma nota acima de C-. No - ele no esperava que eu 
fosse to bom quanto; ele esperava que eu fosse melhor. E eu simplesmente no podia aprender todos 
aqueles nomes e fatos, e muito menos escrev-los direito. 

 

Murmurei alguma coisa sobre me esforar mais, enquanto o sr. Brunner lanava um olhar longo e triste 
para a estela, como se tivesse estado no funeral daquela menina. 

 

Ele me disse para sair e comer meu lanche. 

 

A turma se reuniu nos degraus da frente do museu, de onde podamos assistir ao trnsito de pedestres 
pela Quinta Avenida. 

 

Acima de ns, uma imensa tempestade estava se formando, com as nuvens mais escuras que eu j tinha 
visto sobre a cidade. Imaginei que talvez fosse o aquecimento global ou qualquer coisa assim, porque o 
tempo em todo o estado de Nova York estava esquisito desde o Natal. Tivemos nevascas pesadas, 
inundaes, incndios nas florestas causados por raios. Eu no teria ficado surpreso se fosse um furaco 
chegando. 

 

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Ningum mais pareceu notar. Alguns dos garotos estavam jogando biscoitos para os pombos. Nancy 
Bobofit tentava afanar alguma coisa da bolsa de uma senhora e,  claro, a sra. Dodds no via nada. 

 

Grover e eu nos sentamos na beirada do chafariz, longe dos outros. Pensamos que, se fizssemos isso, 
talvez ningum descobrisse que ramos daquela escola - a escola para esquisites lesados que no 
davam certo em nenhum outro lugar. 

 

- Deteno? - perguntou Grover. 

 

- No - disse eu. - No do Brunner. Eu s gostaria que ele s vezes me desse um tempo. Quer dizer, no 
sou um gnio. 

 

Grover no disse nada por algum tempo. Ento, quando achei que ele ia me brindar com algum 
comentrio filosfico profundo para me fazer sentir melhor, ele disse: 

 

- Posso comer sua ma? 

 

Eu no estava com muito apetite, ento a entreguei a ele. 

 

Observei os txis que passavam descendo a Quinta Avenida e pensei no apartamento de minha me, na 
rea residencial prxima ao lugar onde estvamos sentados. Eu no a via desde o Natal. Tive muita 
vontade de pular em um txi e ir para casa. Ela me abraaria e ficaria contente de me ver, mas tambm 
ficaria desapontada. Imediatamente me mandaria de volta para Yancy e me lembraria que preciso me 
esforar mais, ainda que aquela fosse minha sexta escola em seis anos e que, provavelmente, eu seria 
chutado para fora de novo. No conseguiria suportar o olhar triste que ela me lanaria. 

 

O sr. Brunner estacionou a cadeira de rodas na base da rampa para deficientes. Comia aipo enquanto lia 
um romance. Um guarda-chuva vermelho estava enfiado nas costas da cadeira, fazendo-a parecer uma 
mesa de caf motorizada. 

 

Eu estava prestes a desembrulhar meu sanduche quando Nancy Bobofit apareceu diante de mim com as 
amigas feiosas - imagino que tivesse se cansado de roubar dos turistas - e deixou seu lanche, j comido 
pela metade, cair no colo de Grover. 

 

- Oops. - Ela arreganhou um sorriso para mim, com os dentes tortos. As sardas eram alaranjadas, como 
se algum tivesse pintado o rosto dela com um spray de Cheetos lquido. 

 

Tentei ficar calmo. O orientador da escola me dissera um milho de vezes: "Conte at dez, controle seu 
gnio." Mas estava to furioso que me deu um branco. Uma onda rugia nos meus ouvidos. 

 

No me lembro de ter tocado nela, mas quando dei por mim Nancy estava sentada com o traseiro no 
chafariz, berrando: 

 

- Percy me empurrou! A sra. Dodds se materializou ao nosso lado. Algumas das crianas estavam 
sussurrando: 

 

- Voc viu... 

 

- ...a gua... 

 

- ...parece que a agarrou... 

 

Eu no sabia do que elas estavam falando. Tudo o que sabia era que estava encrencado outra vez. 

 

Assim que se certificou de que a pobre Nancy estava bem, prometendo dar-lhe uma blusa nova na loja de 
presentes do museu etc. e tal, a sra. Dodds se voltou para mim. Havia um fogo triunfante em seus olhos, 
como se eu tivesse feito algo pelo que ela esperara o semestre inteiro: 

 

- Agora, meu bem... 

 

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- Eu sei - resmunguei. - Um ms apagando livros de exerccios. 

 

No foi a coisa certa para dizer. 

 

- Venha comigo - disse a sra. Dodds. 

 

- Espere! - guinchou Grover. - Fui eu. Eu a empurrei. 

 

Olhei para ele perplexo. No podia acreditar que estivesse tentando me proteger. Ele morria de medo da 
sra. Dodds. 

 

Ela lanou um olhar to furioso que fez o queixo penugento dele tremer. 

 

- Acho que no, sr. Underwood - disse ela. 

 

- Mas... 

 

- Voc... vai... ficar... aqui. 

 

Grover me olhou desesperadamente, 

 

- Tudo bem, cara - disse a ele. - Obrigado por tentar. 

 

- Meu bem - latiu a sra. Dodds para mim. - Agora. 

 

Nancy Bobofit deu um sorriso falso. 

 

Lancei-lhe meu melhor olhar de "vou acabar com a sua raa". Ento me virei para enfrentar a sra. Dodds, 
mas ela no estava l. Estava postada  entrada do museu, l no alto dos degraus, gesticulando 
impaciente para mim. 

 

Como ela chegou l to depressa? 

 

Tenho milhares de momentos desse tipo - meu crebro adormece ou algo assim e, quando me dou conta, 
vejo que perdi alguma coisa, como se uma pea do quebra-cabea desaparecesse e me deixasse olhando 
para o espao vazio atrs dela. O orientador da escola me disse que isso era parte do transtorno do dficit 
de ateno, era meu crebro que interpretava tudo errado. 

 

Eu no tinha tanta certeza. 

 

Fui atrs da sra. Dodds. 

 

No meio da escadaria, olhei para Grover l atrs. Ele parecia plido, movendo os olhos entre mim e o sr. 
Brunner, como se quisesse que o sr. Brunner reparasse no que estava acontecendo, mas o professor 
estava absorto em seu romance. 

 

Voltei a olhar para cima. A sra. Dodds desaparecera de novo. Estava agora dentro do edifcio, no fim do 
hall de entrada. 

 

Certo, pensei. Ela vai me fazer comprar uma blusa nova para Nancy na loja de presentes. 

 

Mas aparentemente no era esse o plano. 

 

Eu a segui museu adentro. Quando finalmente a alcancei, estvamos de volta  seo greco-romana. 

 

A no ser por ns, a galeria estava vazia. 

 

A sra. Dodds estava postada de braos cruzados na frente de um grande friso de mrmore com os deuses 
gregos. Ela fazia um mulo estranho com a garganta, como um rosnado. 

 

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Mesmo sem o rudo, eu teria ficado nervoso.  esquisito estar sozinho com uma professora, 
especialmente a sra. Dodds. Algo no modo como ela olhava para o friso, como se quisesse pulveriz-lo... 

 

- Voc est nos criando problemas, meu bem - disse ela. 

 

Fiz o que era seguro. Disse: 

 

- Sim, senhora. 

 

Ela ajeitou os punhos de seu casaco de couro. 

 

- Voc achou mesmo que ia se safar desta? A expresso em seus olhos era mais que furiosa. Era 
perversa. Ela  uma professora, pensei, nervoso. No  provvel que v me machucar. Eu disse: 

 

- Eu... eu vou me esforar mais, senhora. Um trovo sacudiu o edifcio. 

 

- Ns no somos bobos, Percy Jackson - disse a sra. Dodds. - Seria apenas uma questo de tempo at 
que o descobrssemos Confesse, e voc sentir menos dor. 

 

Eu no sabia do que ela estava falando. 

 

Tudo o que pude pensar foi que os professores haviam descoberto o estoque ilegal de doces que eu 
estava vendendo no meu dormitrio. Ou talvez tivessem descoberto que eu pegara meu trabalho sobre 
Tom Sawyer na Internet sem ter nem lido o livro, e agora iam retirar minha nota. Ou pior, iam me obrigar a 
ler o livro. 

 

- E ento? - exigiu. 

 

- Senhora, eu no... 

 

- O seu tempo se esgotou - sibilou ela. 

 

Ento algo muito estranho aconteceu. Os olhos dela comearam a brilhar como carvo de churrasco. Os 
dedos se esticaram, transformando-se em garras. O casaco se fundiu em grandes asas de couro. Ela no 
era humana. Era uma bruxa m e enrugada, com asas e garras de morcego e com uma boca repleta de 
presas amareladas - e estava prestes a me fazer em pedaos. 

 

Ento as coisas ficaram ainda mais esquisitas. 

 

O sr. Brunner, que estava na frente do museu um minuto antes, foi com a cadeira de rodas at o vo da 
porta da galeria, segurando uma caneta. 

 

- Ol, Percy! - gritou ele, e lanou a caneta pelo ar. 

 

A sra. Dodds deu um bote para cima de mim. 

 

Com um gemido agudo, eu me esquivei e senti as garras cortando o ar ao lado do meu ouvido. Agarrei a 
caneta esferogrfica no alto, mas quando ela atingiu minha mo j no era mais uma caneta. Era uma 
espada - a espada de bronze do sr. Brunner, que ele sempre usava em dias de torneio. 

 

A sra. Dodds virou-se na minha direo com uma expresso assassina nos olhos. 

 

Meus joelhos ficaram bambos. As mos tremiam tanto que quase deixei a espada cair. 

 

Ela rosnou: 

 

- Morra, meu bem! 

 

E voou para cima de mim. 

 

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Um terror absoluto percorreu meu corpo. Fiz a nica coisa que me ocorreu naturalmente: desferi um golpe 
com a espada. 

 

A lmina de metal atingiu o ombro dela e passou direto por seu corpo, como se ela fosse feita de gua: 
Zaz! 

 

A sra. Dodds era um castelo de areia debaixo de um ventilador. Ela explodiu em areia amarela, reduziu-se 
a p, sem deixar nada do cheiro de enxofre, um grito estridente que foi sumindo e um calafrio de maldade 
no ar, como se aqueles olhos vermelhos incandescentes ainda estivessem me olhando. 

 

Eu estava sozinho. 

 

Havia uma caneta esferogrfica na minha mo. 

 

O sr. Brunner no estava l. No havia ningum l alm de mim. 

 

Minhas mos ainda estavam tremendo. Meu lanche devia estar contaminado com cogumelos mgicos ou 
coisa assim. 

 

Ser que eu havia imaginado tudo aquilo? 

 

Voltei para o lado de fora. 

 

Tinha comeado a chover. 

 

Grover estava sentado junto ao chafariz com um mapa do museu formando uma tenda em cima de sua 
cabea. Nancy Bobofit ainda estava l, encharcada do banho no chafariz, resmungando para as amigas 
feiosas. Quando me viu, disse: 

 

- Espero que a sra. Kerr tenha chicoteado seu traseiro. 

 

- Quem? - respondi. 

 

- Nossa professora. D! 

 

Eu pisquei. No tnhamos nenhuma professora chamada sra. Kerr. Perguntei a Nancy de quem ela estava 
falando. 

 

Ela simplesmente revirou os olhos e me deu as costas. 

 

Perguntei a Grover onde estava a sra. Dodds. 

 

- Quem? - respondeu ele. 

 

Mas Grover primeiro fez uma pausa, e no olhou para mim, portanto, pensei que estivesse me gozando. 

 

- No tem graa, cara - disse a ele. - Isso  srio. Um trovo estourou no alto. 

 

Vi o sr. Brunner sentado embaixo do guarda-chuva vermelho, lendo seu livro, como se nunca tivesse se 
mexido. Fui at ele. Ele ergueu os olhos, um pouco distrado. 

 

- Ah,  a minha caneta. Por favor, traga seu prprio instrumento de escrita no futuro, sr. Jackson. 

 

Entreguei a caneta ao sr. Brunner. No tinha notado que ainda a estava segurando. 

 

- Senhor - disse eu -, onde est a sra. Dodds? Ele olhou para mim com a expresso vazia. 

 

- Quem? 

 

- A outra professora que nos acompanhava. A sra. Dodds. Professora de iniciao  lgebra. 

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Ele franziu a testa e se inclinou para a frente, parecendo ligeiramente preocupado. 

 

- Percy, no h nenhuma sra. Dodds nesta excurso. At onde sei, nunca houve uma sra. Dodds na 
Academia Yancy. Est se sentindo bem? 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
DOIS  Trs velhas senhoras tricotam as meias da morte. 

 

Eu estava acostumado a uma ou outra experincia esquisita, mas normalmente elas passavam depressa. 
Aquela alucinao 24 horas por dia e sete dias por semana era mais do que podia encarar. Durante o 
resto do ano escolar o campus inteiro parecia me pregando algum tipo de pea. Os alunos agiam como se 
estivessem completa e totalmente convencidos de que a sra. Kerr - uma loira alegre que eu nunca tinha 
visto na vida at o momento em que ela entrou no nosso nibus no fim da excurso - era nossa professora 
de iniciao  lgebra desde o Natal. 

 

De vez em quando eu soltava uma referncia  sra. Dodds para cima de algum, s para ver se conseguia 
faz-los titubear, mas eles me olhavam como se eu fosse louco. 

 

Acabei quase acreditando neles: a sra. Dodds nunca tinha existido. 

 

Quase. 

 

Mas Grover no conseguiu me enganar. Quando eu mencionava o nome Dodds ele hesitava, depois 
alegava que ela no existia. Mas eu sabia que ele estava mentindo. 

 

Alguma coisa estava acontecendo. Alguma coisa havia acontecido no museu. 

 

Eu no tinha muito tempo para pensar no assunto durante o dia, mas,  noite, vises da sra. Dodds com 
garras e asas de couro me faziam acordar suando frio. 

 

O tempo maluco continuou, o que no ajudava meu humor. Certa noite, uma tempestade de raios 
arrebentou a janela do meu dormitrio. Alguns dias depois, o maior tornado jamais visto no vale do 
Hudson tocou o cho a apenas trinta quilmetros da Academia Yancy. Um dos eventos correntes que 
aprendemos na aula de estudos sociais era o nmero inusitado de pequenos avies que caram em 
sbitos vendavais no Atlntico naquele ano. 

 

Comecei a me sentir mal-humorado e irritado a maior parte do tempo. Minhas notas caram de D para F. 
Entrei em mais atritos com Nancy Bobofit e suas amigas. Era posto para fora da sala e tinha de ficar no 
corredor em quase todas as aulas. 

 

Finalmente, quando nosso professor de ingls, o sr. Nicoll, me perguntou pela milionsima vez por que eu 
tinha tanta preguia de estudar para as provas de ortografia, eu explodi. Chamei-o de velho dipsomanaco. 
No sabia direito o que aquilo queria dizer, mas soou bem. 

 

O diretor mandou uma carta para minha me na semana seguinte, tornando oficial: eu no seria convidado 
a voltar para a Academia Yancy no ano seguinte. 

 

timo, disse a mim mesmo. Simplesmente timo. 

 

Eu estava com saudades de casa. 

 

Queria ficar com minha me no nosso pequeno apartamento no Upper East Side, mesmo que tivesse de 
freqentar uma escola pblica e aturar meu padrasto detestvel e seus jogos de pquer estpidos. 

 

E no entanto... havia coisas em Yancy de que eu sentiria falta. A vista da minha janela para os bosques, o 
rio Hudson a distncia, o cheiro dos pinheiros. Sentiria falta de Grover, que tinha sido bom amigo, mesmo 
com seu jeito meio estranho. Fiquei pensando como ele iria sobreviver ao prximo ano sem mim. 

 

Tambm sentiria falta da aula de latim - os dias malucos de torneio do sr. Brunner e sua confiana em que 
eu poderia me sair bem. 

 

Quando a semana de exames foi se aproximando, latim era a nica prova para a qual eu estudava. No 
tinha me esquecido que o sr. Brunner falara, sobre essa matria ser questo de vida ou morte para mim. 
No sabia muito bem por qu, mas acreditar nele. 

 

#
Na noite anterior ao meu exame final, fiquei to frustrado que joguei o Guia Cambridge de mitologia grega 
do outro lado do dormitrio. As palavras tinham comeado a flutuar para fora da pgina, dando voltas na 
minha cabea, as letras fazendo manobras radicais como se estivessem andando de skate. No havia 
jeito de eu me lembrar da diferena entre Quron e Caronte, ou Polidectes e Polideuces. E conjugar 
aqueles verbos latinos? Nem pensar. 

 

Fiquei indo de um lado para outro no quarto, com a sensao de que havia formigas andando por dentro 
da minha camisa. 

 

Lembrei a expresso sria do sr. Brunner, de seus olhos de mil anos. De voc, aceitarei apenas o melhor, 
Percy Jackson. 

 

Respirei fundo. Peguei o livro de mitologia. 

 

Eu nunca havia pedido ajuda a um professor antes. Se falasse com o sr. Brunner, quem sabe ele me daria 
algumas dicas. Poderia, pelo menos, pedir desculpas pelo grande F que ia tirar na prova. No queria sair 
da Academia Yancy deixando-o pensar que eu no tinha me esforado. 

 

Desci a escada para os gabinetes dos professores. A maioria estava vazia e escura, mas a porta do sr. 
Brunner estava entreaberta e a luz que vinha da sua janela se estendia ao longo do piso do corredor. 

 

Eu estava a trs passos da maaneta da porta quando ouvi vozes dentro da sala.. O sr. Brunner tinha feito 
uma pergunta. Uma voz que, sem sombra de dvida, era a de Grover disse: "...preocupado, senhor." 

 

Eu gelei. 

 

Normalmente no sou bisbilhoteiro, mas desafio algum a no tentar ouvir quando seu melhor amigo est 
falando sobre voc com um adulto. 

 

Cheguei um pouquinho mais perto. 

 

- ...sozinho nesse vero - Grover estava dizendo. - Quer dizer, uma benevolente na escola! Agora que 
sabemos com certeza, e eles tambm sabem... 

 

- S vamos piorar as coisas se o apressarmos - disse o sr. Brunner. - Precisamos que o menino 
amadurea mais. 

 

- Mas ele pode no ter tempo. O prazo final do solstcio de vero... 

 

- Ter de ser resolvido sem ele, Grover. Deixe-o desfrutar sua ignorncia enquanto ainda pode. 

 

- Senhor, ele a viu... 

 

- Imaginao dele - insistiu o sr. Brunner. - A Nvoa sobre os alunos e a equipe ser suficiente para 
convenc-lo disso. 

 

- Senhor, eu... eu no posso fracassar nas minhas tarefas de novo. - A voz de Grover estava embargada 
de emoo.  Sabe o que isso significaria. 

 

- Voc no fracassou, Grover - disse o sr. Brunner gentilmente. - Eu deveria t-la visto como ela era. 
Agora vamos apenas nos preocupar em manter Percy vivo at o prximo outono... 

 

O livro de mitologia caiu da minha mo e bateu no cho com um rudo surdo. 

 

O sr. Brunner silenciou. 

 

Com o corao disparado, peguei o livro e voltei pelo corredor. 

 

#
Uma sombra deslizou pelo vidro iluminado da porta da porta de Brunner, a sombra de algo muito mais alto 
do que meu professor de cadeira de rodas, segurando alguma coisa suspeitamente parecida com o arco 
de um arqueiro. 

 

Abri a porta mais prxima e me esgueirei para dentro. 

 

Alguns segundos depois ouvi um lento clop-clop-clop, como, blocos de madeira abafados, depois um som 
como o de um animal farejando bem na frente da minha porta. Um grande vulto escuro parou diante do 
vidro e depois seguiu adiante. 

 

Uma gota de suor escorreu por meu pescoo. 

 

Em algum lugar no corredor, o sr. Brunner falou. 

 

- Nada - murmurou ele. - Meus nervos no andam to bons desde o solstcio de inverno. 

 

- Nem os meus - disse Grover. - Mas eu podia ter jurado... 

 

-Volte para o dormitrio - disse-lhe o sr. Brunner. - tem um longo dia de provas amanh. 

 

- Nem me lembre. 

 

As luzes se apagaram na sala do sr. Brunner. 

 

Aguardei no escuro pelo que pareceu uma eternidade. 

 

Por fim, me esgueirei para o corredor e subi de volta para o dormitrio. 

 

Grover estava deitado na cama, estudando as anotaes para a prova de latim como se tivesse estado l 
a noite inteira. 

 

- Ei! - disse ele, com olhar de sono. - Vai estar preparado para a prova? 

 

No respondi. 

 

- Est com uma cara horrvel. - Ele franziu a testa. -Tudo bem? 

 

- S estou cansado. 

 

Virei-me para que ele no pudesse perceber minha expresso e comecei a me preparar para dormir. 

 

No entendi o que tinha ouvido l embaixo. Queria acreditar que havia imaginado aquilo tudo. 

 

Mas uma coisa estava clara: Grover e o sr. Brunner estavam falando de mim pelas costas. Achavam que 
eu corria algum tipo de perigo. 

 

Na tarde seguinte, quando estava saindo da prova de latim de trs horas, atordoado com todos os nomes 
gregos e romanos que tinha escrito errado, o sr. Brunner me chamou de volta. 

 

Por um momento, fiquei preocupado achando que ele descobrira minha bisbilhotice na noite anterior, mas 
no parecia ser esse o problema. 

 

- Percy - disse ele. - No fique desanimado por deixar Yancy. ...  para o seu bem. 

 

Seu tom era gentil, mas ainda assim as palavras me deixaram sem graa. Embora ele estivesse falando 
baixo, os que terminavam a prova podiam ouvir. Nancy Bobofit me lanou um sorriso falso e, fez pequenos 
movimentos de beijo com os lbios. 

 

Eu murmurei: 

 

#
- Est bem, senhor. 

 

- Quer dizer... - O sr. Brunner andou com a cadeira para trs e para frente, como se no tivesse certeza do 
que falar. - Este no  o lugar certo para voc. Era apenas uma questo de tempo. 

 

Meus olhos ardiam. 

 

Ali estava meu professor favorito, na frente da classe, me dizendo que eu no era capaz. Depois de falar o 
ano todo que acreditava em mim, agora me dizia que eu estava destinado a ser expulso. 

 

- Certo - disse eu, tremendo. 

 

- No, no - disse o sr. Brunner. - Ah, que droga. O que eu estava tentando dizer...  que voc no  
normal, Percy. No  nada ser... 

 

- Obrigado - soltei. - Muito obrigado, senhor, por me lembrar. 

 

- Percy... 

 

Mas eu j tinha ido. 

 

No ltimo dia de aulas, enfiei minhas roupas na mala. 

 

Os outros garotos estavam fazendo piadas, falando sobre os planos para as frias. Um deles ia fazer trilha 
na Sua. Outro faria um cruzeiro de um ms pelo Caribe. Eram delinqentes juvenis como eu, mas 
delinqentes juvenis ricos. Os papais eram executivos, embaixadores ou celebridades. Eu era um joo-
ningum, de uma famlia de joes-ningum. 

 

Eles me perguntaram o que ia fazer no vero, e eu disse que voltaria para a cidade. 

 

O que no lhes contei foi que ia arranjar um trabalho de vero passeando com cachorros ou vendendo 
assinaturas de revistas, e passar o tempo livre pensando em onde iria estudar no outono. 

 

- Ah - disse um dos garotos. - Legal. 

 

Eles voltaram  conversa como se eu no existisse. 

 

A nica pessoa de quem tinha medo de me despedir era Grover, mas do jeito como as coisas 
aconteceram, eu nem precisei. Ele havia comprado uma passagem para Manhattan no mesmo onibus 
Greyhound que eu, ento l estvamos ns, juntos outra vez, indo para a cidade. 

 

Durante toda a viagem de nibus, Grover olhava nervoso para o corredor, observando os outros 
passageiros. Ocorreu-me que ele sempre agia de modo nervoso e inquieto quando saamos de Yancy, 
como se esperasse que algo ruim fosse acontecer. Antes, eu achava que ele tinha medo de que o 
provocassem. Mas no havia ningum para fazer isso no Greyhound. 

 

Finalmente, no pude mais agentar. 

 

- Procurando Benevolentes? 

 

Grover quase pulou do assento. 

 

- O que... o que voc quer dizer? 

 

Confessei ter ouvido a conversa dele com o sr. Brunner na noite anterior ao dia da prova. 

 

O olho de Grover estremeceu. 

 

- Quanto voc ouviu? 

 

#
- Ah... no muito. O que  o prazo final do solstcio de vero? 

 

Ele se esquivou. 

 

- Olhe Percy... Eu s estava preocupado com voc, entende? Quer dizer, tendo alucinaes com 
professoras de matemtica demonacas... 

 

- Grover... 

 

- E eu estava dizendo ao sr. Brunner que talvez voc estivesse muito estressado, ou coisa assim, porque 
no havia uma pessoa chamada sra. Dodds e... 

 

- Grover, voc mente muito mal mesmo. 

 

As orelhas dele ficaram cor-de-rosa. 

 

Do bolso da camisa, ele pescou um carto de visitas encardido. 

 

- Pegue isto, certo? Para o caso de voc precisar de mim este vero. 

 

O carto tinha uma escrita floreada, que era um terror para os meus olhos dislxicos, mas por fim 
consegui identificar coisa como: 

 

Grover Underwood 

Guardio 

Colina meio Sangue 

Long Island, Nova York 

(800) 009 -0009 

 

- O que  Colina Meio... 

 

- No fale alto!  ganiu.   meu, ah... endereo de vero. 

 

Meu corao desabou. Grover tinha uma casa de veraneio. Eu nunca imaginara que a famlia dele poderia 
ser to rica quanto as dos outros em Yancy. 

 

- Certo - falei, mal-humorado. - T, se eu quiser uma visita  sua manso. 

 

Ele assentiu. 

 

- Ou... ou se voc precisar de mim. 

 

- Por que iria precisar de voc? 

 

Saiu mais rude do que eu pretendia. 

 

Grover ficou com a cara toda vermelha. 

 

- Olhe, Percy, a verdade  que eu... eu tenho, de certo modo, que proteger voc. 

 

Olhei fixamente para ele. 

 

Durante o ano inteiro me meti em brigas para manter os valentes longe dele. Perdi o sono temendo que, 
sem mim, ele fosse apanhar no ano que vem. E ali estava Grover agindo como se fosse ele a me 
defender. 

 

- Grover  disse eu -, do que exatamente voc est me protegendo? 

 

#
Houve um tremendo barulho de algo sendo triturado embaixo dos nossos ps. Uma fumaa preta saiu do 
painel e o nibus inteiro foi tomado por um cheiro de ovo podre. O motorista praguejou e levou o 
Greyhound com dificuldade at o acostamento. 

 

Depois de alguns minutos fazendo alguns sons metlicos no compartimento do motor, o motorista 
anunciou que teramos de descer. Grover e eu samos em fila com todos os outros. 

 

Estvamos em um trecho de estrada rural - um lugar que a gente nem notaria se no tivesse enguiado l. 
Do nosso lado da estrada no havia nada alm de bordos e lixo jogado pelos carros que passavam. Do 
outro lado, depois de atravessar quatro pistas de asfalto que refletiam uma claridade trmula com o calor 
da tarde, havia uma banca de frutas como as de antigamente. 

 

As coisas  venda pareciam realmente boas: caixas transbordando de cerejas e mas vermelhas como 
sangue, nozes e damascos, jarros de sidra dentro de uma tina com ps em forma de patas, cheias de 
gelo. No havia fregueses, s trs velhas senhoras sentadas em cadeiras de balano  sombra de um 
bordo, tricotando o maior par de meias que eu j tinha visto. 

 

Quer dizer, aquelas meias eram do tamanho de suteres, mas eram obviamente meias. A senhora da 
direita tricotava uma delas. A da esquerda a outra. A do meio segurava uma enorme cesta de l azul 
brilhante. 

 

As trs mulheres pareciam muito velhas, com o rosto plido e enrugado como fruta seca, cabelo prateado 
preso atrs com leno branco, braos ossudos espetados para fora de vestidos de algodo plido. 

 

A coisa mais esquisita era que elas pareciam olhar diretamente para mim. 

 

Encarei Grover para comentar isso e vi que seu rosto tinha ficado branco. O nariz tremia. 

 

- Grover? - disse eu. - Ei, cara... 

 

- Diga que elas no esto olhando para voc. Esto, no ? 

 

- Esto. Esquisito, no? Voc acha que aquelas meias serviriam em mim? 

 

- No tem graa, Percy. No tem graa nenhuma. 

 

A velha do meio pegou uma tesoura imensa - dourada e prateada, de lminas longas, como uma 
tosquiadeira. Ouvi Grover tomar flego. 

 

- Vamos entrar no nibus - ele me disse. - Venha. 

 

- O qu? - disse eu. - L dentro est fazendo quinhentos graus. 

 

- Venha! - Ele forou a porta e subiu, mas eu fiquei embaixo. 

 

Do outro lado da estrada, as velhas ainda olhavam para mim. A do meio cortou o fio de l, e posso jurar 
que ouvi aquele rudo cruzar as quatro pistas de trnsito. As duas amigas dela enrolaram as meias azuis e 
me fizeram imaginar para quem seria aquilo - o P Grande ou o Godzilla. 

 

Na traseira do nibus, o motorista arrancou um grande pedao de metal fumegante do compartimento do 
motor. O nibus estremeceu e o motor voltou  vida, roncando. 

 

Os passageiros aplaudiram. 

 

- Tudo em ordem! - gritou o motorista. Ele bateu no nibus com o chapu. - Todo mundo para dentro! 

 

Quando j estvamos a caminho, comecei a me sentir como se tivesse pego uma gripe. 

 

Grover no parecia muito melhor. Estava tremendo e batendo os dentes. 

 

#
- Grover? 

 

- Sim? 

 

- O que me diz? 

 

Ele enxugou a manga da camisa. 

 

- Percy, o que voc viu l atrs, na banca de frutas? 

 

- Voc quer dizer, aquelas velhas? O que h com elas, cara? Elas no so com... a sra. Dodds, so? 

 

A expresso dele era difcil de interpretar, mas tive a sensao de que as velhas da banca de frutas eram 
algo muito, muito pior do que a sra. Dodds. Grover disse: 

 

-S me diga o que voc viu. 

 

- A do meio pegou uma tesoura e cortou o fio. 

 

Ele fechou os olhos e fez um gesto com os dedos parecido com o sinal-da-cruz, mas no era isso. Era 
outra coisa, algo um tanto... mais antigo. 

 

Ele disse: 

 

- Voc a viu cortar o fio? 

 

-Sim. E da? - Mas mesmo enquanto dizia isso, j sabia que era algo importante. 

 

- Isso no est acontecendo - murmurou Grover. Ele comeou a morder o dedo. - No quero que seja 
como na ltima vez. 

 

- Que ltima vez? 

 

- Sempre na sexta srie. Eles nunca passam da sexta. 

 

- Grover - disse eu, porque ele estava realmente comeando a me assustar -, do que voc est falando? 

 

- Deixe que eu v com voc da estao do nibus at sua casa. Prometa. 

 

Aquele me pareceu um pedido estranho, mas prometi. 

 

-  uma superstio ou coisa assim?  perguntei. 

 

Nenhuma resposta. 

 

- Grover... aquele corte no fio. Significa que algum vai morrer? 

 

Ele olhou para mim com tristeza, como se j estivesse escolhendo o tipo de flores que eu gostaria de ter 
em meu caixo. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
TRS  Grover de repente perde as calas. 

 

 

Hora da confisso: descartei Grover assim que chegamos ao terminal rodovirio. 

 

Eu sei, eu sei. Foi rude. Mas Grover estava me deixando fora de mim, me olhando como se eu fosse um 
homem morto, murmurando: .por que sempre tem de ser na sexta srie?. 

 

Sempre que Grover ficava nervoso, sua bexiga entrava em ao, portanto no fiquei surpreso quando, 
assim que descemos do nibus, ele me fez prometer que o esperaria e foi direto para o banheiro. Em vez 
de esperar, peguei minha mala, sa discretamente e tomei o primeiro taxi saindo do Centro. 

 

- Cento e quatro Leste com a Primeira Avenida  disse ao motorista. 

 

***** 

 

Uma palavra sobre a minha me, antes que voc a conhea. 

 

Seu nome  Sally Jackson e ela  a melhor pessoa do mundo, o que apenas prova minha teoria de que as 
melhores pessoas so as mais azaradas. Os pais dela morreram em um desastre de avio quando estava 
com cinco anos, e ela foi criada por um tio que no lhe dava muita bola. Queria ser escritora, assim 
passou o curso de ensino mdio trabalhando e economizando dinheiro para pagar uma faculdade com um 
bom programa de oficinas literrias. Ento o tio teve cncer e ela precisou abandonar a escola no ltimo 
ano para cuidar dele. Depois que ele morreu, ela ficou sem dinheiro nenhum, sem famlia e sem diploma. 

 

A nica coisa boa que lhe aconteceu foi conhecer meu pai. 

 

No tenho nenhuma lembrana dele, apenas essa espcie de sensao calorosa, talvez o mais leve 
resqucio de seu sorriso. Minha me no gosta de falar sobre ele porque isso a deixa triste. Ela no tem 
fotografias. 

 

Veja bem, eles no eram casados. Ela me contou que ele era rico e influente, e o relacionamento deles 
era um segredo. Ento um dia ele zarpou pelo Atlntico em alguma jornada e nunca mais voltou. 

 

Perdido no mar, minha me me contou. No morto. Perdido no mar. 

 

Ela vivia de trabalhos espordicos, estudava  noite para tirar o diploma de ensino mdio e me criou 
sozinha. Nunca se queixava ou ficava zangada. Nem uma s vez. Mas eu sabia que no era uma criana 
fcil. 

 

Acabou se casando com Gabe Ugliano, que foi simptico nos primeiros trinta segundos em que o 
conhecemos e depois mostrou quem realmente era, um imbecil de marca maior. Quando eu era pequeno 
apelidei-o de Gabe Cheiroso. Sinto muito, mas  a verdade. O cara fedia a pizza de alho embolorada 
enrolada num calo de ginstica. 

 

Em nosso fogo cruzado, tornvamos a vida da minha me bem difcil. O modo como Gabe Cheiroso a 
tratava, o jeito como ele e eu nos relacionvamos... bem, um bom exemplo  minha chegada em casa. 

 

Entrei em nosso pequeno apartamento, esperando que minha me j tivesse voltado do trabalho. Em vez 
disso, Gabe Cheiroso estava na sala de estar, jogando pquer com seus cupinchas. Na televiso, o canal 
de esportes estava no voluma mximo. Havia batatinhas e latas de cerveja espalhadas pelo tapete. 

 

Mal erguendo os olhos, ele disse com o cigarro na boca: 

 

- Ento voc est em casa. 

 

- Onde est a minha me? 

 

- Trabalhando  disse ele.  Voc tem alguma grana? 

 

#
E foi isso. Nada de Bem-vindo ao lar. Bom ver voc. O que fez nos ltimos seis meses? 

 

Gabe tinha engordado. Parecia uma morsa sem tromba com roupas de brech. Tinha uns trs fios de 
cabelo na cabea, todos penteados por cima da careca, como se isso o deixasse bonito ou coisa assim. 

 

Era gerente do Hipermercado de Eletrnica, no Queens, mas passava a maior parte do tempo em casa. 
No sei por que ainda no tinha sido demitido. Ele s fica recebendo o pagamento, gastando o dinheiro 
em charutos que me do nuseas e em cervejas,  claro. Sempre cerveja. Toda vez que eu estava em 
casa ele esperava que eu lhe fornecesse fundos para jogar. Chamava isso de nosso .Segredo de 
Homem.. Isto , se eu contasse para minha me, ele me quebrava a cara. 

 

- No tenho grana nenhuma  falei. 

 

Ele ergue uma sobrancelha oleosa. 

 

Gabe era capaz de farejar dinheiro como um co de caa, o que era surpreendente, j que seu prrpio 
cheiro deveria encobrir qualquer outro. 

 

- Voc pegou um taxi no terminal de nibus  disse ele.  Provavelmente pagou com uma nota de vinte. 
Recebeu seis ou sete dlares de troco. Algum que espera viver embaixo deste teto deveria ser capaz de 
se sustentar. Estou certo, Eddie? 

 

Eddie, o sndico do prdio, olhou para mim com uma ponta de solidariedade. 

 

- Vamos, Gabe  disse ele.  O garoto acabou de chegar. 

 

- Estou certo?  repetiu Gabe. 

 

Eddie fez uma careta para sua tigela de pretzels. Os outros dois caras soltaram juntos seus gases. 

 

- Tudo bem  disse eu.  Tirei um mao de dlares do bolso e joguei o dinheiro em cima da mesa.  
Tomara que voc perca. 

 

- Seu boletim chegou, Geninho!  gritou ele s minhas costas.  Eu no ficaria to metido! 

 

Bati a porta do meu quarto, que na verdade no era meu. Durante os meses de aulas era a .sala de 
estudos. de Gabe. Ele no .estudava. coisa nenhuma l, exceto revistas de automveis, mas adorava 
socar as minhas coisas no armrio, largar as botas enlameadas no peitoril da janela e fazer o possvel 
para deixar o lugar com cheiro de sua colnia detestvel, charutos e cerveja choca. 

 

Larguei a mala em cima da cama. Lar doce lar. 

 

O cheiro de Gabe era quase pior que os pesadelos com a sra. Dodds ou o som da tesoura daquela velha 
enrugada cortando o fio de l. 

 

Mas assim que pensei naquilo, minhas pernas bambearam. Lembrei-me da expresso de pnico de 
Grover  como ele me fez prometer que no iria para casa sem ele. Um calafrio repentino me percorreu. 
Era como se algum  alguma coisa  estivesse procurando por mim naquele momento, talvez subindo 
pesadamente a escada, com garras compridas e horrendas crescendo. 

 

Ento ouvi a voz da minha me. 

 

- Percy? 

 

Ela abriu a porta do quarto e meus medos se foram. 

 

A simples entrada de minha me no quarto j consegue me fazer sentir bem. Seus olhos brilham e mudam 
de cor com luz. O sorriso  quente como uma manta. Ela tem alguns poucos fios grisalhos misturados com 
os longos cabelos castanhos, mas nunca penso nela como uma pessoa velha. Quando me olha,  como 

#
se estivesse vendo todas as coisas boas em mim, nenhuma das ruins. Nunca a ouvi levantar a voz ou 
dizer uma palavra indelicada para ningum, nem mesmo para mim ou Gabe. 

 

- Ah, Percy. - Ela me abraou apertado. - Eu no acredito. Voc cresceu desde o Natal! 

 

O uniforme vermelho, branco e azul, da Doce Amrica, tinha cheiro das melhores coisas do mundo: 
chocolate, alcauz e tudo o mais que ela vendia na doceria da Grande Estao Central. Tinha levado para 
mim um belo saco de .amostras grtis., como sempre fazia quando eu ia para casa. 

 

Sentamos juntos na beirada da cama. Enquanto eu atacava os doces de mirtilo, ela passava a mo no 
meu cabelo e queria saber tudo o que eu no havia escrito nas cartas. Nada mencionou sobre o fato de eu 
ter sido expulso. No parecia se importar com isso. Mas eu estava ok? Seu menininho estava bem? 

 

Eu disse a ela que estava me sufocando, pedi que desse um tempo e tal, mas, secretamente, estava feliz 
demais em v-la. 

 

Do outro cmodo, Gabe berrou: 

 

- Ei, Sally! Que tal um pouco de pasta de feijo, hein? 

 

Eu rangi os dentes. 

 

Minha me  a mulher mais gentil do mundo. Deveria ter se casado com um milionrio, no com um 
imbecil como Gabe. 

 

Por ela, tentei parecer otimista em relao aos meus ltimos dias na Academia Yancy. Disse-lhe que no 
estava muito chateado com a expulso. Dessa vez, conseguira durar quase o ano inteiro. 

 

Eu havia feito novos amigos. Tinha me sado muito bem em latim. E, honestamente, as brigas no tinham 
sido to ruins com disera o diretor. Eu tinha gostado da Academia Yancy. De verdade. Enfeitei tanto os 
acontecimentos do ano que quase convenci a mim mesmo. Comecei a ficar com a voz embargada s de 
pensar em Grover e no sr. Brunner. At Nancy Bobofit de repente no pareceu assim to m. 

 

At aquela excurso ao museu... 

 

- O qu? - perguntou minha me. Seus olhos puxaram pela minha conscincia, tentando arrancar os 
segredos. - Alguma coisa assustou voc? 

 

- No, mame. 

 

Eu me senti mal por mentir, queria contar a ela sobre a sra. Dodds e as trs velhas com o fio de l, mas 
achei que aqui ia parecer bobagem. 

 

Ela apertou os lbios. Sabia que eu estava escondendo alguma coisa, mas no quis me pressionar. 

 

- Tenho uma surpresa para voc - disse ela. - Ns vamos  praia. 

 

Meus olhos se arregalaram. 

 

- Montauk? 

 

- Trs noites... no mesmo chal. 

 

- Quando? Ela sorriu. 

 

- Assim que eu me trocar. 

 

Mal pude acreditar. Minha me e eu no tnhamos ido a Montauk nos ltimos dois veres porque Gabe 
dissera que no havia dinheiro suficiente. 

 

#
Gabe apareceu no vo da porta e rosnou. 

 

- Pasta de feijo, Sally. Voc no ouviu? 

 

Tive vontade de dar-lhe um soco, mas meus olhos encontraram os de minha me e entendi que ela estava 
me oferecendo um acordo: ser gentil com Gabe s um pouquinho. S at ela estar pronta para ir para 
Montauk. Ento sairamos dali. 

 

- Eu j estava a caminho, meu bem  disse ela a Gabe.  Estvamos s conversando sobre a viagem. 

 

Os olhos de Gabe se apertaram. 

 

- A viagem? Voc quer dizer que estava falando disso a srio? 

 

- Eu sabia - murmurei. - Ele no vai nos deixar ir. 

 

-  claro que vai - disse minha me calmamente. - Seu padrasto s est preocupado com o dinheiro.  
tudo. Alm disso - acrescentou -, Gabriel no ter de se contentar com pasta de feijo. Vou fazer para ele 
uma pasta de sete camadas suficiente para todo o fim de semana. Guacamole. Creme azedo. Servio 
completo. 

 

Gabe amanciou um pouco. 

 

- Ento esse dinheiro para viagem... vai sair do seu oramento para roupas, certo? 

 

- Sim, meu bem - disse minha mo. 

 

- E voc no vai com meu carro para nenhum lugar, s vai usar na ida e na volta. 

 

- Seremos muito cuidadosos. 

 

Gabe coou seu queixo duplo. 

 

- Talvez se voc andar logo com essa pasta de sete camadas... E talvez se o garoto pedir desculpas por 
interromper meu jogo de pquer... 

 

Talvez se eu chutar voc no seu ponto sensvel, pensei. E fizer voc cantar com voz de soprano por uma 
semana. 

 

Mas os olhos da minha me me advertiram para no deix-lo zangado. 

 

Por que ela aturava aquele cara? Eu quis gritar. Por que ela se importava com o que ele pensava? 

 

- Desculpe - murmurei. - Sinto muito ter interrompido seu importantssimo jogo de pquer. Por favor, volte 
a ele agora mesmo. 

 

Os olhos de Gabe se estreitaram. O crebro minsculo provavelmente estava tentando detectar o 
sarcasmo na minha frase. 

 

- Est bem, seja l o que for - convenceu-se. 

 

E voltou para o jogo. 

 

- Obrigada, Percy - disse minha me. - Depois que chegarmos a Montauk, vamos conversar sobre.. o que 
quer que voc tenha se esquecido de me contar, certo? 

 

Por um momento, pensei ter visto ansiedade nos olhos dela - o mesmo medo que vira em Grover na 
viagem de nibus -, como se minha me tambm tivesse sentindo um estranho calafrio no ar. 

 

Mas ento o sorriso dela voltou e conclu que devia estar enganado. Ela despenteou meu cabelo e foi 

#
fazer a pasta de sete camadas para Gabe. 

 

***** 

 

Uma hora depois estvamos prontos para partir. 

 

Gabe interrompeu o jogo de pquer por tempo suficiente para me observar arrastando as malas da minha 
me para o carro. Ficou se queixando e se lamentando por ficar sem a comida dela - e mais importante, 
sem seu Camaro 78 - durante todo o fim de semana. 

 

- Nem um arranho nesse carro, Geninho - advertiu-me quando eu estava carregando a ltima mala. - 
nem um arranhozinho. 

 

Como se eu fosse dirigir aos doze anos. Mas isso no importa para Gabe. Se alguma gaivota fizesse coc 
na pintura, ele arranjaria um jeito de me culpar. 

 

Observando-o voltar em seu passo desajeitado para o prdio, fiquei to zangado que fiz uma coisa que 
no consigo explicar. Quando Gabe chegou  porta de entrada, fiz um gesto com a mo que tinha visto 
Grover fazer no nibus, uma espcie de gesto para afastar o mal, a mo em garra sobre o corao e 
depois um movimento de empurrar na direo de Gabe. A porta de tela bateu to forte que o acertou no 
traseiro e o mandou voando at a escada, como se tivesse sido disparado por um canho. Talvez tenha 
sido apenas o vento, ou algum acidente maluco com as dobradias, mas no fiquei l tempo suficiente 
para descobrir. 

 

Entrei no Camaro e disse para minha me pisar fundo. 

 

***** 

 

Nosso chal alugado ficava na margem sul, l na ponta de Long Island. Era uma pequena cabana de cor 
clara com cortinas desbotadas, quase enterrada nas dunas. Havia sempre areia nos lenis e aranhas nos 
armrios, e na maior parte do tempo o mar estava gelado demais para nadar. 

 

Eu adorava o lugar. 

 

amos l desde que eu era beb. Minha me ia ainda havia mais tempo. Ela nunca disse exatamente, 
mas eu sabia por que a praia era especial. Era o lugar onde conhecera meu pai. 

 

 medida que nos aproximvamos de Montauk, ela parecia ir ficando mais jovem, os anos de 
preocupao e trabalho desaparecendo do rosto. Os olhos ficavam da cor do mar. 

 

Chegamos l ao pr-do-sol, abrimos todas as janelas do chal e passamos por nossa rotina de limpeza. 
Caminhamos pela praia, demos salgadinhos de milho s gaivotas e mascamos jujubas azuis, caramelos 
azuis e todas as outras amostras grtis que minha me levara do trabalho. 

 

Acho que eu deveria explicar a comida azul. 

 

Veja bem, Gabe uma vez disse  minha me que isso no existia. Eles tiveram uma discusso, que 
pareceu uma coisinha de nada na poca. Mas, desde ento, minha me fez tudo o que era possvel comer 
em azul. Ela assava bolos de aniversrios azuis. Batia vitaminas com mirtilos azuis. Comprava tortilhas de 
milho azul e levava para casa balas azuis da loja. Isso - junto com o fato de conservar o nome de solteira, 
Jackson, em vez de se chamar sra. Ugliano - era prova de que ela no tinha sido totalmente domada por 
Gabe. Tinha uma inclinao para rebeldia, como eu. 

 

Quando escureceu, acendemos uma fogueira. Assamos o cachorro-quente e marshmallows. Minha me 
contou histrias sobre quando ela era criana, antes de os pais morrerem no acidente de avio. Contou-
me sobre os livros que queria escrever um dia, quando tivesse dinheiro suficiente para largar a doceria. 

 

Finalmente, reuni coragem para perguntar sobre o que sempre me vinha  cabea quando amos a 
Montauk  meu pai. Os olhos dela ficaram cheios dgua. Imaginei que iria me contar as mesmas coisas 
de sempre, mas nunca me cansava de ouvi-las. 

#
 

- Ele era gentil, Percy  disse ela.  Alto, bonito e forte. Mas gentil tambm. Voc tem o cabelo dele, voc 
sabe, e os olhos verdes. 

 

Mame pegou uma jujuba azul do saco de doces. 

 

- Gostaria que ele pudesse v-lo, Percy. Ficaria muito orgulhoso. 

 

Eu me perguntei como ela podia dizer aquilo. O que havia de to bom a meu respeito? Um menino 
dislxico, hiperativo, com um boletim D+, expulso da escola pela sexta vez em seis anos. 

 

- Que idade eu tinha? - perguntei. - Quer dizer... quando ele se foi? 

 

Ela olhou para as chamas. 

 

- Ele s ficou comigo por um vero, Percy. Bem aqui nesta praia. Neste chal. 

 

- Mas... ele me conheceu quando eu era beb. 

 

- No, meu bem. Ele sabia que eu estava esperando um beb, mas nunca o viu. Teve de partir antes de 
voc nascer. 

 

Tentei conciliar o fato de que eu parecia me lembrar de... alguma coisa sobre meu pai. Uma sensao 
calorosa. Um sorriso. 

 

Sempre presumira que ele havia me visto quando beb. Minha me nunca dissera exatamente isso, mas 
ainda assim eu achava que tinha acontecido. Saber agora que ele nunca me viu... 

 

Fiquei com raiva do meu pai. Talvez fosse uma bobagem, mas eu me ressenti por ele ter partido naquela 
viagem ocenica, por no ter tido coragem para se casar com minha me. Ela nos deixara e agora 
estvamos presos ao gabe Cheiroso. 

 

- Voc vai me mandar embora de novo? - perguntei a ela. - para outro internato? 

 

Ela puxou um marshmallow do fogo. 

 

- Eu no sei, meu bem. - Sua voz soou muito sria. - Acho... acho que teremos de fazer alguma coisa. 

 

- Por qu voc no me quer me ver por perto? - Eu me arrependi das palavras assim que elas saram. 

 

Os olhos de minha me ficaram marejados. Ela pegou minha mo e apertou com fora. 

 

- Ah, Percy, no. Eu... eu preciso, meu bem. Para seu prprio bem. Eu tenho de mandar voc para longe. 

 

Suas palavras me lembraram o que o sr. Brunner tinha dito - que era melhor para mim deixar Yancy. 

 

- Porque eu no sou normal? - disse eu. 

 

- Voc diz isso como se fosse uma coisa ruim, Percy. Mas no se d conta do quanto voc  importante. 
Pensei que Yancy seria bastante longe. Pensei que voc finalmente estaria em segurana. 

 

- Em segurana por qu? 

 

Os olhos dela encontraram os meus, e me veio uma enxurrada de lembranas - todas esquisitas, 
assustadoras que sempre aconteciam, algumas que eu tentara esquecer. 

 

Na terceira srie, um homem de capa de chuva preta me seguiu no recreio. Quando os professores 
ameaaram chamar a polcia, ele foi embora resmungando, mas ningum acreditou em mim quando contei 
que, embaixo do chapu de aba larga, o homem tinha um olho s, bem no meio da testa. 

 

#
Antes disso - uma lembrana realmente antiga. Eu estava na pr-escola, e uma professora acidentalmente 
me ps para dormir em um bero para dentro do qual uma cobra se arrastara. Minha me gritou quando 
foi me buscar e me encontrou brincando com uma cobra flcida cheia de escamas, que eu de algum modo 
conseguira estrangular at a morte com as minhas mos gordinhas de beb. 

 

Em cada uma das escolas, algo de horripilante acontecera, algo perigoso, e fui forado a sair. 

 

Eu sabia que devia contar  minha me sobre as velhas na banca de frutas e a sra. Dodds no museu de 
arte, sobre a estranha alucinao em que eu havia transformado a professora de matemtica em p com 
uma espada. Mas no consegui me forar a contar. Tinha a sensao esquisita de que a notcia iria 
acabar com nossa viagem a Montauk, e isso eu no queria. 

 

- Tentei manter voc to perto de mim quanto pude - falou minha me. - Eles me disseram que isso era 
um erro. Mas s havia uma outra opo, Percy... o lugar para onde seu pai queria mand-lo. E eu 
simplesmente... simplesmente no poderia agentar ter de fazer isso. 

 

- Meu pai queria que eu fosse para uma escola especial? 

 

- No uma escola - disse ela suavemente. - Um acampamento de vero. 

 

Minha cabea estava girando. Por que meu pai - que nem sequer ficara por perto tempo suficiente para 
me ver nascer - teria falado com minha me sobre um acampamento de vero? E, se isso era to 
importante, por que ela nunca mencionara antes? 

 

- Desculpe, Percy - continuou ela ao ver a expresso em meus olhos. - mas no posso falar sobre isso. 
Eu... eu no podia mandar voc para aquele lugar. Significaria dizer adeus a voc para sempre. 

 

- Para sempre? Mas se  apenas um acampamento de vero... 

 

Ela se voltou para o fogo, e eu percebi pela sua expresso que, se fizesse mais perguntas, ela comearia 
a chorar. 

 

***** 

 

Naquela noite eu tive um sonho muito real. 

 

Havia uma tempestade na praia, e dois belos animais, um cavalo branco e uma guia dourada, estavam 
tentando matar uma ao outro  beira-mar. A guia mergulhou e fez um talho no focinho do cavalo com 
suas garras enormes. O cavalo empinou e escoiceou as asas da guia. Enquanto eles lutavam, o cho 
retumbou e uma voz monstruosa riu em algum lugar embaixo da terra, incitando os animais a lutarem 
arduamente. 

 

Corri at eles, sabendo que tinha de impedir que se matassem, mas eu corria em cmera lenta. Sabia que 
iria chegar tarde demais. Vi a guia mergulhar, o bico apontado para os grandes olhos do cavalo, e gritei: 
No! 

 

Acordei assustado. 

 

Do lado de fora, havia realmente uma tempestade, o tipo de tempestade que racha rvores e derruba 
casas. No havia nenhum cavalo nem guia na praia, somente relmpagos que criavam uma falsa luz do 
dia e ondas de seis metros golpeando as dunas como artilharia. 

 

Com o trovo seguinte, minha me acordou. Ela sentou na cama, os olhos arregalados, e disse: 

 

- Furaco. 

 

Eu sabia que aquilo era loucura. Nunca houve furaces em Long Island to cedo no vero. Mas o oceano 
parecia ter esquecido isso. Por cima dos rugidos do vento, ouvi um bramido distante, um som furioso, 
torturado, que fez meus cabelos se arrepiarem. 

 

#
Depois um rudo muito mais prximo, como de malhos na areia. Uma voz desesperada - algum gritando, 
esmurrando a porta do nosso chal. 

 

Minha me pulou da cama de camisola e abriu a porta de um safano. 

 

Grover estava l, emoldurado no vo da porta contra um fundo de chuva torrencial. Mas ele no era... ele 
no era exatamente o Grover. 

 

- Procurei a noite toda - arquejou ele. - O que voc estava pensando? 

 

Minha me olhou para mim aterrorizada - no com medo de Grover, mas da razo de sua chegada. 

 

- Percy - disse ela, gritando para se fazer ouvir mais alto que a chuva. - O que aconteceu na escola? O 
que voc no me contou? 

 

Fiquei paralisado olhando para Grover. No conseguia entender o que estava vendo. 

 

- O Zeu kai alloi theoi! - gritou ele. - Est bem atrs de mim! Voc no contou a ela? 

 

Eu estava chocado demais para registrar que ele acabara de praguejar em grego antigo, e eu tinha 
entendido perfeitamente. Estava chocado demais para me perguntar como Grover chegara ali sozinho no 
meio da noite. Porque Grover no estava usando calas - e onde deveriam estar as pernas dele... Onde 
deveriam estar as pernas dele... 

 

Minha me olhou para mim com expresso severa e falou em um tom que jamais usara antes: 

 

- Percy. Conte-me agora! 

 

Eu gaguejei algo sobre velhas senhoras na banca de frutas e a sra. Dodds, e minha me ficou olhando 
para mim, o rosto mortalmente plido aos clares dos relmpagos. 

 

- Vo para o carro. Vocs dois. Vo! 

 

Grover correu para o Camaro - mas ele no estava exatamente correndo. Estava trotando, sacudindo seu 
traseiro peludo, e de repente sua histria sobre um distrbio muscular nas pernas fez sentido para mim. 
Entendi como ele podia correr to depressa e ainda assim mancar quando andava. 

 

Porque onde deveriam estar seus ps no havia ps. Havia cascos fendidos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
QUATRO  Minha me me ensina a tourear. 

 

Arrancamos noite adentro por estradas rurais escuras. O vento golpeava o Camaro. A chuva aoitava o 
pra-brisa. Eu no sabia como minha me conseguia ver alguma coisa, mas ela mantinha o p no 
acelerador. 

 

Toda vez que um relmpago produzia um claro, eu olhava para Grover sentado ao meu lado no banco de 
trs e me perguntava se tinha ficado louco ou se ele estava usando algum tipo de cala felpuda. Mas no, 
o cheiro era o mesmo que eu lembrava das excurses do jardim-de-infncia para o zoolgico infantil  
lanolina, como o de l. O cheiro de um animal molhado de estbulo. 

 

Tudo o que pude dizer foi: 

 

- Ento, voc e minha me... se conhecem? 

 

Os olhos de Grover moveram-se rapidamente para o espelho retrovisor, embora no houvesse carro 
nenhum atrs de ns. 

 

- No exatamente  disse El.  Quer dizer, nunca nos encontramos pessoalmente. Mas ela sabia que eu 
estava observando voc. 

 

- Observando, a mim? 

 

- Estava de olho em voc. Cuidando que estivesse bem. Mas eu no estava fingindo ser seu amigo  
acrescentou apressadamente.  Eu sou seu amigo. 

 

- Ahn... o que  voc, exatamente? 

 

- Isso no importa neste momento. 

 

- No importa? Da cintura para baixo, o meu melhor amigo  um burro... 

 

Grover soltou um agudo e gutural: 

 

- B! 

 

Eu j o tinha ouvido fazer aquele som antes, mas sempre achei que era um riso nervoso. Agora me dava 
conta de que era mais um berro irritado. 

 

- Bode! - exclamou. 

 

- O qu? 

 

- Eu sou um bode da cintura para baixo. 

 

- Voc acaba de dizer que isso no importa. 

 

- B! Alguns stiros poderiam pisote-lo por causa de tamanho insulto! 

 

- Opa. Espere. Stiros. Voc quer dizer como... os mitos do sr. Brunner? 

 

- Aquelas velhas na banca de frutas eram um mito, Percy? A sra. Dodds era um mito? 

 

- Ento voc admite que havia uma sra. Dodds! 

 

-  claro. 

 

- Ento por que... 

 

#
- Quanto menos voc soubesse, menos monstros atrairia - disse Grover, como se aquilo fosse 
perfeitamente bvio. - Ns pusemos a Nvoa diante dos olhos humanos. Tnhamos esperanas de que 
voc achasse que a Benevolente era uma alucinao. Mas no adiantou. Voc comeou a perceber quem 
voc . 

 

- Quem eu... espere um minuto, o que voc quer dizer? 

 

O estranho rugido ergueu-se novamente em algum lugar atrs de ns, mais perto do que antes. O que 
quer que estivesse nos perseguindo ainda estava na nossa cola. 

 

- Percy - disse minha me -, h muito a explicar e no temos tempo suficiente. Precisamos pr voc em 
segurana. 

 

- Em segurana como? Quem est atrs de mim? 

 

- Ah, nada demais - disse Grover, obviamente ainda ofendido com o comentrio sobre o burro. - Apenas o 
Senhor dos Mortos e alguns dos seus asseclas mais sedentos de sangue. 

 

- Grover! 

 

- Desculpe sra. Jackson. Poderia dirigir mais depressa, por favor? 

 

Tentei envolver minha mente no que estava acontecendo, mas no consegui. Sabia que aquilo no era um 
sonho. Eu no tinha imaginao. Jamais poderia sonhar algo to estranho. 

 

Minha me fez uma curva fechada para a esquerda. Desviamos para uma estrada mais estreita, passando 
com velocidade por casas de fazendas s escuras, colinas cobertas de rvores e placas que diziam 
.COLHA SEUS PRPRIOS MORANGOS. sobre cercas brancas. 

 

- Aonde estamos indo? - perguntei. 

 

- Para o acampamento de vero de que falei. - A voz de minha me estava tensa; por mim, ela estava 
tentando no parecer assustada. - O lugar para onde seu pai queria mand-lo. 

 

- O lugar para onde voc no queria que eu fosse. 

 

- Por favor, querido - implorou ela. - Isso j  bem difcil. Tente entender. Voc est em perigo. 

 

- Porque umas velhas senhoras cortaram um fio de l. 

 

- Aquilo no eram velhas senhoras - disse Grover. - Eram as Parcas. Voc sabe o que significa... o fato de 
elas aparecerem na sua frente? Elas s fazem isso quando voc est prestes a... quando algum est 
prestes a morrer. 

 

- Epa! Voc disse .voc.. 

 

- No, eu no disse. Eu disse, .algum.. 

 

- Voc quis dizer .voc.. Ou seja, eu. 

 

- Eu quis dizer voc como quem diz .algum.. No voc, Percy, mas voc, qualquer um. 

 

- Meninos! - disse minha me. 

 

Ela puxou o volante com fora para a direita e eu tive um vislumbre de um vulto do qual ela se desviara - 
uma forma escura e ondulada, agora perdida na tempestade atrs de ns. 

 

- O que foi aquilo? - perguntei. 

 

#
- Estamos quase l - disse minha me ignorando a pergunta. - Mais um quilmetro e meio. Por favor. Por 
favor. Por favor. 

 

Eu no sabia onde era l, porm me vi inclinando-me para a frente na expectativa, querendo que 
chegssemos logo. 

 

Do lado de fora, nada alm de chuva e escurido - o tipo de campos vazios que a gente v quando vai 
para o extremo de Long Island. Pensei na sra. Dodds e no momento em que ela se transformou naquela 
coisa com dentes pontiagudos e asas de couro. Meus membros ficaram amortecidos de choque retardado. 
Ela realmente no era humana. E pretendia me matar. 

 

Ento pensei no sr. Brunner... e na espada que ele jogara para mim. Antes que eu pudesse perguntar a 
Grover sobre aquilo, os cabelos de minha nunca se arrepiaram. Houve um claro ofuscante, um Bum! De 
fazer bater o queixo, e o carro explodiu. 

 

Lembro-me de ter me sentido sem peso, como se estivesse sendo esmagado, frito e lavado com uma 
mangueira, tudo ao mesmo tempo. 

 

Descolei minha testa do encosto do assento do motorista e disse: 

 

- Ai. 

 

- Percy! - gritou minha me. 

 

- Estou bem... 

 

Tentei sair do estupor. Eu no estava morto,o carro no explodira de verdade. Tnhamos cado em uma 
vala. As portas do lado do motorista estavam enfiadas na lama. O teto se abrira como uma casca de ovo e 
a chuva se derramava para dentro. 

 

Relmpago. Era a nica explicao. Tnhamos voado pelos ares, para fora da estrada. Ao meu lado no 
assento traseiro havia uma grande massa informe e imvel. 

 

- Grover! 

 

Ele estava cado de lado, com sangue escorrendo do canto da boca. Sacudi seu quadril peludo, pensando: 
No! Mesmo que voc seja metade animal de quintal, ainda  meu melhor amigo, e no quero que morra! 

 

Ento ele gemeu: 

 

- Comida - e eu soube que havia esperana. 

 

- Percy - disse minha me -, temos de... - Ela titubeou. 

 

Olhei para trs. Num claro de relmpago, atravs do pra-brisa traseiro salpicado de lama, vi um vulto 
andando pesadamente na nossa direo no acostamento da estrada. Aquela viso fez minha pele 
formigar. Era a silhueta de um sujeito enorme, como um jogador de futebol americano. Parecia estar 
segurando uma manta por cima da cabea. A metade superior dele era volumosa e indistinta. As mos 
erguidas davam a impresso de que ele tinha chifres. 

 

Engoli em seco. 

 

- Quem ... 

 

- Percy - disse minha me, extremamente sria. - saia do carro. 

 

Ela se jogou contra a porta do lado do motorista. Estava emperrada na lama. Tentei a minha. Emperrada 
tambm. Desesperadamente, ergui os olhos para o buraco no teto. Poderia ser uma sada, mas as bordas 
estavam chiando e fumegando. 

 

#
- Saia pelo lado do passageiro! - disse minha me. - Percy, voc tem de correr. Est vendo aquela rvore 
grande? 

 

- O qu? 

 

Outro claro de relmpago e pelo buraco fumegante no teto eu vi a arvore a que ela se referia: um enorme 
pinheiro, do tamanho de uma arvore de Natal da Casa Branca, no topo da colina mais prxima. 

 

- Aquele  o limite da propriedade - disse minha me. - Passe daquela colina ver uma grande casa de 
fazenda no fundo do vale. Corra e no olhe para trs. Grite por ajuda. No pare enquanto no chegar  
porta. 

 

- Mame, voc tambm vem. 

 

O rosto dela estava plido, os olhos tristes como quando ela olhava para o oceano. 

 

- No! - gritei. - Voc vem comigo. Ajude-me a carregar o Grover. 

 

- Comida! - gemeu Grover, um pouco mais alto. 

 

O homem com a manta na cabea continuou indo em nossa direo, grunhindo e bufando. Quando ele 
chegou mais perto, percebi que no podia estar segurando uma manta acima da cabea porque as mos - 
enormes e carnudas - balanavam ao seu lado. No havia manta nenhuma. O que queria dizer que a 
massa volumosa e indistinta que era grande demais para ser sua cabea... era a sua cabea. E as pontas 
que pareciam chifres... 

 

- Ele no nos quer - disse minha me. - Ele quer voc. Alm disso, no posso ultrapassar o limite da 
propriedade. 

 

- Mas... 

 

- No temos tempo, Percy. V. Por favor. 

 

Ento fiquei zangado - zangado com a minha me, com Grover, o bode, com a coisa chifruda que se 
movia pesadamente em nossa direo, de modo lento e calculado como... como um touro. 

 

Passei por cima de Grover e empurrei a porta, que se abriu para chuva. 

 

- Ns vamos juntos. Venha, me. 

 

- Eu j disse que... 

 

- Mame! Eu no vou abandonar voc. Ajuda aqui com Grover. 

 

No esperei pela resposta dela. Eu me arrastei para fora do carro, puxando Grover comigo. Ele era 
surpreendentemente leve, mas eu no poderia t-lo carregado para muito longe se minha me no tivesse 
ido me ajudar. 

 

Juntos, pusemos os braos de Grover em nossos ombros e comeamos a subir a colina aos tropees, 
com o capim molhado na altura de cintura. 

 

Ao olhar relance para trs, tive minha primeira viso clara do monstro. Tinha, fcil, mais de dois metros, e 
os braos e pernas pareciam algo sado da capa da revista Msculos - bceps e trceps saltados e mais 
um monte de outros ceps, todos estufados como bolas de beisebol embaixo de uma pele cheia de veias. 
Ele usava roupas, a no ser cuecas - branqussimas, da marca Fruit of the Loom -, o que teria sido 
engraado no fosse o fato de a parte superior de seu corpo ser to assustadora. Plos marrons e grossos 
comearam na altura do umbigo e iam ficando mais espessos  medida que chegavam aos ombros. 

 

Seu pescoo era uma massa de msculos e plos que levavam  enorme cabea, que tinha um focinho 
to comprido quanto meu brao, narinas ranhentas com um reluzente anel de bronze, olhos pretos cruis 

#
e chifres - enormes chifres preto-e-branco com pontas que voc no conseguiria fazer nem num apontador 
eltrico. 

 

Reconheci o monstro muito bem. Tinha sido uma das primeiras historias que o sr. Brunner nos contara. 
Mas ele no podia ser real. 

 

Pisquei os olhos para desviar a chuva. 

 

- Aquele ... 

 

- O filho de Pasfae - disse minha me. - Gostaria de ter sabido antes o quanto desejaram matar voc. 

 

- Mas ele  o Mino... 

 

- No pronuncie o nome - advertiu ela. - Os nomes tm poder. 

 

O pinheiro ainda estava longe demais - pelo menos cem metros colina acima. 

 

Dei outra olhada para trs. 

 

O homem-touro se curvou por cima de nosso carro, olhando pelas janelas - ou no exatamente olhando. 
Era mais como farejar, fuar. Eu no sabia muito bem por que ele se dava a esse trabalho, j que 
estvamos a apenas quinze metros de distancia. 

 

- Comida? - gemeu Grover. 

 

- Shhh - fiz eu. - Mame, o que ele est fazendo? No est nos vendo? 

 

- Sua viso e sua audio so pssimas - disse ela. - Ele se orienta pelo cheiro. Mas vai perceber onde 
estamos logo, logo. 

 

Como que na deixa, o homem-touro bramiu de raiva. Ele agarrou o Camaro de Gabe pela capota rasgada, 
o chassi rangia e gemia. Ergueu o carro acima da cabea e atirou-o na estrada. Aquilo se chocou contra o 
asfalto molhado e deslizou em meio a um chuveiro de fagulhas por cerca de quinhentos metros antes de 
parar. O tanque de gasolina explodiu. 

 

Nem um arranho, lembrei-me de Gabe dizendo. 

 

Oops. 

 

- Percy - disse minha me. - Quando ele nos vir, vai atacar. Espere at o ltimo segundo, depois saia do 
caminho. Ele no consegue mudar de direo muito bem quando j est atacando. Voc entendeu? 

 

- Como voc sabe tudo isso? 

 

- Estou preocupada com um ataque h muito tempo. Devia ter esperado por isso. Fui egosta, mantendo 
voc perto de mim. 

 

- Mantendo-me perto de voc? Mas... 

 

Outro bramido de raiva e o homem-touro comeou a subir pesadamente a colina. 

 

Tinha nos farejado. 

 

O pinheiro estava a apenas mais alguns metros, mas a colina era cada vez mais ngreme e escorregadia, 
e Grover ficava mais pesado. 

 

O homem-touro se aproximava. Mas alguns segundos e estaria em cima de ns. 

 

Minha me devia estar exausta, mas carregou Grover. 

#
 

- V, Percy! V sozinho! Lembre-se do que eu disse. 

 

Eu no queria me separar, mas tive a sensao de que ela estava certa - era nossa nica chance. Pulei 
para esquerda, virei-me e vi a criatura avanando em minha direo. Os olhos pretos brilhavam de dio. 
Fedia a carne podre. 

 

Ele inclinou a cabea e atacou, aqueles chifres afiados como navalhas apontados diretamente para o meu 
peito. 

 

O medo no meu estmago me deu vontade de disparar, mas isso no daria certo. Eu jamais poderia correr 
mais que aquela coisa. Ento fiquei parado e, no ltimo momento, saltei para o lado. 

 

O homem-touro passou por mim a toda como um trem de carga, depois bramiu de frustrao e se virou, 
mas dessa vez no contra mim, mas contra minha me, que estava acomodando Grover sobre a grama. 

 

Tnhamos chegado ao topo da colina. Embaixo, do outro lado, pude ver um vale, bem como minha me 
dissera, e as luzes de uma casa de fazenda tremeluzindo amarelas atravs da chuva. Mas estava a 
oitocentos metros de distancia. Nunca conseguiramos chegar l. 

 

O homem-touro roncou, escarvando o cho. Ficou olhando para minha me, que recuava lentamente 
colina abaixo, de volta para estrada, tentando afastar o monstro de Grover. 

 

- Corra, Percy! - disse ela. - No posso passar daqui. Corra! 

 

Mas fiquei l parado, paralisado de medo, enquanto o monstro a atacava. Ela tentou sair de lado, como 
me dissera para fazer, mas o monstro tinha aprendido a lio. Jogou a mo para frente e agarrou-lhe o 
pescoo quanto ela tentou escapar. Ele a ergueu enquanto ela lutava, chutando e dando murros no ar. 

 

- Mame! 

 

Ento, com um rugido furioso, o monstro fechou os punhos em volta do pescoo da minha me e ela se 
dissolveu diante dos meus olhos, fundindo-se em luz, uma forma dourada tremeluzente, como uma 
projeo hologrfica. Um claro ofuscante, e ela simplesmente... se foi. 

 

- No! 

 

A raiva substituiu o medo. Uma nova fora ardeu em meus membros - a mesma onda de energia que me 
veio quando a sra. Dodds mostrou as garras. 

 

O homem-touro foi na direo de Grover, que estava deitado na grama, indefeso. O monstro se curvou, 
fungando meu melhor amigo como se estivesse prestes a ergu-lo dali e faz-lo se dissolver tambm. 

 

Eu no podia permitir aquilo. 

 

Tirei minha capa de chuva vermelha. 

 

- Ei! - gritei, agitando a capa e correndo para um lado do monstro. - Ei, estpido! Monte de carne moda! 

 

- Raaaarrrrr ! - O monstro virou-se para mim sacudindo seus punhos carnudos. 

 

Eu tive uma idia - uma idia boba, porm melhor do que no pensar em nada. Encostei as costas no 
grande pinheiro e agitei a capa vermelha na frente do homem-touro, pensando em pular fora do caminho 
no ltimo momento. 

 

Mas no foi assim que aconteceu. 

 

O homem-touro atacou depressa demais, os braos estendidos para me agarrar qualquer que fosse o lado 
para onde eu tentasse me esquivar. 

 

#
O tempo comeou a passar mais devagar. 

 

Minhas pernas travaram. Eu no podia pular para o lado, assim saltei direto para cima, usando a cabea 
da criatura como trampolim, girei o corpo no ar e ca sobre seu pescoo. 

 

Como eu fiz aquilo? No tive tempo para descobrir. Um milissegundo depois a cabea do monstro chocou-
se contra a rvore e o impacto quase fez meus dentes saltarem da boca. 

 

O homem-touro cambaleou de um lado para outro tentando se livrar de mim. Segurei com fora em seus 
chifres para no ser arremessado. Os troves e os relmpagos ficavam mais fortes. A chuva caia em 
meus olhos. O cheiro de carne podre queimava minhas narinas. 

 

O monstro se sacudia e corcoveava como um touro de rodeio. Poderia simplesmente ter chegado para 
trs e me esmagado completamente na rvore, mas eu comeava a perceber que aquela coisa s tinha 
uma direo: para frente. 

 

Enquanto isso, Grover comeou a gemer na grama. Quis gritar para ele ficar calado, mas do jeito que 
estava sendo jogado de um lado para o outro, se abrisse a boca deceparia minha prpria lngua com uma 
mordida. 

 

- Comida! - gemeu Grover. 

 

O homem-touro virou-se para ele, escarvou o cho novamente e se preparou para atacar. Pensei em 
como ele havia espremido a vida para fora de minha me, como a fizera desaparecer num claro de luz, e 
a raiva me abasteceu como um combustvel de alta potncia. Agarrei um dos chifres com ambas as mos 
e puxei para trs com toda a minha fora. O monstro se retesou, soltou um grunhido de surpresa, e 
ento... plc! 

 

O homem-touro berrou e me atirou pelos ares. Aterrissei de costas na grama. Minha cabea bateu contra 
uma pedra. Quando me sentei, minha viso estava embaada, mas eu tinha um chifre nas mos, um osso 
partido do tamanho de uma faca. 

 

O monstro atacou. 

 

Sem pensar, rolei para o lado e me levantei de joelhos. Quando ele passou a toda velocidade, enterrei o 
chifre quebrado bem na lateral de seu corpo, logo abaixo da caixa torcica peluda. 

 

O homem-touro urrou em agonia. Debateu-se, rasgando o peito com suas garras, e depois comeou a se 
desintegrar  no como minha me, em um claro dourado, mas como areia se esfarelando, carregada 
pelo vento aos pedaos para longe, do mesmo modo como a sra. Dodds se desintegrara. 

 

O monstro se fora. 

 

A chuva tinha parado. A tempestade ainda rugia, mas somente a distancia. Eu cheirava a gado e meus 
joelhos tremiam. Minha cabea parecia que ia se partir ao meio. Estava fraco, assustado e tremia de 
tristeza. Acabara de ver minha me se desvanecer. Queria me deitar e chorar, mas havia Grover, 
precisando de minha ajuda, portando consegui ergu-lo e descer cambaleando para o vale em direo s 
luzes da casa. Eu estava chorando, chamando minha me, mas me agarrei a Grover  eu no ia deix-lo 
partir. 

 

Minha ltima lembrana  ter desmaiado numa varanda de madeira, olhando para um ventilador de teto 
que girava acima de mim, mariposas voando em volta de uma luz amarela, e as expresses austeras e 
familiares de um homem barbudo e uma menina bonita, com cabelos loiros encaracolados como os de 
uma princesa. Os dois olharam para mim e a menina disse: 

 

-  ele. Tem de ser. 

 

- Silncio, Annabeth - disse o homem. - Ele ainda est consciente. Traga-o para dentro. 

 

 

#
CINCO  Eu jogo pinoche com um cavalo. 

 

Tive sonhos estranhos, cheios de animais de estbulos. A maioria queria me matar. O restante queria 
comida. 

 

Devo ter acordado vrias vezes, mas o que ouvi e vi no fazia sentido, ento adormecia de novo. Lembro-
me de estar deitado em uma cama macia, sendo alimentado com colheradas de alguma coisa que tinha 
gosto de pipoca com manteiga, s que era pudim. A menina com o cabelo loiro encaracolado pairava 
acima de mim com um sorriso afetado enquanto limpava as gotas de meu queixo com a colher. 

 

Quando ela viu meus olhos abertos, perguntou: 

 

- O que vai acontecer no solstcio de vero? 

 

Eu consegui resmungar: 

 

- O qu? 

 

Ela olhou em volta, como se estivesse com medo de que algum ouvisse. 

 

- O que est acontecendo? O que foi roubado? Ns s temos algumas semanas! 

 

- Desculpe - murmurei. - Eu no... 

 

Algum bateu  porta, e a menina rapidamente encheu minha boca de pudim. 

 

Quando acordei novamente, a menina tinha ido embora. 

 

Um sujeito loiro e forte, como um surfista, estava no canto do quarto me vigiando. Tinha olhos azuis - pelo 
menos uma dzia deles - nas bochechas, nas testas, nas costas das mos. 

 

***** 

 

Quando finalmente voltei a mim de vez, no havia nada de estranho com o lugar ao meu redor, a no ser 
que era mais agradvel do que eu estava acostumado. Estava sentado numa espreguiadeira em uma 
enorme varanda, olhando ao longo de uma campina para colinas verdejantes  distncia. A brisa tinha 
cheiro de morangos. Havia uma manta sobre as minhas pernas, um travesseiro atrs do pescoo. Tudo 
isso era timo, mas minha boca me dava a sensao de ter sido usada como ninho por um escorpio. A 
lngua estava seca e pegajosa, e todos os dentes doam. Sobre a mesa ao lado havia bebida num copo 
alto. Parecia suco de ma gelado, com um canudinho verde e um guarda-chuva de papel enfiado em 
uma cereja. 

 

Minha mo estava to fraca que quase derrubei o copo quando passei os dedos em volta dele. 

 

- Cuidado - disse uma voz familiar. 

 

Grover estava apoiado no gradil da varanda, e parecia no dormir havia uma semana. Embaixo de um 
brao, segurava uma caixa de sapatos. Estava usando jeans, tnis de cano alto Converse e uma camiseta 
laranja-claro com os dizeres ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE. Apenas o velho Grover. No menino-
bode. 

 

Quem sabe no tive um pesadelo? Talvez minha me estivesse bem. Ainda estvamos de frias e 
tnhamos parado ali naquela grande casa por alguma razo. E... 

 

- Voc salvou minha vida - disse Grover. - Eu... bem, o mnimo que eu podia fazer... voltei na colina. Achei 
que voc poderia querer isso. 

 

Reverentemente, ele colocou a caixa de sapatos em meu colo. 

 

#
Dentro havia um chifre de touro branco-e-preto, a base irregular por ter sido quebrada, a ponta salpicada 
de sangue seco. No tinha sido um pesadelo. 

 

- O Minotauro - disse eu. 

 

- Ahn, Percy, no  uma boa idia... 

 

-  assim que o chamam nos mitos gregos, no ? - perguntei. - O Minotauro. Meio homem, meio touro. 

 

Grover mudou de posio, pouco  vontade. 

 

- Voc ficou desacordado por dois dias. Do que se lembra? 

 

- Minha me. Ela est mesmo... 

 

Ele abaixou os olhos. 

 

Olhei ao longo da campina. Havia pequenos bosques, um riacho sinuoso, campos de morangos 
espalhados embaixo do cu azul. O vale era cercado por colinas ondulantes, e a mais alta, bem na nossa 
frente, era a que tinha o grande pinheiro no topo. Mesmo isso parecia bonito  luz do sol. 

 

Minha me se fora. O mundo inteiro deveria estar escuro e frio. Nada devia parecer bonito. 

 

- Desculpe - fungou Grover. - Eu sou um fracasso. Eu... sou o pior stiro do mundo. 

 

Ele gemeu, batendo o p com tanta fora que ele saiu, quer dizer, o tnis Converse saiu. Dentro, estava 
recheado de isopor, a no ser por um buraco em forma de casco. 

 

- Oh, Styx! - murmurou ele. 

 

Um trovo ecoou no cu claro. 

 

Enquanto ele lutava para pr o casco de volta no falso p, pensei: Bem, isso resolve as coisas. 

 

Grover era um stiro. Podia apostar que, se raspasse o cabelo castanho cacheado, encontraria pequenos 
chifres em sua cabea. 

 

Mas eu me sentia infeliz demais para me importar com a existncia de stiros ou mesmo minotauros. O 
importante era que minha me realmente tinha sido espremida para o nada, dissolvida em luz amarela. 

 

Eu estava sozinho. Um rfo. E teria de viver com... Gabe Cheiroso? No. Isso jamais iria acontecer. 
Preferia viver nas ruas. Fingiria ter dezessete anos e me alistaria no exercito. Faria alguma coisa. 

 

Grover ainda estava fungando. O pobre garoto - pobre bode, ou stiro, ou o que for - parecia estar 
esperando levar um murro. 

 

- No foi sua culpa - disse eu. 

 

- Foi, sim. Eu devia proteg-lo. 

 

- Minha me pediu para voc me proteger? 

 

- No. Mas  isso que fao. Sou um guardio. Pelo menos... eu era. 

 

- Mas por que... 

 

De repente senti uma vertigem, minha viso rodando. 

 

- No se esforce demais - disse Gover. - Aqui. 

 

#
Ele me ajudou a segurar o copo e eu levei o canudinho aos lbios. 

 

Recuei com o gosto, porque estava esperando suco de ma. No tinha nada a ver com isso. Era gosto de 
biscoito com pedacinhos de chocolate. Biscoito lquido. E no qualquer biscoito - os biscoitos azuis da 
minha me com pedacinhos de chocolate, amanteigados e quentes, o chocolate ainda derretendo. Ao 
beber aquilo, meu corpo inteiro se sentiu bem, aquecido e cheio de energia. Minha tristeza no foi embora, 
mas era como se minha me tivesse acabado de acariciar minha bochecha e me dar um biscoito, como 
costumava fazer quando eu era pequeno, e tivesse dito que tudo ia ficar bem. 

 

Antes de me dar conta, j tinha esvaziado o copo inteiro. Olhei para dentro dele e, com certeza, no era 
uma bebida quente, pois os cubos de gelo no tinham nem derretido. 

 

- Estava bom? - perguntou Grover. 

 

Fiz que sim com a cabea. 

 

- Que gosto tinha? 

 

Ele pareceu to suplicante que me senti culpado. 

 

- Desculpe. Devia ter deixado voc provar. 

 

Os olhos deles se arregalaram. 

 

- No! No foi isso que eu quis dizer. Eu s... fiquei curioso. 

 

- Biscoitos com pedacinhos de chocolate - disse eu. - Os da minha me. Feitos em casa. 

 

Ele suspirou. 

 

- E como se sente? 

 

- Como se fosse capaz de jogar Nancy Bobofit a cem metros de distancia. 

 

- Isso  bom - disse ele. - Isso  bom. No acho que voc deva se arriscar a tomar mais disso a. 

 

- O que quer dizer? 

 

Ele pegou meu copo com cautela, como se fosse dinamite, e o colocou de volta na mesa. 

 

- Vamos. Quron e o sr. D esto esperando. 

 

***** 

 

A varanda circundava toda a casa da fazenda. 

 

Senti as pernas tremulas tentando andar toda aquela distancia. Grover se ofereceu para carregar o chifre 
do Minotauro, mas eu me agarrei a ele. Tinha pago um preo alto por aquele suvenir. No iria larg-lo. 

 

Quando demos a volta at o lado oposto da casa, parei para recuperar o flego. 

 

Devamos estar na costa norte de Long Island, porque daquele lado da casa o vale seguia at a gua, que 
cintilava a cerca de um quilmetro de distancia. Entre a casa e l, eu simplesmente no consegui 
processar tudo o que estava vendo. A paisagem era pontilhada de construes que lembravam a 
arquitetura grega antiga - um pavilho a cu aberto, um anfiteatro, uma arena circular - s que pareciam 
novos em folha, as colunas de mrmore branco reluzindo ao sol. Em uma quadra de areia prxima, uma 
dzia de crianas e stiros jogavam voleibol. Canoas deslizavam por um pequeno lago. Crianas de 
camiseta laranja-clara como a de Grover acorriam umas atrs das outras em volta de um grupamento de 
chals no meio do bosque. Algumas praticavam arco-e-flecha em alvos. Outras montavam cavalos em 
uma trilha arborizada e, a no ser que eu estivesse tendo alucinaes, alguns cavalos tinham asas. 

#
 

Na extremidade da varanda, dois homens estavam sentados frente a frente em uma mesa de carteado. A 
menina de cabelos loiros que me alimentara com colheradas de pudim com sabor de pipoca estava 
apoiada no gradil da varanda, ao lado deles. 

 

O homem de frente para mim era pequeno, mas gorducho. Tinha nariz vermelho, grandes olhos chorosos 
e cabelo cacheado to preto que era quase roxo. Parecia uma daquelas pinturas de anjos-bebs, como se 
chamam mesmo... surubins? No, querubins.  isso. Ele parecia um querubim que chegou a meia idade 
em um acampamento de trailers. Usava uma camisa havaiana com estampa de tigres e teria se encaixado 
perfeitamente em uma das rodas de pquer de Gabe, s que eu tive a sensao de que esse cara poderia 
ter ganhado at do meu padrasto. 

 

Aquele  o sr. D - murmurou Grover para mim. - Ele  o diretor do acampamento. Seja educado. A menina 
 Annabeth Chase. Ela  s uma campista, mas est aqui h mais tempo que quase todo mundo. E voc 
j conhece Quron... 

 

Ele apontou para o cara que estava de costas para mim. 

 

Primeiro, percebi que ele estava sentado em uma cadeira de rodas. Depois reconheci o casaco de tweed, 
o cabelo castanho ralo, a barba desalinhada. 

 

- Sr. Brunner! - exclamei. 

 

O professor de latim voltou-se e sorriu para mim. Os olhos estavam com aquele brilho travesso de quando 
ele fazia uma prova-surpresa e todas as respostas da mltipla escolha eram B. 

 

- Ah, bom, Percy - disse ele. - Agora j temos quatro para o pinoche. 

 

Ele me ofereceu uma cadeira  direita do sr. D, que olhou para mim com olhos injetados e soltou um 
grande suspiro. 

 

- Ah, suponho que devo dizer isto. Bem-vindo ao Acampamento Meio-Sangue. Pronto. Agora, no espere 
que eu esteja contente em v-lo. 

 

- Ahn, obrigado. - Logo me afastei um pouco dele, porque, se havia uma coisa que eu tinha aprendido com 
Gabe era reconhecer quando um adulto andou tomando umas e outras. Se o sr. D era abstmio, eu era 
um stiro. 

 

- Annabeth? - o sr. Brunner chamou a menina loira. 

 

Ela avanou e o sr. Brunner nos apresentou. 

 

- Esta mocinha cuidou de voc at que ficasse bom, Percy. Annabeth, minha querida, por que no vai 
verificar o beliche de Percy? Vamos instal-lo no chal 11 por enquanto. 

 

Annabeth disse: 

 

- Claro, Quron. 

 

Ela provavelmente tinha a minha idade, talvez fosse uns cinco centmetros mais alta, e tinha a aparncia 
muitssimo mais atltica. 

 

Com seu bronzeado intenso e o cabelo loiro cacheado, era quase exatamente como eu imaginava uma 
tpica menina da Califrnia, a no ser pelos olhos, que arruinavam essa imagem. Era surpreendentemente 
cinzentos, como nuvens de tempestade; bonito, mas tambm intimidadores, como se ela estivesse 
analisando o melhor modo de me derrubar em uma luta. 

 

Ela deu uma olhada no chifre de minotauro em minhas mos, ento de novo para mim. Imaginei que fosse 
dizer: Voc matou um minotauro! Ou Uau, voc  to assustador! Ou algo do tipo. Em vez disso, ela disse: 

 

#
- Voc baba quando est dormindo! 

 

 Depois saiu correndo pelo gramado, os cabelos loiros esvoaando atrs dela. 

 

- Ento - disse, ansioso por mudar de assunto -, o senhor, ahn, trabalha aqui, sr. Brunner? 

 

- Sr. Brunner no - disse o ex-sr. Brunner. - Lamento, era pseudnimo. Voc pode me chamar de Quron. 

 

- Combinado. - Totalmente confuso, olhei para o diretor. - E sr. D... significa alguma coisa? 

 

O sr. D parou de embaralhar as cartas. Olhou para mim como se eu tivesse acabado de arrotar alto. 

 

- Rapazinho os nomes so coisas poderosas. Voc simplesmente no sai por a os usando sem motivo. 

 

- Ah. Certo. Desculpe. 

 

- Devo dizer, Percy - interrompeu o Quron-Brunner -, que estou contente em v-lo com vida. J faz um 
bom tempo desde que fiz um atendimento domiciliar a um campista em potencial. Detestaria pensar que 
tinha perdido meu tempo. 

 

- Atendimento domiciliar? 

 

- O ano que passei na Academia Yancy para instru-lo. Temos stiros de prontido na maioria das escolas, 
 claro. Mas Grover me alertou assim que o conheceu. Ele sentiu que voc era especial, ento decidi ir l. 
Convenci o outro professor de latim a... ah, tirar uma licena. 

 

Tentei me lembrar do comeo do ano escolar. Parecia tanto tempo atrs, mas eu tinha uma vaga 
lembrana de outro professor de latim na minha primeira semana em Yancy. Ento, sem explicao, ele 
desapareceu e o sr. Brunner assumiu a turma. 

 

- Voc foi a Yancy s para me ensinar? - perguntei. 

 

Quron assentiu. 

 

- Honestamente, de inicio eu no tinha muita certeza a seu respeito. Contatamos a sua me, informamos 
que estvamos de olho em voc, para o caso de estar pronto para o Acampamento Meio-Sangue. Mas 
voc ainda tinha muito a aprender. No obstante, chegou aqui vivo, e esse  sempre o primeiro teste. 

 

- Grover - disse o sr. D com impacincia -, vai jogar ou no? 

 

- Sim, senhor! - Grover tremeu quando se sentou na quarta cadeira, embora eu no soubesse por que ele 
deveria ter tanto medo de um homenzinho gorducho de camisa havaiana com estampa de tigre. 

 

- Voc sabe jogar pinoche? - indagou o sr. D olhando para mim com desconfiana. 

 

- Infelizmente no - disse eu. 

 

- Infelizmente no, senhor - disse ele. 

 

- Senhor - repeti. Estava gostando cada vez menos do diretor do acampamento. 

 

- Bem - ele me disse -, este , juntamente com as lutas de gladiadores e o Pac-Man, um dos melhores 
jogos j inventados pelos seres humanos. Imaginava que todos os jovens civilizados conhecessem as 
regras. 

 

- Estou certo de que o menino pode aprender - disse Quron. 

 

- Por favor - disse eu. -, o que  este lugar? O que estou fazendo aqui? Sr. Brun... Quron, por que iria  
Academia Yancy s para me ensinar? 

 

#
O sr. D bufou. 

 

- Fiz a mesma pergunta. 

 

O diretor do acampamento deu as cartas. Grover se encolhia a cada vez que uma caa na sua pilha. 

 

Quron sorriu para mim de um modo compreensivo, como costumava fazer na aula de latim, como para me 
dizer que qualquer que fosse minha nota, eu era seu aluno mais importante. Ele esperava que eu tivesse a 
resposta certa. 

 

- Percy - disse ele -, sua me no lhe contou nada? 

 

- Ela disse... - Lembrei-me dos seus olhos tristes, olhando para o mar. - Ela me contou que tinha medo de 
me mandar para c, embora meu pai quisesse que ela fizesse isso. Disse que, uma vez aqui, 
provavelmente no poderia sair. Queria me manter perto dela. 

 

- Tpico - disse o sr. D -  assim que eles normalmente so mortos. Rapazinho, voc vai fazer um lance ou 
no vai? 

 

- O qu? - perguntei. 

 

Ele explicou, impacientemente, como se faz um lance em pinoche, e eu fiz. 

 

- Lamento, mas h coisas demais a contar - disse Quron. - Receio que nosso filme de orientao no seja 
suficiente. 

 

- Filme de orientao? - perguntei. 

 

- No - concluiu Quron. - Bem, Percy. Voc sabe que seu amigo Grover  um stiro. Voc sabe - ele 
apontou para o chifre na caixa de sapatos - que voc matou o Minotauro. E no  um pequeno feito, rapaz. 
O que voc pode no saber  que grandes foras esto em ao na sua vida. Os deuses - as foras que 
voc chama de deuses gregos - esto muito vivos. 

 

Olhei para os outros em volta da mesa. 

 

Aguardei que algum gritasse, No! Mas tudo o que ouvi foi o sr. D gritando: 

 

- Oh, um casamento real. Truco! Truco! - Ele gargalhou enquanto contava os pontos. 

 

- Sr. D - perguntou Grover timidamente -, se no for com-la, posso ficar com sua lata de Diet Coke? 

 

- Hein? Ah, est bem. 

 

Grover mordeu um grande pedao da lata de alumnio vazia e mastigou tristemente. 

 

- Espere - eu disse a Quron -, est me dizendo que existe algo como Deus. 

 

- Bem, vamos l - disse Quron. - Deus - com D maisculo, Deus. Isso  outro assunto. No vamos lidar 
com o metafsico. 

 

- Metafsico? Mas voc estava falando sobre... 

 

- Ah, deuses, no plural, grandes seres que controlam as foras da natureza e os empreendimentos 
humanos; os deuses imortais do Olimpo. Essa  uma questo menor. 

 

- Menor? 

 

 - Sim, muito. Os deuses que discutimos na aula de latim. 

 

#
- Zeus - disse eu. - Hera. Apolo. Voc quer dizer , esses. E, de novo, uma trovoada distante em um dia 
sem nuvens. 

 

- Rapazinho - disse o sr. D -, se eu fosse voc, seria menos negligente quanto a ficar soltando esses 
nomes por a. 

 

- Mas so historias - disse eu. - So... mitos, para explicar os relmpagos, as estaes e tudo mais. Era 
nisso que as pessoas acreditavam antes de surgir a cincia. 

 

- Cincia! - zombou o sr. D. - E diga-me, Perseu Jackson - eu me encolhi quando ele disse meu nome 
verdadeiro, que nunca contara a ningum -, o que as pessoas pensaro da sua .cincia. daqui a milhares 
de anos? Humm? Iro cham-la de baboseiras primitivas.  isso o que iro pensar. Ah, eu adoro os 
mortais... ele no tm a menor noo de perspectiva. Acham que j chegaram to longe. E chegaram, 
Quron? Olhe para esse menino e diga-me. 

 

- Percy - disse Quron -, voc pode escolher entre acreditar ou no, mas o fato  que imortal significa 
imortal. Pode imaginar isso por um momento, no morrer nunca? Existir, assim como voc , para toda a 
eternidade? 

 

Eu estava prestes a responder, assim sem pensar, que parecia um negocio muito bom, mas o tom de voz 
de Quron me fez hesitar. 

 

- Voc quer dizer, quer as pessoas acreditem em voc ou no  disse eu. 

 

- Exatamente - concordou Quron. - Se voc fosse um deus, gostaria de ser chamado de mito, de uma 
velha historia para explicar os relmpagos? E se eu contasse a voc, Perseu Jackson que um dia as 
pessoas vo chamar voc de mito, criado apenas para explicar como menininhos podem sobreviver  
perda de suas mes? 

 

Meu corao disparou. Ele estava tentando me deixar zangado por alguma razo, mas eu no ia permitir 
que o fizesse. Eu disse: 

 

- Eu no gostaria disso. Mas no acredito em deuses. 

 

- Oh,  melhor mesmo - murmurou o sr. D. - Antes que um deles o incinere. 

 

Grover disse: 

 

- P-por favor, senhor. Ele acaba de perder a me. Est em estado de choque. 

 

- Uma sorte, tambm - resmungou o sr. D, jogando uma carta. - Ruim mesmo  estar confinado a esse 
trabalho deprimente, com meninos que nem mesmo tm f! 

 

Ele acenou e uma taa apareceu sobre a mesa, como se a luz do sol tivesse momentaneamente se 
encurvado e transformado o ar em vidro. A taa se encheu de vinho tinto. 

 

Meu queixo caiu, mas Quron mal ergueu os olhos. 

 

- Senhor D - advertiu -, as suas restries. 

 

O sr. D olhou para o vinho e fingiu surpresa. 

 

- Ora vejam. - Ele olhou para o cu e gritou: - Velhos hbitos! Desculpe! 

 

Mais trovoes. 

 

O sr. D acenou outra vez e a taa de vinho se transformou em uma nova lata de Diet Coke. Ele suspirou, 
infeliz, abriu a lata e voltou ao seu jogo de cartas. 

 

Quron piscou para mim. 

#
 

- O sr. D irritou o pai dele tempos atrs, sentiu-se atrado por uma ninfa dos bosques que tinha sido 
declarada inacessvel. 

 

- Uma ninfa dos bosques - repeti, ainda olhando para a Diet Coke como se tivesse vindo do cosmos. 

 

- Sim - confessou o sr. D. - O pai adora me castigar. Na primeira vez, Proibio. Horrvel! Dez anos 
abasolutamente terrveis! Na segunda vez... bem, ela era mesmo linda, no consegui ficar longe... na 
segunda vez, ele me mandou para c. Colina Meio-Sangue. Acampamento de vero para moleques como 
voc. .Seja uma influencia melhor., ele me disse. .Trabalhe com os jovens em vez de arrasar com eles.. 
Ah! Que injustia. 

 

O sr. D parecia ter seis anos de idade, como uma criancinha fazendo pirraa. 

 

- E... - gaguejei - o seu pai ... 

 

- Di immotales, Quron - disse o sr. D. - Pensei que voc tinha ensinado o bsico a este menino. Meu pai  
Zeus,  claro. 

 

Repassei os nomes comeados em D da mitologia grega. Vinho. A pele de um tigre. Os stiros que 
pareciam estar todos trabalhando aqui. O modo como Grover se encolhia de medo, como se o sr. D fosse 
seu senhor. 

 

- Voc  Dionisio - disse eu. - O deus do vinho. 

 

O sr. D revirou os olhos. 

 

- Como eles dizem hoje em dia, Grover? As crianas dizem, .fala srio.? 

 

- S-sim, sr. D. 

 

- Ento, fala srio, Percy Jackson. Achou o qu; que eu fosse Afrodite? 

 

- Voc  um deus. 

 

- Sim, criana. 

 

- Um deus. Voc. 

 

Ele se virou para olhar diretamente para mim, e vi uma espcie de fogo arroxeado nos seus olhos, um 
indcio de que aquele homenzinho reclamo e gorducho s estava me mostrando uma minscula parte de 
sua verdadeira natureza. Tive vises de vinhas estrangulando descrentes at a morte, guerreiros bbados 
insanos com o entusiasmo da batalha, marinheiros gritando enquanto suas mos se transformavam em 
nadadeiras, os rostos se alongando em focinhos de golfinho. Eu sabia que, se o pressionasse, o sr. D iria 
me mostrar coisas piores. Iria plantar uma doena no meu crebro que me levaria a usar camisa-de-fora 
pelo resto da vida. 

 

- Gostaria de me testar, criana? - disse em voz baixa. 

 

- No. No, senhor. 

 

O fogo diminuiu um pouco. Ele voltou ao jogo de cartas. 

 

- Acho que ganhei. 

 

- No exatamente sr. D - disse Quron. Ele baixou uma seqncia, contou os pontos e disse: - O jogo  
meu. 

 

#
Achei que o sr. D fosse transformar Quron em p em sua cadeira de rodas, mas ele apenas suspirou pelo 
nariz, como se estivesse acostumado a ser batido pelo professor de latim. Ps-se de p, e Grover 
levantou-se tambm. 

 

- Estou cansado - disse o sr. D. - Acho que vou tirar uma soneca antes da cantoria desta noite. Mas 
primeiro, Grover, precisamos conversar de novo sobre seu desempenho para l de imperfeito nessa 
misso. 

 

O rosto de Grover cobriu-se de gotculas de suor. 

 

- S-sim, senhor. 

 

O sr. D voltou-se para mim. 

 

- Chal 11, Percy Jackson. E cuidado com seus modos. 

 

Ele se afastou para dentro da casa, com Grover o seguindo arrasado. 

 

- Grover vai ficar bem? - perguntei a Quron. 

 

Quron assentiu, embora parecesse um pouco perturbado. 

 

- O velho Dionisio no est realmente zangado. Ele apenas detesta seu trabalho. Ele foi... ahn, confinado 
 Terra, pode-se dizer, e no pode agentar ter de esperar mais um sculo antes de ser autorizado a 
voltar ao Olimpo. 

 

- O Monte Olimpo - disse eu. - Voc est me dizendo que realmente existe um palcio ali? 

 

- Bem, agora h o Monte Olimpo na Grcia. E h o lar dos deuses, o ponto de convergncia dos seus 
poderes, que de fato costumava ser no Monte Olimpo. Ainda  chamado de Monte Olimpo, por respeito s 
tradies, mas o palcio muda de lugar, Percy, assim como os deuses. 

 

- Voc quer dizer que os deuses gregos esto aqui? Tipo... nos Estados Unidos? 

 

- Bem, certamente. Os deuses mudam com o corao do Ocidente. 

 

- O qu? 

 

- Vamos, Percy. O que vocs chamam de .civilizao ocidental.. Voc acha que  apenas um conceito 
abstrato? No,  uma fora viva. Uma conscincia coletiva que ardeu brilhantemente por milhares de 
anos. Os deuses so parte dela. Voc pode at dizer que eles so sua fonte ou, pelo menos, que esto 
ligados to intimamente a ela que possivelmente no vo deixar de existir, a no ser que toda a civilizao 
ocidental seja destruda. A chama comeou na Grcia. Ento, como voc bem sabe... ou espero que 
saiba, j que foi aprovado no meu curso... o corao da chama se mudou para Roma, e assim fizeram os 
deuses. Ah, com nomes diferentes, talvez: Jpiter em vez de Zeus, Vnus em vez de Afrodite, e assim por 
diante; mas as mesmas foras, os mesmos deuses. 

 

- E ento eles morreram. 

 

- Morreram? No. O Ocidente morreu? Os deuses simplesmente se mudaram, para a Alemanha, para a 
Frana, para a Espanha, por algum tempo. Aonde quer que a chama brilhasse mais, l estavam os 
deuses. Eles passaram vrios sculos na Inglaterra. Tudo o que voc precisa  olhar para a arquitetura. 
As pessoas no esquecem os deuses. Em todos os lugares onde reinaram, nos ltimos trs mil anos, voc 
pode v-los em pinturas, em esttuas, nos prdios mais importantes. E sim, Percy,  claro que agora eles 
esto nos Estados Unidos. Olhe para o smbolo do pas, a guia de Zeus. Olhe para a esttua de 
Prometeu no Rockfeller Center, para as fachadas dos edifcios governamentais em Washington. Eu o 
desafio a encontrar qualquer cidade americana onde os olimpianos no estejam proeminentes expostos 
em vrios locais. Goste ou no  e acredite, uma poro de gente no gostava muito de Roma tambm -, 
os Estados Unidos so agora o corao da chama. So a grande potencia do Ocidente. E, portanto, o 
Olimpo  aqui. E ns estamos aqui. 

#
 

Aquilo tudo foi demais para mim, especialmente o fato de que eu parecia estar includo no ns de Quron, 
como se fizesse parte do mesmo clube. 

 

- Quem  voc, Quron? Quem... quem eu sou? 

 

Quron sorriu. Ele mudou de posio, como se fosse levantar da cadeira de rodas, mas eu sabia que era 
impossvel. Era paraltico da cintura para baixo. 

 

- Quem  voc? - ele ficou pensativo. - Bem, essa  a pergunte que todos queremos ver respondida, no 
? Mas, por enquanto, temos de lhe arranjar um beliche no chal 11. Ali haver novos amigos para 
conhecer. E tempo  vontade para as aulas amanh. Alem disso, haver guloseimas em volta da fogueira 
esta noite, e eu simplesmente adoro chocolate. 

 

E ento ele se levantou da cadeira de rodas. Mas havia algo de estranho no modo como ele fez isso. A 
manta caiu de cima das pernas, mas elas no se moveram. A cintura foi ficando mais longa, erguendo-se 
acima do cinto. De incio, pensei que estivesse usando roupas de baixo muito compridas de veludo 
branco, mas  medida que ele foi ser erguendo da cadeira, mais alto que qualquer homem, percebi que a 
roupa de baixo de veludo no era roupa de baixo; era a parte da frente de um animal, msculos e tendes 
sob um plo branco e spero. E a cadeira de rodas no era uma cadeira. Era algum tipo de recipiente, 
uma enorme caixa sobre rodas, e devia ser mgica, porque no havia como ela cont-lo inteiro. Uma 
perna saiu, comprida e com joelho saliente, com um grande casco polido. Depois outra perna dianteira, 
depois a parte traseira, e depois a caixa ficou vazia, nada alm de uma casca de metal com um par de 
pernas humanas acoplado. 

 

Olhei para o cavalo que acabara de pular da cadeira de rodas: um enorme corcel branco. Mas, onde devia 
estar o seu pescoo, estava a parte de cima do corpo do meu professor de latim, suavemente enxertada 
no tronco do cavalo. 

 

- Que alvio - disse o centauro. - Fiquei tanto tempo confinado l dentro que minhas juntas adormeceram. 
Agora venha, Percy Jackson. Vamos conhecer os outros campistas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
SEIS  Minha transformao em senhor do banheiro. 

 

 

Depois que assimilei o fato de meu professor de latim ser um cavalo, fizemos um passeio agradvel, 
embora tivesse o cuidado de no andar atrs dele. Havia participado algumas vezes das rondas com 
pazinhas para recolher coc de cachorro na Parada do Dia de Ao de Graas da loja Macys e, lamento 
dizer, no confiava na parte de trs de Quron tanto quanto confiava na da frente. 

 

Passamos pela quadra de vlei. Diversos campistas se cutucavam. Um deles apontou para o chifre de 
minotauro que eu carregava. Um outro disse: 

 

-  ele. 

 

A maioria dos campistas era mais velha que eu. Seus amigos stiros eram maiores que Grover, todos 
trotando de um lado para outro de camisetas cor de laranja do ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE, sem 
nada para cobrir os traseiros peludos  mostra. Eu normalmente no era tmido, mas o modo como 
olhavam para mim me deixou pouco  vontade. Era como se esperassem que eu desse um salto mortal ou 
coisa assim. 

 

Olhei para a casa de fazenda trs de mim. Era muito maior do que eu pensara - quatro andares, azul-cu 
com acabamento em branco, como um hotel de veraneio de primeira classe  beira-mar. 

 

Eu estava conferindo o cata-vento de lato em forma de guia no topo quando algo me chamou a ateno, uma 
sombra na janela mais alta do sto. Alguma coisa havia mexido na cortina, s por um segundo, e tive a ntida 
impresso de que estava sendo observado. 

 

- O que h l em cima? - perguntei a Quron. Ele olhou para onde eu estava apontando e seu sorriso 
desapareceu: 

 

- Apenas o sto. 

 

- Mora algum l? 

 

- No - disse em tom definitivo. - Nem uma nica coisa viva. 

 

Tive a sensao de que ele falava a verdade. Mas tambm tinha certeza de que algo havia mexido naquela 
cortina. 

 

- Venha, Percy - disse Quron, o tom despreocupado agora um pouco forado. - H muito para ver. 

 

Caminhamos pelos campos de morangos, onde campistas colhiam alqueires de morangos enquanto um stiro 
tocava uma melodia numa flauta de bambu. 

 

Quron me contou que o acampamento cultivava uma bela safra para exportar para os restaurantes de 
Nova York e para o Monte Olimpo. 

 

- Paga as nossas despesas - explicou. - E os morangos no exigem esforo quase nenhum. 

 

Ele disse que o sr. D produzia esse efeito sobre plantas frutferas: elas simplesmente enlouqueciam quando ele 
estava por perto. Funcionava melhor com as vinhas, mas o sr. D estava proibido de cultiv-las, portanto, em vez 
delas eles plantavam morangos. 

 

Observei o stiro tocando a flauta. A msica fazia com que filas de insetos sassem dos canteiros de 
morangos em todas as direes, como se fugissem de um incndio. Imaginei se Grover podia fazer 
esse tipo mgica com msica. Imaginei se ainda estava dentro da casa, levando broncas do sr. D. 

 

-Grover no vai ter muitos problemas, vai? - perguntei a Quron. - Quer dizer... ele foi um bom protetor. Sem 
dvida. 

 

Quron suspirou. Tirou o casaco de tweed e jogou-o por cima do seu lombo de cavalo, como uma sela. 

#
 

- Grover sonha alto , Percy. Talvez mais alto do que seria razovel. Para atingir seu objetivo, ele precisa primeiro 
demonstrar uma grande coragem tendo sucesso como guardio, encontrando um novo campista e trazendo-o 
em segurana  Colina Meio-Sangue. 

 

- Mas ele fez isso! 

 

- Eu poderia concordar com voc - disse Quron. - Mas no cabe a mim julgar. Dioniso e o Conselho 
dos Ancios de Casco Fendido devem decidir. Receio que possam no ver essa misso como um 
sucesso. Afinal, Grover perdeu voc em Nova York, h o desventurado... ahn... destino da sua me. E o 
fato de que Grover estava inconsciente quando voc o arrastou at os limites da propriedade. O 
conselho pode questionar se isso demonstra alguma coragem da parte de Grover. 

 

Eu quis protestar. Nada do que acontecera havia sido por culpa de Grover. Tambm me sentia muito, muito 
culpado. Se no tivesse escapado de Grover na estao de nibus, ele poderia no ter se envolvido em 
encrenca. 

 

- Ele vai ter uma segunda chance, no vai? 

 

Quron retraiu-se. 

 

Infelizmente aquela era a segunda chance de Grover, Percy. Alm disso, o conselho no estava muito 
ansioso em lhe dar outra oportunidade depois do que aconteceu na primeira vez, cinco anos atrs. 

 

- O Olimpo sabe, eu o aconselhei a esperar mais tempo antes de tentar de novo. Ele ainda  muito pequeno 
para a sua idade. 

 

- Que idade ele tem? 

 

- Ah, vinte e oito. 

 

- O qu! E ainda est na sexta srie? 

 

- Os stiros amadurecem no dobro do tempo dos seres humanos, Percy. Grover teve idade equivalente  
de um aluno de escola secundria nos ltimos seis anos. 

 

- Que coisa horrvel. 

 

- De fato - concordou Quron. - De qualquer modo, Grover est atrasado, mesmo pelos padres de stiro, 
e ainda no avanou muito em magia dos bosques. O pobre estava ansioso por perseguir o seu sonho. 

 

Talvez agora encontre alguma outra carreira... 

 

- Isso no  justo! - disse eu. - O que aconteceu na primeira vez? Foi mesmo assim to ruim? 

 

Quron desviou os olhos depressa. 

 

- Vamos andando? 

 

Mas eu ainda no estava pronto para mudar de assunto. Uma coisa me ocorrera quando Quron falou sobre o 
destino de minha me, como se estivesse intencionalmente evitando a palavra morte. O princpio de uma 
ideia - uma pequenina e esperanosa chama - comeou a se formar em minha cabea. 

 

- Quron - disse eu. - Se os deuses, o Olimpo e tudo isso so reais... 

 

- Sim, criana? 

 

- Isso significa que o Mundo Inferior tambm  real? A expresso de Quron se fechou. 

 

- Sim, criana. - Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras cuidadosamente. - H um 

#
lugar para onde vo os espritos aps a morte. Mas por ora... at que saibamos mais...eu recomendaria que 
tirasse isso de sua cabea. 

 

- O que quer dizer com "at que saibamos mais"? 

 

- Venha, Percy. Vamos ver os bosques. 

 

Quando nos aproximamos, me dei conta de como a floresta era enorme. Tomava pelo menos um quarto do 
vale, com rvores to altas e largas que a impresso era de que ningum entrara l desde os nativos 
americanos. 

 

Quron disse: 

 

- Os bosques tm provises, se voc quiser tentar a sorte, 

 

- Provises de qu?  perguntei. - Armado com o qu? 

 

- Voc ver. O jogo Capture a Bandeira  na sexta-feira  noite. Voc tem a sua prpria espada e escudo? 

 

- Minha prpria...? 

 

- No - disse Quron. - No creio que tenha. Acho que o tamanho cinco vai servir. Mais tarde vou visitar o 
arsenal. 

 

Quis perguntar que tipo de acampamento de vero tem um arsenal, mas havia muito mais a pensar, 
portanto o passeio continuou. Vimos a linha de tiro com arco-e-flecha, o lago de canoagem, os estbulos 
(dos quais Quron parecia no gostar muito), a linha de lanamento de dardo, o anfiteatro para cantoria e a 
arena onde Quron disse que eles realizavam lutas de espadas e lanas. 

 

- Lutas de espadas e lanas? - perguntei. 

 

- Desafios entre chals e coisas assim - explicou ele. - No so letais. Normalmente. Ah, sim, e h tambm o 

refeitrio. Quron apontou para um pavilho ao ar livre emoldurado por colunas gregas brancas sobre 
uma colina que dava para o mar. Havia uma dzia de mesas de piquenique de pedra. Sem telhado. Sem 
paredes. 

 

- O que vocs fazem quando chove? - perguntei. 

 

Quron me olhou como se eu tivesse ficado meio maluco. 

 

- Ainda assim temos de comer, no temos? 

 

Resolvi deixar para l. 

 

Finalmente, ele me mostrou os chals. Havia doze deles aninhados no bosque junto ao lago. Estavam 
dispostos em U, dois na frente e cinco enfileirados de cada lado. E eram, sem dvida, o mais estranho 
conjunto de construes que j vi. 

 

A no ser pelo fato de cada um ter um grande nmero de lato acima da porta (mpares do lado esquerdo, 
pares do direito), eram totalmente diferentes um do outro. O nmero 9 tinha chamins como uma 
minscula fbrica. O nmero 4 tinha tomateiros nas paredes e uma cobertura feita de grama de verdade. 
O 7 parecia feito de um ouro slido que reluzia tanto  luz do sol que era quase impossvel de se olhar. 
Todos davam para uma rea comum mais ou menos do tamanho de um campo de futebol, pontilhada de 
esttuas gregas, fontes, canteiros de flores e um par de cestos de basquete (o que era mais a minha praia). 

No centro do campo havia uma enorme rea de pedras com uma fogueira. Muito embora fosse uma tarde 
quente, o fogo ardia de modo lento. Uma menina com cerca de nove anos estava cuidando das chamas, 
cutucando os carves com uma vara. 

 

O par de chals  cabeceira do campo, nmeros 1 e 2, pareciam mausolus casadinhos, grandes caixas 
de mrmore branco com colunas pesadas na frente. O chal 1 era o maior e mais magnfico dos doze. 

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As portas de bronze polido cintilavam como um holograma, de tal modo que, vistas de ngulos diferentes, 
raios pareciam atravess-las. O chal 2 era de certo modo mais gracioso, com colunas mais finas encimadas 
com roms e flores. As paredes eram entalhadas com imagens de paves. 

 

- Zeus e Hera? - adivinhei. 

 

- Correto - disse Quron. 

 

- Os chals parecem vazios. 

 

- Diversos chals esto vazios.  verdade. Ningum jamais fica no 1 ou 2. 

 

Certo. Ento cada chal tinha um deus diferente como mascote e chals para os doze olimpianos. Mas 
por que alguns estariam vazios? 

 

Parei na frente do primeiro chal da esquerda, o nmero 3. 

 

No era alto e imponente como o chal 1, mas comprido, baixo e slido. As paredes externas eram de 
pedras cinzentas rsticas salpicadas de pedaos de conchas e coral, como se as pedras tivessem sido 
cortadas diretamente do fundo do oceano. Espiei para dentro da porta aberta e Quron disse: 

 

- Ih, eu no faria isso! 

 

Antes que ele pudesse me puxar de volta, senti o odor salgado do interior, como o vento na praia de 
Montauk. As paredes internas brilhavam como madreprola. Havia seis beliches vazios com lenis de seda 
virados para baixo. Mas no havia indcio de que algum j tivesse dormido l. O lugar parecia to triste e 
solitrio que fiquei contente quando Quron ps a mo no meu ombro. 

 

- Vamos, Percy. 

 

A maioria dos outros chals estava abarrotada de campistas. 

 

O numero 5 era vermelho vivo - uma pintura muito malfeita, como se a cor tivesse sido jogada a esmo com 
baldes e mos. O telhado era forrado de arame farpado. Uma cabea de javali empalhada estava 
pendurada acima da porta e seus olhos pareciam me seguir. Dentro pude ver um bando de meninos e 
meninas mal-encarados, disputando queda-de-brao e discutindo enquanto o rock tocava s alturas. A 
mais barulhenta era uma menina de talvez treze ou quatoreze anos. Usava uma camiseta do 
ACAMAPMENTO MEIO-SANGUE tamanho GGG embaixo de um casaco camuflado. Ela mirou em mim e 
lanou um maldoso olhar de desprezo. Fez lembrar Nancy Bobofit, s que a menina do acampamento era 
muito maior e de aparncia mais cruel, seu cabelo era comprido, esticado e castanho, em vez de 
vermelho. 

 

Continuei andando, tentando ficar longe dos cascos de Quron. 

 

- Ainda no vimos os centauros  observei. 

 

- No - disse Quron chateado. - Infelizmente, meus parentes so uma gente selvagem e brbara. Voc 
pode encontr-los no mato ou em eventos desportivos importantes. Mas no ver nenhum aqui. 

 

- Voc disse que seu nome  Quron. Voc  mesmo... 

 

Ele sorriu para mim. 

 

- O Quron das histrias? Instrutor de Hrcules e tudo aquilo? Sim, Percy, eu sou. 

 

- Mas voc no devia estar morto? 

 

Quron fez uma pausa, como se a pergunta o intrigasse. 

 

#
- Honestamente, no sei nada sobre devia. A verdade  que eu no posso estar morto. Entenda, h muitas 
eras os deuses concederam meu desejo. Pude continuar o trabalho que adorava. Pude ser um mestre de 
heris enquanto a humanidade precisasse de mim. Ganhei muito com aquele desejo... e renunciei a muito. 
Mais ainda estou aqui, portanto s posso presumir que ainda sou necessrio. 

 

Pensei sobre ser um professor de trs mil anos. Isso no estaria na minha lista das Dez Coisas Mais 
Desejadas. 

 

- Isso nunca fica chato? 

 

- No, no - disse ele. - Horrivelmente deprimente s vezes, mas nunca chato. 

 

- Por que deprimente? 

 

Quron pareceu ficar com alguma deficincia auditiva de novo. 

 

- Ah, olhe - disse ele. - Annabeth est esperando por ns. 

 

***** 

 

A menina loira que eu conhecera na Casa Grande estava lendo um livro na frente do ltimo chal da 
esquerda, o nmero 11. 

 

Quando nos aproximamos, ela olhou para mim com um ar crtico, como se ainda estivesse pensando em 
como eu babava. 

 

Tentei ver o que ela estava lendo, mas no consegui distinguir o ttulo. Achei que fosse minha dislexia em 
ao. Ento me dei conta de que o ttulo no era sequer em ingls. As letras pareciam grego para mim. 
Quer dizer, literalmente grego. Havia figuras de templos e esttuas e diferentes tipos de colunas, como em 
um livro de arquitetura. 

 

- Annabeth - disse Quron - eu tenho aula de arco-e-flecha para mestres ao meio-dia. Voc cuidaria de 
Percy a partir daqui? 

 

- Sim, senhor. 

 

- Chal 11 - disse Quron para mim, fazendo um gesto em direo  porta. - Sinta-se em casa. 

 

Entre todos os chals, o 11 era o que mais parecia um velho chal comum de acampamento de vero, 
com nfase no velho. A soleira estava desgastada, a pintura marrom, descascando. Acima do vo da porta 
havia um daqueles smbolos de mdico, um basto alado com duas serpentes enroscadas nele. Como  
mesmo que chamavam aquilo...? Um caduceu. 

 

Dentro, estava abarrotado de gente, meninos e meninas, em muito maior nmero que os beliches. Sacos 
de dormir estavam espalhados por todo piso. Parecia um ginsio onde a Cruz Vermelha estabelecera um 
centro de refugiados. 

 

Quron no entrou. A porta era muito baixa para ele. Mas quando os campistas o viram, todos se puseram 
em p e fizeram uma reverncia respeitosa. 

 

- Ento tudo bem - disse Quron. - Boa sorte, Percy. Vejo voc no jantar. 

 

Ele partiu a galope ruma  linha de arco-e-flecha. 

 

Fiquei em p no vo da porta, olhando para a garotada. No estavam mais se curvando. Olhavam para 
mim, medindo-me com os olhos. Conheo essa rotina. Havia passado por ela em muitas escolas. 

 

- Tudo bem? - instigou Annabeth. - V em frente. 

 

Ento, naturalmente, tropecei ao passar pela porta e fiz um completo papel de bobo. Houve algumas 

#
risadinhas dos campistas, mas nenhum deles disse nada. 

 

Annabeth anunciou: 

 

- Percy Jackson, apresento-lhe o chal 11. 

 

- Normal ou indeterminado? - perguntou algum. 

 

Eu no sabia o que dizer, mas Annabeth disse: 

 

- Indeterminado. 

 

Todos gemeram. 

 

Um cara que era um pouco mais velho que o restante chegou para frente. 

 

- Vamos, vamos, campistas.  para isso que estamos aqui. Bem-vindo, Percy. Voc pode ficar com aquele 
ponto no cho logo ali. 

 

O cara tinha cerca de dezenove anos e parecia muito legal. Era alto e musculoso, com cabelo com cor de 
areia aparado curto e um sorriso amigvel. Usava uma camiseta regata laranja, calas cortadas, sandlias 
e um colar de couro com cinco contas de argila em cores diferentes. A nica coisa perturbadora na sua 
aparncia era uma grossa cicatriz branca que corria desde logo abaixo do olho direito at o queixo, como 
um antigo corte de faca. 

 

- Este  Luke - disse Annabeth, e sua voz pareceu mudar um pouco. Dei uma olhada nela e poderia ter 
jurado que estava ficando vermelha. Ela me viu olhando e sua expresso endureceu de novo. - Ele  seu 
conselheiro por enquanto. 

 

- Por enquanto? - perguntei. 

 

- Voc  indeterminado - explicou Luke pacientemente. - Eles no sabem em que chal acomod-lo, ento 
voc est aqui. O chal 11 recebe todos os recm-chegados, todos os visitantes. Naturalmente Hermes, 
nosso patrono,  o deus dos viajantes. 

 

Olhei para o minsculo espao de cho que eles me deram. Eu no tinha nada para pr ali e marc-lo 
como meu, nenhuma bagagem, nenhuma roupa, nenhum saco de dormir. Apenas o chifre do Minotauro. 
Pensei em coloc-lo ali, mas ento lembrei que Hermes era tambm o deus dos ladres. 

 

Corri os olhos pelos rostos dos campistas, alguns mal-humorados e desconfiados, outros com um sorriso 
idiota, alguns me olhando como se esperassem uma oportunidade de limpar os meus bolsos. 

 

- Quanto tempo vou ficar aqui? - perguntei. 

 

- Boa pergunta - disse Luke. - At voc ser determinado. 

 

- Quanto tempo isso vai levar? 

 

Todos os campistas riram. 

 

- Venha - disse Annabeth. - Vou lhe mostrar o ptio de vlei. 

 

- Eu j vi. 

 

- Venha. 

 

Ela agarrou meu pulso e me arrastou para fora. Pude ouvir o pessoal do chal dando risadas atrs de 
mim. 

 

***** 

#
 

Quando estvamos a poucos metros de distancia, Annabeth disse: 

 

- Jackson, voce precisa fazer melhor do que isso. 

 

- O qu? 

 

Ela revirou os olhos e murmurou baixinho: 

 

- No posso acreditar que achei que voce fosse o cara. 

 

- Qual  o seu problema? - Eu agora estava ficando zangado. - Tudo o que sei  que matei um sujeito-
touro... 

 

- No fale assim! - disse Annabeth. - Voc sabe quantos neste acampamento gostariam de ter tido a sua 
chance? 

 

- De ser mortos? 

 

- De enfrentar o Minotauro! Para que voce acha que ns somos treinados? 

 

Eu sacudi a cabea. 

 

- Olhe, se a coisa contra a qual eu lutei era realmente o Minotauro, o mesmo das histrias... 

 

- Sim. 

 

- Ento s existe um. 

 

- Sim. 

 

- E ele morreu, tipo um zilho de anos atrs, certo? Teseu o matou no labirinto. Portanto... 

 

- Monstros no morrem, Percy. Eles podem ser mortos. Mas eles no morrem. 

 

- Ah, obrigado. Agora entendi tudo. 

 

- Eles no tm alma, como voce e eu. Voc pode bani-los por algum tempo, talvez at por todo uma vida, 
se tiver sorte. Mas eles so foras primitivas. Quron os chama de arqutipos. No fim, eles se 
reconstituem. 

 

Pensei na sra. Dodds. 

 

- Voc quer dizer que se eu matei um, acidentalmente, com uma espada.... 

 

- A Fr... Quer dizer, a sua professora de matemtica. Est certo. Ela ainda est l fora. Voc apenas a 
deixou muito, muito zangada. 

 

- Como voc sabe da sra. Dodds? 

 

- Voc fala dormindo. 

 

- Voc quase a chamou de alguma coisa. Uma Fria? Elas so torturadoras de Hades, certo? 

 

Annabeth olhou nervosamente para o cho, como se esperasse que ele se abrisse e a engolisse. 

 

- Voc no deve cham-las pelo nome, mesmo aqui. Se acabamos tendo de falar nelas, ns as achamos 
de as Benevolentes. 

 

- Puxa, existe alguma coisa que se possa dizer sem que haja troves? - Eu soie reclamo, at para mim 

#
mesmo, mas naquele momento no me importei. - Por que tenho de ficar no chal 11, afinal? Por que fica 
todo mundo amontoado? H uma poro de beliches vazios logo ali. 

 

Apontei para os primeiros chals e Annabeth empalideceu. 

 

- A gente no escolhe simplesmente um chal, Percy. Depende de quem so seus progenitores. Ou... o 
seu progenitor. 

 

Ela olhou fixamente para mim, esperando que eu entendesse. 

 

- Minha me  Sally Jackson - disse eu. - Trabalha na doceria da Grande Estao Central. Pelo menos 
trabalhava. 

 

- Sinto muito pela sua me, Percy. Mas no  isso que eu quis dizer. Estou falando sobre seu outro 
progenitor. Seu pai. 

 

- Ele est morto. No cheguei a conhec-lo. 

 

Annabeth suspirou. Era claro que j tivera aquela conversa com outras crianas: 

 

- Seu pai no est morto, Percy. 

 

- Como pode dizer isso? Voc o conhece? 

 

- No,  claro que no. 

 

- Ento como voc pode dizer... 

 

- Porque eu conheo voc. Voc no estaria aqui se no fosse um de ns. 

 

- Voc no sabe nada a meu respeito. 

 

- No? - Ela ergueu uma sombrancelha. - Aposto que voc ficou passando de escola em escola. Aposto 
que foi expulso de uma poro delas. 

 

- Como... 

 

- Teve diagnstico de dislexia. Provavelmente transtorno do dficit de ateno tambm. 

 

Tentei engolir meu constragimento. 

 

- O que isso tem a ver? 

 

- Tudo junto,  quase um sinal certo. As letras flutuam para fora da pgina quando voc l, certo? Isso  
porque a sua mente est fisicamente programada para o grego antigo. E o transtorno do dficit de 
ateno... voc  impulsivo, no consegue ficar quieto na classe. Isso so os seus reflexos de campo de 
batalha. Numa luta real, eles o mantero vivo. Quanto aos problemas de ateno, isso  porque enxerga 
demais, Percy, e no de menos. Seus sentidos so mais aprimorados que os de um mortal comum.  
claro que os professores querem que voc seja medicado. Eles so em maioria monstros. No querem 
que voc os veja como so. 

 

- Voc parece... voc passou pelas mesmas coisas? 

 

- A maioria das crianas daqui passou. Se voc no fosse um de ns, no poderia ter sobrevivido ao 
Minotauro, e muito menos  ambrosia e ao nctar. 

 

- Ambrosia e nctar. 

 

- A comida e a bebida que estvamos dando a voc para cur-lo. Aquilo teria matado um garoto normal. 
Teria transformado seu sangue em fogo e seus ossos em areia e voc estaria morto. Encare os fatos. 

#
Voc  um meio-sangue. 

 

Um meio-sangue. 

 

Minha cabea estava girando com tantas perguntas que eu no sabia por onde comear. 

 

- Ora, ora! Um novato! 

 

Eu dei uma olhada. A menina grandalhona do chl feio e vermelho vinha andando lentamente em nossa 
direo. Havia trs outras meninas atrs dela, todas grandes, feias e de aparencia malvada como ela, 
todas usando casacos camuflados. 

 

- Clarisse - suspirou Annabeth -, por que voc no vai polir sua lana ou coisa assim? 

 

- Claro, srta. Princesa - disse a grandalhona. - Para poder atravessar voc com ela na sexta-feira  noite. 

 

- Erre es korakas! - disse Annabeth, o que eu de algum modo entendi que era .V para os corvos!. em 
grego, embora tivesse a sensao de que devia ser uma praga pior do que parecia. - Voc no tem 
chance. 

 

- Vamos transform-la em p - disse Clarisse, mas seu olho se crispou. Talvez ela no tivesse certeza de 
poder cumprir a ameaa. Voltou-se para mim. - Quem  esse nanico? 

 

- Percy Jackson - disse Annabeth -, esta  Clarisse, filha de Ares. 

 

Eu pisquei. 

 

- Tipo... o deus da guerra? 

 

Clarisse sorriu desdenhosa. 

 

- Voc tem algum problema com isso? 

 

- No - disse eu, recobrando minha presena de esprito. - Isso explica o mau cheiro. 

 

Clarisse rosnou. 

 

- Ns temos uma cerimnia de iniciao para novatos, Persiana. 

 

- Percy. 

 

- Seja o que for. Venha, vou lhe mostrar. 

 

- Clarisse... - Annabeth tentou dizer. 

 

- Fique fora disso, espertinha. 

 

Annabeth pareceu ofendida, mas ficou de fora, e eu realmente no queria a ajuda dela. Eu era o novato. 
Tinha de construir minha prpria reputao. 

 

Entreguei a Annabeth meu chifre de minotauro e me preparei para a luta, mas antes que eu percebesse 
Clarisse tinha me segurado pelo pescoo e me arrastava na direo de um edifcio de blocos de concreto 
que percebi imediatamente que era o banheiro. 

 

Eu chutava e dava murros no ar. J tinha estado em muitas brigas antes, mas aquela Clarisse 
grandalhona tinha mos de ferro. Arrastou-me para dentro do banheiro das meninas. Havia uma fileira de 
vasos sanitrios de um lado e uma fileira de chuveiros do outro. Cheirava como qualquer banheiro pblico, 
e eu estava pensando - tanto quanto podia pensar com Clarisse me arrancando os cabelos - que se 
aquele lugar pertencia aos deuses, eles deviam poder comprar privadas melhores. 

 

#
As amigas de Clarisse estavam todas rindo, e eu tentava encontrar a fora que usara para enfrentar o 
Minotauro, mas ela simplesmente no estava l. 

 

- Como se ele fosse dos .Trs Grandes. - disse Clarisse, me empurrando em direo a um dos vasos. - 
Certo. O Minotauro provavelmente caiu na risada, de to bobo que ele parecia. 

 

As amigas abafaram o riso. 

 

Annabeth ficou no canto, observando atravs dos dedos. 

 

Clarisse me forou sobre os joelhos e comeou a empurrar minha cabea para dentro do vaso sanitrio, 
que fedia a canos enferrujados e, bem, ao que vai para dentro de vasos sanitrios. Fiz esforo para 
manter a cabea erguida. Estava olhando para a gua imunda e pensando: eu no vou enfiar a cabea 
naquilo. No vou. 

 

Ento algo aconteceu. Senti uma presso violenta na boca do estmago. Ouvi os encanamentos 
roncando, os canos estremeceram. A mo de Clarisse no meu cabelo afrouxou. A gua pulou para fora do 
vaso, formando um arco por cima da minha cabea, e em seguida me vi estatelado sobre os ladrilhos do 
piso do banheiro com Clarisse berrando atrs de mim. 

 

Eu me virei bem no momento em que a gua explodiu para fora do vaso outra vez, atingindo Clarisse bem 
no rosto com tanta fora que a fez cair de traseiro no cho. A gua continuou jorrando em cima dela como 
o jato de uma mangueira de incndio, empurrando-a para trs, para dentro de um boxe de chuveiro. 

 

Ela se debateu, esbaforida, e as amigas comearam a ir em sua direo. Mas ento os outros vasos 
tambm explodiram, e mais seis jorros de gua de privada as empurravam de volta. Os chuveiros tambm 
entraram em ao e, em conjunto, todos os dispositivos lanaram as meninas camufladas para fora do 
banheiro, fazendo-as rodopiar como pedaos de lixo sendo removidos com jatos dgua. 

 

Assim que elas foram postas porta afora, sentia a presso nas minhas entranhas se aliviar, e a gua parou 
de jorrar to depressa quanto comeara. 

 

O banheiro inteiro estava inundado. Annabeth no tinha sido poupada. Estava toda molhada e pingando, 
mas no fora empurrada para fora. Estava de p exatamente no mesmo lugar me olhando em estado de 
choque. 

 

Olhei para baixo e me dei conta de que estava sentado no nico ponto seco em todo o recinto. Havia um 
crculo de piso seco em volta de mim. No havia nem uma gota dgua nas minhas roupas. Nada. 

 

Levantei com as pernas trmulas. 

 

Annabeth disse: 

 

- Como voc... 

 

- Eu no sei. 

 

Caminhamos at a porta. Do lado de fora, Clarisse e as amigas estavam prostadas na lama e um bando 
de outros campistas se reunira em volta para olhar, perplexos. O cabelo de Clarisse estava colado no 
rosto. O casaco camuflado estava encharcado e ela cheirava a esgoto. Ela me lanou um olhar de dio 
absoluto. 

 

- Voc est morto, novato. Est totalmente morto. 

 

Talvez eu devesse ter deixado pra l, mas disse: 

 

- Quer gargarejar com gua da privada de novo, Clarisse? Cale essa boca. 

 

As amigas tiveram de segur-la. Arrastaram-na para o chal 5, enquanto os outros campistas abriam 
caminho para evitar seus membros que esperneavam. 

#
 

Annabeth olhou para mim. Eu nos abia dizer se ela estava apenas enjoada ou zangada comigo por 
encharc-la. 

 

- O que foi? - perguntei. - O que est pensando? 

 

- Estou pensando - disse ela - que quero voc no meu time para capturar a bandeira. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
 

SETE  Meu jantar se esvai em fumaa. 

 

 

A notcia do incidente no banheiro se espalhou na mesma hora. Aonde quer que eu fosse, os campistas 
apontavam para mim e murmuravam algo sobre gua de vaso sanitrio. Ou talvez apenas olhassem para 
Annabeth, que ainda estava bastante encharcada. 

 

Ela me mostrou mais alguns lugares: a oficina de metais (onde as crianas forjavam as prprias espadas), 
a sala de artes e ofcios (onde os stiros jateavam com areia uma esttua gigante de um home-bode) e a 
parede para escalada, que na verdade consistia em duas paredes que se sacudiam violentamente, 
deixavam cair rochas, espalhavam lava e colidiam uma com a outra se a gente no chegasse ao topo bem 
depressa. 

 

Finalmente retornamos ao lado de canoagem, de onde a trilha levava de volta aos chals. 

 

- Tenho treinamento - disse Annabeth secamente. - O jantar  s sete e meia. Voc s tem de seguir o 
pessoal do chal at o refeitrio. 

 

- Annabeth, desculpe pelos sanitrios. 

 

- No importa. 

 

- No foi minha culpa. 

 

Ela me olhou com ar ctico e me dei conta de que tinha sido minha culpa. Eu havia feito a gua jorrar no 
banheiro. No entendia como. Mas os vasos tinham respondido a mim. Era como se eu fosse um dos 
canos. 

 

- Voc precisa falar com o Orculo - disse Annabeth. 

 

- Quem? 

 

- No quem. O qu. O Orculo. Vou pedir a Quron. 

 

Olhei para o lago, desejando que algum me desse uma resposta direta pelo menos uma vez. 

 

Eu no esperava que algum estivesse olhando de volta para mim do fundo, portanto meu corao deu 
um pulo quando notei duas meninas adolescente sentadas de pernas cruzadas na base do per, cerca de 
seis metros abaixo. Vestiam jeans e camisetas verdes cintilantes, e os cabelos castanhos flutuavam soltos 
em volta dos ombros enquanto peixinhos passavam por entre eles. Elas sorriram e acenaram como se eu 
fosse um amigo h muito perdido. 

 

Eu no sabia que outra coisa fazer. Acenei de volta. 

 

- No as encoraje - advertiu Annabeth. - As niades so flertadoras incontrolveis. 

 

- Niades - repeti, sentindo-me completamente estupefado. - J chega. Quero ir para casa agora. 

 

Annabeth franziu as sobrancelhas. 

 

- Voc no percebe, Percy? Voc est em casa. Este  o nico lugar na terra seguro para crianas como 
ns. 

 

- Voc quer dizer crianas mentalmente perturbadas? 

 

- Eu quero dizer no-humanas. No totalmente humanas, de qualquer modo. Meio humanas. 

 

- Meio humanas e meio o qu? 

 

#
- Acho que voc sabe. 

 

Eu no queria admitir, mas sabia, sim. Senti um formigamento nos membros, uma sensao que s vezes 
me tomava quando minha me falava sobre meu pai. 

 

- Deusas - disse eu. - Meio deusas. 

 

Annabeth assentiu. 

 

- Seu pai no est morto, Percy. Ele  um dos olimpianos. 

 

- Isso ... loucura. 

 

- Ser? Qual  a coisa mais comum que os deuses faziam nas velhas histrias? Eles andavam por a se 
apaixonando por seres humanos e tendo filhos com eles. Voc pensa que eles mudaram os hbitos nos 
ltimos poucos milnios? 

 

- Mas isso so apenas... - Eu quase disse mitos de novo. Ento me lembrei do aviso de Quron de que 
daqui a dois mil anos eu poderia ser considerado um mito. - Mas se todos aqui so meio deuses... 

 

- Semideuses - disse Annabeth. - Esse  o termo oficial. Ou meio-sangues. 

 

- Ento quem  seu pai? 

 

As mos dela se apertaram em volta da balaustrada do per. Tive a sensao de que acabara de tocar em 
um assunto delicado. 

 

- Meu pai  um professor em West Point - disse ela. - No vejo desde que era muito pequena. Ele ensina 
Histria Americana. 

 

- Ele  humano. 

 

- O qu? Est pensando que tem de ser um deus homem encontrando uma mulher humana atraente, e 
no o contrrio? Sabe que isso  machismo? 

 

- Ento quem  sua me? 

 

- Chal 6. 

 

- O que significa? 

 

Annabeth endireitou o corpo. 

 

- Atena. Deusa da sabedoria e da guerra. 

 

Certo, pensei. Por que no? 

 

- E meu pai? 

 

- Indeterminado - disse Annabeth, como eu lhe disse antes. Ningum sabe. 

 

- A no ser a minha me. Ela sabia. 

 

- Talvez no, Percy. Os deuses nem sempre revelam sua identidade. 

 

- Meu pai teria revelado. Ele a amava. 

 

Annabeth me deu uma olhada cautelosa. Ela no queria acabar com as minhas iluses. 

 

#
- Talvez voc esteja certo. Talvez ele v enviar um sinal. Esse  o nico modo de saber com certeza: seu 
pai tem de mandar a voc um sinal reclamando voc como filho. s vezes isso acontece. 

 

- Quer dizer que s vezes no acontece? 

 

Annabeth correu a palma da mo pela balaustrada. 

 

- Os deuses so atarefados. Eles tm uma poro de filhos, e nem sempre... Bem, s vezes eles no se 
importam conosco, Percy. Eles nos ignoram. 

 

Pensei em algumas das crianas que tinha visto no chal de Hermes, adolescentes que pareciam mal-
humorados e deprimidos, como se estivessem esperando por um chamado que nunca viria. Conhecera 
crianas assim na Academia Yancy, descartadas para internatos por pais ricos que no tinham tempo para 
lidar com elas. Mas os deuses deviam se comportar melhor. 

 

- Ento eu estou encalhado aqui - disse eu. -  isso? Pelo resto da minha vida? 

 

- Depende - disse Annabeth. - Alguns campistas s ficam no vero. Se voc  filho de Afrodite ou 
Demetra, provavelmente no  uma fora realmente poderosa. Os monstros podem ignor-lo, e ento 
voc pode se arranjar com alguns meses de treinamento de vero e viver no mundo mortal pelo resto do 
ano. Mas, para alguns de ns, sair  perigoso demais. Temos de ficar o ano inteiro. No mundo mortal, 
atramos monstros. Eles percebem nossa presena. Vm nos desafiar. Na maioria das vezes eles nos 
ignoram ate termos idade suficiente para causar problemas - cerca de dez ou onze anos, mas depois disso 
muitos dos semideuses vem para c ou so mortos. Alguns conseguem sobreviver no mundo exterior e 
se tornam famosos. Acredite, se eu lhe contasse os nomes voc os conheceria. Alguns nem sequer se 
do conta de que so semideuses. Mas poucos, muito poucos so assim. 

 

- Ento os monstros no podem entrar aqui? 

 

Annabeth sacudiu a cabea. 

 

- No, a no ser que sejam intencionalmente mantidos nos bosques ou convocados por algum de dentro. 

 

- Por que algum ia querer convocar um monstro? 

 

- Para pratica de lutas. Para pregar peas. 

 

- Pregar peas? 

 

- A questo  que as fronteiras so fechadas para manter os mortais e os monstros de fora. Do lado de 
fora, os mortais olham para o vale e no vem nada de inusitado, apenas plantaes de morangos. 

 

- Ento... voc  uma campista de ano inteiro? 

 

Annabeth assentiu. De dentro da gola da camiseta ela puxou um colar de couro com cinco contas de argila 
de cores diferentes. Era exatamente como o de Luke, s que o de Annabeth tambm tinha um grande anel 
de ouro enfiado, como um anel de faculdade. 

 

- Estou aqui desde que tinha sete anos - disse ela. - Todo ms de agosto, no ltimo dia da sesso de 
vero, a gente ganha uma conta por sobreviver mais um ano. Estou aqui h mais tempo que a maioria dos 
conselheiros, e eles esto todos na faculdade. 

 

- Por que veio to jovem? 

 

Ela girou o anel no colar. 

 

- No  da sua conta. 

 

- Ah. - Fiquei ali por um minuto em um silncio constrangedor. - Ento... Eu poderia simplesmente sair 
andando daqui agora mesmo, se quisesse? 

#
 

- Seria suicdio, mas voc poderia, com a permisso do sr. D ou de Quron. Mas eles no dariam 
permisso at o final da sesso de vero, a no ser... 

 

- A no ser? 

 

- Que lhe seja concedida uma misso. Mas isso dificilmente acontece. Na ltima vez... 

 

A voz dela foi sumindo. Pude perceber pelo seu tom de voz que a ltima vez no tinha ido muito bem. 

 

- Antes, quando estava doente no quarto - disse eu -, quando voc dava de comer aquela coisa... 

 

- Ambrosia. 

 

- . Voc me perguntou algo sobre o solstcio de vero. 

 

Os ombros de Annabeth se contraram. 

 

- Ento voc sabe alguma coisa? 

 

- Bem... no. Na minha antiga escola, ouvi por acaso Grover e Quron conversando sobre isso. Grover 
mencionou o solstcio de vero. Ele disse algo como no termos muito tempo, por causa do prazo final. O 
que isso queria dizer? 

 

Ela apertou os punhos. 

 

- Eu gostaria de saber. Quron e os stiros, eles sabem, mas no contaram para mim. Algo est errado no 
Olimpo, algo muito importante. Na ltima vez em que estive l, parecia tudo to normal. 

 

- Voc esteve no Olimpo? 

 

- Alguns de ns, campistas de ano inteiro... Luke, Clarisse, eu e poucos outros... fizemos uma excurso 
durante o solstcio de inverno.  quando os deuses fazem sua grande assemblia anual. 

 

- Mas... como chegou l? 

 

- Pela Ferrovia de Long Island,  claro. Voc desce na Estao Penn. Empire State, seiscentsimo andar. 
- Ela me olhou como quem tinha certeza de que eu j sabia disso. - Voc  nova-iorquino, certo? 

 

- Ah, com certeza. - At onde eu sabia, havia apenas cento e dois andares no Empire States, mas decidi 
no comentar isso. 

 

- Logo depois da visita - continuou Annabeth -, o tempo ficou esquisito, como se os deuses tivessem 
comeado a brigar. Uma ou duas vezes desde ento, ouvi stiros conversando. O mximo que posso 
deduzir  que algo importante foi roubado. E, se no for devolvido at o solstcio de vero, vai haver 
problemas. Quando voc veio, eu estava esperando... quer dizer... Atena pode se entender com qualquer 
um, a no ser Ares. E,  claro, ela tem uma rivalidade com Poseidon. Mas, quer dizer, fora isso, pensei 
que poderamos trabalhar juntos. Pensei que voc pudesse saber alguma coisa. 

 

Sacudi a cabea. Gostaria de poder ajud-la, mas estava com fome, cansado e mentalmente 
sobrecarregado demais para fazer mais perguntas. 

 

- Preciso conseguir uma misso - murmurou Annabeth consigo mesma. - Eu no sou jovem demais. Se 
eles ao menos me contassem qual  o problema. 

 

Senti cheiro de churrasco vindo de algum lugar por perto. Annabeth deve ter ouvido meu estmago roncar. 
Disse-me para ir em frente, que me alcanaria depois. Eu a deixei no per, correndo o dedo pela 
balaustrada como se estivesse desenhando um plano de batalha. 

 

***** 

#
 

De volta ao chal 11, todo mundo estava falando e se divertindo, esperando o jantar. Pela primeira vez, 
notei que muitos campistas tinham feies parecidas: narizes pontudos, sobrancelhas arqueadas, sorrisos 
maliciosos. Eram o tipo de criana que os professores classificariam como encrenqueiros. Felizmente, 
ningum prestou muita ateno em mim quando fui at meu lugar no cho e me deixei cair com o chifre de 
minotauro. 

 

O conselheiro, Luke, se aproximou. Ele tambm tinha a aparncia familiar de Hermes. Estava desfigurada 
pela cicatriz na face direita, mas o sorriso estava intacto. 

 

- Arranjei um saco de dormir para voc - disse ele. - E, aqui, furtei para voc alguns artigos de toalete da 
loja do acampamento. 

 

No deu para saber se ele estava brincando quanto quela parte de furtar. 

 

Eu disse: 

 

- Obrigado. 

 

- Sem problemas. - Luke sentou-se ao meu lado, descansando as costas contra a parede. - Primeiro dia 
difcil? 

 

- Meu lugar no  aqui - disse eu. - Nem mesmo acredito em deuses. 

 

-  - disse ele. - Foi assim que todos ns comeamos. E depois que voc comea a acreditar neles? No 
fica nem um pouco mais fcil. 

 

A amargura em sua voz me surpreendeu, porque Luke parecia ser o tipo de cara despreocupado. Parecia 
ser capaz de lidar com qualquer coisa. 

 

- Ento seu pai  Hermes? - perguntei. 

 

Ele puxou um canivete de mola do bolso de trs, e por um segundo, pensei que fosse me destripar, mas 
ele apenas raspou o barro da sola da sandlia. 

 

- , Hermes. 

 

- O mensageiro com asas nos ps. 

 

-  ele. Mensageiros. Medicina. Viajantes, mercadores, ladres. Qualquer um que use as estradas.  por 
isso que voc est aqui, desfrutando a hospitalidade do chal 11. Hermes no  exigente com relao a 
quem apadrinha. 

 

Entendi que Luke no queria me chamar de joo-ningum. Apenas tinha muita coisa na cabea. 

 

- Voc j encontrou seu pai? - perguntei. 

 

- Uma vez. 

 

Esperei, pensando que, se ele quisesse me contar, contaria. Aparentemente no. Imaginei se a historia 
tinha alguma coisa a ver com como ele conseguira aquela cicatriz. 

 

Luke ergueu os olhos e conseguiu sorrir. 

 

- No se preocupe com isso, Percy. A maioria dos campistas aqui  boa gente. Afinal, somos uma grande 
famlia, certo? Cuidamos um do outro. 

 

Ele parecia entender o quanto me sentia perdido e eu estava grato por isso, porque um cara mais velho 
como ele - mesmo sendo um conselheiro - devia estar evitando um secundarista chato como eu. Mas Luke 

#
me dera as boas-vindas ao chal. At mesmo furtara alguns artigos de toalete, o que era a coisa mais 
simptica que algum fizera por mim o dia inteiro. 

 

Decidi fazer a minha ltima grande pergunta, aquela que vinha me incomodando a tarde toda. 

 

- Clarisse, de Ares, debochou sobre eu ser um dos .Trs Grandes.. Depois, Annabeth... ela falou duas 
vezes que eu poderia ser .o cara.. Disse que devo falar com o Orculo. O que quer dizer isso tudo? 

 

Luke fechou o canivete. 

 

- Odeio profecias. 

 

- O que quer dizer? 

 

Seu rosto deu uma estremecida em volta da cicatriz. 

 

- Digamos apenas que eu compliquei as coisas para todos os outros. Nos ltimos dois anos, desde 
quando me dei mal em minha viagem ao Jardim das Hesprides, Quron no autorizou mais nenhuma 
misso. Annabeth est morrendo de vontade de sair para o mundo. Ela importunou tanto Quron que ele 
finalmente disse que j conhecia o seu destino. Recebera uma profecia do Orculo. No quis contar tudo a 
ela, mas disse que Annabeth ainda no estava destinada a sair numa misso. Tinha de esperar at... 
algum especial vir para o acampamento. 

 

- Algum especial? 

 

- No se preocupe com isso garoto - disse Luke. - Annabeth quer pensar que todo campista novo que 
chega aqui  o pressgio que ela est esperando. Agora vamos,  hora do jantar. 

 

No momento em que ele disse isso, uma trombeta soou a distancia. De algum modo eu sabia que era feita 
com uma concha de caramujo, apesar de nunca ter ouvido uma antes. 

 

Luke gritou: 

 

- Onze, reunir! 

 

O chal inteiro, cerca de vinte de ns, formou uma fila no ptio. Enfileiramo-nos por ordem de antigidade, 
portanto  claro que eu era o ltimo. Vieram campistas tambm de outros chals, com exceo dos trs 
vazios no fim e do chal 8, que parecia normal durante o dia mas agora comeava a ter um brilho prateado 
 medida que o sol se punha. 

 

Marchamos colina acima at o pavilho do refeitrio. Stiros vieram da campina e juntaram-se a ns. 
Niades emergiram do lago de canoagem. Algumas outras meninas saram dos bosques - e quando digo 
dos bosques, quero dizer dos bosques mesmo. Vi uma menina de nove ou dez anos fundir-se da lateral de 
um bordo e vir saltitando colina acima. 

 

Ao todo, havia talvez uma centena de campista, algumas dzias de stiros e uma dzia de ninfas e 
niades variadas. 

 

No pavilho, tochas ardiam em volta das colunas de mrmore. Um fogo central queimava em um braseiro 
de bronze do tamanho de uma banheira. Cada chal tinha sua prpria mesa, coberta com uma toalha 
branca com detalhes roxo. Quatro mesas estavam vazias, mas a do chal 11 era superlotada. Tive de me 
espremer na ponta de um banco, com metade do traseiro de fora. 

 

Vi Grover sentado  mesa 12, e um par de meninos loiros gorduchos bem parecidos com o sr. D. Quron 
ficou em p ao lado, pois a mesa de piquenique era muito pequena para um centauro. 

 

Annabeth sentou-se  mesa 6 com um bando de crianas atlticas de aparncia sria, todas com olhos 
cinzentos e cabelo loiro da cor do mel. 

 

#
Clarisse sentou-se atrs de mim  mesa de Ares. Parecia recuperada do banho, pois estava rindo e 
arrotando ao lado das amigas. 

 

Finalmente, Quron bateu o casco contra o piso de mrmore do pavilho e todos se calaram. Ele ergueu 
um copo. 

 

- Aos deuses! 

 

Todos ergueram os copos. 

 

- Aos deuses! 

 

Ninfas do bosque avanaram com bandejas de comida: uvas, mas, morangos, queijo, po fresco e, sim, 
churrasco! Meu copo estava vazio, mas Luke disse; 

 

- Fale com ele. Qualquer coisa que queria. No alcolica,  claro. 

 

- Cherry Coke - falei. 

 

O copo se encheu de lquido espumante cor de caramelo. 

 

Ento tive uma idia. 

 

- Cherry Coke azul. 

 

O refrigerante assumiu um tom berrante de cobalto. 

 

Tomei um gole cauteloso. Perfeito 

 

Fiz um brinde  minha me. 

 

Ela no se foi, disse a mim mesmo. De qualquer modo, no para sempre. Ela est no Mundo Inferior. E, se 
ele  um lugar real, ento algum dia... 

 

- Vai, Percy - disse Luke, me passando uma travessa de peito defumado. 

 

Enchi meu prato e estava prestes a dar uma grande garfada quando notei que todos se levantavam, 
levando os pratos para o fogo no centro do pavilho. Imaginei se estavam indo buscar a sobremesa ou 
coisa assim. 

 

- Venha - disse-me Luke. 

 

 Quando cheguei mais perto, vi que todos estavam pegando algo do prato e jogando dentro do fogo, o 
morango mais maduro, a fatia mais suculenta de carne, o po mais quente e mais amanteigado. 

 

Luke murmurou ao meu ouvido: 

 

- Oferendas queimadas para os deuses. Eles gostam do cheiro. 

 

- Fala srio! 

 

O olhar dele me advertiu a no debochar daquilo, mas no pude deixar de me perguntar por que um ser 
imortal, todo-poderoso, gostaria do cheiro de comida queimada. 

 

Luke aproximou-se do fogo, inclinou a cabea e atirou um cacho de uvas gordas e vermelhas. 

 

- Hermes. 

 

Eu era o prximo. 

 

#
Eu gostaria de saber o nome de qual deus eu devia dizer. 

 

Acabei fazendo um pedido silencioso. Quem quer que seja, conte-me. Por favor. 

 

Empurrei uma grande fatia de peito para as chamas. 

 

Quando inalei um pouco de fumaa, no engasguei 

 

No parecia nem um pouco cheiro de comida queimada. Cheirava a chocolate quente e brownies recm-
assados, hambrgueres grelhados e flores silvestres, e uma centena de outras coisas boas que no 
deviam combinar, mas combinavam. Dava at para acreditar que os deuses podiam viver daquela fumaa. 

 

Depois que todos voltaram aos lugares e terminaram de comer, Quron bateu novamente o casco para 
chamar nossa ateno. 

 

O sr. D levantou-se com um enorme suspiro. 

 

- Sim, suponho que deva dizer ol a todos vocs, moleques. Bem, ol. Nosso diretor de atividades, 
Quron, diz que a prxima captura da bandeira ser na sexta-feira. Atualmente, o chal 5 detm os lauris. 

 

Um monte de aplausos disformes se ergueu da mesa de Ares. 

 

- Pessoalmente - continuou o sr. D -, no me importo nem um pouco, mas congratulaes. Tambm devo 
lhes dizer que temos um novo campista hoje. Peter Johnson. 

 

Quron murmurou alguma coisa. 

 

- Ahn, Percy Jackson - corrigiu o sr. D. - Est certo. Viva, e tudo o mais. Agora vo correndo para a sua 
fogueira boba. Andem. 

 

Todos aplaudiram. Dirigimo-nos para o anfiteatro, onde o chal de Apolo liderou a cantoria. Cantamos 
canes de acampamento sobre os deuses, comemos besteiras e nos divertimos, e o engraado foi que 
no senti ningum mais olhando para mim. Era como estar em casa. 

 

Mais  noite, quando as fagulhas da fogueira se enroscavam em um cu estrelado, a trombeta de 
caramujo soou de novo, e todos ns formamos filas para voltar aos nossos chals. No me dei conta de 
como estava exausto at desmoronar em meu saco de dormir emprestado. 

 

Meus dedos se fecharam em volta do chifre do Minotauro. Pensei em minha me, mas tive bons 
pensamentos: o sorriso dela, as histrias que lia para mim antes de dormir quando eu era pequeno, o jeito 
como me dizia para no deixar os percevejos morderem. 

 

Quando fechei os olhos, adormeci instantaneamente. 

 

Assim foi meu primeiro dia no Acampamento Meio-Sangue. 

 

Queria ter sabido antes que em to pouco tempo passaria a gostar do meu novo lar. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
OITO  Ns capturamos uma bandeira. 

 

Em poucos dias me acomodei em uma rotina que parecia quase normal, se descontarmos o fato de que 
eu tinha aulas com stiros, ninfas e um centauro. 

 

Todas as manhs estudava grego antigo com Annabeth e conversvamos sobre deuses e deusas no 
presente, o que era um pouco estranho. Descobri que Annabeth estava certa a respeito de minha dislexia: 
o grego antigo no era to difcil de ler. Pelo menos, no mais difcil que ingls. Depois de algumas 
manhs eu j conseguia ler sem muita dor de cabea algumas linhas de Homero, tropeando aqui e ali. 

 

No resto do dia eu alternava atividades ao ar livre, procurando alguma coisa em que fosse bom. Quron 
tentou me ensinar arco-e-flecha, mas descobrimos bem depressa que eu no dava para aquilo. Ele no 
reclamou nem mesmo quando teve de arrancar de sua cauda uma flecha perdida. 

 

Corrida? Eu tambm no era bom. As instrutoras, as ninfas do bosque, me faziam comer poeira. 
Disseram-me para no me preocupar com isso. Tiveram sculos de prticas fugindo de deuses 
apaixonados. Mas ainda assim era meio humilhante ser mais lento que uma rvore. 

 

E as lutas? Esquea. Toda vez que ia para a esteira, Clarisse acabava comigo. 

 

.E vem mais por a, seu Man., murmurava ao meu ouvido. 

 

A nica coisa em que eu era mesmo excelente era canoagem, e essa no era o tipo de habilidade de heri 
que as pessoas esperavam do cara que venceu o Minotauro. 

 

Sabia que os campistas mais velhos e os conselheiros me observavam, tentando concluir quem era meu 
pai, mas no estava sendo fcil para eles. Eu no era to forte quanto os garotos de Ares, nem to bom 
em arco-e-flecha quanto os garotos de Apolo. No tinha a percia de Hefesto com metais ou - os deuses 
me livrem - o jeito de Dionsio com as vinhas. Luke me disse que eu podia ser filho de Hermes, uma 
espcie de pau para toda obra, mestre nada. Mas eu tinha a sensao de que ele s estava tentando me 
fazer sentir melhor. Na verdade, tambm no sabia o que fazer comigo. 

 

A despeito disso tudo, eu gostava do acampamento. Eu me acostumei com a neblina matinal sobre a 
praia, com o cheiro dos campos de morangos  tarde e at com os rudos esquisitos dos monstros nos 
bosques  noite. Eu jantava com o chal 11, empurrava parte da minha refeio para o fogo e tentava 
sentir alguma conexo com meu verdadeiro pai. No vinha nada. Apenas aquela sensao morna que eu 
sempre tive, a lembrana do seu sorriso. Tentei no pensar demais em minha me, mas ficava matutando: 
se deuses e monstros eram reais, se todas aquelas coisas mgicas eram possveis, certamente haveria 
algum jeito de salv-la, de traz-la de volta... 

 

Comecei a entender o ressentimento de Luke e como ele parecia magoado com o pai, Hermes. Certo, 
talvez os deuses tivessem tarefas importantes a fazer. Mas no poderiam fazer uma visita de vez 
enquando, trovejar ou alguma coisa? Dionsio podia fazer Diet Coke aparecer do nada. Por que meu pai, 
quem quer que fosse, no podia fazer aparecer um telefone? 

 

***** 

 

Quinta-feira  tarde, trs dias depois de chegar ao Acampamento Meio-Sangue, tive minha primeira aula 
de esgrima. Todos do chal 11 se reuniram na grande arena circular, onde Luke seria nosso instrutor. 

 

Comeamos com estocadas e cutiladas bsicas, usando bonecos recheados de palha com armaduras 
gregas. Acho que fui bem. Pelo menos entendi o que devia fazer e meus reflexos foram bons. 

 

O problema era que eu no conseguia encontrar uma lmina que se adaptasse s minhas mos. Eram 
pesadas demais, leves demais ou compridas demais. Luke fez o melhor que pde para me ajudar, mas 
concordou que nenhuma das lminas de prtica parecia funcionar para mim. 

 

Passamos adiante, para duelo em duplas. Luke anunciou que seria meu parceiro, j que era a minha 
primeira vez. 

 

#
- Boa sorte - disse um dos campistas. - Luke  o melhor espadachim dos ltimos trezentos anos. 

 

- Talvez ele pegue leve comigo - comentei. 

 

O campista riu, desdenhoso. 

 

Luke me mostrou as estocadas, paradas e defesas com escudo do jeito difcil. A cada golpe eu estava um 
pouco mais surrado e contundido. 

 

- Mantenha a guarda alta, Percy - dizia ele, e ento me atingia com fora nas costelas usando a parte 
chata da lmina. - No, no tanto assim! - Plaft! - Ataque! - Plaft! - Agora, recue! - Plaft! 

 

Quando ele pediu um tempo, eu estava empapado de suor. Todos correram para o isopor de bebidas. 
Luke despejou gua gelada em cima da prpria cabea, o que me pareceu uma tima idia. Fiz a mesma 
coisa. 

 

Na mesma hora me senti melhor. A fora percorreu novamente os meus braos. A espada no parecia 
mais to difcil de manejar. 

 

- O.k., todo mundo em circulo! - ordenou Luke. - Se Percy no se importar, vou fazer uma pequena 
demonstrao. 

 

Incrvel, pensei. Vamos todos assistir enquanto Percy  triturado. 

 

Os garotos de Hermes se reuniram em volta. Estavam todos contendo o riso. Imaginei que j tinham 
passado por aquilo e mal podiam esperar para ver Luke me usar como saco de pancadas. Ele disse a 
todos que ia mostrar uma tcnica para desarmar o oponente: como girar a lmina do inimigo com a parte 
chata da prpria espada para que ele no tenha alternativa a no ser deixar a arma cair. 

 

- Isso  difcil - enfatizou. - J usaram contra mim. No riam de Percy agora. A maioria dos espadachins 
precisa trabalhar anos para dominar essa tcnica. 

 

Ele demonstrou o movimento para mim em cmera lenta. Como previsto, a espada pulou da minha mo. 

 

- Agora, em tempo real - disse ele depois que recuperei minha arma. - Vamos fazer o movimento at que 
um de ns tenha sucesso. Pronto, Percy? 

 

Eu assenti, e Luke veio para cima de mim. De algum modo, eu o impedi de golpear o cabo da minha 
espada. Meus sentidos se aguaram. Vi seus ataques chegando. Eu rebati. Dei um passo  frente e tentei 
minha prpria estocada. Luke a revidou facilmente, mas notei uma mudana em seu rosto. Seus olhos se 
estreitaram, e ele comeou a me pressionar com mais fora. 

 

A espada estava pesando em minha mo. Mas equilibrada. Eu sabia que era apenas uma questo de 
segundos antes que Luke me derrubasse, ento decidi: Que se dane! 

 

Tentei a manobra para desarmar. 

 

Minha lmina atingiu a base da de Luke e eu a girei, pondo todo o meu peso em um golpe para baixo. 

 

Plem! 

 

A espada de Luke retiniu contra as paredes. A ponta da minha lmina estava a dois centmetros do seu 
peito desprotegido. 

 

Os outros campistas ficaram em silencio. 

 

Baixei a minha espada. 

 

- Ahn, sinto muito. 

 

#
Por um momento, Luke ficou perplexo demais para falar. 

 

- Sinto muito? - Seu rosto marcado abriu-se num sorriso. - Pelos deuses, Percy, voc sente muito? 

Mostre-me aquilo de novo! 

 

Eu no queria. A rpida exploso de energia manaca me abandonara completamente. Mas Luke insistiu. 

 

Dessa vez, no houve disputa. No momento em que nossas espadas entraram em contato, Luke atingiu o 
cabo da minha, que saiu deslizando pelo cho. 

 

Depois de uma longa pausa, algum do pblico disse: 

 

- Sorte de principiante? 

 

Luke enxugou o suor da testa. Ele me avaliou com um interesse totalmente novo. 

 

- Talvez - disse. - Mas fico pensando o que Percy poderia fazer com uma espada equilibrada... 

 

***** 

 

Sexta-feira  tarde. Eu estava sentado com Grover perto do lago, descansando de uma experincia quase 
fatal no muro de escalada. Grover subira at o topo como um bode montanhs, mas a lava por pouco no 
me atingiu. Minha camisa ficou com buracos fumegantes. Os plos dos meus antebraos ficaram 
chamuscados. 

 

Sentamos no per, olhando as niades que teciam cestos embaixo dgua, at que reuni coragem para 
pergunta a Grover como tinha sido a conversa com o sr. D. 

 

Seu rosto assumiu um tom doentio de amarelo. 

 

- tima - disse. - Legal mesmo. 

 

- Ento sua carreira ainda est nos trilhos? 

 

Ele me lanou um olhar nervoso. 

 

- Quron c-contou a voc que eu quero uma licena de buscador? 

 

- Bem... no. - Eu no tinha idia do que era uma licena de pesquisador, mas aquele no parecia ser o 
momento certo para perguntar. - Ele s me disse que voc tinha grandes planos, sabe... e que precisava 
de reconhecimento por completar uma tarefa. Ento voc conseguiu? 

 

Grover baixou os olhos para as niades. 

 

- O sr. D suspendeu o julgamento. Disse que ainda no fracassei nem tive sucesso com voc, portanto 
nossos destinos ainda esto ligados. Se voc ganhar uma misso, eu for junto para proteg-lo e ns dois 
voltarmos vivos, ento talvez ele considere a tarefa concluda. 

 

Meu nimo melhorou. 

 

- Bem, isso no  mau, certo? 

 

- B--! Ele poderia igualmente ter me transferido para o servio de limpeza de estbulos. As chances 
de voc ganhar uma misso... e mesmo se ganhasse, por que haveria de querer que eu fosse junto? 

 

-  claro que eu ia querer voc junto! 

 

Grover continuou olhando melancolicamente para a gua. 

 

- Tecer cestas... Deve ser bom ter uma habilidade til. 

#
 

Tentei convenc-lo de que ele tinha uma poro de talentos, mas isso s o fez parecer ainda mais infeliz. 
Conversamos sobre canoagem e esgrima por algum tempo, e ento debatemos os prs e os contras dos 
diferentes deuses. Por fim, perguntei-lhe sobre os quatro chals vazios. 

 

- O nmero 8, o prateado, pertence a rtemis - disse ele. - Ela jurou ser virgem para sempre. Portanto,  
claro, sem filhos. O chal  honorrio, entende? Se ela no tivesse um ficaria zangada. 

 

- Sim, certo. Mas os outros trs, os que ficam no fim. So os Trs Grandes? 

 

Grover ficou tenso. Estvamos chegando perto de um assunto delicado. 

 

- No. Um deles, o de nmero 2,  de Hera - disse ele. -  outra coisa honorria. Ela  a deusa do 
casamento, portanto  claro que no iria sair por a tendo casos com mortais. Isso  servio do marido 
dela. Quando falamos dos Trs Grandes, queremos dizer os trs irmos poderosos, os filhos de Cronos. 

 

- Zeus, Poseidon e Hades. 

 

- Certo. Voc sabe. Depois da grande batalha com os Tits, eles tomaram o mundo do pai e tiraram a 
sorte para decidir quem ficava com o qu. 

 

- Zeus ficou com o cu - lembrei. - Poseidon, com o mar, Hades, com o Mundo Inferior. 

 

- A-h. 

 

- Mas Hades no tem chal aqui. 

 

- No. Tambm no tem um trono no Olimpo. Ele, bem, fica na dele l embaixo no Mundo Inferior. Se 
tivesse um chal aqui... - Grover estremeceu. - Bem, isso no seria agradvel. Vamos deixar assim. 

 

- Mas Zeus e Poseidon... os dois tinham zilhes de filhos nos mitos. Por que os chals deles esto vazios? 

Grover se balanou de um casco para outro, pouco  vontade. 

 

- H cerca de sessenta anos, depois da Segunda Guerra Mundial, os Trs Grandes combinaram que no 
iriam procriar mais nenhum heri. Os filhos deles eram poderosos demais. Estavam interferindo muito no 
curso dos eventos humanos, causando muitas carnificinas. A Segunda Guerra Mundial, sabe, foi 
basicamente uma luta entre os filhos de Zeus e Poseidon, de um lado, e os filhos de Hades do outro. O 
lado vencedor, Zeus e Poseidon, obrigou Hades a fazer um juramento junto com eles: nada de casos com 
mulheres mortais. Todos juraram sobre o rio Styx. 

 

Um trovo. 

 

- Esse  o juramento mais srio que se pode fazer - disse eu. 

 

Grover assentiu. 

 

- E os irmos mantiveram a palavra, sem filhos? 

 

O rosto de Grover se anuviou. 

 

- H dezessete anos, Zeus retornou aos maus hbitos. Havia uma estrela de tev com um penteado alto e 
armado, estilo anos 80... Ele simplesmente no conseguiu evitar. Quando o beb nasceu, uma menininha 
chamada Thalia... Bem, o rio Styx  srio no que diz respeito a promessas. Zeus se safou com facilidade 
porque  imortal, mas causou um destino terrvel para sua filha. 

 

- Mas isso no  justo! No foi culpa da menininha. 

 

Grover hesitou. 

 

#
- Percy, os filhos dos Trs Grandes so mais poderosos que os outros meios-sangues. Eles tm uma aura 
forte, um odor que atrai monstros. Quando Hades descobriu a respeito da criana, no ficou muito feliz 
com o fato de Zeus ter quebrado o juramento. Hades libertou os piores monstros do Trtaro para 
atormentar Thalia. Um stiro foi designado para ser guardio dela quando completou doze anos, mas no 
havia nada que pudesse fazer. Ele tentou escolt-la para c com outros meios-sangues com quem ela 
fizera amizade. Eles quase conseguiram. Chegaram at o topo da colina. 

 

Ele apontou para o outro lado do vale, para o pinheiro onde eu enfrentara o Minotauro. 

 

- As trs Benevolentes estavam atrs deles com um bando de ces infernais. Estavam quase sendo 
alcabados quando Thalia disse a seu stiro que levasse os outros dois meios-sangues para um lugar 
seguro enquanto ela tentava conter os monstros. Estava ferida e cansada, e no desejava viver como um 
animal caado. O stiro no queria deix-la, mas no conseguiu faz-la mudar de idia e tinha de proteger 
os outros. Assim, Thalia defendeu-se no final sozinha, no topo daquela colina. Quando ela morreu, Zeus 
se apiedou dela. Transformou-a naquele pinheiro. Seu esprito ainda ajuda a proteger as fronteiras do 
vale.  por isso que a colina  chamada Colina Meio-Sangue. 

 

Olhei para o pinheiro distante. 

 

A histria me fez sentir oco, e tambm culpado. Uma menina da minha idade se sacrificara para salvar os 
amigos. Enfrentara todo um exrcito de monstros. Perto disso, minha vitria sobre o Minotauro no parecia 
grande coisa. Perguntei a mim mesmo se agindo diferente poderia ter salvado minha me. 

 

- Grover, os heris realmente partiram em misses para o Mundo Inferior? 

 

- Algumas vezes - disse ele. - Orfeu. Hrcules. Houdini. 

 

- E chegaram a trazer algum de volta da morte? 

 

- No. Nunca. Orfeu chegou perto.... Percy, voc no est pesando mesmo em... 

 

- No - menti. - Estava s imaginando. Ento... um stiro  sempre designado para guardar um semideus? 

 

Grover me estudou cauteloso. Eu no o tinha convencido de que desistira da idia do Mundo Inferior. 

 

- Nem sempre. Vamos disfarados para uma poro de escolas. Tentamos farejas os meios-sangues que 
tenham atributos de grandes heris. Se encontramos um com uma aura muito forte, como uma criana dos 
Trs Grandes, alertamos Quron. Ele tenta ficar de olho neles, j que podem causar problemas realmente 
enormes. 

 

- E voc me encontrou. Quron disse que voc achava que eu poderia ser algo especial. 

 

Grover soou como se eu acabasse de atra-lo para uma armadilha. 

 

- Eu no... Ora, escute, no pense assim. Se voc fosse... voc sabe... jamais lhe permitiriam uma misso, 
e eu jamais teria a minha licena. Voc provavelmente  filho de Hermes. Ou talvez at de um dos deuses 
menores, como Nmesis, a deusa da vingana. No se preocupe, ta? 

 

Percebi que ele estava tentando tranqilizar mais a si mesmo que a mim. 

 

***** 

 

Naquela noite aps o jantar havia muito mais agitao que de costume. 

 

Finalmente, era hora da captura da bandeira. 

 

Quando os pratos foram levados embora, a trombeta de caramujo soou e todos nos postamos junto s 
nossas mesas. 

 

#
Os campistas gritaram e aplaudiram quando Annabeth e dois de seus irmos entraram correndo no 
pavilho, carregando um estandarte de seda. Tinha cerca de trs metros de comprimento, reluzindo em 
cinza, com a pintura de uma coruja em cima de uma oliveira. Do lado oposto do pavilho, Clarisse e as 
amigas entraram correndo com outro estandarte, de tamanho idntico, mas vermelho-brilhante, com a 
pintura de uma lana sanguinolenta e uma cabea de javali. 

 

Virei-me para Luke e gritei por cima do barulho: 

 

- Aquelas so as bandeiras? 

 

- Sim. 

 

- Ares e Atena sempre lideram as equipes? 

 

- Nem sempre - disse ele. - Mas freqentemente. 

 

- Ento, se um outro chal capturar uma delas, o que vocs fazem, pintam de novo a bandeira? 

 

Ele sorriu ironicamente. 

 

- Voc vai ver. Primeiro temos de conseguir uma. 

 

- De que lado ns estamos? 

 

Ele me deu uma olhada astuta, como se soubesse algo que eu no sabia. A cicatriz em seu rosto o fazia 
parecer quase mau  luz das tochas. 

 

- Fizemos uma aliana temporria com Atena. Esta noite, tiraremos a bandeira de Ares. E voc vai ajudar. 

 

As equipes foram anunciadas. Atena tinha feito uma aliana com Apolo e Hermes, os dois chals maiores. 
Aparentemente, haviam trocados privilgios - horrios de chuveiro, escala de deveres, as melhores 
posies nas atividades - a fim de ganhar apoio. 

 

Ares tinha se aliado a todos os outros: Dionisio, Demeter, Afrodite e Hefesto. Pelo que eu tinha visto, os 
campistas de Dionisio eram na verdade bons atletas, mas havia apenas dois deles. Os de Demeter tinham 
ligeira vantagem em habilidades na natureza e atividades ao ar livre, mas no eram muito agressivos. 
Como os filhos e filhas de Afrodite eu no estava muito preocupado. Eles, na maioria das vezes, 
esperavam sentados todas as atividades acabarem e iam conferir seus reflexos no lago, penteavam os 
cabelos e fofocavam. Os de Hefesto no eram bonitos, e havia apenas quatro deles, mas eram grandes e 
corpulentos de tanto trabalhar na oficina de metais o dia inteiro. Poderiam ser um problema. Com isso,  
claro, restava o chal de Ares: uma dzia dos maiores, mais feios e mais perversos garotos e garotas de 
Long Island, ou de qualquer outro lugar no planeta. 

 

Quron bateu o casco no mrmore. 

 

- Heris! - anunciou. - Vocs conhecem as regras. O riacho  o limite. A floresta inteira est valendo. 
Todos os itens mgicos so permitidos. A bandeira deve ser ostentada de modo destacado e no deve ter 
mais de dois guardas. Os prisioneiros podem ser desarmados, mas no podem ser amarrados ou 
amordaados. No  permitido matar nem aleijar. Servirei de juiz e mdico do campo de batalha. Armem-
se! 

 

Ele estendeu as mos e as mesas subitamente se cobriram de equipamentos: capacetes, espadas de 
bronze, lanas, escudos de couro de boi recobertos de metal. 

 

- Uau! - falei. - Temos mesmo que usar isso? 

 

Luke olhou para mim como se eu estivesse louco. 

 

- A no ser que voc queira ser espetado pelos seus amigos do chal. Aqui... Quron achou que estes 
devem lhe servir. Voc ficar na patrulha da fronteira. 

#
 

Meu escudo era do tamanho de uma tabela de basquete da NBA, com um grande caduceu no meio. 
Pesava cerca de um milho de quilos. Eu poderia muito bem us-lo como prancha de snowboard, mas 
tinha esperanas de que ningum tivesse expectativas reais de que eu corresse com aquilo. Meu 
capacete, como todos os capacetes do lado de Atena, tinha um penacho de crina azul no topo. Ares e 
seus aliados tinham penachos vermelhos. 

 

Annabeth gritou: 

 

- Equipe azul, para frente! 

 

Aplaudimos e agitamos nossas espadas, e a seguimos para baixo pelo caminho para os bosques do sul. A 
equipe vermelha gritou nos provocando enquanto seguia em direo ao norte. 

 

Consegui alcanar Annabeth sem tropear em meu prprio equipamento. 

 

- Ei! 

 

Ela continuou marchando. 

 

- Ento, qual  o plano? - perguntei. - Tem alguns itens mgicos para me emprestar? 

 

A mo dela se desviou para o bolso, como se estivesse com medo de que eu roubasse alguma coisa. 

 

- S digo para ter cuidado com a lana de Clarisse. Voc no vai querer que aquela coisa toque em voc. 
Fora isso, no se preocupe. Vamos tomar a bandeira de Ares. Luke determinou sua tarefa? 

 

- Patrulha de fronteira, seja l o que isso for. 

 

-  fcil. Fique junto ao riacho, mantenha os vermelhos longe. Deixe o resto comigo. Atena sempre tem um 
plano. 

 

Ela seguiu adiante, me deixando na poeira. 

 

- Certo - murmurei. - Fico contente por me querer na sua equipe. 

 

Era uma noite quente e mida, grudenta. Os bosques estavam escuros, com vaga-lumes aparecendo e 
sumindo. Annabeth me designou para um pequeno regato que rumorejava por cima de algumas pedras, 
depois ela e o restante da equipe se espalharam entre as rvores. 

 

Ali sozinho, com meu grande capacete de penacho azul e meu enorme escudo, me senti um idiota. A 
espada de bronze, como todas as espadas que eu experimentara at ento, parecia mal equilibrada. O 
cabo de couro pesava em minha mo como uma bola de boliche. 

 

No havia como algum me atacar de verdade, no ? Quer dizer, o Olimpo tinha de ter responsabilidade, 
certo? 

 

Longe, a trombeta de caramujo soou. Ouvi brados e gritos nos bosques, metais chocando-se, gente 
lutando. Um aliado de Apolo de penacho azul passou por mim correndo como um cervo, pulou o regato e 
desapareceu em territrio inimigo. 

 

Essa  boa, pensei. Vou ficar de fora da diverso, como sempre. 

 

Ento ouvi um som que me deu um calafrio na espinha, um rosnado canino grave em algum lugar por 
perto. 

 

Ergui o escudo instintivamente; tinha a sensao de que alguma coisa estava me espreitando. 

 

Ento o rosnado parou. Senti a presena recuando. 

 

#
Do outro lado do regato, a vegetao rasteira explodiu. Cinco guerreiros de Ares saram gritando e 
berrando da escurido. 

 

- Acabem com o Man! - berrou Clarisse. 

 

Seus olhos feios de porco faiscaram nas fendas do capacete. Ela brandiu uma lana de um metro e meio 
de comprimento, a ponta de metal farpado lanando chispas de luz vermelha. Seus irmos s tinham 
espadas de bronze comuns - no que isso me fizesse sentir melhor. 

 

Eles atacaram cruzando o regato. No havia ajuda  vista. Eu podia correr. Ou podia me defender contra a 
metade do chal de Ares. 

 

Consegui me esquivar do golpe do primeiro garoto, mas aqueles caras no eram estpidos como o 
Minotauro. Eles me cercaram, e Clarisse investiu contra mim com sua lana. Meu escudo desviou a ponta, 
mas senti um formigamento doloroso em todo o corpo. Meus cabelos se eriaram. O brao que segurava o 
escudo ficou dormente e o ar queimou. 

 

Eletricidade. Aquela lana estpida era eltrica. Eu recuei. 

 

Outro cara de Ares me golpeou no peito com a parte mais grossa da espada e eu ca. 

 

Eles podiam ter me chutado at eu virar gelia, mas estavam muito ocupados rindo. 

 

- Faam um corte no cabelo dele - disse Clarisse. - Agarrem o cabelo dele. 

 

Consegui me pr de p. Ergui a espada, mas Clarisse a jogou violentamente para o lado com sua lana, e 
fagulhas voaram. Agora meus braos estavam dormentes. 

 

- Ah, uau! - disse Clarisse. - Estou com medo desse cara. Realmente apavorada. 

 

- A bandeira est para l - disse a ela. Queria parecer zangado, mas acho que no consegui. 

 

-  - disse um dos irmos dela. - Mas, veja bem, ns no nos importamos com a bandeira. A gente se 
importa com um cara que fez o pessoal do nosso chal de idiota. 

 

- Vocs no precisam de mim para isso. - Provavelmente no foi a coisa mais esperta a dizer. 

 

Dois deles vieram para cima de mim. Recuei em direo ao regato, tentei erguer meu escudo, mas 
Clarisse era muito rpida. Sua lana me pegou bem nas costelas. Se eu no estivesse usando uma 
armadura blindada, teria virado churrasco no espeto. Do jeito que foi, a ponta eltrica quase fez meus 
dentes saltarem da boca com o choque. Um de seus colegas de chal desferiu a espada contra o meu 
brao, fazendo um bom talho. 

 

Ver meu prprio sangue me deixou zonzo - quente e frio ao mesmo tempo. 

 

- Sem aleijar - consegui dizer. 

 

- Oops - disse o cara. - Acho que perdi meu direito  sobremesa. 

 

Ele me empurrou para o regato e eu ca espalhando gua. Todos riram. Calculei que assim que 
acabassem de se divertir eu iria morrer. Mas ento algo aconteceu. A gua pareceu despertar meus 
sentidos, como se eu tivesse acabado de comer um saco duplo das jujubas da minha me. 

 

Clarisse e seus companheiros de chal entraram no regato para me pegar, mas eu me pus de p para 
receb-los. Sabia o que fazer. Desferi a parte chata da minha espada contra a cabea do primeiro cara e 
arranquei seu capacete. Atingi-o com tanta fora que pude ver seus olhos tremendo enquanto ele 
desmoronava na gua. 

 

O Feio Nmero 2 e o Feio Nmero 3 vieram para cima de mim. Golpeei um no rosto com o escudo e usei 
a espada para decepar o penacho da crina do outro. Os dois recuaram depressa. O Feio Nmero 4 no 

#
pareceu muito ansioso para atacar, mas Clarisse continuava vindo, a ponta da lana crepitando de 
eletricidade. Assim que ela investiu, peguei a vara da lana entre a borda do meu escudo e a minha 
espada, e a parti como se fosse um graveto. 

 

- Ah! - berrou ela. - Seu idiota! Seu verme com bafo de cadver! 

 

Ela provavelmente ainda teia dito coisas piores, mas eu a golpeei entre os olhos com a base da espada e 
a joguei cambaleando de costas para fora do regato. 

 

Ento ouvi gritos exultantes, e vi Luke correndo em direo  linha limite com o estandarte da equipe 
vermelha erguido alto. Vinha flanqueado por alguns garotos de Hermes, cobrindo a sua retirada, e alguns 
Apolos atrs dele, combatendo os garotos de Hefesto. O pessoal de Ares se levantou e Clarisse 
resmungou uma praga estupefata. 

 

- Uma armadilha! - berrou. - Foi uma armadilha. 

 

Eles saram cambaleando atrs de Luke, mas era tarde demais. Todo mundo convergiu para o regato 
enquanto Luke atravessava para territrio amigo. Nosso lado explodiu em vivas. O estandarte vermelho 
tremulou e ficou prateado. O javali e a lana foram substitudos por um enorme caduceu, o smbolo do 
chal 11. Todos da equipe azul ergueram Luke nos ombros e comearam a carreg-lo. Quron saiu a meio 
galope do bosque e soprou a trombeta de caramujo. 

 

O jogo terminara. Tnhamos vencidos. 

 

Eu estava prestes a me juntar  comemorao quando a voz de Annabeth, bem a meu lado no regato, 
disse: 

 

- Nada mau, heri. 

 

Eu olhei, mas ela no estava l. 

 

- Onde diabo aprendeu a lutar assim? - perguntou ela. O ar tremulou e Annabeth se materializou, 
segurando um bon de beisebol dos Yankees como se tivesse acabado de tir-lo da cabea. 

 

Senti que estava ficando zangado. No fiquei nem mesmo perturbado com o fato de ela estar invisvel um 
segundo antes. 

 

- Voc armou isso para mim - disse eu. - Voc me ps aqui porque sabia que Clarisse viria atrs de mim, 
enquanto voc mandava Luke dar a volta pelos flancos. J tinha tudo preparado. 

 

Annabeth encolheu os ombros. 

 

- Eu disse para voc. Atena sempre, sempre tem um plano. 

 

- Um plano para que eu fosse reduzido a p. 

 

- Eu vim o mais rpido que pude. Estava pronta para entrar na briga, mas... - Ela encolheu os ombros. - 
Voc no precisava de ajuda. 

 

Ento ela reparou no brao ferido: 

 

- Como arranjou isso? 

 

- Corte de espada - disse eu. - O que voc acha? 

 

- No. Era um corte de espada. Olhe s. 

 

O sangue se fora. No lugar do rasgo enorme havia uma longa cicatriz branca, e mesmo estava 
desaparecendo. Enquanto eu olhava, ela se transformou em uma cicatriz pequena e sumiu. 

 

#
- Eu... eu no entendo - disse. 

 

Annabeth raciocinava com empenho. Eu quase podia ver as engrenagens girando. Ela baixou os olhos 
para os meus ps, depois para a lana quebrada de Clarisse e disse: 

 

- Saia da gua, Percy. 

 

- O que... 

 

- Apenas saia. 

 

 Sa do regato e logo me senti extremamente cansado. Meus braos comearam a ficar dormentes de 
novo. Minha descarga de adrenalina me abandonou. Quase ca, mas Annabeth me segurou. 

 

- Oh, Styx - praguejou ela. - Isso no  bom. Eu no queria... Eu pensei que podia ser Zeus... 

 

Antes que eu pudesse perguntar o que ela queria dizer, ouvi o rosnado canino de novo, porem muito mais 
perto. Um uivo cortou a floresta. 

 

A comemorao dos campistas cessou imediatamente. Quron bradou alguma coisa em grego antigo que 
eu, s mais tarde me daria conta, tinha entendido perfeitamente: 

 

- Preparem-se! Meu arco! 

 

Annabeth sacou a espada. 

 

Sobre as pedras, logo acima de ns, havia um co preto de tamanho de um rinoceronte, com olhos 
vermelhos como lava e presas que pareciam punhais. 

 

Estava olhando diretamente para mim. 

 

Ningum se moveu exceto Annabeth, que gritou: 

 

- Percy, corra! 

 

Ela tentou se interpor entre mim e o co, mas o bicho foi rpido demais. Pulou por cima dela - uma enorme 
sombra com dentes - e, assim que me atingiu, quando cambaleei para trs e senti as garras afiadas como 
navalhas rasgando minha armadura, houve uma cascata de sons de pancadas, como quarenta pedaos 
de papel sendo rasgados um aps o outro. Um amontoado de flechas brotou no pescoo do co. O 
monstro caiu morto aos meus ps. 

 

Por algum milagre eu ainda estava vivo. No quis olhar embaixo das runas da minha armadura 
esfrangalhada. Meu peito parecia morno e molhado, e eu sabia que estava gravemente ferido. Mais um 
segundo e o monstro teria me transformado em quarenta e cinco quilos de carne fatiada. 

 

- Di immortales! - disse Annabeth. - Aquilo  um co infernal dos Campos de Punio. Eles no... eles no 
deviam... 

 

- Algum o convocou - disse Quron. - Algum de dentro do acampamento. 

 

Luke se aproximou, o estandarte esquecido em suas mos, o momento de glria acabado. 

 

Clarisse berrou: 

 

-  tudo culpa do Percy! Percy o convocou! 

 

- Fique quieta, criana - ordenou-lhe Quron. 

 

Ns assistimos enquanto o co infernal se dissolvia em sombra e era absorvido pela terra at 
desaparecer. 

#
 

- Voc est ferido - disse-me Annabeth. - Rpido, Percy, entre na gua. 

 

- Eu estou bem. 

 

- No, voc no est - disse ela. - Quron, veja isto. 

 

Eu estava cansado demais para discutir. Voltei para dentro do regato, o acampamento inteiro reunido  
minha volta. 

 

No mesmo instante me senti melhor. Pude perceber os cortes em meu peito se fechando. Alguns dos 
campistas sufocaram um grito. 

 

- Olhem, eu... eu no sei por qu - falei, tentando me desculpar. - Sinto muito. 

 

Mas eles no estavam olhando minhas feridas cicatrizarem. Olhavam para algo acima da minha cabea. 

 

- Percy - disse Annabeth apontando. - Ahn... 

 

Quando olhei para cima, o sinal j estava desaparecendo, mas ainda pude distinguir o holograma de luz 
verde, girando e cintilando. Uma lana de trs pontas: um tridente. 

 

- Seu pai - murmurou Annabeth. - Isso realmente no  bom. 

 

- Est determinado - anunciou Quron. 

 

Por toda a minha volta, os campistas comearam a se ajoelhar, at mesmo o chal de Ares, embora no 
parecessem muito felizes com isso. 

 

- Meu pai? - perguntei, completamente perplexo. 

 

- Poseidon - disse Quron. - Senhor dos Terremotos. Portador das Tempestades. Pai dos Cavalos. Salve, 
Perseu Jackson, Filho do Deus do Mar. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
NOVE  Oferecem-me uma misso. 

 

 

Na manh seguinte, Quron me mudou para o chal 3. 

 

No tive de compartilh-lo com ningum. Tinha espao  vontade para todas as minhas coisas: o chifre do 
Minotauro, um conjunto de roupas de reserva e uma sacola de artigos de toalete. Ia me sentar  minha 
prpria mesa de jantar, escolhia todas as minhas atividades, determinava o .apagar das luzes. sempre 
que tinha vontade e no ouvia mais ningum. 

 

E me sentia totalmente infeliz. 

 

Bem quando comeava a me sentir aceito, a sentir que tinha um lar no chal 11 e poderia ser um garoto 
normal - ou to normal quanto  possvel quando se  um meio-sangue -, fui separado como se tivesse 
alguma doena rara. 

 

Ningum mencionou o co infernal, mas tive a sensao de que estavam todos falando sobre isso pelas 
minhas costas. O ataque assustara todo mundo. Ele mandou duas mensagens: a primeira, que eu era filho 
do Deus do mar; a segunda, que os monstros no mediriam esforos para me matar. Podiam ate invadir 
um acampamento que sempre foi considerado seguro. 

 

Os outros campistas mantinham distncia de mim na medida do possvel. O chal 11 estava agitado 
demais para receber aula de esgrima junto comigo depois do que eu fizera com o pessoal de Ares no 
bosque, e assim minhas aulas com Luke passaram a ser particulares. Ele me exigia mais do que nunca, e 
no tinha medo de me machucar. 

 

- Voc vai precisar de todo o treinamento que puder obter - prometeu, enquanto trabalhvamos com 
espadas e tochas flamejantes. - Agora vamos tentar de novo aquele golpe de decapitar vboras. Mais 
cinqenta repeties. 

 

Annabeth ainda me ensinava grego pela manh, mas aprecia distrada. A cada vez que eu dizia alguma 
coisa, ela fechava a cara, como se eu tivesse acabado de lhe dar um soco. 

 

Depois das aulas, ela ia embora resmungando consigo mesma: 

 

- Misso... Poseidon?... Grande porcaria... Preciso de um plano... 

 

At Clarisse mantinha distncia, embora os olhares venenosos deixassem claro que queria me matar por 
ter quebrado sua lana mgica. Queria que ela simplesmente gritasse, me desse um soco ou coisa assim. 
Era melhor me meter em brigar todos os dias a ser ignorado. 

 

***** 

 

Soube que algum no acampamento andava ressentido comigo, porque uma noite entrei no meu chal e 
achei um jornal horrvel jogado porta adentro, um exemplar do New York Daily News, aberto na pgina 
Metrpole. Levei quase uma hora para ler a matria, porque quanto mais ficava zangado mais as palavras 
pareciam flutuar na pgina. 

 

MENINO E SUA ME AINDA DESAPARECIDOS DEPOIS DE ESTRANHO ACIDENTE DE CARRO 

Por Ellen Smythe 

 

Sally Jackson e seu filho Percy ainda no foram encontrados uma semana depois de seu misterioso 
desaparecimento. O carro da famlia, um Camaro 1978, totalmente queimado, foi descoberto no ltimo 
sbado em uma estrada ao norte de Long Island com o teto arrancado e o eixo dianteiro quebrado. O 
carro havia capotado e derrapado por vrias centenas de metros antes de explodir. 

Me e filho tinham ido passar um fim de semana em Montauk, mas saram s pressas, sob circunstncias 
misteriosas. Pequenos sinais de sangue foram encontrados no carro e perto da cena do desastre, mas 
no havia outros indcios dos Jackson desaparecidos. Residentes da rea rural declararam no ter visto 
nada de inusitado por volta da hora do acidente. 

#
O marido da sra. Jackson, Gabe Ugliano, alega que o enteado, Percy Jackson,  uma criana 
problemtica que foi expulsa de inmeros internatos e demonstrou tendncias violentas no passado. 

A polcia no diz se o filho Percy  suspeito do desaparecimento da me, porm no descarta a hiptese 
de crime. Abaixo esto fotografias recentes de Sally Jackson e Percy. A polcia solicita a qualquer pessoa 
que tenha alguma informao que ligue gratuitamente para o disque-denncia de crimes, a seguir. 

 

O nmero do telefone estava circulado com marcador preto. 

 

Amarrotei o jornal e joguei fora, depois me joguei em meu beliche no meio do chal vazio. 

 

.Apagar das luzes., disse para mim mesmo, arrasado. 

 

***** 

 

Naquela noite, tive meu pior pesadelo at ento. 

 

Eu corria pela praia no meio de uma tempestade. Dessa vez, havia uma cidade atrs de mim. No Nova 
York. O panorama era diferente: os edifcios eram mais afastados uns dos outros, havia palmeiras e 
colinas baixas a distncia. 

 

Cem metros adiante, na arrebentao, dois homens estavam brigando. Pareciam lutadores de tev, 
musculosos, com barbas e cabelos compridos. Ambos usavam tnicas gregas esvoaantes, uma 
guarnecida de azul, a outra, de verde. Atracavam-se, lutavam, chutavam e davam cabeadas, e a cada 
vez que tocavam, caam raios, o cu escurecia e ventos sopravam. 

 

Eu precisava det-los. No sabia por qu. Mas, quanto mais eu corria, mais o vento me empurrava de 
volta, at eu correr sem sair do lugar, os calcanhares se enterrando inultimente na areia. 

 

Por cima do rugido da tempestade, pude ouvir o de tnica azul gritando para o de tnica verde: Devolva! 
Devolva! Era como se uma criana do jardim-de-infncia estivesse brigando por causa de um brinquedo. 

 

As ondas ficaram maiores, arrebentando na praia e me borrifando com sal. 

 

Eu gritei: Parem com isso! Parem de brigar! 

 

O cho estremeceu. Risadas vieram de algum lugar embaixo da terra, e uma voz profunda e maligna me 
gelou o sangue. 

 

Venha para baixo, pequeno heri, a voz sussurrou. Venha para baixo! 

 

A areia se abriu embaixo de mim numa fenda que ia direto ao centro da Terra. Meus ps escorregaram e 
as trevas me engoliram. 

 

Acordei, certo de que estava caindo. 

 

Ainda estava na cama, no chal 3. Meu corpo me dizia que j era manh, mas estava escuro l fora e o 
trovo ribombava pelas colinas. Uma tempestade estava se formando. Isso eu no havia sonhado. 

 

Ouvi um som oco  porta, o som de um casco batendo na soleira. 

 

- Entre. 

 

Grover trotou para dentro, parecendo preocupado. 

 

- O sr. D quer v-lo. 

 

- Por qu? 

 

- Ele quer matar... quer dizer,  melhor deixar que ele conte. 

 

#
 

Eu me vesti, agitado, e fui, certo de que estava em uma grande encrenca. 

 

Havia dias eu estava esperando uma convocao para a Casa Grande. Agora que tinha sido declarado 
filho de Poseidon, um dos Trs Grandes deuses que no deveriam ter filhos, imaginei que o simples fato 
de estar vivo j fosse um crime. Os outros deuses provavelmente haviam debatido sobre o melhor jeito de 
me punir por existir, e agora o sr. D estava pronto para dar seu veredicto. 

 

Acima do estreito de Long Island, o cu parecia uma sopa de tinta em ponto de fervura. Uma cortina 
brumosa de chuva vinha em nossa direo. Perguntei a Grover se precisvamos de um guarda-chuva. 

 

- No - disse ele. - Aqui nunca chove, ano ser que queiramos. 

 

Apontei a tempestade. 

 

- Ento o que diabo  aquilo? 

 

Ele olhou, preocupado, para o cu. 

 

- Vai passar em volta de ns. O mau tempo sempre faz isso. 

 

Percebi que ele estava certo. Fazia uma semana que estava ali e nunca vira o tempo fechado. As poucas 
nuvens de chuva que tinha notado contornavam os limites do vale. 

 

Mas aquela tempestade... aquela era imensa. 

 

Na arena de vlei as crianas do chal de Apolo jogavam uma partida matinal contra os stiros. Os 
gmeos de Dionisio caminhavam em volta dos campos de morangos fazendo as plantas crescerem. Todos 
estavam cuidando de suas tarefas normais, mas pareciam tensos. Estavam de olho na tempestade. 

 

Grover e eu caminhamos at a varanda da frente da Casa Grande. Dionsio estava sentado  mesa de 
pinoche com sua Diet Coke, usando a camisa havaiana com listras de tigre, exatamente como no meu 
primeiro dia. Quron estava do outro lado da mesa em sua falsa cadeira de rodas. Jogavam contra 
oponentes invisveis - duas mos de cartas flutuavam no ar. 

 

- Bem, bem - disse o sr. D sem erguer os olhos. - Nossa pequena celebridade. 

 

Eu aguardei. 

 

- Chegue mais perto - disse o sr. D. - E no espere que eu me prostre diante de voc, mortal, s porque o 
velho Barbas de Craca  seu pai. 

 

Uma rede de raios brilhou atravs das nuvens. Um trovo fez tremerem as janelas da casa. 

 

- Blablabl - disse Dionisio. 

 

Quron fingiu interesse em suas cartas de pinoche. Grover se encolheu junto ao gradil, os cascos batendo 
para a frente e para trs. 

 

- Se as coisas fossem do meu jeito - disse Dionisio -, eu faria suas molculas irromperem em chamas. Ns 
varreramos as cinzas e estaramos livres de um monte de problemas. Mas Quron parece achar que isso 
seria contra a minha misso neste acampamento maldito: manter vocs, moleques, a salvo do mal. 

 

- Combusto espontnea  uma forma de mal, sr. D - interveio Quron. 

 

- Bobagem - disse Dionisio. - O menino no sentiria nada. No entanto, eu concordei em me conter. Estou 
pensando em transformar voc em um golfinho em vez disso, e mand-lo de volta para seu pai. 

 

- Sr. D... - advertiu Quron. 

 

#
- Ora, est bem - cedeu Dionisio. - H mais uma opo. Mas  uma insensatez descomunal. - Dionsio 
levantou-se, e as cartas dos jogadores invisveis caram sobre a mesa. - Estou indo ao Olimpo para uma 
reunio de emergncia. Se o menino ainda estiver aqui quando eu voltar, vou transform-lo em um nariz-
de-garrafa do Atlntico. Entendeu? E Perseu Jackson, se voc for mesmo esperto, ver que se trata de 
uma escolha muito mais sensata do que aquela que Quron imagina. 

 

Dionsio pegou uma carta, torceu-a e ela se transformou em um retngulo de plstico. Carto de crdito? 

No. Um passe de segurana. 

 

Ele estalou os dedos. 

 

O ar pareceu se dobrar e se curvar em volta dele. Ele transformou-se em um holograma, depois em um 
vento e depois desapareceu, deixando para trs apenas o cheiro de uvas recm-prensadas. 

 

Quron sorriu para mim, mas parecia cansado e tenso. 

 

- Sente-se, Percy, por favor. Grover tambm. 

 

Ns obedecemos. 

 

Quron ps suas cartas na mesa. A mo vencedora que ele no chegara a usar. 

 

- Diga-me, Percy - disse ele. - O que voc fez com o co infernal? 

 

S de ouvir o nome, eu estremeci. 

 

Quron provavelmente queria que eu dissesse: Ora, aquilo no foi nada. Costumo comer ces infernais no 
caf-da-manh. Mas eu no estava com vontade de mentir. 

 

- Ele me apavorou - falei. - Se vocs no o tivessem acertado, eu estaria morto. 

 

- Voc vai enfrentar coisas piores, Percy. Muito piores, antes de terminar. 

 

- Terminar... o qu? 

 

- Sua misso,  claro. Voc vai aceit-la? 

 

Dei uma olhada para Grover, que estava cruzando os dedos. 

 

- Ahn, senhor, ainda no me contou qual ser. 

 

Quron fez uma careta. 

 

- Bem, essa  a parte difcil, os detalhes. 

 

Um trovo irrompeu pelo vale. As nuvens de tempestade haviam agora chegado ao limite da praia. At 
onde eu podia ver, o cu e o mar estavam fervendo juntos. 

 

- Poseidon e Zeus - disse eu. - Eles esto lutando por algo valioso... algo que foi roubado, no esto? 

 

Quron e Grover trocaram olhares. 

 

- Como voc sabe disso? 

 

Senti o rosto quente. Desejei no ter aberto meu boco. 

 

- Desde o Natal o tempo est esquisito, como se o mar e o cu estivessem brigando. Ento falei com 
Annabeth, e ela tinha ouvido alguma coisa sobre um roubo. E ... tambm andei sonhando umas coisas. 

 

- Eu sabia - disse Grover. 

#
- Quieto, stiro - ordenou Quron. 

 

- Mas essa  a misso dele! - Os olhos de Grover estavam brilhantes de excitao. - Tem de ser! 

 

- S o Orculo pode determinar. - Quron alisou a barba eriada. - No entanto, Percy, voc est correto. 
Seu pai e Zeus esto tendo sua pior disputa em sculos. Esto lutando por uma coisa valiosa que foi 
roubada. Para ser preciso: um relmpago. 

 

Eu ri nervoso. 

 

- Um o qu? 

 

- No brinque com isso - advertiu Quron. - No estou falando de um ziguezague recoberto de papel-
alumnio como voc v em peas da escola. Estou falando de um cilindro de bronze celestial de alto grau, 
com sessenta centmetros de comprimento, arrematado em ambos os lados com explosivos de nvel 
defico. 

 

- Ah. 

 

- O raio-mestre de Zeus - disse Quron, agora ficando emocionado. - O smbolo de seu poder, conforme o 
qual todos os outros raios so moldados. A primeira arma feita pelos Ciclopes para a guerra contra os 
Tits, que decepou o cume do Monte Etna e arremessou Cronos para fora do seu trono; o raio-mestre, que 
acumula potncia suficiente para fazer as bombas de hidrognio dos mortais parecerem fogos de 
artifcios. 

 

- E ele desapareceu? - Roubaram - disse Quron. 

 

- Quem roubaram? 

 

- Quem roubou - corrigiu Quron. Uma vez professor, sempre professor. - Voc. 

 

Meu queixo caiu. 

 

- Pelo menos - Quron ergueu uma das mos -,  isso que Zeus pensa. Durante o solstcio de inverno, na 
ltima assemblia dos deuses, Zeus e Poseidon tiveram uma discusso. As tolices de sempre: .A Me 
Rhea sempre gostou mais de voc., .Os desastres areos so mais espetaculares que os martimos. etc. 
Mais tarde, Zeus se deu conta de que o seu raio-mestre havia desaparecido, levado da sala do trono bem 
debaixo do seu nariz. No mesmo instante culpou Poseidon. Agora, um deus no pode usurpar diretamente 
o smbolo de poder de outro deus - isso  proibido pela mais antiga das leis divinas. Mas Zeus acredita 
que seu pai convenceu um heri humano a peg-lo. 

 

- Mas eu no... 

 

- Pacincia, e escute, criana - disse Quron. - Zeus tem boas razes para suspeitar. As forjas dos 
Ciclopes ficam embaixo do oceano, o que d a Poseidon alguma influencia sobre os fabricantes dos raios 
do seu irmo. Zeus acredita que Poseidon pegou o raio-mestre e est agora mandando os Ciclopes 
construrem secretamente um arsenal de cpias ilegais, que poderiam ser usadas par derrubar Zeus do 
seu trono. A nica coisa de que Zeus no tinha certeza era qual heri Poseidon usara para roubar o raio. 
Agora Poseidon declarou abertamente que voc  filho dele. Voc estava em Nova York nas frias de 
inverno. Poderia facilmente ter se infiltrado no Olimpo. Zeus acredita que encontrou o seu ladro. 

 

- Mas eu nunca estive no Olimpo! Zeus est maluco! 

 

Quron e Grover olharam nervosamente para o cu. As nuvens no pareciam estar se separando  nossa 
volta, como Grover prometera. Estavam vindo para cima do nosso vale, fechando-nos dentro dele como 
uma tampa de caixo. 

 

 - Ahn, Percy...? - disse Grover. - Ns no usamos essa palavra que comea com m para descrever o 
Senhor do Cu. 

#
- Paranico, quem sabe - sugeriu Quron. - Mas, por outro lado, Poseidon j tentou derrubar Zeus antes. 
Acredito que essa foi a pergunta 38 da sua prova final... - Ele olhou para mim como quem realmente 
esperava que e me lembrasse da pergunta 38. 

 

Como podia algum me acusar de roubar a arma de um deus? Eu no conseguia nem furtar um pedao 
de pizza da mesa de pquer de Gabe sem ser pego. Quron estava esperando por uma resposta. 

 

- Alguma coisa a ver com uma rede de ouro? - adivinhei. - Poseidon, e Hera, e alguns outros deuses... 
eles, tipo, prenderam Zeus numa armadilha e no o deixaram sair at ele prometer ser um soberano 
melhor, certo? 

 

- Correto - disse Quron. - E Zeus nunca mais confiou em Poseidon desde ento. Poseidon,  claro, nega 
ter roubado o raio-mestre. Ele se ofendeu com a acusao. Os dois vm discutindo o tempo todo h 
meses, com ameaas de guerra. E agora voc apareceu - a famosa gota-dgua. 

 

- Mas eu sou apenas uma criana! 

 

- Percy - interveio Grover -, se voc fosse Zeus, e j achasse que o seu irmo estava planejando derrub-
lo, e ento subitamente admitisse que havia quebrado o juramento sagrado que fizera depois da Segunda 
Guerra Mundial e que era pai de um novo heri mortal que poderia ser usado como uma arma contra 
voc... Isso no o deixaria com a pulga atrs da orelha? 

 

- Mas eu no fiz nada. Poseidon - meu pai -, ele realmente no mandou roubar o raio-mestre, mandou? 

 

Quron suspirou. 

 

- A maioria dos observadores inteligentes concordaria que o roubo no faz o estilo de Poseidon. Mas o 
Deus do Mar  orgulhoso demais para tentar convencer Zeus disso. Zeus exigiu que Poseidon devolva o 
raio at o solstcio de vero. Isso ser em 21 de junho, dez dias a contar de agora. Poseidon quer um 
pedido de desculpas por ser chamado de ladro at essa mesma data. Eu tinha esperanas de que a 
diplomacia prevalecesse, que Hera ou Demeter ou Hstia fariam os dois irmos verem a razo. Mas a sua 
chegada inflamou o gnio de Zeus. Agora nenhum dos dois deuses quer recuar. A no ser que algum 
intervenha, a no ser que o raio-mestre seja encontrado e devolvido a Zeus antes do solstcio, haver 
guerra. E voc sabe como poderia ser uma guerra total, Percy? 

 

- Ruim ? - adivinhei. 

 

- Imagine o mundo em caos. A natureza em guerra consigo mesma. Os olimpianos forados a escolher 
lados entre Zeus e Poseidon. Destruio. Carnificina. Milhes de mortos. A civilizao ocidental 
transformada em um campo de batalha to grande que far a Guerra de Tria parecer uma luta de bales 
dgua. 

 

- Ruim - repeti. 

 

- E voc, Percy Jackson, ser o primeiro a sentir a ira de Zeus. 

 

Comeou a chover. Os jogadores de vlei interromperam o jogo e olhavam perplexo para o cu. 

 

Eu havia trazido a tempestade para a Colina Meio-Sangue, Zeus estava punindo o acampamento inteiro 
por minha causa. Eu estava furioso. 

 

- Ento eu tenho de encontrar aquele raio estpido - disse. - E devolv-lo a Zeus. 

 

- Que melhor oferenda de paz - disse Quron -, do que fazer filho de Poseidon devolver o que  de Zeus? 

 

- Se no est com Poseidon, onde est essa coisa? 

 

- Eu creio que sei. - A expresso de Quron era soturna. - Parte da profecia que recebi anos atrs... bem, 
algumas frases fazem sentido para mim, agora. Mas, antes que eu possa dizer mais, voc precisa aceitar 
oficialmente a misso. Voc precisa procurar o conselho do Orculo. 

#
 

- Por que voc no pode dizer de antemo onde est o raio? 

 

- Porque, se eu fizer isso, voc ficar assustado demais para aceitar o desafio. 

 

Eu engoli em seco. 

 

- Boa razo. 

 

- Ento voc concorda? 

 

Olhei para Grover, que assentiu encorajadoramente. 

 

Fcil para ele. Era a mim que Zeus queria matar. 

 

- Est bem - disse eu. -  melhor do que ser transformado em um golfinho. 

 

- Ento  hora de voc consultar o Orculo - disse Quron. - V para cima, Percy Jackson, para o sto. 
Quando descer de novo, presumindo que ainda esteja lcido, conversaremos mais. 

 

***** 

 

Quatro lances acima, a escada terminava embaixo de um alapo verde. 

 

Puxei o cordo. A porta se abriu e uma escada de madeira caiu ruidosamente no lugar. 

 

O ar morno que vinha de cima cheirava a mofo, madeira podre e mais alguma coisa... um cheiro que me 
lembrou a aula de biologia. Rpteis. O cheiro de serpentes. 

 

Prendi a respirao e subi. 

 

O sto estava atulhado de sucata de heris gregos: suportes de armaduras cobertos de teias de aranha; 
escudos outrora brilhantes cheios de adesivos dizendo TACA, ILHA DE CIRCE E TERRA DAS 
AMAZONAS. Sobre uma mesa comprida estavam amontoados potes de vidro cheios de coisas em 
conserva - garras peludas decepadas, enormes olhos amarelos e diversas outras partes de monstros. Um 
trofu empoeirado na parede parecia ser uma cabea de serpente gigante, mas com chifres e uma arcada 
completa de dentes de tubaro. Uma placa dizia: CABEA N. 1 DA HIDRA, WOOSSTOCK, N.Y., 1969. 

 

Junto  janela, sentado em uma banqueta de madeira com trs pernas, estava o suvenir mais pavoroso de 
todos: uma mmia. No do tipo enfaixada em panos, mas um corpo humano feminino, ressecado at ficar 
s a casca. Usava um vestido de vero estampado em batique, com uma poro de colares de contas e 
uma bandana por cima de longos cabelos pretos. A pele do rosto era fina e parecia couro por cima do 
crnio, e os olhos eram fendas brancas vtreas, como se os olhos de verdade tivessem sido substitudos 
por bolas de gude; devia estar morta fazia muito, muito tempo. 

 

Olhar para ela me deu arrepios nas costas. E isso foi antes de ela se endireitar na banqueta e abrir a boca. 
Uma nvoa verde jorrou da garganta da mmia, serpenteando pelo cho em anis grossos, sibilando 
como vinte mil cobras. Tropecei em mim mesmo tentando chegar at o alapo, mas ele se fechou com 
uma batida. Dentro da minha cabea, ouvi uma voz, deslizando por um ouvido e se enroscando por meu 
crebro: Eu sou o esprito de Delfos, porta-voz das profecias de Febo Apolo, assassino da poderosa Pton. 
Aproxime-se, voc que busca, e pergunte. 

 

Eu quis dizer: No, obrigado, porta errada, s estava procurando o banheiro. Mas me forcei a respirar 
fundo. 

 

A mmia no estava viva. Era algum tipo de receptculo horripilante para uma outra coisa, o poder que 
girava em espiral  minha volta na nvoa verde. Mas sua presena no parecia maligna, como a da 
professora demonaca de matemtica, a sra. Dodds ou a do Minotauro. Era mais como as Trs Parcas que 
eu tinha visto tricotando o fio de l ao lado da banca de frutas da rodovia: antiga, poderosa e, sem duvida, 
no-humana. E tambm no parecia especialmente interessada em me matar. 

#
 

Reuni coragem para perguntar: 

 

- Qual  o meu destino? 

 

A nvoa rodopiou, mais densa, juntando-se bem na minha frente e em volta da mesa com os potes que 
continham partes de monstros em conserva. De repente, havia quatro homens sentados  volta da mesa, 
jogando cartas. Os rostos ficaram mais ntidos. Era Gabe Cheiroso e seus cupinchas. 

 

Meus punhos se contraram, embora eu soubesse que aquele jogo de pquer no podia ser real. Era uma 
iluso, feita d nvoa. 

 

Gabe voltou-se para mim e falou na voz rouca do Orculo: Voc ir para o oeste, e ir enfrentar o deus 
que se tornou desleal. 

 

O cupincha da direita ergueu os olhos e disse com a mesma voz: Voc ir encontrar o que foi roubado, e o 
ver devolvido em segurana. 

 

O da esquerda colocou trs fichas na mesa, depois disse: Voc ser trado por aquele que o chama de 
amigo. 

 

Por fim Eddie, o zelador do nosso edifcio, preferiu a por sentena de todas: E, no fim, ir fracassar em 
salvar aquilo que mais importa. 

 

As figuras comearam a se dissolver. De incio fiquei atordoado demais para dizer alguma coisa, mas 
quando a nvoa recuou, enrolando-se como uma enorme serpente verde e deslizando de volta para dentro 
da boca da mmia, eu gritei: 

 

- Espere! O que quer dizer? Que amigo? O que no vou conseguir salvar? 

 

A cauda da serpente de nvoa desapareceu na boca da mmia. Ela se reclinou de volta contra a parede. 
A boca fechou-se bem apertada, como se no tivesse sido aberta em cem anos. O sto ficou silencioso 
de novo, abandonado, nada alm de uma sala cheia de suvenires. 

 

Tive a sensao de que poderia ficar l parado at juntar teias de aranha tambm, e no ficaria sabendo 
mais nada. 

 

Minha audincia com o Orculo estava encerrada. 

 

***** 

 

- E ento? - Quron me perguntou. 

 

Desabei em uma cadeira  mesa de pinoche. - Ela disse que eu devia recuperar o que foi roubado. 

 

Grover se inclinou para frente, mascando animado os restos de uma lata de Diet Coke. 

 

- Isso  timo! 

 

- O que foi que o Orculo disse exatamente? - pressionou Quron. - Isso  importante. 

 

- Ela... ela disse que eu iria para o oeste e enfrentaria um deus que se tornou desleal. Recuperaria o que 
foi roubado e devolveria em segurana. 

 

- Eu sabia - disse Grover. 

 

Quron no pareceu satisfeito. 

 

- Mais alguma coisa? 

 

#
Eu no queria contar a ele. 

 

Que amigo iria me trair? Eu no tinha tantos assim. 

 

E a ltima sentena - eu fracassaria em salvar o que mais importa. Que tipo de Orculo me mandaria em 
uma misso e me diria, Ah, a propsito, voc vai se dar mal. 

 

Como eu poderia confessar aquilo? 

 

- No - falei. - Isso  tudo. 

 

Ele estudou meu rosto. 

 

- Muito bem, Percy. Mas saiba disto as palavras do Orculo freqentemente tm duplo sentido. No se fie 
demais nelas. A verdade nem sempre fica clara at que os eventos aconteam. 

 

Tive a sensao de que ele sabia que eu estava escondendo algo ruim, e tentava fazer com que eu me 
sentisse melhor. 

 

- Certo - falei, ansioso por mudar de assunto. - Ento, aonde vou? Quem  esse deus no oeste? 

 

 - Ah, pense, Percy - disse Quron. - Se Zeus e Poseidon enfraquecem um ao outro numa guerra, quem 
tem a ganhar com isso? 

 

- Algum outro que queira tomar o poder? - adivinhei. 

 

- Sim, exatamente. Algum que guarda um ressentimento, algum que est infeliz com a parte que lhe 
coube desde que o mundo foi dividido eras atrs, cujo reinado se tornar poderoso com a morte de 
milhes. Algum que odeia os irmos por for-lo a um juramento de no ter mais filhos, um juramento 
que ambos quebraram. 

 

Pensei nos meus sonhos, na voz maligna que falara do fundo da terra. 

 

- Hades. 

 

Quron assentiu. 

 

- O Senhor dos Mortos  a nica possibilidade. 

 

Grover babou um pedao de alumnio pelo canto da boca. 

 

- Opa, espere a. O-o qu? 

 

- Uma das Frias veio trs de Percy - lembrou Quron. - Ela observou o rapaz at ter certeza da sua 
identidade, e ento tentou mat-lo. As Frias obedecem a um s senhor: Hades. 

 

- Sim, mas... mas Hades odeia todos os heris - protestou Grover. - Especialmente se tiver descoberto que 
Percy  filho de Poseidon... 

 

- Um co infernal conseguiu entrar na floresta - continuou Quron. - Eles s podem ser convocados dos 
Campos da Punio, e ele tinha de ser convocado por algum de dentro do acampamento. Hades deve ter 
um espio aqui. Ele deve suspeitar que Poseidon tentar usar Percy para limpar seu nome. Hades 
gostaria muito de matar esse jovem meio-sangue antes que ele possa assumir a misso. 

 

- Boa - murmurei. - So dois dos deuses mais importantes querendo me matar. 

 

- Mas uma misso para... - Grover engoliu em seco. - Quer dizer, o raio-mestre no poderia estar em 
algum lugar como o Maine? O Maine  muito agradvel nesta poca do ano. 

 

#
- Hades enviou um protegido para roubar o raio-mestre - insistiu Quron. - Ele o escondeu no Mundo 
Inferior, sabendo muito BM que Zeus culparia Poseidon. No pretendo entender perfeitamente os motivos 
do Senhor dos Mortos ou por que ele escolheu esta poca para comear uma guerra, mas uma coisa  
certa: Percy precisa ir ao Mundo Inferior; encontrar o raio-mestre e revelar a verdade. 

 

Um fogo estranho queimou em meu estmago. O mais esquisito era que no se tratava de medo. Era 
expectativa. O desejo de vingana. Hades tentara me matar trs vezes at agora, com a Fria, o 
Minotauro e o co infernal. Por sua culpa minha me desaparecera em um claro. Agora ele tentava 
enquadrar eu e meu pai por um roubo que no tnhamos cometido. 
Eu estava pronto para enfrent-lo. 
Alm disso, se minha me estava no Mundo Inferior... 
Epa, rapaz!, disse a pequena parte do meu crebro que ainda estava lcida. Voc  um garoto. Hades  
um deus. 
Grover estava tremendo. Tinha comeado a comer cartas de pinoche como se fossem batatinhas fritas. 

O pobre sujeito precisava completar uma misso comigo para obter sua licena de buscador, o que quer 
que fosse isso, mas como poderia lhe pedir que participasse daquilo, principalmente sabendo que o 
Orculo dissera que eu ia fracassar? Era suicdio. 
- Olhe, se ns abemos que  Hades - disse a Quron -, Zeus ou Poseidon poderiam descer ao Mundo 
Inferior e fazer rolar algumas cabeas. 
- suspeitar e saber no so o mesmo - disse Quron. - Alm disso, mesmo que suspeitem de Hades... 
imagino que Poseidon suspeite.. os outros deuses no poderiam recuperar o raio por si mesmos. Deuses 
no podem entrar nos territrios um do outro a no ser que sejam convidados. Essa  outra regra muito 
antiga. Heris, por outro lado, tm certos privilgios. Podem ir a qualquer lugar, desafiar qualquer um, 
desde que sejam corajosos e fortes o bastante para faz-lo. Nenhum deus pode ser responsabilidade 
pelos atos de um heri. Por que acha eu os deuses sempre agem por intermdio de seres humanos? 
- Voc est dizendo que estou sendo usado. 
- Estou dizendo que no  por acaso que Poseidon o assumiu agora.  uma jogada muito arriscada, mas 
ele est em uma situao desesperadora. Precisa de voc. 
Meu pai precisa de mim. 
As emoes giraram dentro de mim como pedaos de vidro em um caleidoscpio. Eu no sabia se sentia 
ressentimento, gratido, alegria ou raiva. Poseidon me ignorara por doze anos. Agora de repente, 
precisava de mim. 
Olhei para Quron. 
- Voc sabia o tempo todo que eu era filho de Poseidon, no ? 
- Tinha minhas suspeitas. Como eu disse... tambm falei com o Orculo. 

 

Tive a sensao de que havia muita coisa que ele no estava me contando sobre sua profecia, mas 
percebi que no poderia me preocupar com aquilo naquela hora. Afinal, eu tambm estava sonegando 
informaes. 
- Ento, deixe-me entender direito - falei. - Preciso ir para o Mundo Inferior e confrontar o Senhor dos 
Mortos. 
- Confere - disse Quron. 
- Para encontrar a arma mais poderosa do universo. 

#
 - Confere. 

 

E lev-la de volta ao Olimpo antes do solstcio de vero, daqui a dez dias. 
- Isso mesmo. 
Olhei para Grover, que engoliu o s de copas. 
- Cheguei a mencionar que o Maine  muito agradvel nesta poca do ano? - perguntou ele de um jeito 
cansado. 
- Voc no precisa ir - disse a ele. - No posso lhe exigir isso. 
- Ah... - Ele se balanou de um casco para o outro. - No...  s que os stiros, e os lugares embaixo da 
terra... bem... 
Ele respirou fundo, depois se ps de p, sacudindo os pedaos de cartas e alumnio da camiseta. 
- Voc salvou a minha vida, Percy. Se... se est falando srio em querer que eu v junto, no vou deix-lo 
na mo. 
Fiquei to aliviado que tive vontade de chorar, embora no achasse isso muito herico. Grover era o nico 
amigo que j tivera por mais que alguns meses. No sabia muito bem o que um stiro poderia fazer contra 
as foras dos mortos, mas me senti melhor sabendo que ele estaria comigo. 
- Juntos at o fim, homem-bode. Eu me virei para Quron. - Ento, para onde vamos? O Orculo s disse 
para ir para oeste. 
- A entrada para o Mundo Inferior fica sempre no oeste. Muda de lugar de era em era, como o Olimpo. 
Atualmente,  claro, fica nos Estados Unidos. 
- Onde? 
Quron pareceu surpreso. 

 

Pensei que fosse bvio. A entrada para o Mundo Inferior fica em Los Angeles. 
- Ah - falei. - Claro. Ento  s pegar um avio... 
- No! - gritou Grover. - Percy, o que est pensando? Alguma vez na vida j esteve em um avio? 
Sacudi a cabea, sem graa. Minha me nunca me levara para lugar algum de avio. Ela sempre dizia que 
no tnhamos dinheiro pra isso. Alm disso, os pais dela tinham morrido em um desastre de avio. 
- Percy, pense - disse Quron. - Voc  filho do Deus do Mar. O rival mais rancoroso do seu pai  Zeus, 
Senhor do Cu. Sua me sabia muito bem que no podia confiar voc a um avio. 
Acima de ns, relmpagos estalaram. O trovo ribombo. 
- Certo - disse eu, determinado a no olhar para a tempestade. - Ento, viajarei por terra. 

 

- Certo - disse Quron. - Dois parceiros podero acompanh-lo. Grover  um. O outro j se apresentou 
como voluntrio, se voc aceitar a ajuda dela. 
- Puxa - falei, fingindo surpresa. - Quem mais seria bastante estpido para se apresentar para uma misso 
como essa? 
O ar tremulou atrs de Quron. 


#
Annabeth se tornou visvel, enfiando o bon dos Yankees no bolso de trs. 
- Eu estava esperando h muito tempo por uma misso, cabea de alga - disse ela. - Atena no  f de 
Poseidon, mas se voc vai salvar o mundo, sou a melhor pessoa para impedir que estrague tudo. 
- Se  voc quem diz. Tem algum plano, sabidinha? 
As bochechas dela coraram. 
- Voc quer a minha ajuda ou no? 
A verdade  que eu queria. Precisava de toda a ajuda que pudesse encontrar. 
- Um trio - disse eu. - Isso vai dar certo. 

 

- Excelente - disse Quron. - Esta tarde podemos levar vocs no mximo at o terminal de nibus em 
Manhattan. Depois disso, estaro por conta prpria. 
Um relmpago. A chuva desabou sobre as campinas que jamais deveriam ver um temporal violento. 
- No h tempo a perder - disse Quron. - Acho que todos vocs devem fazer as malas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
DEZ  Eu destruo um nibus. 

 

 

No precisei de muito tempo para fazer as malas. Decidi deixar o cifre do Minotauro no meu chal, ento 
s restaram uma muda extra de roupas e uma escova de dentes para enfiar numa mochila que Grover 
encontrara para mim. 

 

A loja do acampamento me emprestou cem dlares em dinheiro mortal e vinte dracmas de ouro. Essas 
moedas eram grandes como um biscoito gigante, tinham imagens de diversos deuses gregos 
estamapadas de um lado e o Edifcio Empire States do outro. Os dracmas dos mortais antigos eram de 
prata, Quron nos contou, mas os olimpianos nunca usavam nada menos que ouro puro. Quron disse que 
as moedas poderiam vir a calhar para transaes no-mortais - o que quer que isso significasse. Ele deu a 
Annabeth e a mim um cantil de nctar e um saco hermtico cheio de quadradinhos de ambrosia, para usar 
somente em emergncias, se fssemos gravemente feridos. Aquilo era o alimento dos deuses, Quron 
lembrou. Iria nos curar de qualquer ferimento, mas era letal para mortais. Em excesso, poderia deixar um 
meio-sangue com muita, muita febre. Uma overdose nos faria pegar fogo, literalmente. 

 

Annabeth carregava seu bon mgico dos Yankees, que era, ela me contou, um presente da me pelo seu 
dcimo segundo aniversario. Ela levou um livro sobre a famosa arquitetura clssica, escrito em grego 
antigo, para ler quando estivesse entediada, e carregava uma comprida faca de bronze escondida na 
manga da camisa. Eu tinha certeza de que a faca ia nos causar problemas na primeira vez em que 
passssemos por um detector de metais. 

 

Grover estava com seus ps falsos e calas para passar por ser humano. Usava uma touca verde estilo 
rastafri, porque, quando chovia, seu cabelo encaracolado se achatava, deixando aparecer a ponta dos 
chifres. Sua mochila berrante, alaranjada, estava cheia de sucata de metal e mas para o lanche. Em seu 
bolso havia um conjunto de flautas de bambu que o papai-bode esculpira para ele, muito embora ele s 
conhecesse duas msicas: o Concerto para Piano n 12, de Mozart, e So Yesterday, de Hilary Duff, e 
ambas soassem muito mal em flautas de bambu. 

 

Acenamos em despedida para os outros campistas, demos uma ltima olhada para os campos de 
morangos, o oceano e a Casa Grande, depois subimos a Colina Meio-Sangue at o alto pinheiro que 
outrora fora Thalia, filha de Zeus. 

 

Quron nos esperava em sua cadeira de rodas. Ao lado dele estava o surfista que eu tinha visto quando 
me recuperava no quarto doente. De acordo com Grover, o cara era chefe de segurana do 
acampamento. Supostamente, tinha olhos espalhados pelo corpo inteiro para jamais ser pego de surpresa. 
Naquele dia, no entanto, usava uniforme de chofer, ento s pude ver os olhos extras das mos, do rosto 
e do pescoo. 

 

- Este  Argos - disse Quron. - Vai levar vocs de carro at a cidade e, ahn, bem, ficar de olho em tudo. 

 

Ouvi passos atrs de ns. 

 

Luke veio correndo colina acima, carregando um par de tnis de basquete. 

 

- Ei! - ofegou ele. - Ainda bem que alcancei vocs. 

 

Annabeth corou, como sempre acontecia quando Luke estava por perto. 

 

- S queria desejar boa sorte - disse ele para mim. - E pensei... ahn, quem sabe voc poderia usar isso. 

 

Ele me entregou os tnis, que pareciam bastante normais. Tinham at cheiro de normais. 

 

Luke disse: 

 

- Maia! 

 

Asas brancas de ave brotaram dos calcanhares, deixando-me to surpreso que os deixei cair. Os tnis 
bateram as asas no cho at que estas se dobraram e desapareceram. 

#
 

- Impressionante! - disse Grover. 

 

Luke sorriu. 

 

- Ajudaram muito quando eu estava na minha misso. Presente do papai.  claro, eu no os uso muito 
hoje em dia... - Sua expresso tornou-se triste. 

 

Eu no sabia o que dizer. J era bem legal o fato de Luke ter ido se despedir. Tinha receio de que ele 
estivesse magoado comigo por ter ganho tanta ateno nos ltimos dias. Mas ali estava ele, com um 
presente mgico... Aquilo me fez corar quase tanto quanto Annabeth. 

 

- Ei, cara, obrigado. 

 

- Escute, Percy... - Luke pareceu sem graa. - Todos esperam muito de voc. Ento, apenas... mate 
alguns monstros por mim, ok? 

 

Trocamos um aperto de mos. Luke afagou a cabea de Grover entre os chifres e depois deu um grande 
abrao em Annabeth, que pareceu que ia desmaiar. 

 

Depois que Luke se foi, eu disse a ela: 

 

- Voc est com a respirao acelerada. 

 

- No estou, no. 

 

- Voc o deixou capturar a bandeira em seu lugar, no foi? 

 

- Ai... por que mesmo eu quero ir a algum lugar com voc, Percy? 

 

Ela desceu batendo os ps para outro lado da colina, onde um utilitrio esportivo branco esperava no 
acostamento da estrada. Argos a seguiu, balanando as chaves do carro. 

 

Peguei os tnis voadores e tive uma sbita sensao ruim. Olhei para Quron. 

 

- Eu no vou poder usar isso, no ? 

 

Ele sacudiu a cabea. 

 

- A inteno de Luke foi boa, Percy. Mas subir para o ar.... no seria muito inteligente de sua parte. 

 

Eu assenti, desapontado, mas ento tive uma idia. 

 

- Ei, Grover. Voc quer um apetrecho mgico? 

 

Seus olhos se iluminaram. 

 

- Eu? 

 

Rapidamente, amarramos os tnis por cima dos seus falsos ps, e o primeiro menino-bode voador do 
mundo estava pronto para o lanamento. 

 

- Maia! - bradou. 

 

Ele se ergueu do cho muito bem, mas ento tombou de lado e sua mochila arrastou-se pela grama. Os 
tnis alados ficaram corcoveando para o alto e para baixo como minsculos cavalos selvagens. 

 

- Prtica - gritou Quron para ele. - Voc s precisa de prtica. 

 

#
- Aaaaaa! - Grover saiu voando de lado colina baixo, como um cortador de grama ensandecido, em 
direo  van. 

 

Antes que eu pudesse segui-lo, Quron segurou meu brao. 

 

- Eu devia t-lo treinado melhor, Percy - disse ele. - Se ao menos tivesse tido mais tempo. Hrcules, 
Jaso... todos receberam mais treinamento. 

 

- Tudo bem. S queria.... 

 

Eu me interrompi pois estava prestes a soar como uma criana mimada. Queria que meu pai tivesse me 
dado uma coisa mgica legal para ajudar na minha misso, algo to bom quanto os tnis voadores de 
Luke ou o bon invisvel de Annabeth. 

 

- Onde estou com a cabea? - exclamou Quron. - No posso deixar voc ir sem isso. 

 

Ele puxou uma caneta do bolso do casaco e me entregou. Era uma esferogrfica descartvel comum, tinta 
preta, tampa removvel. Custava provavelmente trinta centavos. 

 

- Puxa disse eu. - Obrigado. 

 

- Percy, isto foi um presente de seu pai. Guardei durante anos, sem saber que era voc que eu estava 
esperando. Mas a profecia agora est clara para mim. Voc  o escolhido. 

 

Lembrei-me da excurso ao Metropolitan Museum of Art, quando reduzi a Po a sra. Dodds. Quron me 
jogara uma caneta que se transformou em espada. Ser que aquilo era...? 

 

Tirei a tampa, e a caneta ficou mais comprida e pesada em minha mo. Em meio segundo eu estava 
segurando uma reluzente espada de bronze com lmina de fio duplo, cabo envolvido em couro e uma 
guarda chata rebitada com pinos de ouro. Era a primeira arma que realmente parecia equilibrada em 
minha mo. 

 

- A espada tem uma histria longa e trgica, sobre a qual no precisamos falar - contou-me Quron. - Seu 
nome  Anaklusmos. 

 

- Contracorrente - traduzi, surpreso que o grego antigo me tenha vindo to fcil. 

 

- Mas s a use para emergncias - disse Quron, e apenas contra monstros. Nenhum heri deve ferir 
mortais, s se for absolutamente necessrio,  claro, mas esta espada no os feriria em nenhum caso. 

 

Olhei para a lmina cruelmente afiada. 

 

- Como assim, no feriria mortais? Como ela pode no ferir? 

 

- A espada  de bronze celestial. Forjada pelos Ciclopes, temperada no corao do monte Etna, resfriada 
no rio Lete.  mortfera para monstros, para qualquer criatura do Mundo Inferior, desde que no matem 
voc primeiro. Mas a lmina passar atravs de mortais como uma iluso. Eles no so bastante 
importantes para serem mortos pela lmina. E devo avis-lo: como um semideus, voc pode ser morto 
tanto por armas celestiais quanto por armas normais. Voc  duas vezes mais vulnervel. 

 

- Bom saber. 

 

- Agora recoloque a tampa na caneta. 

 

Encostei a tampa da caneta na ponta da espada e instantaneamente Contracorrente encolheu e se 
transformou de novo em uma esferogrfica. Enfiei-a no bolso um pouco nervoso, porque na escola tinha a 
fama de perder canetas. 

 

- No h riscos - disse Quron. 

 

#
- De qu? 

 

- De perder a caneta - disse ele. -  encantada. Sempre vai reaparecer no seu bolso. Experimente. 

 

Eu estava desconfiado, mas atirei a caneta o mais longe que pude colina abaixo e a vi desaparecer na 
grama. 

 

- Pode levar alguns instantes - disse Quron. - Agora verifique o bolso. 

 

Sem dvida, a caneta estava l. 

 

- Certo, isso  muito legal - admiti. - Mas e se um mortal me vir puxando uma espada? 

 

Quron sorriu. 

 

- A Nvoa  algo poderoso, Percy. 

 

- A Nvoa? 

 

- Sim. Leia a Ilada. Est cheia de referncias a isso. Sempre que elementos divinos ou monstruosos se 
misturam com o mundo mortal, eles geram a Nvoa, que tolda a viso dos seres humanos. Voc ver as 
coisas exatamente como so, sendo um meio-sangue, mas os seres humanos interpretaro tudo de modo 
muito diferente.  realmente incrvel at que ponto os seres humanos podem ir para adaptar as situaes 
 sua concepo de realidade. 

 

Pus Contracorrente de volta no bolso. 

 

Pela primeira vez, senti a misso como algo real. Eu estava de fato deixando a Colina Meio-Sangue. 
Estava indo para o oeste sem nenhuma superviso de adulto, sem um plano B, nem mesmo um telefone 
celular. (Quron disse que os telefones podiam ser rastreados por monstros; se usasse um, seria pior do 
que lanar um foguete de sinalizao.) Eu no tinha nenhuma arma mais poderosa do que uma espada 
para combater monstros e chegar  Terra dos Mortos. 

 

- Quron... - falei. - Quando voc diz que os deuses so imortais... quer dizer, havia um tempo antes deles, 
certo? 

 

- Quatro era antes deles, na verdade. O Tempo dos Tits foi a Quarta Era, s vezes chamada de Era de 
Ouro, o que sem dvida  um nome imprprio. Esta poca, a poca da civilizao ocidental e reinado de 
Zeus,  a Quinta Era. 

 

- Ento como era... antes dos deuses? 

 

Quron contraiu os lbios. 

 

- Nem mesmo eu sou bastante velho para me lembrar disso, criana, mas sei que era um tempo de trevas 
e selvageria para os mortais. Cronos, o Senhor dos Tits, chamou seu reinado de Era de Ouro porque os 
homens viviam em inocncia e livres de todo o conhecimento. Mas isso era mera propaganda. O rei Tit 
no se importava nada com sua espcie a no ser para servir de aperitivo, ou como fonte de 
entretenimento. Foi s no incio do reinado do Senhor Zeus, quando Prometeu, o bom Tit, trouxe o fogo 
para a humanidade, que sua espcie comeou a evoluir, e mesmo ento Prometeu foi estigmatizado como 
pensador radical. Zeus o castigou severamente, como voc deve se lembrar.  claro, por fim os deuses se 
interessaram pelos seres humanos, e nasceu a civilizao ocidental. 

 

- Mas agora os deuses no podem morrer, certo? Quero dizer, enquanto a civilizao ocidental estiver 
viva, eles estaro vivos. Assim... mesmo se eu fracassar, nada pode acontecer de to ruim a ponto de 
estragar tudo, certo? 

 

Quron me deu um sorriso melanclico. 

 

#
- Ningum sabe quanto tempo a Era do Ocidente ir durar, Percy. Os deuses so imortais, sim. Mas os 
Tits tambm eram imortais. Eles ainda existem, trancados em suas vrias prises, forados a suportar 
dores e castigos infinitos, com o poder reduzido, mas ainda muito vivos. Que as Parcas no permitam que 
os deuses sofram tal maldio, ou que retornemos s trevas e aos caos do passado. Tudo o que podemos 
fazer, criana,  seguir nosso destino. 

 

- Nosso destino... presumindo que saibamos qual . 

 

- Relaxe - disse-me Quron. - Mantenha as idias no lugar. E lembre-se, voc pode estar a ponto de evitar 
a maior guerra da histria humana. 

 

- Relaxe - disse eu. - Estou muito relaxado. 

 

Quando cheguei ao p da colina, olhei para trs. Sob o pinheiro que outrora era Thalia, filha de Zeus, 
Quron estava em plena forma de homem-cavalo, segurando no alto seu arco em saudao. Uma tpica 
despedida do acampamento de vero pelo seu tpico centauro. 

 

***** 

 

Argos nos levou para fora da zona rural em direo ao oeste de Long Island. Era esquisito estar 
novamente em uma auto-estrada, com Annabeth e Grover sentados ao meu lado como se fssemos 
caronas normais. Depois de duas semana na Colina Meio-Sangue, o mundo real parecia uma fantasia. 
Surpreendi-me olhando para cada McDonalds, cada criana no banco traseiro do carro dos pais, cada 
cartaz e cada shopping center. 

 

- At agora, tudo bem - disse a Annabeth. - Quinze quilmetros e nem um nico monstro. 

 

Ela me lanou um olhar irritado. 

 

- Falar desse jeito traz m sorte, cabea de alga. 

 

- Ajude-me a lembrar: por que voc me odeia tanto? 

 

- Eu no odeio voc. 

 

- Posso estar enganado. 

 

Ela dobrou o bon de invisibilidade. 

 

- Olhe...  s que no deveramos nos dar bem, ok? Nossos pais so rivais. 

 

- Por qu? 

 

Ela suspirou. 

 

- Quantas razes voc quer? Uma vez minha me pegou Poseidon com a namorada dele no templo de 
Atena, o que  superdesrespeitoso. Outra vez, Atena e Poseidon competiram para ser o deus patrono da 
cidade de Atenas. Seu pai criou uma estpida fonte de gua salgada como presente. Minha me criou a 
oliveira. As pessoas viram que o presente dela era melhor, portanto deram  cidade o nome dela. 

 

- Elas realmente devem gostar de azeitonas. 

 

- Ah, deixa pra l. 

 

- Agora, se ela tivesse inventado a pizza... isso eu poderia entender. 

 

- Eu disse: deixa pra l. 

 

No assento dianteiro, Argos sorriu. Ele no disse nada, mas olho azul na sua nuca piscou para mim. 

 

#
O trnsito ficou lento no Queens. Quando chegamos a Manhattan j era pr-do-sol e comeava a chover. 

 

Argos nos largou na Estao Greyhound no Upper East Side, no longe do apartamento de minha me e 
Gabe. Em uma caixa de correio, preso com fita adesiva, havia um folheto encharcado com meu retrato: 
VOC VIU ESTE MENINO? 

 

Eu o arranquei antes que Annabeth e Grover pudessem v-lo. 

 

Argos descarregou nossas malas, certificou-se de que havamos conseguido as passagens de nibus e 
ento foi embora, o olho nas costas de sua mo se abrindo para nos observar enquanto tirava o carro do 
estacionamento. 

 

Pensei em como estava perto do meu velho apartamento. Em um dia normal, minha me estaria chegando 
em casa da doceria mais ou menos naquela hora. Gabe Cheiroso provavelmente estava l, jogando 
pquer, sem nem sentir a falta dela. 

 

Grover ps sua mochila nos ombros. Olhou rua abaixo, na direo em que eu estava olhando. 

 

- Quer saber por que ela se casou com ele, Percy? 

 

Olhei para ele. 

 

- Voc est lendo a minha mente ou coisa assim? 

 

- S as suas emoes. - Ele encolheu os ombros. - Acho que me esqueci de contar que os stiros podem 
fazer isso. Voc estava pensando na sua me e no seu padrasto, certo? 

 

Eu assenti, me perguntando o que mais Grover teria esquecido de contar. 

 

- Sua me se casou com gabe por voc - Grover me contou. - Voc o chama de .Cheiroso., mas no tem 
idia. O cara tem essa aura... Eca, eu posso sentir o cheiro dele daqui. Posso sentir vestgios do cheiro 
dele em voc, e j faz uma semana que voc esteve perto dele. 

 

- Obrigado - falei. - Onde fica o chuveiro mais prximo? 

 

- Voc devia ser grato, Percy. Seu padrasto tem um cheiro to repulsivamente humano que pode mascarar 
a presena de qualquer semideus. Assim que inalei o ar dentro do seu Camaro, eu soube: Gabe esteve 
encobrindo seu cheiro por anos. Se voc no tivesse morado com ele durante todos os veres, 
provavelmente teria sido encontrado por monstros muito tempo atrs. Sua me ficou com ele para 
proteger voc. Era uma senhora esperta. Devia amar muito voc para aturar aquele cara... se  que isso o 
faz se sentir melhor. 

 

No fazia, mas me forcei para no demonstrar. Eu a varei de novo, pensei. Ela no se foi. 

 

Fiquei imaginando se Grover ainda podia ler as minhas emoes, confusas como estavam. Estava grato 
por ele e Annabeth estarem comigo, mas me sentia culpado porque no fora sincero com eles. No lhes 
contara a verdadeira razo de ter dito sim para aquela misso maluca. 

 

A verdade era que eu no me importava em recuperar o relmpago de Zeus, em salvar o mundo ou 
mesmo em ajudar meu pai a sair da encrenca. Quanto mais pensava nisso, mas me ressentia de Poseidon 
por nunca ter me visitado, nunca ter ajudado a minha me, nunca se quer mandado uma droga de cheque 
de penso alimentcia. Ele s me reconhecera porque tinha um servio a ser feito. 

 

Eu s me preocupava com minha me. Hades a levara injustamente, e Hades iria devolv-la. 

 

Voc ser trado por aquele que chama de amigo, sussurrou o Orculo em minha mente. E, no fim, ir 
fracassar em salvar aquilo que mais importa. 

 

Cale a boca, respondi. 

 

#
***** 

 

A chuva continua caindo. 

 

Ficamos impacientes esperando o nibus e decidimos brincar de footbag com uma das mas de Grover. 
Annabeth foi incrvel. Ela era capaz de arremeter a ma com o joelho, com o cotovelo, com o ombro, ou o 
que fosse. Eu mesmo no era de todo ruim. 

 

O jogo terminou quando arremessei a ma para Grover e ela chegou perto demais da sua boca. Em uma 
megamordida de bode, nossa footbag desapareceu - miolo, pednculo e tudo. 

 

Grover enrubesceu. Ele tentou se desculpar, mas Annabeth e eu estvamos muito ocupados dando 
risada. 

 

Finalmente o nibus chegou. Enquanto estvamos na fila para embarcar, Grover comeou a olhar em 
volta, farejando o ar do jeito como farejava seu lanche favorito na cantina da escola - enchiladas. 

 

- O que foi isso? - perguntei. 

 

- No sei - disse ele, tenso. - Talvez no seja nada. 

 

Mas podia perceber que era alguma coisa. Tambm comecei a olhar para trs por cima do ombro. 

 

Fiquei aliviado quando afinal embarcamos e encontramos lugar juntos na parte de trs do nibus. 
Guardamos nossas mochilas. Annabeth batia nervosamente seu bon dos Yankees na coxa. 

 

Quando os ltimos passageiros subiram, Annabeth apertou com fora o meu joelho. .Percy.. 

 

Uma senhora acabava de embarcar no nibus. Usava vestido de veludo amarrotado, luvas de renda e 
chapu laranja, tricotado e disforme, que encobria seu rosto, e carregava uma grande bolsa de l 
estampada. Quando ergueu a cabea seus olhos pretos faiscaram, e meu corao deu um pulo. 

 

Era a sra. Dodds. Mais velha, mas enrugada, mas sem dvida a mesma cara maligna. 

 

Eu me encolhi no assento. 

 

Atrs dela subiram mais duas senhoras: uma de chapu verde, outra de chapu roxo. A no ser por isso, 
eram parecidssimas com a sra. Dodds - as mesmas mos encarquilhadas, as mesmas bolsas de l, os 
mesmo vestidos de veludo enrugados. Um trio de avs demonacas. 

 

Elas se sentaram na fileira da frente, logo atrs do motorista. As duas no corredor cruzaram as pernas 
bem na passagem, formando um X. Aquilo era bastante normal, mas enviava uma mensagem clara: 
ningum sai. 

 

O nibus partiu da estao e seguimos pelas ruas escorregadias de Manhattan. 

 

- Ela no ficou morta muito tempo - disse eu, tentando impedir minha voz de tremer. - Achei que voc 
tivesse dito que eles podem ser afastados por toda uma vida. 

 

- Eu disse, se voc tiver sorte - disse Annabeth. - Voc obviamente no tem. 

 

- Todas as trs - choramingou Grover. - Di immortales! 

 

- Est tudo bem - disse Annabeth, obviamente se empenhando em pensar. - As Frias. Os trs piores 
monstros do Mundo Inferior. Sem problemas. Sem problemas. Vamos simplesmente saltar pelas janelas. 

 

- No abrem - gemeu Grover. 

 

- Uma sada nos fundos? - sugeriu ela. 

 

#
No havia nenhuma. E, mesmo que houvesse, no teria ajudado. quela altura, estvamos na Nona 
Avenida, em direo ao Tnel Lincoln. 

 

- Elas no vo nos atacar com testemunhas em volta - disse eu. - Ou vo? 

 

- Os mortais no tm bons olhos - lembrou-me Annabeth. - Seus crebros s podem processar o que eles 
vem atravs da Nvoa. 

 

- Eles vo ver trs velhas nos matando, no vo? 

 

Ela pensou a respeito. 

 

- Difcil dizer. Mas no podemos contar com a ajuda de mortais. Talvez uma sada de emergncia no 
teto...? 

 

Chegamos ao Tnel Lincoln, e o nibus ficou s escuras a no ser pelas luzes do corredor. Estava 
assustadoramente silencioso sem o rudo da chuva. 

 

A sra. Dodds se levantou. Com uma voz inexpressiva, como se tivesse ensaiado aquilo, ela anunciou para 
o nibus inteiro: 

 

- Preciso usar o toalete. 

 

- Eu tambm - disse a segunda irm. 

 

- Eu tambm - disse a terceira irm. 

 

Todas elas comearam a se aproximar pelo corredor. 

 

- J sei - disse Annabeth. - Percy, pegue meu chapu. 

 

- O qu? 

 

-  voc que elas querem. Fique invisvel e siga pelo corredor. Deixe que elas passem por voc. Talvez 
voc possa chegar at a frente e escapar. 

 

- Mas vocs... 

 

- H uma pequena possibilidade de que elas no reparem em ns - disse Annabeth. - Voc  filho de um 
dos Trs Grandes. Seu cheiro deve encobrir o nosso. 

 

- No posso abandonar vocs. 

 

- No se preocupe conosco - disse Grover. - V! 

 

Minhas mos tremiam. Eu me senti um covarde, mas peguei o bon dos Yankees e pus na cabea. 

 

Quando olhei para baixo, meu corpo no estava mais ali. 

 

Comecei a me esgueirar pelo corredor. Consegui passar dez fileiras, depois me esquivei para um assento 
vazio bem quando as Frias passaram. 

 

A sra. Dodds parou, farejando, e olhou diretamente para mim. Meu corao estava disparado. 

 

Parecia no ter visto nada. Ela e as irms continuaram andando. 

 

Eu estava livre. Cheguei at a frente do nibus. J estvamos quase saindo do Tnel Lincoln. Estava a 
ponto de apertar o boto de parada de emergncia quando ouvi lamentos abominveis vindos da fileira do 
fundo. 

 

#
As velhas no eram mais velhas. Os rostos ainda eram os mesmos - acho que seria impossvel ficarem 
mais feios -, mas os corpos haviam murchado e tinham o aspecto de um couro marrom sobre formas de 
bruxas, com asas de morcego e mos e ps como garras de grgulas. As bolsas viraram chicotes 
chamejantes. 

 

As Frias cercaram Grover e Annabeth estalando os chicotes e sibilando: 

 

- Onde est? Onde? 

 

As outras pessoas no nibus estavam gritando, escondendo-se em seus bancos. Certo, elas viram alguma 
coisa. 

 

- Ele no est aqui! - gritou Annabeth. - Saiu! 

 

As Frias ergueram os chicotes. 

 

Annabeth sacou a faca de bronze. Grover agarrou uma lata da sua sacola de lanches e se preparou para 
jog-la. 

 

O que eu fiz a seguir foi to impulsivo e perigoso que eu merecia ser o rei do transtorno do dficit de 
ateno do ano. 

 

O motorista do nibus estava distrado, tentando enxergar o que estava acontecendo pelo espelho 
retrovisor. 

 

Ainda invisvel, agarrei o volante e dei um tranco para a esquerda. Todos gritaram ao serem jogados para 
a direita, e ouvi o que esperava ser o som das trs Frias esmagadas contra as janelas. 

 

- Ei! - gritou o motorista. - Ei! Oaaa! 

 

Ele lutou para segurar o volante. O nibus chocou-se com a lateral do tnel, o metal arrastado pela parede 
lanando fagulhas um quilmetro atrs de ns. 

 

Samos de lado do tnel, de volta  tempestade, com pessoas e monstros arremessados de um canto a 
outro do nibus e carros jogados de lado como se fossem pinos de boliche. 

 

De algum modo o motorista achou uma sada. Arremessamo-nos para fora da auto-estrada, passamos 
mis dzia de semforos e acabamos disparando por uma daquelas estradas rurais de New Jersey, nas 
quais no d para acreditar que exista tanto nada do outro lado do rio quando se deixa Nova York. Havia 
bosques  nossa esquerda e o rio Hudson  direita, e o motorista parecia se desviar na direo do rio. 

 

Outra grande idia: aperto o freio de emergncia. 

 

O nibus gemeu, traou um circulo completo sobre o asfalto molhado e se chocou contra as rvores. As 
luzes de emergncia se acenderam. A porta se abriu. O motorista foi o primeiro a sair, com os passageiros 
gritando enquanto fugiam em pnico atrs dele. Subi no assento do motorista e deixei-os passar. 

 

As Frias retomaram o equilbrio. Estalaram os chicotes para Annabeth enquanto ela brandia a faca e 
gritava em grego antigo que recuassem. Grover atirava latas. 

 

Olhei para a porta aberta. Eu estava livre para partir, mas no podia abandonar meus amigos. Tirei o bon 
invisvel. 

 

- Ei! 

 

As Frias se viraram, mostrando as presas amareladas para mim, e a sada de repente me pareceu uma 
excelente idia. A sra. Dodds avanou de modo arrogante pelo corredor, como costumava fazer em 
classe, pronta para entregar meu F na prova de matemtica. Cada vez que ela estalava o chicote, chamas 
vermelhas danavam pelo couro farpado. 

 

#
Suas duas irms horrorosas pularam para cima dos assentos de ambos os lados e se arrastaram na 
minha direo como dois lagartos enormes e asquerosos. 

 

- Perseu Jackson - disse a sra.Dodds com um sotaque que vinha de algum lugar mais distante do que o 
sul da Gergia. - Voc ofendeu os deuses. Voc deve morrer. 

 

- Eu gostava mais de voc como professora de matemtica - falei. 

 

Ela rosnou. 

 

Annabeth e Grover se aproximaram com cautela por trs das Frias, procurando uma passagem. 

 

Tirei a esferogrfica do bolso e a destampei. Contracorrente se alongou e virou uma reluzente espada de 
fio duplo. 

 

As Frias hesitaram. 

 

A sra. Dodds j havia sentido a lamina de Contracorrente antes. Obviamente no gostou de v-la de novo. 

 

- Renda-se agora - sibilou. - E no sofrer o tormento eterno. 

 

- Boa tentativa - disse a ela. 

 

- Percy, cuidado! - gritou Annabeth. 

 

A sra. Dodds lanou seu chicote em volta da mo com a qual eu segurava a espada, enquanto as Frias 
em cada lado pularam em cima de mim. 

 

Era como se minha mo estivesse envolta em chumbo derretido, mas consegui no soltar Contracorrente. 
Atingi a Fria da esquerda com o cabo e a mandei cambaleando de costas para a poltrona. Virei e fiz um 
corte na Fria da direita. Assim que a lamina entrou em contato com o pescoo dela, ela gritou e explodiu 
em p. Annabeth agarrou a sra. Dodds em um golpe de luta e a atirou para trs, enquanto Grover 
arrancava o chicote de suas mos. 

 

- Ai! - gritou ele. - Ai! Quente! Quente! 

 

A Fria que eu havia atingido com o cabo da espada veio de novo para cima de mim, garras  mostra, 
mas desferi um golpe com Contracorrente e ela estourou como um saco cheio de bolinhas de isopor. 

 

A sra. Dodds estava tentando tirar Annabeth das costas. Ela esperneou, arranhou, sibilou e mordeu, mas 
Annabeth se agarrou firme enquanto Grover amarrava suas pernas com seu prprio chicote. Depois os 
dois a empurraram de costas para o corredor. A sra. Dodds tentou se erguer, mas no havia espao para 
ela bater as asas de morcego, portanto continuou caindo. 

 

- Zeus o destruir! - prometeu ela. - Hades ter sua alma! 

 

- Braccas meas vescimini! - gritei. 

 

Eu no sabia muito bem de onde viera o latim. Acho que queria dizer: .Coma as minhas calas!. 

 

Um trovo sacudiu o nibus. Os cabelos se eriaram na minha nuca. 

 

- Fora! - gritou Annabeth para mim. - Agora! 

 

No era necessrio. 

 

Corremos para fora e encontramos os outros passageiros andando de uma lado para outro, atordoados, 
discutindo com o motorista ou correndo em crculos e gritando: .Ns vamos morrer!. Um turista de camisa 
com estampa havaiana e uma cmara bateu uma foto minha antes que eu pudesse pr a tampa na minha 
espada. 

#
 

- Nossas malas! - Grover se deu conta. - Ns deixamos nossas... 

 

BUUUUUUM!! 

 

As janelas do nibus explodiram enquanto os passageiros corriam para se abrigar. Um relmpago rasgara 
uma enorme cratera no teto, mas um lamento furioso l dentro me disse que a sra. Dodds ainda no 
estava morta. 

 

- Corram! - disse Annabeth. - Ela est chamando reforos! Temos de sair daqui! 

 

Mergulhamos para dentro dos bosques enquanto a chuva despencava torrencialmente, com o nibus em 
chamas atrs de ns e nada  frente a no ser trevas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
ONZE  Nossa visita ao Emprio de Anes de Jardim. 

 

 

De certo modo,  bom saber que h deuses gregos l fora, porque a temos algum para culpar quando as 
coisas do errado. Por exemplo, quando voc est se afastando a p de um nibus que acaba de ser 
atacado por bruxas monstruosas e explodido por um relmpago, e ainda por cima est chovendo, a 
maioria das pessoas acha que na verdade isso  apenas muita falta de sorte - quando se  um meio-
sangue, a gente sabe que alguma fora divina est tentando estragar o nosso dia. 

 

Ento l estvamos ns, Annabeth, Grover e eu, andando pelos bosques ao longo da margem do rio, em 
New Jersey, as luzes de Nova York tornando o cu amarelo atrs de ns e o fedor do rio Hudson entrando 
por nosso nariz. 

 

Grover estava tremendo e balindo, e seus grandes olhos de bode, cujas pupilas haviam se transformado 
em fendas, estavam cheios de terror. 

 

- Trs Benevolentes. As trs de uma vez. 

 

Eu mesmo estava em estado de choque. A exploso das janelas do nibus ainda ecoava em meus 
ouvidos. Mas Annabeth nos fazia seguir, dizendo: 

 

- Vamos! Quanto mais longe chegarmos, melhor. 

 

- Todo o nosso dinheiro ficou l atrs - lembrei. - Nossa comida e nossas roupas. Tudo. 

 

- Bem, quem sabe se voc no tivesse decidido entrar na briga... 

 

- O que queria que eu fizesse? Deixasse vocs serem mortos? 

 

- Voc no precisava me proteger, Percy. Eu ia ficar bem. 

 

- fatiada como po de frma - interveio Grover -, mas bem. 

 

- Cale a boca, garoto-bode - disse Annabeth. 

 

Grover baliu, triste. 

 

- As latas... Uma sacola de latas perfeitamente boa. 

 

Ns chapinhamos pelas terras lamacentas, por entre horrveis rvores retorcidas que tinham um cheiro 
azedo de roupa suja. 

 

Depois de alguns minutos, Annabeth veio para o meu lado. 

 

- Olhe, eu... - sua voz vacilou. - Eu gostei de voc ter voltado para nos defender, ok? Aquilo foi realmente 
corajoso. 

 

- Somos uma equipe, certo? 

 

Ela ficou em silncio por mais alguns passos. 

 

-  s que, se voc morresse... alm do fato de que seria realmente uma droga para voc, isso significaria 
o fim da misso. Esta pode ser a minha nica chance de ver o mundo real. 

 

A tempestade havia finalmente acalmado. As luzes da cidade diminuram atrs de ns, deixando-nos em 
uma escurido quase total. No conseguia ver nada de Annabeth a no ser um reflexo de seu cabelo loiro. 

 

- Voc no sai do Acampamento Meio-Sangue desde que tinha sete anos? - perguntei-lhe. 

 

- No... apenas excurses rpidas. Meu pai... 

#
 

- O professor de histria. 

 

- . No deu certo morar em casa. Quer dizer, o Acampamento Meio-Sangue  a minha casa. - Ela agora 
estava despejando as palavras como se tivesse medo de que algum a interrompesse. - No acampamento 
a gente treina, treina. E  legal e tudo mais, mas o mundo real  onde os monstros esto.  onde a gente 
descobre se serve para alguma coisa ou no. 

 

Se no a conhecesse bem, poderia ter jurado que ouvi dvida em sua voz. 

 

- Voc  muito boa com aquela faca - falei. 

 

- Voc acha? 

 

- Qualquer um que seja capaz de montar nas costas de uma Fria, para mim,  muito bom. 

 

No pude ver direito, mas acho que ela deu um sorrisinho. 

 

- Sabe - disse ela -, talvez eu deva lhe contar... Uma coisa engraada l no nibus... 

 

O que quer que ela quisesse dizer foi interrompido por um piado estridente, como o som de uma coruja 
sendo torturada. 

 

- Ei, as minhas flautas de bambu ainda funcionam! - exclamou Grover. - Se ao menos eu pudesse me 
lembrar de uma melodia de .achar caminho., poderamos sair desses bosques! 

 

Ele soprou algumas notas, mas a semelhana da melodia com a de Hilary Duff ainda era questionvel. 

 

Em vez de achar um caminho, imediatamente colidi com uma rvore e arranjei um galo de bom tamanho 
na cabea. 

 

Adicionar  lista de superpoderes que eu no tenho: viso infravermelha. 

 

Depois de tropear, praguejar e, de modo geral, me sentir infeliz por mais um quilmetro ou algo assim, 
comecei a ver luzes  frente: as cores de um letreiro de neon. Senti cheiro de comida. Comida frita, 
gordurosa, excelente. Percebi que no havia comido nada que no fosse saudvel desde que chegara  
Colina Meio-Sangue, onde vivamos de uvas, po, queijo e churrasco light preparado por ninfas. O garoto 
aqui precisava de um cheeseburguer duplo. 

 

Continuamos andando at que vi por entre as rvores uma estrada deserta de duas pistas. Do outro lado 
havia um posto de gasolina fechado, um cartaz de um filme dos anos 90 e uma loja aberta, que era a fonte 
de luz de neon e do cheiro gostoso. 

 

No era um restaurante de fast-food como eu esperava. Era uma dessas estranhas lojas de curiosidades 
de beira de estrada, que vendem flamingos de jardim, ndios de madeira, ursos-pardos de cimento e 
coisas do gnero. A construo principal era um armazm comprido e baixo, cercado por quilmetros de 
esttuas. O letreiro de neon acima do porto era para mim impossvel de ler, pois, se existe coisa pior para 
a minha dislexia do que ingls normal,  ingls em letras cursivas, vermelhas, em neon. 

 

Para mim, parecia MEOPRI ED NESA ED JIDARN AD IAT MEE. 

 

- Que diabos que dizer aquilo? - perguntei. 

 

- No sei - disse Annabeth. 

 

Ela gostava tanto de ler que eu esquecera que ela tambm era dislxica. 

 

Grover traduziu: 

 

- Emprio de Anes de Jardim da Tia Eme. 

#
 

Nas laterais da entrada, conforme anunciado, havia dois anes de jardim de cimento, uns nanicos e feios e 
barbados, sorrindo e acenando como se estivessem posando para uma fotografia. 

 

Atravessei a rua, seguindo o cheiro dos hambrgeres. 

 

- Ei... - avisou Grover. 

 

- As luzes esto acessas l dentro - disse Annabeth. - Talvez esteja aberto. 

 

- Lanchonete - falei, ansioso. 

 

- Lanchonete - concordou ela. 

 

- Vocs dois esto loucos? - disse Grover. - Este lugar  esquisito. 

 

Ns o ignoramos. 

 

O terreno da frente era uma floresta de esttuas: animais de cimento, crianas de cimento, at um stiro 
de cimento tocando as flautas, o que deixou Grover arrepiado. 

 

- B! - baliu. - Parece meu tio Ferdinando! 

 

Paramos diante da porta do armazm. 

 

- No bata - implorou Grover. - Sinto cheiro de monstros. 

 

- Seu nariz est congestionado com as Frias - disse-lhe Annabeth. - O nico cheiro que estou sentindo  
de hambrgueres. Voc no est com fome? 

 

- Carne! - disse ele, desdenhoso. - Sou vegetariano. 

 
- Voc come enchiladas de queijo e latas de alumnio - lembrei-o. 

 

- So vegetais. Venham, vamos embora. Essas esttuas esto... olhando para mim. 

 

Ento a porta se abriu rangendo, e diante de ns estava uma mulher alta, do Oriente Mdio - eu pelo 
presumi que fosse de l, porque usava um longo vestido preto que escondia tudo menos as mos, e sua 
cabea estava totalmente coberta por um vu. Seus olhos brilhavam embaixo de uma cortina de gaze 
preta, mas isso foi tudo o que pude distinguir. As mos cor de caf pareciam velhas, mas bem cuidadas e 
elegantes, portanto imaginei que se tratasse de uma av que fora outrora uma bonita dama. 

 

O sotaque dela tambm tinha um qu do Oriente Mdio. Ela disse: 

 

- Crianas, j  muito tarde para estarem sozinhas na rua. Onde esto seus pais? 

 

- Eles esto... ahn... - Annabeth comeou a dizer. 

 

- Ns somos rfos - falei. 

 

- rfos? - disse a mulher. A palavra soou estranha em sua boca. - Mas meus queridos! Certamente no! 

 

- Ns nos perdemos da caravana - disse eu. - A caravana do nosso circo. O Mestre-de cerimnias nos 
disse para encontr-lo no posto de gasolina se nos perdssemos, mas ele pode ter esquecido, ou talvez 
se referisse a outro posto de gasolina. De qualquer modo, estamos perdidos. Esse cheiro  de comida? 

 

- Ah, meus queridos - disse a mulher. - Vocs precisam entrar, pobres crianas. Eu sou a tia Eme. Vo 
direto para os fundos do armazm, por favor. Ali h um lugar para refeies. 

 

Agradecemos e entramos. 

#
 

Annabeth murmurou para mim; 

 

- Caravana do circo? 

 

- Sempre h uma estratgia, certo? 

 

- Sua cabea est cheia de algas. 

 

O armazm era abarrotado de mais esttuas - pessoas, todas em poses diferentes, usando roupas 
diferentes e com expresses diferentes no rosto. Fiquei imaginando que era preciso ter um jardim bem 
grande para alojar ainda que uma nica esttua daquelas, porque eram todas em tamanho natural. Mas eu 
estava mesmo era pensando em comida. 

 

V em frente, pode me chamar de idiota por ir entrando na loja de uma senhora estranha como aquela s 
porque estava com fome, mas s vezes fao as coisas por impulso. Alm disso, voc nunca sentiu o 
cheiro dos hambrgueres da tia Eme. O aroma era como um gs hilariante na cadeira do dentista  fazia 
sumir todo o resto. Mal reparei nos soluos nervosos de Grover, nem no modo como os olhos das esttuas 
pareciam me seguir ou no fato de que a tia Eme trancara a porta atrs de ns. 

 

Tudo o que me preocupava era achar o lugar das refeies. E, sem duvida, l estava, no fundo do 
armazm, um balco de sanduches com uma grelha, uma maquina de refrigerantes, uma estufa de 
pretzels e uma mquina de queijo nacho. Tudo o que poderamos querer, mais algumas mesas de 
piquinique de ao na frente. 

 

- Por favor, sentem-se - disse a tia Eme. 

 

- Fantstico - comentei. 

 

- Hum - disse Grover com relutncia -, no temos nenhum dinheiro, senhora. 

 

Antes que eu pudesse dar uma cotovelada nas costelas dele, a tia Eme disse: 

 

- No, no, crianas. Nada de dinheiro. Esse  um caso especial, certo? Para rfos to simpticos,  por 
minha conta. 

 

- Obrigada, senhora - disse Annabeth. 

 

Tia Eme enrijeceu-se, como se Annabeth tivesse dito algo de errado, mas depois, com a mesma rapidez, 
relaxou. Portanto achei que estivesse imaginando coisas. 

 

- No tem de qu, Annabeth. Voc tem uns olhos cinzentos to bonitos, criana. - S depois me perguntei 
como ela sabia o nome de Annabeth, j que no tnhamos nos apresentado. 

 

Nossa anfitri desapareceu atrs do balco e comeou a cozinhar. Antes que eu me desse conta, ela nos 
tinha trazido bandejas de plstico com cheesburguer duplos, Milk-shakes de baunilha e pores gigantes 
de batas fritas. 

 

Eu j tinha comido metade do meu sanduche quando me lembrei de respirar. 

 

Annabeth sorveu ruidosamente seu Milk-shake. 

 

Grover beliscou as batatas fritas e olhou para o papel-toalha da bandeja como quem poderia experimentar 
aquilo, mas ainda parecia nervoso demais para comer. 

 

- O que  esse chiado? - perguntou ele. 

 

Prestei ateno, mas no ouvi nada. Annabeth sacudiu a cabea. 

 

#
- Chiado? - perguntou tia Eme. - Talvez voc esteja ouvindo o leo de fritura. Voce tem bons ouvidos, 
Grover. 

 

- Eu tomo vitaminas. Para os ouvidos. 

 

- Admirvel - disse ela. - Mas, por favor, relaxe. 

 

Tia Eme no comeu nada. Ela no descobrira a cabea nem para cozinhar, e agora estava sentada com 
os dedos entelaados, observando enquanto comamos. Era um pouco incmodo ser observado por 
algum cujo o rosto eu no conseguia ver, mas me sentia satisfeito depois do sanduche, e um pouco 
sonolento, e imaginei que o mnimo que podia fazer era puxar um pouco de conversa com nossa anfitri. 

 

- Ento, voc vende anes - falei, tentando parecer interessado. 

 

- Ah, sim - disse tia Eme. - E animais. E pessoas. Tudo para o jardim. Sob encomenda. As esttuas so 
muito populares, sabe. 

 

- Muito movimento nessa estrada? 

 

- No, nem tanto. Desde que a auto-estrada foi construda... a maioria dos carros j no passa por este 
caminho. Preciso cuidar bem de cada cliente que recebo. 

 

Senti um formigamento na nuca, como se algum estivesse me observando. Virei-me, mas era apenas a 
esttua de uma garotinha segurando uma cesta de Pscoa. Os detalhes eram incrveis, muito melhores 
que os vistos na maioria das esttuas de jardim. Mas havia algo de errado com seu rosto. Ela parecia 
assustada, at aterriorizada. 

 

- Ah! - disse tia Eme com tristeza. - Voc pode notar que alguma das minhas criaes no do muito certo. 
Elas so defeituosas. No vendem. O rosto  a parte mais difcil de sair perfeito. Sempre o rosto. 

 

- Voc mesma faz estas esttuas? - perguntei. 

 

- Ah, sim. J tive duas irms para me ajudar no negcio, mas elas faleceram, e a tia Eme ficou sozinha. S 
tenho as minhas esttuas.  por isso que as fao, sabe? So minha compania. - a tristeza na voz dela 
parecia to profunda e to real que no pude deixar de sentir pena. 

 

Annabeth tinha parado de comer. Ela se inclinou e disse: 

 

- Duas irms? 

 

-  uma histria terrvel - disse tia Eme. - No  para crianas, na verdade. Veja, Annabeth, uma mulher 
m estava com inveja de mim, muito tempo atrs, quando eu era jovem. Eu tinha um... um namorado, 
sabe, e essa mulher m estava determinada a nos separar. Ela provocou um acidente terrvel. Minhas 
irms ficaram do meu lado. Compartilharam a minha m sorte enquanto foi possvel, mas por fim 
morreram. Elas se esvaram. S eu sobrevivi, mas a um preo. Que preo. 

 

No entendi muito bem o que ela queria dizer, mas senti pena. Minhas plpebras estavam cada vez mais 
pesadas, o estmago cheio me deixara sonolento. Coitada da velha senhora. Quem ia querer fazer mal a 
algum to gentil? 

 

- Percy? - Annabeth me sacudia para chamar minha ateno. - Acho que devemos ir. Quer dizer, o 
mestre-de-cerimnias do circo deve estar esperando. 

 

A voz dela pareceu tensa. Eu no sabia muito bem por qu. Grover estava comendo o papel encerado da 
bandeja, mas se tia Eme estranhou aquilo, no disse nada. 

 

- Que olhos cinzentos bonitos - disse ela, outra vez para Annabeth. - Ah, mas faz muito tempo que no 
vejo olhos cinzentos como esses. 

 

#
Ela estendeu o brao como se fosse acariciar o rosto de Annabeth, mas Annabeth se levantou 
abruptamente. 

 

- Precisamos mesmo ir. 

 

- Sim! - Grover engoliu o papel toalha encerado e ps-se de p. - O mestre-de-cerimnia est esperando! 
Isso! 

 

Eu no queria ir. Estava satisfeito e contente. Tia Eme era muito gentil. Queria ficar um pouco com ela. 

 

- Por favor, queridos - implorou a tia Eme. -  to raro eu estar com crianas... Antes de ir, no gostariam 
de pelo menos de posar para uma foto? 

 

- Uma foto? - perguntou Annabeth com cautela. 

 

- Sim, uma fotografia. Vou us-la como modelo para um novo conjunto de esttuas. Crianas so muito 
populares, sabem? Todo mundo ama crianas. 

 

Annabeth se balanou de um p para o outro. 

 

- Acho que no podemos, senhora. Vamos, Percy... 

 

- Claro que podemos - disse eu. Estava irritado com Annabeth por ser to mandona, to mal-educada com 
uma velha senhora que acabara de nos dar comida de graa. -  s uma foto, Annabeth. Qual  o 
problema? 

 

- Sim, Annabeth - a mulher murmurou. - No h mal nenhum. 

 

Percebi que Annabeth no tinha gostado, mas deixou que tia Eme nos levasse para fora pela porta da 
frente, para o jardim de esttuas. 

 

Tia Eme nos conduziu at um banco de jardim perto do stiro de pedra. 

 

- Agora - disse ela - vou posicionar vocs corretamente. A mocinha no meio, e os dois jovens cavalheiros 
em cada lado. 

 

- No h muita luz para uma foto - observei. 

 

- Ah,  o suficiente - disse tia Eme. - Suficiente para enxergarmos um ao outro, no ? 

 

- Onde est a sua cmera? - perguntou Grover. 

 

Tia Eme deu um passo atrs, como que para admirar a foto. 

 

- Agora, o rosto  o mais difcil. Vocs podem sorrir para mim, por favor, todo mundo? Um grande sorriso? 

 

Grover deu uma olhada para o stiro de cimento a seu lado e murmurou: 

 

- Parece mesmo com o tio Ferdinando. 

 

- Grover! - ralhou tia Eme. - Olhe para este lado, querido. 

 

Ela ainda no tinha nenhuma cmera nas mos. 

 

- Percy... - disse Annabeth. 

 

Algum instinto me advertiu a dar ouvidos a Annabeth, mas eu estava lutando contra a sensao de sono, a 
agradvel moleza induzida pela comida e pela voz da velha senhora. 

 

#
- No vai demorar nem um segundo - disse tia Eme. - Sabe, no consigo v-los muito bem por causa 
desse maldito vu... 

 

- Percy, alguma coisa est errada - insistiu Annabeth. 

 

- Errada? - disse tia Ema, erguendo as mos para remover p vu em volta da cabea. - De modo algum, 
querida. Estou em to nobre companhia esta noite. O que poderia estar errado? 

 

- Aquele  o tio Ferdinando! - disse Grover, arfando. 

 

- No olhem para ela! - gritou Annabeth. Num piscar de olhos, ela enfiou o bon dos Yankees na cabea e 
desapareceu. Suas mos invisveis empurrara Grover e eu para fora do banco. 

 

Eu me vi cado no cho, olhando para as sandlias nos ps de tia Eme. 

 

Pude ouvir Grover correndo para um lado e Annabeth para o outro. Mas eu estava aturdido demais para 
me mexer. 

 

Ento ouvi um som estranho, um chiado, acima de mim. Meus olhos se ergueram para as mos de tia 
Eme, que se tornaram enrugadas e cheias de verrugas, com afiadas garras de bronze no lugar das unhas. 

 

Quase olhei mais para o alto, mas em algum lugar  minha esquerda Annabeth gritou: 

 

- No! No olhe! 

 

Mais chiados - o som de pequenas serpentes, logo acima de mim, que vinham de... de onde deveria estar 
a cabea da tia Eme. 

 

- Corra! - baliu Grover. 

 

Ouvi-o correndo pelos pedregulhos, gritando Maia! para dar partida em seus tnis voadores. Eu no 
conseguia me mexer. Fiquei olhando ficamente para as garras encarquilhadas de tia Eme, e tentei lutar 
contra o transe entorpecedor em que a velha me pusera. 

 

- Que pena ter de destruir um jovem rosto to bonito - disse-me em tom confortador. - Fique comigo, 
Percy. Tudo o que tem a fazer  olhar para cima. 

 

Combati o mpeto de obedecer. Em vez disso, olhei para o lado e vi uma daquelas bolas de vidro que as 
pessoas pem nos jardins - uma esfera espelhada. Pude ver o reflexo escuro de tia Eme no vidro 
alaranjado; seu vu se fora, revelando o rosto como um crculo plido tremeluzente. Os cabelos se 
mexiam, se contorcendo como serpentes. 

 

Tia Eme. 

 

Tia .M.. 

 

Como pude ser to estpido? 

 

Pense, disse a mim mesmo. Como foi que a Medusa morreu no mito? 

 

Mas eu no conseguia pensar. Algo me dizia que a Medusa do mito estava dormindo quando foi atacada 
por meu xar, Perseu. Agora, no estava nem um pouco sonolenta. Se quisesse, poderia usar aquelas 
garras ali mesmo e rasgar o meu rosto. 

 

- A dos Olhos Cinzentos fez isso comigo, Percy - disse a Medusa, ela no soava como um monstro. Sua 
voz me convidava a olhar para cima, a simpatizar com a pobre vov velhinha. - A me de Annabeth, a 
maldita Atena, transformou a bela mulher que eu era nisto aqui. 

 

- No d puvidos a ela! - gritou a voz de Annabeth, de algum lugar entre as estturas. - Corra, Percy! 

 

#
- Silncio! - rosnou a Medusa. Depois sua voz voltou a ser um murmurar tranqilizante. - Voc est vendo 
por que preciso destruir a menina, Percy. Ela  filha de minha inimiga. Vou esmagar a sua esttua at virar 
p. Mas voc, querido, voc no precisa sofrer. 

 

- No - murmurei. Tentei fazer minhas pernas se mexerem. 

 

- Voc quer mesmo ajudar os deuses? - perguntou a Medusa. - Entende o que o espera nessa misso 
boba, Percy? O que acontecer se chegar ao Mundo Inferior? No seja um peo dos olimpianos, meu 
querido. Voc estar melhor como esttua. Menos dor. Menos dor. 

 

- Percy! 

 

Atrs de mim, ouvi um zumbido, como o de um beija-flor de cem quilos dando um mergulho. Grover gritou: 

 

- Abaixe-se! 

 

Eu me virei, e l estava ele, Grover, no cu noturno, vindo bem na minha frente, com os tnis voadores 
batendo as assas, segurando um galho de rvore do tamanho de um basto de beisebol. Seus olhos 
estavam fechados com fora, a cabea se agitando de um lado para o outro. Guiava-se s pelos ouvidos e 
o nariz. 

 

- Abaixe-se! - gritou ele de novo. - Vou peg-la! 

 

Aquilo por fim me acordou para ao. Conhecendo Grover, tinha certeza de que ele ia errar a Medusa e 
me acertar. Mergulhei para um lado. 

 

Plaft! 

 

De incio pensei que fosse o som de Grover atingindo uma rvore. Ento a Medusa rugiu de raiva. 

 

- Seu stiro miservel - rosnou. - Vou acrescent-lo  minha coleo! 

 

- Essa foi pelo tio Ferdinando! - gritou Grover de volta. 

 

Sa correndo aos tropees e me escondi entre as esttuas enquanto Grover mergulhava para mais um 
ataque. 

 

Pimba! 

 

- Aaargh! - berrou a Medusa, as serpentes do cabelo sibilando e cuspindo. 

 

Bem ao meu lado, a voz de Annabeth disse: 

 

- Percy! 

 

Pulei to alto que meus ps quase derrubaram um ano de jardim. 

 

- Ai! No faa isso! 

 

Annabeth tirou o bon dos Yankees e se tornou visvel. 

 

- Voc tem de cortar a cabea dela. 

 

- O qu? 

 

- Est louca? Vamos dar o fora daqui. 

 

- A Medusa  uma ameaa. Ela  m. Eu mesma a mataria, mas... - Annabeth engoliu em seco, como se 
estivesse prestes a admitir algo difcil. - Mas voc tem a melhor arma. Alm disso, nunca vou conseguir 
chegar perto dela. Ela me faria em pedacinhos por causa da minha me. Voc... voc tem uma chance. 

#
 

- O qu? Eu no posso... 

 

- Olhe, voc quer que ela transforme mais gente inocente em esttua? 

 

Ela apontou para as esttuas de um casal apaixonado, um homem e uma mulher abraados, 
transformados em pedra pelo monstro. 

 

Annabeth, agarrou uma esfera espelhada verde de um pedestal prximo. 

 

- Um escudo espelhado seria melhor. - Ela estudou a esfera com ar crtico. - A convexidade causar uma 
certa distoro. O tamanho do reflexo estar distorcido por uma fator de... 

 

- Quer falar numa lngua que eu entenda? 

 

- Estou falando! - Ela me jogou a bola de vidro. - S olhe para a Medusa pelo espelho. Nunca olhe 
diretamente para ela. 

 

- Ei, gente! - gritou Grover em algum lugar acima de ns. - Acho que ela est inconsciente! 

 

- Grrraaaurrr! 

 

- Talvez no - corrigiu ele. E mergulhou para mais um ataque. 

 

- Depressa - disse Annabeth para mim. - Grover tem um excelente nariz, mas vai acabar caindo. 

 

Peguei minha caneta e tirei a tampa. A lmina de bronze de Contracorrente se alongou em minha mo. 

 

Segui os sons de silvos e cuspidas do cabelo de Medusa. 

 

Mantive os olhos cravados na esfera espelhada para ver somente o reflexo do monstro, e no a coisa real. 
Ento, no vidro tingido de verde, eu a enxerguei. 

 

Grover vinha descendo para mais um assalto com o basto, mas dessa vez voou um pouco baixo demais. 
A Medusa agarrou o basto e o desviou do curso. Ele deu uma cambalhota no ar e tombou nos braos de 
um urso-pardo de pedra com um dolorido Uummmpff. 

 

A Medusa estava a ponto de pular em cima dele quando eu gritei: 

 

- Ei! 

 

Avancei na direo dela, o que no foi fcil, segurando uma espada e uma bola de vidro. Se a Medusa 
atacasse, seria difcil me defender. 

 

Mas ela deixou que eu me aproximasse - seis metros, trs metros. 

 

Agora era possvel para ver o reflexo do seu rosto. Certamente no era assim to feio. As curvas verdes 
da bola espelhada deviam estar distorcendo a imagem, tornando-a ainda pior. 

 

- Voc no machucaria uma velhinha, Percy - sussurrou ela. - Sei que no faria isso. 

 

Hesitei, fascinado pelo rosto que vi refletido no vidro - os olhos que pareciam arder refletidos no tom 
esverdeado, fazendo mes braos fraquejarem. 

 

De cima do urso-pardo de cmento, Grover gemeu: 

 

- Percy, no lhe d ouvidos! 

 

A Medusa gargalhou. 

 

#
- Tarde demais. 

 

Ela se lanou at mim com suas garras. 

 

Dei um golpe com a espada, ouvi um plof! nauseante, e ento um chiado como o de vento escapando de 
uma caverna - o som de um monstro se desintegrando. 

 

Algo caiu no cho ao lado do meu p. Precisei reunir toda a minha fora de vontade para no olhar. Pude 
sentir uma secreo morna empapando minha meia e pequenas serpentes agonizantes puxando os 
cadaros dos meus sapatos. 

 

- Ah, eca! - disse Grover. Seus olhos ainda estavam bem fechados, mas imagino que conseguisse ouvir 
aquilo gorgolejando e fumegando. - Megaeca. 

 

Annabeth se aproximou de mim, os olhos fixos no cu. Estava segurndo o vu da medusa. 

 

- No se mova - disse ela. 

 

Com muito, muito cuidado, sem olhar para baixo, ajoelhou-se e embrulhou a cabea do monstro no pano 
preto, depois a ergueu. Ainda estava pingando um suco verde. 

 

- Tudo bem com voc? - perguntou-me com a voz trmula. 

 

- Sim - conclu, embora sentisse vontade de vomitar meu cheesburguer duplo. - Por que... por que a 
cabea no evaporou? 

 

- Depois que voc a decepa, ela se torna um trofu de guerra - disse ela. - Como o chifre do Minotauro. 
Mas no a desembrulhe. Ainda pode petrific-lo. 

 

Grover gemeu enquanto descia da esttua do urso-pardo. Estava com um grande vergo na testa. O bon 
rastafri verde estava pendurado em um dos pequenos chifres de bode e os ps falsos haviam sido 
arrancados dos cascos. Os tnis mgicos voavam sem rumo em volta de sua cabea. 

 

- Nosso grande aviador - disse eu. - Bom trabalho, cara. 

 

Ele conseguiu dar um sorriso envergonhado. 

 

- Se bem que, na verdade, no foi nada divertido. Bem, a parte de acert-la com o pau, isso foi bom. Mas 
me arrebentar contra um urso de concreto? Nada divertido. 

 

Ele agarrou os tnis no ar. Eu pus a tampa em minha espada. Juntos, ns trs voltamos cambaleando 
para o armazm. 

 

Encontramos alguns sacos plsticos velhos atrs do balco de lanches e embrulhamos duas vezes a 
cabea da Medusa. Com um plop, largamos a coisa em cima da mesa onde havamos jantado e nos 
sentamos em volta, exaustos demais para falar. 

 

Por fim eu disse: 

 

- Ento temos de agradecer a Atena por esse monstro? 

 

Annabeth me lanou um olhar irritado. 

 

- A seu pai, na verdade. Medusa era namorada de Poseidon. Eles combinaram um encontro no templo de 
minha me. Foi por isso que Atena a transformou em monstro. A Medusa e suas irms, que a ajudaram a 
entrar no templo, se transformaram nas trs Grgonas.  por isso que ela queria me picar em pedacinhos, 
mas ia conservar voc como uma bela esttua. Ainda gosta de seu pai. Voc deve t-la feito se lembrar 
dele. 

 

Meu rosto estava ardendo. 

#
 

- Ah, ento a culpa de termos encontrado a Medusa  minha? 

 

Annabeth endireitou o corpo. Em uma pssima imitao de minha voz, disse: 

 

- . s uma foto, Annabeth. Qual  o problema?. 

 

- Deixa para l - falei. - Voc  impossvel. 

 

- Voc  insuportvel. 

 

- Voc ... 

 

- Ei! - Interrompeu Grover. - Vocs dois esto me dando enxaqueca. E stiros nem tm enxaqueca. O que 
vamos fazer com a cabea? 

 

Eu olhei para aquilo. Uma pequena serpente estava pendurada para fora de um buraco no plstico. As 
palavras impressas no saco diziam: AGRADECEMOS SUA VISITA! 

 

Eu estava zangado, no s com Annabeth ou a me dela, mas com todos os deuses por causa daquela 
misso, por nos terem tirado da estrada e pelas duas grandes batalhas logo no primeiro dia fora do 
acampamento. Nesse ritmo, jamais chegaramos vivos a Los Angeles, muito menos antes do solstcio de 
vero. 

 

O que a Medusa tinha dito? No seja um peo dos olimpianos, meu querido. Voc estar melhor como 
esttua. 

 

Eu me levantei. 

 

- Volto j. 

 

- Percy - chamou Annabeth. - O que voc... 

 

Vasculhei os fundos do armazm at encontrar o escritrio da Medusa. Seu livro-caixa mostrava as seis 
vendas mais recentes, todas remessadas para o Mundo Inferior para decorar o jardim de Hades e 
Persfone. De acordo com uma nota de embarque, o endereo de cobrana do Mundo Inferior era os 
Estdios de Gravao M.A.C.  Morto ao Chegar -, West Hollywood, Califrnia. Dobrei a nota e a enfiei no 
bolso. 

 

Na caixa registradora encontrei vinte dlares, uns dracmas de ouro e algumas guias de remessa do 
Expresso Noturno de Hermes, cada qual com uma pequena bolsa de couro anexa, para moedas. 
Vasculhei o restante do escritrio at encontrar uma caixa do tamanho certo. 

 

Voltei para a mesa de piquenique, encaixotei a cabea da Medusa e preenchi uma guia de remessa: 

 

AOS DEUSES 

MONTE OLIMPO, 

600 ANDAR, 

EDIFCIO EMPIRE STATE 

NOVA YORK, NY 

 

COM OS MELHORES VOTOS, 

PERCY JACKSON 

 

- Eles no vo gostar disso - advertiu Grover. - Vo ach-lo impertinente. 

 

Coloquei alguns dracmas de ouro na bolsa anexa. Assim que a fechei, veio um som como o de uma caixa 
registradora. O pacote flutuou para fora da mesa e desapareceu com um pop! 

 

- Eu sou impertinente - disse. 

#
 

Olhei para Annabeth, desafiando-a a me criticar. 

 

Ela no criticou. Parecia resignada com o fato de eu ter um talento especial para chatear os deuses. 

 

- Vamos - murmurou ela. - Precisamos de um novo plano. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
DOZE  Um poodle  o nosso conselheiro. 

 

Estvamos nos sentindo superinfelizes naquela noite. 

 

Acampamos no bosque, a cem metros da estrada principal, em uma clareira pantanosa que as crianas do 
lugar obviamente vinham usando para festas. O cho estava repleto de latas de refrigerantes amassadas 
e embalagens de fast-food. 

 

Tnhamos pego um pouco de comida e cobertores da tia Eme, mas no ousamos acender uma fogueira 
para secar nossas roupas molhadas. As Frias e a Medusa j haviam proporcionado animao suficiente 
para um dia. No queramos atrair mais nada. 

 

Decidimos dormir em turnos. Prontifiquei-me a ser o primeiro a ficar de guarda. 

 

Annabeth enroscou-se sobre os cobertores e j estava roncando quando sua cabea tocou o cho. Grover 
subiu com seus tnis voadores para o galho mais baixo de uma arvore, encostou-se no tronco e ficou 
olhando para o cu da noite. 

 

- V em frente e durma - disse a ele. - Acordo voc se houver problemas. 

 

Ele assentiu, mas ainda assim no fechou os olhos. 

 

- Isso me deixa triste, Percy. 

 

- O qu? Ter se juntado a essa misso estpida? 

 

- No. Isso me deixa triste. - Ele apontou para todo aquele lixo no cho. - E o cu. No d nem para ver as 
estrelas. Eles poluram o cu. Esta  uma poca terrvel para ser um stiro. 

 

- Ah, sim. Acho que voc seria um ambientalista. 

 

Ele me lanou um olhar penetrante. 

 

- S um ser humano no seria. Sua espcie est entulhando o mundo to depressa que... Ora, no 
importa.  intil fazer sermes para um ser humano. Do jeito que as coisas vo, nunca encontrarei Pan. 

 

- Que Pan? 

 

- Pan! - bradou, indignado. - P-A-N. O grande deus Pan! Acha que quero uma licena de buscador para 
qu? 

 

Uma brisa estranha faz farfalhar a clareira, encobrindo por um momento o fedor de lixo e putrefao. 
Trazia o cheiro de frutas e flores selvagens, e de gua limpa de chuva, coisas que devem ter existido 
algum dia naqueles bosques. De repente, senti saudades de algo que jamais conhecera. 

 

- Fale-me sobre a busca - disse eu. 

 

Grover olhou para mim com receio, como se temesse que eu estivesse apenas me divertindo s custas 
dele. 

 

- O Deus dos Lugares Selvagens desapareceu h dois mil anos - contou. - Um marinheiro vindo da costa 
de feso ouviu uma voz misteriosa gritando na praia: .Conte a eles que o grande deus Pan morreu!. 
Quando os seres humanos ouviram a notcia, acreditaram. Esto pilhando o reino de Pan desde ento. 
Mas, para os stiros, Pan era nosso senhor e mestre. Era nosso protetor, e tambm dos lugares selvagens 
na Terra. No acreditamos que tenha morrido. A cada gerao, os stiros mais valentes empenham a vida 
para encontrar Pan. Eles esquadrinham o planeta, explorando todos os locais mais selvagens  espera de 
encontrar o lugar onde ele se esconder e despert-lo de seu sono. 

 

- E voc quer ser um buscador. 

 

#
-  o sonho da minha vida - disse ele.- Meu pai era um buscador. E meu tio Ferdinando... a esttua que 
voc viu l... 

 

- Ah, certo, desculpe. 

 

Grover sacudiu a cabea. 

 

- Tio Ferdinando sabia os riscos. Meu pai tambm. Mas eu terei sucesso. Serei o primeiro buscador a 
retornar com vida. 

 

- Espere... o primeiro? 

 

Grover tirou suas flautas de bambu do bolso. 

 

- Nenhum buscador jamais voltou. Depois que partem, eles desaparecem. Nunca mais so vistos vivos de 
novo. 

 

- Nem uma vez em dois mil anos? 

 

- No. 

 

- E seu pai? Voc no tem idia do que aconteceu com ele? 

 

- Nenhuma. 

 

- Mas ainda assim quer ir - falei, admirado. - Quer dizer, voc realmente acha que ser voc quem vai 
encontrar Pan? 

 

- Preciso acreditar nisso, Percy. Todo buscador acredita.  a nica coisa que nos impede de ficar 
desesperados quando olharmos para o que os seres humanos fizeram com o mundo. Tenho de acreditar 
que Pan ainda pode estar despertado. 

 

Olhei para o nevoeiro alaranjado do cu e tentei entender como Grover podia perseguir um sonho que 
parecia to impossvel. Mas, por outro lado, ser que eu era melhor? 

 

- Como vamos entrar no Mundo Inferior? - perguntei. - Quer dizer, que chances temos contra um deus? 

 

- Eu no sei - admitiu ele. - Mas antes, na casa da Medusa, quando voc estava vasculhando o escritrio 
dela, Annabeth me disse... 

 

- Ah, esqueci. Annabeth sempre tem um plano todo esquematizado. 

 

- No seja to duro com ela, Percy. Annabeth teve uma vida difcil, mas  boa pessoa. Afinal, ela me 
perdoou... - ele se interrompeu. 

 

- O que quer dizer? - perguntei. - Perdoou o qu? 

 

De repente, Grover pareceu muito interessado em tirar notas das suas flautas. 

 

- Espere um minuto - disse eu. - Seu primeiro trabalho de guardio foi cinco anos atrs. Annabeth est no 
acampamento h cinco anos. Ela no era... quer dizer, a sua primeira tarefa que deu errado... 

 

- No posso falar sobre isso - disse Grover, e o tremor em seu lbio inferior me sugeriu que ele comearia 
a chorar se eu o pressionasse. - Mas como eu estava dizendo, l na casa da Medusa Annabeth e eu 
achamos em que h algo estranho com esta misso. Algo que no  o que parece. 

 

- Ah, novidades. Estou sendo acusado de roubar um relmpago que foi Hades quem pegou. 

 

#
- No me refiro a isso. As F... as Benevolentes pareciam estar se segurando. Como a sra. Dodds na 
Academia Yancy... por que ela esperou tanto tempo para tentar mat-lo? Depois, no nibus, elas no 
foram to agressivas quanto poderiam. 

 

- Elas me pareceram bastante agressivas. 

 

Grover sacudiu a cabea. 

 

- Estavam guinchando para ns: .Onde est? Onde?. 

 

- Perguntavam sobre mim - falei. 

 

- Talvez... mas tanto eu como Annabeth tivemos a sensao de que no estavam perguntando sobre uma 
pessoa. Elas perguntaram apenas .Onde est?., e no onde ele ou ela est. Pareciam falar de um objeto. 

 

- Isso no faz sentido. 

 

- Eu sei. Mas, se tivermos entendido mal alguma coisa a respeito desta misso, e s temos nove dias para 
encontrar o raio-mestre... - Ele olhou para mim como se estivesse esperando por respostas, mas eu no 
tinha nenhuma. 

 

Pensei no que a Medusa dissera: eu estava sendo usado pelos deuses. O que me aguardava era pior que 
a petrificao. 

 

- No fui sincero com voc - contei a Grover. - Eu no me importo com o raio-mestre. Concordei em ir para 
o Mundo Inferior para poder trazer de volta a minha me. 

 

Grover soprou uma nota suave nas suas flautas. 

 

- Eu sei, Percy. Mas voc tem certeza de que esse  o nico motivo? 

 

- No estou fazendo isso para ajudar meu pai. Ele no se importa comigo eu no me importo com ele. 

 

Do seu galho, Grover olhou atentamente para baixo. 

 

- Olhe, Percy. No sou to esperto quanto Annabeth. No sou to valente quanto voc. Mas sou muito 
bom em ler emoes. Voc est contente porque seu pai est vivo. Sente-se bem pelo fato de ele o ter 
assumido como filho, e parte de voc quer que ele fique orgulhoso. Foi por isso que voc despachou a 
cabea da Medusa para o Olimpo. Voc queria que ele visse o que voc fez. 

 

-  mesmo? Bem, talvez as emoes dos stiros funcionem de um jeito diferente das emoes humanas. 
Porque voc est errado. No me importo com o que ele pensa. 

 

Grover puxou os ps para cima do galho. 

 

- Certo, Percy. Tanto faz. 

 

- Alm disso, no fiz nada demais para me vangloriar. Mas samos de Nova York e j estamos aqui 
encalhados sem dinheiro e sem ter como ir para o oeste. 

 

Grover olhou para o cu noturno, como se estivesse pensando no problema. 

 

- Que tal eu ficar com o primeiro turno, heim? V dormir um pouco. 

 

Eu quis protestar, mas ele comeou a tocar Mozart, suava e doce, e eu me virei para o outro lado, os olhos 
ardendo. Depois de alguns compassos do Concerto para Piano n.12 eu estava dormindo. 

 

***** 

 

#
Em meus sonhos, eu estava em uma caverna escura  beira de um enorme abismo. Criaturas cinzentas 
de nvoa se revolviam  minha volta, sussurrando tiras de fumaa que eu, de algum modo, sabia que 
eram os espritos dos mortos. 

 

Eles puxavam as minhas roupas, tentando me empurrar de volta, mas eu me sentia compelido a andar 
para frente, para a beira. 

 

Olhar para baixo me dava vertigens. 

 

O abismo se abria to voraz e to largo, e era to completamente negro, que eu sabia que no devia ter 
fundo. Contudo tinha a sensao de que algo tentava emergir dali, algo enorme e maligno. 

 

O pequeno heri, ressoou uma voz em deleite, vinda l de baixo, das trevas. Fraco demais, jovem demais, 
mas talvez voc sirva. 

 

A voz parecia ancestral - fria e pesada. Envolveu-me como lenis de chumbo. 

 

Eles o enganaram, menino, disse ela. Faa comigo uma troca. Eu lhe darei o que quer. 

 

Uma imagem tremeluzente pairou acima do vazio: minha me, congelada no momento em que se 
dissolveu em uma chuva de ouro. Seu rosto estava distorcido de dor, como se o Minotauro ainda 
apertasse seu pescoo. Os olhos me encaravam, implorando: V! 

 

Tentei gritar, mas minha voz no saiu. 

 

De dentro do abismo, um riso frio ecoou. 

 

Uma fora invisvel me puxou para frente. Ia me arrastar para o precipcio se eu no agentasse firme. 

 

Ajude-me a subir, menino. A voz ficou mais vida. Traga-me o raio. Desfira um golpe contra os deuses 
traioeiros! 

 

Os espritos dos mortos sussurravam  minha volta: No! Acorde! 

 

A imagem da minha me comeou a sumir. A coisa no abismo apertou sua garra invisvel em volta de 
mim. 

 

Percebi que ela no queria me puxar para dentro. Estava me usando para erguer a si mesma para fora. 

 

Bom, a coisa murmurou. Bom. 

 

Acorde! sussurraram os mortos. Acorde! 

 

***** 

 

Algum estava me sacudindo. 

 

Meus olhos se abriram, e era dia. 

 

- Ah! - disse Annabeth. - O zumbi volta  vida. 

 

Eu tremia por causa do sonho. Ainda podia sentir o aperto do monstro do abismo em volta do meu peito. 

 

- Quanto tempo estive dormindo? 

 

- O suficiente para eu preparar o caf-da-manh - Annabeth me jogou um saco de flocos de milho sabor 
nacho, da lanchonete da tia Eme. - E para Grover sair e explorar. Olhe, ele encontrou um amigo. 

 

Tive dificuldades em focalizar o olhar. 

 

#
Grover estava sentado de pernas cruzadas em um cobertor com alguma coisa felpuda no colo, um bicho 
de pelcia sujo e de um cor-de-rosa artificial. 

 

No. No era um animal de pelcia. Era um poodle cor-de-rosa. 

 

O poodle latiu para mim, desconfiado. Grover disse: 

 

- No, ele no . 

 

Eu pisquei. 

 

- Voc est... falando com essa coisa? 

 

O poodle rosnou. 

 

- Esta coisa - avisou Grover -  nossa passagem para o oeste. Seja simptico com ele. 

 

- Voc pode falar com animais? 

 

Grover ignorou a pergunta. 

 

- Percy, apresento-lhe Gladiola. Gladiola, Percy. 

 

Olhei para Annabeth, calculando que ela fosse rir da pea que eles estavam me pregando, mas ela 
pareceu extremamente sria. 

 

- No vou dizer ol para um poodle cor-de-rosa - falei. - Esquea. 

 

- Percy - disse Annabeth -, eu disse ol para o poodle. Diga ol para o poodle. 

 

O poodle rosnou. 

 

Eu disse ol para o poodle. 

 

Grover explicou que havia encontrado Gladiola no bosque e que comearam a conversar. O poodle tinha 
fugido de uma famlia endinheirada do lugar, que oferecera duzentos dlares de recompensa para quem o 
devolvesse. Gladiola na verdade no queria voltar para a famlia, mas estava disposto a faz-lo, se isso 
fosse ajudar Grover. 

 

- Como Gladiola sabe da recompensa? - perguntei. 

 

- Ele leu os avisos - disse Grover. - bvio... 

 

-  claro - retruquei. - Que bobagem a minha. 

 

- Ento ns entregamos Gladiola - explicou Annabeth, em seu melhor tom de estrategista -, recebemos o 
dinheiro e compramos passagens para Los Angeles. Simples. 

 

Pensei no sonho - as vozes sussurrantes dos mortos, a coisa no abismo e o rosto de minha me, 
tremeluzindo enquanto se dissolvia em dourado. Tudo aquilo podia estar esperando por mim no oeste. 

 

- No em outro nibus - disse, cauteloso. 

 

- No - concordou Annabeth. 

 

Ela apontou colina abaixo, para os trilhos de trem que eu no conseguira ver na noite anterior, no escuro. 

 

- H uma estao da Amtrack a um quilmetro naquela direo. De acordo com Gladiola, o trem para o 
oeste parte ao meio-dia. 

 

#
TREZE  Meu mergulho para morte. 

 

Passamos dois dias no trem, rumo a oeste pelas colinas, por cima de rios, atravessando ondas de trigo cor 
de mbar. 

 

No fomos atacados nem uma vez, mas no relaxei. Sentia que estvamos viajando em uma vitrine, 
sendo observados de cima e, talvez de baixo, que alguma coisa estava aguardando o momento certo. 

 

Tentei ser discreto, pois meu nome e fotografia estavam estampados nas primeiras pginas de vrios 
jornais da Costa Leste. O Trenton Register-News publicou uma foto tirada por um turista quando desci do 
nibus da Greyhound. Estava com uma expresso ensandecida nos olhos. Minha espada era um borro 
metlico em minhas mos. Poderia ser um taco de beisebol ou de lacrose. 

 

A legenda da foto dizia: 

 

Percy Jackson, 12 anos, procurando para interrogatrio sobre o desaparecimento em Long Island de sua 
me h duas semanas, aparece aqui fugindo do nibus onde abordou diversas passageiras idosas. O 
nibus explodiu no acostamento de uma rodovia a leste de New Jersey logo depois que Jackson fugiu da 
cena do crime. Com base em relatos de testemunhas, a polcia acredita que o menino possa estar 
viajando com dois cmplices adolescentes. O padrasto, Gabe Ugliano, ofereceu uma recompensa em 
dinheiro para qualquer informao que leve  sua captura. 

 

- No se preocupe - disse-me Annabeth. - A polcia dos mortais nunca nos encontraria. 

 

Mas no pareceu muito segura. 

 

Passei o resto do dia alternando entre andar de uma ponta a outra do trem (pois para mim era difcil ficar 
sentado) e olhar pelas janelas. 

 

Numa oportunidade avistei uma famlia de centauros galopando por um campo de trigo, arcos de 
prontido, como se estivessem caando o almoo. O menininho centauro, que era do tamanho de um 
pnei, percebeu que eu estava olhando e acenou. Olhei em volta no vago de passageiros, porm mais 
ningum reparou. Os passageiros adultos estavam todos com a cara enterrada em laptops ou revistas. 

 

Em outra, mais ao anoitecer, vi algo muito grande se movendo pelo bosque. Poderia jurar que era um 
leo, s que no h lees vivendo soltos nos Estados Unidos, e aquilo era do tamanho de um tanque de 
guerra. O plo tinha reflexos dourados  luz do entardecer. Ele ento saltou por entre as arvores e 
desapareceu. 

 

***** 

 

O dinheiro de recompensa por devolver o poodle Gladiola s foi bastante para comprar passagens at 
Denver. No pudemos comprar leitos no vago-dormitrio, ento cochilamos nos assentos. Meu pescoo 
ficou duro. Tentei no babar enquanto dormia, j que Annabeth estava sentada bem a meu lado. 

 

Grover ficou roncando e balindo, e me acordava. Num momento ele se agitou demais e um de seus ps 
falsos caiu. Annabeth e eu tivemos de enfi-lo de volta antes que algum dos outros passageiros notasse. 

 

- E ento - Annabeth me perguntou depois que recolocamos o tnis de Grover -, quem quer a sua ajuda? 

 

- O que quer dizer? 

 

- Quando estava dormindo agora mesmo, voc murmurou .No quero ajudar voc.. Com quem estava 
sonhando? 

 

Estava em dvida sobre dizer alguma coisa. Era a segunda vez que sonhava com a voz maligna do 
abismo. Aquilo me incomodava tanto que, por fim, contei a ela. 

 

Annabeth ficou em silncio por um bom tempo. 

 

#
- No parece ser Hades. Ele sempre aparece sentado em um trono negro, e nunca ri. 

 

- Ele ofereceu minha me em troca. Quem mais poderia fazer isso? 

 

- Eu acho... se ele queria dizer .Ajude-me a subir do Mundo Inferior.... Se ele quer guerra com os 
olimpianos... Mas por que pedir a voc o raio-mestre, se ele j o tem? 

 

Sacudi a cabea, desejando saber a resposta. Pensei no que Grover havia contado, que as Frias no 
nibus pareciam estar procurando alguma coisa. 

 

Onde est? Onde? 

 

Talvez Grover tivesse sentido as minhas emoes. Ele bufou dormindo, resmungou algo sobre vegetais, e 
virou a cabea. 

 

Annabeth ajeitou o bon dele para cobrir os chifres. 

 

- Percy, voc no pode negociar com Hades. Sabe disso, certo? Ele  enganador, cruel e ganancioso. No 
me importo se suas Benevolentes no foram to agressivas dessa vez... 

 

- Dessa vez? - perguntei. - Voc quer dizer que j cruzou com elas antes? 

 

A mo dela deslizou at o colar. Ela manuseou uma conta branca vitrificada, na qual estava pintada a 
imagem de um pinheiro, um dos seus marcos de fim de vero, em argila. 

 

- Digamos apenas que no morro de amores pelo Senhor dos Mortos. Voc no pode ficar tentado a 
negociar sua me. 

 

- O que faria se fosse seu pai? 

 

- Essa  fcil - disse ela. - Eu o deixaria apodrecer. 

 

- Srio? 

 

Os olhos cinzentos de Annabeth se fixaram em mim. Estavam com a mesma expresso que vi no bosque, 
no acampamento, no momento em que ela puxou a espada contra o co infernal. 

 

- Meu pai me detestou desde o dia em que nasci, Percy - disse ela. - Ele nunca quis um beb. Quando me 
ganhou, pediu a Atena que me levasse de volta e me criasse no Olimpo, porque estava muito ocupado 
com seu trabalho. Ela no ficou contente com isso. Disse a ele que os heris tm de ser criados por seu 
parente mortal. 

 

- Mas como... quer dizer, voc no nasceu em um hospital... 

 

- Apareci na porta do meu pai, em um bero de ouro, trazido do Olimpo por Zfiro, o Vento Ocidental. Da 
voc imaginaria que meu pai se lembrasse disso como um milagre, no ? Como se, quem sabe, tivesse 
feito algumas fotos digitais ou algo do tipo. Mas ele sempre falou sobre a minha chegada como se fosse a 
coisa mais inconveniente que j lhe acontecera. Quando eu tinha cinco anos, ele se casou e esqueceu 
totalmente Atena. Arranjou uma esposa mortal .normal. e teve dois filhos mortais .normais., e tentou fazer 
de conta que eu no existia. 

 

Olhei pela janela do trem. As luzes de uma cidade adormecida estavam passando. Quis fazer Annabeth se 
sentir melhor, mas no sabia como. 

 

- Minha me se casou com um cara horroroso demais - contei a ela. - Grover disse que ela fez isso para 
me proteger, para me esconder no cheiro de uma famlia humana. Quem sabe seu pai no estava 
pensando nisso? 

 

#
Annabeth continuou focada em seu colar. Apertava o anel de formatura de ouro que estava pendurado 
entre as contas. Ocorreu-me que o anel devia ser do pai dela. Fiquei imaginando por que ela o usava se o 
odiava tanto. 

 

- Ele no liga para mim - disse ela. - A mulher dele... minha madrasta... me tratava como uma aberrao. 
Ela ia me deixar brincar com os filhos dela. Meu pai concordava. Sempre que acontecia alguma coisa 
perigosa... sabe, algo a ver com monstros... os dois me olhavam com raiva, do tipo .Como voc ousa pr 
nossa famlia em perigo.. No fim, entendi a indireta. Eu no era querida. Eu fugi. 

 

- Que idade voc tinha? 

 

- A mesma idade que comecei o acampamento. Sete. 

 

- Mas... voc no ia conseguir chegar at a Colina Meio-Sangue sozinha. 

 

- No, sozinha no. Atena me protegeu, me guiou em direo  ajuda. Fiz amigos inesperados que 
cuidaram de mim, bem, por pouco tempo. 

 

Quis perguntar o que havia acontecido, mas Annabeth parecia perdida em lembranas tristes. Ento ouvi o 
som dos roncos de Grover e fiquei olhando para fora, pelas janelas do trem, enquanto os campos escuros 
de Ohio iam passando. 

 

***** 

 

Perto do fim do nosso segundo dia no trem, em 13 de junho, oito dias antes do solstcio de vero, 
passamos por algumas colinas douradas e sobre o rio Mississipi, e entramos em St. Louis. 

 

Annabeth esticou o pescoo para ver o Portal em Arco, que me pareceu uma enorme ala de sacola de 
compras fincada na cidade. 

 

- Eu quero fazer aquilo - suspirou ela. 

 

- O qu? - perguntei. 

 

- Construir algo como aquilo. Voc j viu o Partenon, Percy? 

 

- S em fotos. 

 

- Algum dia eu vou v-lo em pessoa. Vou construir o maior monumento aos deuses que j foi feito. Algo 
que vai durar mil anos. 

 

Eu ri. 

 

- Voc? Uma arquiteta? 

 

No sei por qu, mas achei aquilo engraado: a idia de Annabeth tentando ficar sentada em silncio 
desenhando o dia inteiro. 

 

As bochechas dela coraram. 

 

- Sim, uma arquiteta. Atena espera que seus filhos criem coisas, no apenas as derrubem, como um certo 
deus dos terremotos. 

 

Observei as guas marrons e turbulentas do Mississipi embaixo. 

 

- Desculpe - disse Annabeth. - Isso foi maldoso. 

 

- No d para trabalharmos juntos? - implorei. - Quer dizer, Atena e Poseidon no poderiam colaborar um 
com o outro? 

 

#
Annabeth teve de pensar a respeito. 

 

- Eu acho... a carruagem - disse ela, hesitante. - Minha me a inventou, mas Poseidon criou os cavalos 
sados das cristas das ondas. Ento eles tiveram de trabalhar juntos para torn-la completa. 

 

- Ento ns tambm podemos colaborar um com o outro. Certo? 

 

Entramos na cidade. Annabeth olhava enquanto o Arco desaparecia atrs de um hotel. 

 

- Acho que sim - disse, afinal. 

 

Entramos na estao da rede ferroviria no centro da cidade. O alto falante nos avisou que teramos uma 
parada de trs horas antes de partir para Denver. 

 

Grover se espreguiou. Ainda despertando, disse: 

 

- Comida. 

 

- Vamos, menino-bode - disse Annabeth. - Fazer um passeio. 

 

- Passeio? 

 

- At o Portal em Arco - disse ela. - Pode ser a minha nica oportunidade de subir at o topo. Voc vem ou 
no? 

 

Grover e eu nos entreolhamos. 

 

Eu queria dizer no, mas conclu que, se Annabeth ia, no poderamos deix-la sozinha. 

 

- Desde que haja uma lanchonete sem monstros. 

 

***** 

 

O Arco ficava a cerca de um quilometro e meio da estao. No fim do dia, as filas para entrar no eram to 
longas. Seguimos cautelosamente pelo museu subterrneo, olhando para vages cobertos e outras 
sucatas do sculo XIX. No era assim to empolgante, mas Annabeth ia contando fatos interessantes 
sobre como o Arco fora construdo e Grover me passava jujubas, portanto, para mim estava bom. 

 

Mas fiquei olhando em volta, para as outras pessoas na fila. 

 

- Est sentindo algum cheiro? - murmurei para Grover. 

 

Ele tirou o nariz do saco de jujubas por tempo suficiente para farejar. 

 

- Subterrneo - disse ele enojado. - O ar embaixo da terra sempre tem cheiro de monstros. Provavelmente 
no quer dizer nada. 

 

Mas eu tinha a sensao de que algo estava errado. Tinha a sensao de que no devamos estar ali. 

 

- Gente - disse eu -, vocs conhecem os smbolos de poder dos deuses? 

 

Annabeth estava no meio da leitura sobre o equipamento de construo usado para erigir o Arco, mas deu 
uma olhada. 

 

- Sim? 

 

- Bem, Hades... 

 

Grover pigarreou. 

 

#
- Estamos em local pblico... Voc quer dizer, o nosso amigo do andar de baixo? 

 

- Ahn, certo - falei. - Nosso amigo do andar muito de baixo. Ele no tem um chapu como o de Annabeth? 

 

- Voc quer dizer o Elmo das Trevas - disse Annabeth. - Sim,  seu smbolo de poder. Eu o vi junto ao 
assento dele durante a assemblia do solstcio de inverno. 

 

- Ele estava l? - perguntei. 

 

Ela assentiu. 

 

-  a nica ocasio em que ele tem permisso de visitar o Olimpo - o dia mais escuro do ano. Mas, se o 
que ouvi  verdade, o elmo  muito mais poderoso que meu bon da invisibilidade... 

 

- Permite que ele se transforme em trevas - confirmou Grover. - Ele pode se fundir com as sombras ou 
passar atravs de paredes. No pode ser tocado nem visto nem ouvido. E pode irradiar um medo to 
intenso que  capaz de enlouquecer voc, ou fazer seu corao parar de bater. Por que acha que todas as 
criaturas racionais tm medo do escuro? 

 

- Mas ento... como sabemos se ele no est aqui agora mesmo, nos observando? - perguntei. 

 

Annabeth e Grover se entreolharam. 

 

- Ns no sabemos - disse Grover. 

 

- Obrigado, agora me sinto muito melhor - falei. - Ainda sobrou alguma jujuba azul? 

 

Tinha quase controlado meu desespero quando vi o minsculo elevador no qual iramos subir at o topo 
do Arco, e percebi que estava encrencado. Odeio espaos confinados. Eles me deixam doido. 

 

Fomos espremidos dentro do elevador junto com uma senhora grande e gorda e seu co, um chihuahua 
com uma coleira de falsos brilhantes. Calculei que talvez o chihuahua fosse um co-guia, por que nenhum 
dos guardas disse uma palavra a respeito. 

 

Comeamos a subir dentro do Arco. Eu nunca havia estado em um elevador que subia em curva, e meu 
estmago no gostou muito. 

 

- Sem os pais? - perguntou-nos a senhora gorda. 

 

Tinha olhos pequenos, redondos e brilhantes; dentes pontudos e manchados de caf; um chapu mole de 
jeans e um vestido de jeans armado demais. Parecia um dirigvel jeans. 

 

- Eles esto l embaixo - disse Annabeth. - Tm medo de altura. 

 

- Ah, pobrezinhos. 

 

O chihuahua rosnou. A mulher disse: 

 

- Vamos, vamos, filhinho. Comporte-se. - O co tinha olhos pequenos, redondos e brilhantes como os da 
dona, inteligentes e malvados. 

 

Eu disse: 

 

- Filhinho.  o nome dele? 

 

- No. 

 

Ela falou e sorriu, como se aquilo esclarecesse tudo. 

 

#
No topo do Arco, a plataforma de observao me lembrou uma lata acarpetada. Fileiras de janelinhas 
davam para a cidade, de um lado, e para o rio, do outro. A vista era legal, mas se existe uma coisa de que 
gosto ainda menos que lugar fechado,  um lugar fechado a duzentos metros de altura. 

 

Annabeth seguiu falando sobre suportes estruturais e sobre como teria feito as janelas maiores e projetado 
um piso transparente. Ela poderia ter ficado l em cima horas a fio, mas, para minha sorte, o guarda 
anunciou que a plataforma de observao seria fechada em poucos minutos. 

 

Guiei Grover e Annabeth em direo  sada, enfiei-os no elevador e estava quase entrando quando me 
dei conta de que j havia outros dois turistas l dentro. No tinha espao para mim. 

 

O guarda disse: 

 

- Prximo carro, senhor. 

 

- Vamos sair - disse Annabeth. - Vamos esperar com voc. 

 

Mas aquilo ia atrapalhar todo mundo e levar ainda mais tempo, ento eu disse: 

 

- No, tudo bem. Vejo vocs l embaixo. 

 

Grover e Annabeth pareceram nervosos, mas deixaram a porta do elevador se fechar. O carro 
desapareceu rampa abaixo. 

 

Agora as nicas pessoas que restavam na plataforma de observao ramos eu, um garotinho com os 
pais, o guarda e a senhora gorda com o chihuahua. 

 

Sorri pouco  vontade para a senhora gorda. Ela sorriu de volta, a lngua bifurcada tremulando entre os 
dentes. 

 

Espere um minuto. 

 

Lngua bifurcada? 

 

Antes que eu pudesse concluir se tinha realmente visto aquilo, o chihuahua pulou no cho e comeou a 
latir para mim. 

 

- Vamos, vamos, filhinho - disse a senhora. - No est divertido? Temos todas essas pessoas simpticas 
aqui. 

 

- Cachorrinho! - disse o menino. - Olhe, um cachorrinho! 

 

Os pais o puxaram de volta. 

 

O chihuahua arreganhou os dentes para mim, a espuma pingando dos lbios negros. 

 

- Bem, meu filho - suspirou a senhora gorda. - Se voc insiste. 

 

Meu estmago comeou a gelar. 

 

- Ahn, voc chamou esse chihuahua de filho? 

 

- Quimera, querido - corrigiu a senhora gorda. - No  um chihuahua.  um engano muito comum. 

 

Ela arregaou as mangas jeans, mostrando que a pele de seus braos era escamosa e verde. Quando 
sorriu, vi que seus dentes eram presas. As pupilas dos olhos eram fendas verticais, como as dos rpteis. 

 

O chihuahua latiu mais alto, e a cada latido ele crescia. Primeiro ficou do tamanho de um doberman, 
depois de um leo. O latido se transformou em rugido. 

 

#
O menininho gritou. Os pais o puxaram para a sada, bem na direo do guarda, que estava paralisado, de 
olhos arregalados para o monstro. 

 

A Quimera estava to alta que suas costas tocavam o teto. Tinha cabea de leo, com a juba untada de 
sangue, o corpo e os cascos de um bode gigante e uma serpente no lugar da cauda, losangos de trs 
metros de comprimento brotavam do traseiro peludo. 

 

Ainda tinha no pescoo a coleira de falsos brilhantes e a placa, do tamanho de um prato, era agora fcil de 
ler: QUIMERA  RAIVOSA, HLITO DE FOGO, VENENOSA  SE ENCONTRADA, FAVOR LIGAR PARA 
O TTARO  RAMAL 954. 

 

Percebi que no havia sequer tirado a tampa da minha espada. Minhas mos estavam amortecidas. Eu 
estava a trs metros da bocarra sangrenta da Quimera, e sabia que assim que me mexesse a criatura iria 
investir. 

 

A mulher-cobra fez um som sibilante que poderia ter sido uma risada. 

 

- Sinta-se honrado, Percy Jackson. O Senhor Zeus raramente me permite pr um heri  prova com um 
de minha prole. Pois eu sou a Me de Monstros, a terrvel Equidna! 

 

Olhei para ela. Tudo que eu pude pensar foi: 

 

- Isso no  o nome de bicho que come formigas? 

 

Ela uivou, a cara de rptil ficou marrom e verde de raiva. 

 

- Detesto quando as pessoas dizem isso! Detesto a Austrlia! Dar meu nome quele animal ridculo. Por 
causa disso, Percy Jackson, meu filho o destruir! 

 

A Quimera avanou, os dentes de leo rangendo. Consegui pular para o lado e me esquivar da mordida. 

 

Fui parar junto da famlia e do guarda, que agora estavam todos gritando, tentando abrir  fora as portas 
da sada de emergncia. 

 

No podia deixar que eles fossem feridos. Tirei a tampa da espada, corri para o outro lado da plataforma e 
gritei: 

 

- Ei, chihuahua! 

 

A Quimera se virou mais depressa do que eu achava possvel. 

 

Antes que eu pudesse erguer a espada, ela abriu a boca, soltando um mau cheiro como o da maior 
churrasqueira do mundo, e lanou uma coluna de chamas bem em cima de mim. 

 

Mergulhei atravs da exploso. O carpete explodiu em chamas; o calor foi to intenso que quase queimou 
minhas sobrancelhas. 

 

O lugar onde eu estava um momento antes se tornara um buraco esfarrapado na lateral do Arco, com 
metal derretido fumegando nas bordas. 

 

Essa  boa, pensei. Acabamos de soldar um monumento nacional. 

 

Contracorrente era agora uma lamina de bronze reluzente em minhas mos, e quando a Quimera se virou, 
eu a golpeei com violncia no pescoo. 

 

Foi um erro fatal. A lmina faiscou sem efeito contra a coleira de cachorro. Tentei recuperar o equilbrio, 
mas estava to preocupado em me defender da boca chamejante de leo que me esqueci completamente 
da cauda de serpente, at que ela fez uma volta e cravou as presas na minha panturrilha. 

 

#
Minha perna inteira ardeu em fogo. Tentei enfiar Contracorrente na boca da Quimera, mas a cauda de 
serpente enrolou-se nos meus tornozelos e me desequilibrou, e a espada voou de minha mo, saiu 
rodopiando pelo buraco no Arco e caiu no rio Mississipi. 

 

Consegui ficar em p, mas sabia que tinha perdido. Estava desarmado. Podia sentir o veneno letal 
subindo por meu peito. Lembrei-me de Quron dizendo que Anaklusmos sempre voltaria para mim, mas 
no havia nenhuma caneta em meu bolso. Talvez estivesse cado longe demais. Ou s voltasse quando 
estava em forma de caneta. Eu no sabia, e no ia viver o bastante para descobrir. 

 

Recuei para o buraco na parede. A Quimera avanou, rosnando e soltando espirais de fumaa pelos 
lbios. A mulher-serpente, Equidna, gargalhou. 

 

- J no se fazem mais heris como antigamente, heim, filho? 

 

O monstro rosnou. Parecia no estar com pressa de acabar comigo, agora que eu estava derrotado. 

 

Dei uma olhada para o guarda e a famlia. O menininho se escondia atrs das pernas do pai. Eu tinha de 
proteger aquelas pessoas. No podia simplesmente... morrer. Tentei pensar, mas meu corpo inteiro estava 
em fogo. Minha cabea girava. Eu no e tinha espada. Estava enfrentando um monstro imenso, que 
cuspia fogo, e sua me. E estava apavorado. 

 

No havia outro lugar para ir, portanto subi na beira do buraco. Muito, muito embaixo, o rio brilhava. 

 

Ser que se eu morresse os monstros iriam embora? Deixariam os humanos em paz? 

 

- Se voc  o filho de Poseidon - sibilou Equidna -, ento no tem medo da gua. Pule, Percy Jackson. 
Mostre-me que a gua no lhe far mal. Pule e recupere a espada. Prove a sua linhagem. 

 

Sim, certo, pensei. Eu tinha lido em algum lugar que pular na gua da altura de alguns andares era como 
se atirar em asfalto. Dali, eu ia me desfazer em pedaos com o impacto. 

 

A boca da Quimera estava vermelha, incandescente, preparando uma nova rajada de fogo. 

 

- Voc no tem f - disse a Quimera. - No confia nos deuses. No posso culp-lo, pequeno covarde. 
Melhor que morra agora. Os deuses so infiis. O veneno est no seu corao. 

 

Ela estava certa: eu estava morrendo. Podia sentir a respirao falhando. Ningum poderia me salvar, 
nem mesmo os deuses. 

 

Recuei e olhei para a gua l embaixo. Lembrei-me do calor do sorriso de meu pai quando eu era um 
beb. Ele deve ter me visto. Deve ter me visitado quando eu estava no bero. 

 

Lembrei-me do tridente verde que aparecera girando acima da minha cabea na noite da captura da 
bandeira, quando Poseidon me reconheceu como seu filho. 

 

Mas aquilo no era o mar. Aquilo era o Mississipi, bem no meio dos Estados Unidos. Ali no havia nenhum 
Deus do mar. 

 

- Morra, infiel - disse a voz rouca de Equidna, e a Quimera mandou uma coluna de fogo na direo de meu 
rosto. 

 

- Pai, me ajude - implorei. 

 

Virei-me e pulei. Minhas roupas em chamas, o veneno correndo por minhas veias, mergulhei no rio. 

 

 

 

 

 

 

#
QUATORZE  Me torno um fugitivo conhecido. 

 

 

Eu adoraria contar que tive alguma revelao profunda enquanto caa, que aprendi a aceitar minha prpria 
mortalidade, que ri em face da morte etc. 

 

A verdade? Meu nico pensamento foi: Aaaaarggghhhh! 

 

O rio vinha em minha direo na velocidade de um caminho. O vento arrancou o flego dos meus 
pulmes. Torres, arranha-cus e pontes giravam entrando e saindo do meu campo de viso. 

 

E ento... 

 

Cata-puuum! 

 

Um turbilho de bolhas. Afundei nas trevas, certo de que acabaria engolindo por trinta metros de lama e 
perdido para sempre. 

 

Mas meu impacto com a gua no doeu. Eu estava agora descendo lentamente, com bolhas passando por 
entre meus dedos. Fui parar no fundo do rio, em silencio. Um peixe-gato do tamanho do meu padrasto se 
afastou com uma guinada para a escurido. Nuvens de lodo e lixo nojento - garrafas de cerveja, sapatos 
velhos, sacos plsticos - giravam ao meu redor. 

 

quela altura me dei conta de algumas coisas. Primeiro: eu no tinha sido achatado como uma panqueca. 
No havia sido assado como churrasco. No sentia nem mesmo o veneno da Quimera fervendo em 
minhas veias. Eu estava vivo, o que era bom. 

 

Segundo: eu no estava molhado. Quer dizer, conseguia sentir a friagem da gua. Podia ver onde o fogo 
em minhas roupas tinha sido apagado. Mas, quando toquei minha camisa, parecia perfeitamente seca. 

 

Olhei para o lixo que passava flutuando e agarrei um velho isqueiro. 

 

Sem chance, pensei. 

 

Risquei o isqueiro. Uma fasca saltou. Uma chama pequenina apareceu, bem ali, no fundo do Mississipi. 

 

Agarrei uma embalagem ensopada de hambrguer na corrente e o papel secou imediatamente. Queimei-o 
sem problemas. Assim que o soltei, as chamas bruxelearam e se apagaram. A embalagem voltou a se 
transformar em um trapo viscoso. Esquisito. 

 

Mas a idia mais estranha me ocorreu por ltimo: eu estava respirando. Estava embaixo dgua e 
respirava normalmente. 

 

Fiquei de p, afundado at as coxas na lama. Sentia as pernas tremulas. As mos tremiam. Eu devia estar 
morto. O fato de no estar parecia... bem, um milagre. Imaginei uma voz de mulher, uma voz que parecia 
um pouco com a da minha me: Percy, como  que se diz? 

 

- Ahn... muito obrigado. - Embaixo dgua, minha voz soava como em gravaes, idntica  de um garoto 
muito mais velho. - Muito obrigado... pai. 

 

Nenhuma resposta. Apenas o fluir escuro do lixo rio abaixo, o enorme peixe-gato que passava deslizando, 
o brilho do sol poente na superfcie da gua muito acima, deixando tudo da cor de doce de leite. 

 

Por que Poseidon me salvara? Quanto mais eu pensava nisso, mais envergonhado me sentia. Ento, eu 
tivera sorte algumas vezes. Contra algo como a Quimera, eu no tinha a menor chance. Aquela pobre 
gente no Arco provavelmente virara torrada. No consegui proteg-los. No era nenhum heri. Talvez 
devesse simplesmente ficar aqui embaixo com o peixe-gato, juntar-me aos comensais do fundo do rio. 

 

Plof-plof-plof. As ps da hlice de um barco agitaram a gua sobre mim, revirando o lodo ao redor. 

 

#
Ali, no mais de cinco metros  frente, estava minha espada, a guarda de bronze brilhando, espetada na 
lama. 

 

Ouvi aquela voz de mulher outra vez: Percy, pegue a espada. Seu pai acredita em voc. Dessa vez 
percebi que a voz no estava em minha cabea. Eu no a estava imaginando. As palavras pareciam vir de 
toda parte, ondulando pela gua como o sonar de um golfinho. 

 

- Onde est voc? - perguntei em voz alta. 

 

Ento, nas sombras, eu a vi - uma mulher da cor da gua, um fantasma na corrente, flutuando logo acima 
da espada. Tinha longos cabelos ondulantes, e os olhos, pouco visveis, eram verdes como os meus. 

 

Um n se formou em minha garganta. 

 

- Mame? 

 

No, criana, apenas uma mensageira, embora o destino de sua me no seja to inevitvel como voc 
acredita. V para a praia em Santa Monica. 

 

- O qu? 

 

 a vontade se seu pai. Antes de descer para o Mundo Inferior, deve ir a Santa Monica. Por favor, Percy, 
no posso ficar muito tempo aqui. O rio  sujo demais para a minha presena. 

 

- Mas... - Eu no sabia muito bem se a mulher era a minha me ou, bem, uma viso dela. - Quem... como 
voc... 

 

Havia muita coisa que eu queria perguntar, as palavras se amontoavam em minha garganta. 

 

No posso ficar, meu valente, disse a mulher. Ela estendeu a mo, e sentia a corrente roar meu rosto 
como uma caricia. Voc precisa ir a Santa Monica! E, Percy, cuidado com os presentes... 

 

A voz dela sumiu. 

 

- Presentes? - perguntei. - Que presentes? Espere! 

 

Ela tentou falar novamente, mas o som se fora. Sua imagem se desfez. Se era a minha me, eu a tinha 
perdido de novo. 

 

Senti vontade de me afogar. O nico problema: eu era imune a isso. 

 

Seu pai acredita em voc, ela dissera. 

 

Ela tambm me chamara de valente... a no ser que estivesse falando com o peixe-gato. 

 

Fui me arrastando at Contracorrente e a agarrei pela guarda. A Quimera ainda podia estar l em cima 
com sua me gorda e peonhenta, esperando para acabar comigo. Na melhor das hipteses, a polcia 
mortal estaria chegando, tentando descobrir quem havia aberto um buraco no Arco. Se me achassem, 
teriam algumas perguntas a fazer. 

 

Pus a tampa na espada e enfiei a esferogrfica no bolso. 

 

- Muito obrigado, pai - disse de novo para a gua escura. Ento dei um impulso para cima, atravs da 
sujeira, e nadei at a superfcie. 

 

***** 

 

Emergi ao lado de um McDonalds flutuante. 

 

#
A um quarteiro de distancia, todos os veculos de emergncia se St. Louis cercavam o Arco. Helicpteros 
da policia circulavam no alto. A multido de curiosos me lembrou Times Square no dia de ano-novo. 

 

Uma menininha disse: 

 

- Mame! Aquele menino saiu andando do rio. 

 

- Que bom, querida - disse a me, esticando o pescoo para ver as ambulncias. 

 

- Mas ele est seco! 

 

- Que bom, querida. 

 

Uma reprter estava falando para a cmera: 

 

.Tudo leva a crer, pelo que soubemos, que no se trata de um ataque terrorista, mas as investigaes 
ainda esto muito no comeo. Os danos, como podem ver, so muito srios. Estamos tentando obter 
acesso a alguns sobreviventes para question-los a respeito de testemunhos de que algum teria cado de 
cima do Arco.. 

 

Sobreviventes. Senti uma onda de alivio. O guarda e a famlia tinham escapado ilesos. Eu esperava que 
Annabeth e Grover estivessem bem. 

 

Tentei abrir caminho na multido para ver o que estava acontecendo depois da barreira policial. 

 

....um adolescente., outro reporte estava dizendo. .O Canal 5 soube que as cmeras de vigilncia 
mostram um adolescente enlouquecido na plataforma de observao, detonando de algum modo aquela 
estranha exploso.  difcil acreditar, John, mas  isso que estamos ouvindo dizer. Mais uma vez, no h 
nenhuma fatalidade confirmada.... 

 

Recuei, tentando manter a cabea baixa. Tinha de dar uma volta enorme para contornar a permetro 
policial. Havia policiais e reprteres por toda parte. 

 

Estava quase perdendo a esperana de encontrar Annabeth e Grover quando uma voz familiar baliu: 

 

- Perrr-cy! 

 

Virei-me e dei com o abrao de urso de Grover - ou abrao de bode. Ele disse: 

 

- Pensamos que tivesse ido para o Hades pelo pior caminho! 

 

Annabeth estava trs dele, tentando fazer cara de zangada, mas at ela parecia aliviada por me ver. 

 

- No podemos deixar voc cinco minutos sozinho! O que aconteceu? 

 

- Foi como um tombo. 

 

- Percy! Cento e noventa e dois metros? 

 

Atrs de ns, um policial gritou: 

 

- Abram passagem! - A multido se dividiu e uma dupla de paramdicos avanou empurrando uma mulher 
numa maca. Eu a reconheci imediatamente como a me do menininho que estava na plataforma. Ela dizia: 

 

- E ento aquele cachorro enorme, aquele chihuahua enorme cuspindo fogo... 

 

- Certo, minha senhora - disse o paramdico. - Acalme-se por favor. Sua famlia est bem. O medicamento 
esta comeando a fazer efeito. 

 

#
- Eu no estou louca! Aquele menino pulou pelo buraco e o monstro desapareceu. - Ento ela me viu. - L 
est ele!  aquele menino! 

 

Virei rapidamente e puxei Annabeth e Grover atrs de mim. Desaparecemos na multido. 

 

- O que est acontecendo? - perguntou Annabeth. - Ela estava falando do chihuahua do elevador? 

 

Contei a eles a historia inteira da Quimera, Equidna, meu show de mergulho e a mensagem da moa 
embaixo dgua. 

 

- Uau  disse Grover. - Temos de lev-lo a Santa Monica! No pode ignorar uma ordem de seu pai. 

 

Antes que Annabeth pudesse responder, passamos por outro reprter que gravava um boletim informativo, 
e quase fiquei paralisado quando ele disse: 

 

- Percy Jackson.  isso mesmo, Dan. O canal 12 soube que o menino que pode ter causado essa 
exploso se encaixa na descrio de um rapazinho procurado pelas autoridades por um serio acidente 
com um nibus em New Jersey trs dias atrs. E acredita-se que o menino esteja viajando para o oeste. 
Para os nossos espectadores de casa, esta  a foto de Percy Jackson. 

 

Ns nos abaixamos atrs do carro de reportagem e nos esgueiramos para um beco. 

 

- Primeiro o mais importante - disse a Grover. - Temos de sair da cidade! 

 

De algum modo conseguimos voltar  estao ferroviria sem sermos vistos. Embarcamos no trem bem 
no momento em que estava saindo para Denver. O trem seguiu para oeste enquanto a noite caa, com as 
luzes da policia ainda piscando contra a silhueta de St. Louis atrs de ns. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
QUINZE  Um deus compra cheesburgers para ns. 

 

 

Na tarde seguinte, 14 de junho, sete dias antes do solstcio, nosso trem entrou em Denver. No comamos 
nada desde a noite anterior no vago-restaurante, em algum lugar de Kansas. No tomvamos banho 
desde que samos da Colina Meio-Sangue, e eu tinha certeza de que isso era obvio. 

 

 - Vamos tentar entrar em contato com Quron - disse Annabeth. - Quero contar a ele sobre sua conversa 
com o esprito do rio. 

 

- No podemos usar telefones, certo? 

 

- No estou falando de telefones. 

 

Perambulamos pelo centro da cidade por cerca de meia hora, embora eu no soubesse muito bem o que 
Annabeth estava procurando. O ar estava seco e quente, o que era estranho depois da umidade de St. 
Louis. Aonde quer que fssemos, as Montanhas Rochosas pareciam me olhar, como um tsunami prestes 
a quebrar sobre a cidade. 

 

Finalmente encontramos um lava-jato vazio. Fomos para o boxe mais afastado da rua, atentos a carros de 
policia. ramos trs adolescentes sem automvel em um lava-jato; qualquer policial que se prezasse 
deduziria que no estvamos tramando nada de bom. 

 

- O que exatamente estamos fazendo? - perguntei quando Grover pegou a mangueira de um compressor. 

 

- So setenta e cinco centavos - resmungou. S me restauram duas moedas de vinte e cinco. 
Annabeth? 

 

- No olhe para mim - disse ela. - O vago-restaurante me deixou lisa. 

 

Pesquei o meu ltimo restinho de trocados e passei uma moeda de vinte e cinco centavos para Grover, o 
que me deixou com cinco e um dracma da Medusa. 

 

- Excelente - disse Grover. - Poderamos fazer isso com qualquer spray,  claro, mas a conexo no fica 
boa, e meus braos cansam de tanto bombear. 

 

- Do que est falando? 

 

Ele depositou as moedas e ajustou o boto para ESGUICHO FINO. 

 

- M. I. 

 

- Mensagem instantnea? 

 

- Mensagem de ris - corrigiu Annabeth. - A deusa do arco-ris transmite mensagens aos deuses. Se a 
gente souber como pedir, e ela no estiver atarefada demais, far o mesmo para meios-sangues. 

 

- Voc convoca a deusa com um compressor? 

 

Grover apontou o bico da mangueira para o ar e gua saiu chiando em uma espessa nvoa branca. 

 

- A no ser que conhea um meio mais fcil de fazer um arco-ris. 

 

De fato, a luminosidade do fim de tarde se filtrou atravs da nvoa e se decomps em cores. 

 

Annabeth estendeu a palma da mo para mim. 

 

- Dracma, por favor. 

 

Eu o entreguei. 

#
 

Ela ergueu a moeda acima da cabea. 

 

-  deusa, aceite nossa oferenda. 

 

Jogou o dracma no arco-ris. Ele desapareceu em um tremuluzir dourado. 

 

- Colina Meio-Sangue - solicitou Annabeth. 

 

Por um momento, nada aconteceu. 

 

E ento eu estava olhando atravs da nvoa para campos de morangos e o Estreito de Long Island a 
distncia. Era como se estivssemos na varanda da Casa Grande. Em p, de costas para ns junto  cerca, 
estava um cara de cabelos da cor da areia, de short e camiseta regata laranja. Segurava uma espada de 
bronze e parecia olhar atentamente para algo na campina. 

 

- Luke! - chamei. 

 

Ele se virou, os olhos arregalados. Poderia jurar que ele estava na minha frente, a um metro de distncia, 
atrs de uma cortina de nvoa,s que eu via apenas a parte dele que aparecia no arco-ris. 

 

- Percy! - O seu rosto marcado pela cicatriz se abriu em um sorriso. - E Annabeth tambm? Graas aos 
deuses! Vocs esto bem? 

 

- Estamos... ahn... timos - gaguejou Annabeth. Ela tentava deseperadamente alisar a camiseta suja e tirar 
os cabelos soltos da fente do rosto. - Ns pensamos... Quron... quer dizer... 

 

- Ele esta l embaixo nos chals. - O sorriso de Luke se apagou. Estamos tendo alguns problemas com os 
campistas. Escute, est tudo legal com vocs? Grover est bem? 

 

- Estou bem aqui - gritou Grover. Ele virou o esguicho para um lado e entrou no campo de viso de Luke. 
- Que tipo de problemas? 

 

Bem naquele momento um grande Lincoln Continental entrou no lava-jato com o rdio tocando hip-hop no 
ltimo volume. 

 

Quando o carro entrou no boxe ao lado, os alto-falantes vibravam tanto que sacudiram o 
calamento. 

 

- Quron teve de... que barulho  esse? - gritou Luke. 

 

- Deixe que eu cuido disso! - gritou Annabeth parecendo muito aliviada por ter uma desculpa para 
sair de vista. - Grover, venha! 

 

- O qu? - disse Grover. - Mas... 

 

- D a mangueira a Percy e venha! - ordenou ela. 

 

Grover resmungou qualquer coisa sobre as meninas serem mais difceis de entender do que o Orculo 
de Delfos, depois me entregou a mangueira e seguiu Annabeth. 

 

Eu reajustei o esguicho para manter o arco-ris e ainda ver Luke. 

 

- Quron teve de separar uma briga - gritou Luke, mais alto que msica. - A situao anda um bocado 
tensa por aqui. A questo-impasse entre Zeus e Poseidon vazou. Ainda no sabemos direito como... 
provavelmente, foi o mesmo sujeito nojento que convocou o co infernal. Agora os campistas esto 
comeando a tomar partido. As coisas esto ficando como na Guerra de Tria, tudo de novo. Afrodite, 
Ares e Apolo esto de certo modo apoiando Poseidon. Atena est apoiando Zeus. 

 

#
Estremeci s de pensar que o chal de Clarisse pudesse estar do lado de meu pai para alguma 
coisa. No boxe ao lado,ouvi Annabeth e algum cara discutindo, e ento o volume da msica 
abaixou drasticamente. 

 

- Ento, qual  a sua situao? - perguntou Luke para mim. - Quron vai lamentar muito no ter 
podido falar com voc. 

 

Contei-lhe praticamente tudo, inclusive meus sonhos. Era to boa a sensao de v-lo, de que eu 
estava de volta ao acampamento, mesmo que fosse por alguns minutos, que no percebi por quanto 
tempo havia falado at que o alarme do compressor disparou. Vi que s tinha mais um minuto antes 
que a gua desligasse. 

 

- Queria poder estar a - disse Luke. - No podemos ajudar muito daqui, infelizmente, mas 
escute... com certeza foi Hades quem pegou o raio-mestre. Ele estava l no Olimpo solstcio de 
inverno. Eu estava supervisionando uma excurso e ns o vimos. 

 

- Mas Quron falou que os deuses no podem tomar diretamente os itens mgicos um do outro. 

 

-  verdade - disse Luke, parecendo perturbado. - Ainda assim... Hades tem o elmo das trevas. 
Como algum mais poderia se esgueirar para dentro da sala do trono e roubar o raio-mestre?  
preciso estar invisvel. 

 

Ficamos os dois em silncio at que Luke pareceu se dar conta do que dissera. 

 

- Ei - protestou ele. - No quis dizer Annabeth. Ela e eu nos conhecemos h uma eternidade. Ela 
jamais iria... quer dizer, ela  como uma irm para mim. 

 

Pensei comigo mesmo se Annabeth iria gostar daquela descrio. No boxe ao lado, a msica parou. 
Um homem gritou aterrorizado, portas de carro bateram e o Lincoln saiu a toda do lava-jato. 

 

-  melhor voc ir ver o que foi aquilo - disse Luke. - Escute, est usando os tnis voadores? Eu me 
sentiria melhor se soubesse que lhe serviram de alguma coisa. 

 

- Ah... ahn, sim! - Tentei no soar como parecer um mentiroso culpado. - Sim, foram teis. 

 

-  mesmo? - sorriu. - Serviram e tudo o mais? 

 

A gua cessou. A nvoa comeou a dispersar. 

 

- Bem, cuide-se l em Denver - gritou Luke, a voz ficando mais baixa. - E diga a Grover que dessa vez 
ser melhor! Ningum ser transformado em pinheiro se ele apenas... 

 

Mas a nvoa se foi, e a imagem de Luke desapareceu. Eu estava sozinho em um boxe molhado e vazio 
de lava-jato. 

 

Annabeth e Grover apareceram no canto, rindo, mas pararam quando viram minha cara. O sorriso de 
Annabeth sumiu. 

 

- O que aconteceu, Percy? O que Luke disse? 

 

- Quase nada - menti, sentindo o estmago to vazio quanto um chal dos Trs Grandes. 

 

- Venham, vamos procurar alguma coisa para jantar. 

 

***** 

 

Poucos minutos depois, estvamos sentados num reservado de um pequeno e reluzente restaurante 
todo cromado.  nossa volta, famlias comiam hambrgueres e bebiam cerveja e refrigerantes. 
Finalmente, a garonete veio. Ela ergueu uma sobrancelha com um ar ctico. 

 

#
- Ento? 

 

Eu disse: 

 

- Ns, ahn, queremos pedir o jantar. 

 

- Tm dinheiro para pagar, crianas? 

 

O lbio inferior de Grover tremeu. Tive medo de que ele comeasse a balir, ou, pior, comeasse a comer 
o linleo. Annabeth parecia prestes a desmaiar de fome. 

 

Eu estava tentando pensar em uma histria comovente para a garonete quando um forte ronco 
sacudiu o edifcio inteiro; uma motocicleta do tamanho de um filhote de elefante havia encostado no meio-
fo. 

 

Todas as conversas cessaram. O farol da motocicleta brilhava em vermelho. Tinha labaredas pintadas 
sobre o tanque de gasolina e um coldre de cada lado, com espingardas de caca. O assento era de 
couro - mas um couro que parecia... bem, pele humana, caucasiana. 

 

O cara da moto podia fazer lutadores profissionais sarem correndo chamando a mame. Vestia uma 
camiseta justa vermelha, que ressaltava os msculos, jeans pretos e um casaco comprido de couro preto, 
com um faco de caa preso  coxa. Usava culos escuros vermelhos, presos na nuca, e tinha a cara mais 
cruel, mais brutal que eu j tinha visto - boa-pinta, eu acho, porm mau -, com cabelo aparado a mquina 
negro como petrleo o rosto marcado por cicatrizes de muitas, muitas brigas. O estranho era que parecia 
que eu j tinha visto aquele homem em algum lugar. 

 

Quando ele entrou no restaurante, um vento quente e seco soprou no ambiente. Todos se levantaram, 
como se estivessem hipnotizados, mas o motociclista acenou a mo com desdm e eles sentaram de 
novo. Todos voltaram s suas conversas. A garonete piscou, como se algum tivesse apertado o boto de 
retroceder em seu crebro. Ela perguntou novamente: 

 

- Tm dinheiro para pagar, crianas? 

 

O cara da moto disse: 

 

-  por minha conta. - Escorregou para dentro do nosso reservado, pequeno demais para ele, e 
espremeu Annabeth contra janela. 

 

Encarou a garonete, que olhava para ele de olhos arregalados, e disse: 

 

- Ainda est a? 

 

Ele apontou para ela, e ela ficou rgida. Virou-se como se algum a tivesse girado e marchou de volta 
para a cozinha. 

 

O homem da moto me olhou. No pude ver seus olhos atrs dos culos vermelhos, mas sentimentos 
ruins comearam a fervilhar no meu estmago. Raiva, ressentimento, amargor. Tive vontade de bater na 
parede.Tive vontade de comprar briga com algum. Quem aquele cara pensava que era? 

 

Ele me deu um sorriso maldoso. 

 

- Ento voc  o garoto do Velho das Algas, ahn? 

 

Eu devia ter ficado surpreso, ou assustado, mas em vez disso era como se estivesse olhando para o 
meu padrasto, Gabe. Quis arrancar a cabea do cara: 

 

- O que voc tem com isso? 

 

Os olhos de Annabeth me lanaram um alerta. 

 

#
- Percy, este ... 

 

- Tudo bem - disse ele. - No me incomodo com um pouco de petulncia. Desde que voc lembre 
quem manda. Sabe quem eu sou, priminho? 

 

Ento me veio  cabea por que o cara me parecia famlia. Ele tinha o mesmo olhar cruel de algumas 
crianas do Acampamento Meio-Sangue, os do chal 5. 

 

- Voc  o pai de Clansse - disse eu. - Ares, deus guerra. 

 

Ares arreganhou um sorriso e tirou os culos. Onde deveriam estar os olhos havia apenas fogo, 
rbitas vazias brilhando com miniexploses nucleares. 

 

- Certo, man. Ouvi que quebrou a lana de Clarisse. 

 

- Ela estava pedindo isso. 

 

- Provavelmente. Tranqilo. No me meto nas brigas dos meus filhos, sabia? Estou aqui porque 
ouvi dizer que estava na cidade. Tenho uma pequena proposta para voc. 

 

A garonete voltou trazendo bandejas com montes de comida - cheeseburgers, batatas fritas, anis 
de cebola empados e milk-shakes de chocolate. 

 

Ares entregou-lhe alguns dracmas de ouro. 

 

Ela olhou nervosa para as moedas. 

 

- Mas estas no so... 

 

Ares puxou seu enorme faco e comeou a limpar as unhas. 

 

- Algum problema, benzinho? A garonete engoliu em seco e se afastou com o ouro. 

 

- No pode fazer isso - disse a Ares. - No pode ameaar pessoas com uma faca. 

 

Ares riu. 

 

- Est brincando? Eu adoro este pas. Melhor lugar, depois de Esparta. Voc no anda armado, otrio? 
Pois devia. O mundo l fora  perigoso. O que me traz de volta  minha proposta. Preciso que me faa 
um favor. 

 

- Que favor eu poderia fazer para um deus? 

 

- Algo que um deus no tem tempo de fazer ele mesmo. Nada demais. Larguei meu escudo em um 
parque aqutico abandonado aqui na cidade. Estava no meio de um... encontro com minha namorada. 

Fomos interrompidos. Deixei o escudo para trs. Quero que v busc-lo para mim. 

 

- Por que no volta l e pega voc mesmo? 

 

O fogo nas rbitas dele ficou um pouco mais incandescente. - Por que no transformo voc em uma 
marmota e o atropelo com minha Harley? Porque no estou com vontade. Um deus est dando a 
voc a oportunidade de se pr  prova, Percy Jackson. Voc vai mostrar que  um covarde? - Ele se 
inclinou para a frente. - Ou, quem sabe, voc s luta quando h um rio para mergulhar dentro, para que 
seu papai possa proteg-lo? 

 

Queria dar um murro naquele cara, mas, de algum modo, sabia que ele esperava por isso. O poder de 
Ares estava causando a minha raiva. Ele adoraria se eu o atacasse. Eu no queria lhe dar esse 
gostinho. 

 

- No estamos interessados - falei. - J temos uma misso. 

#
 

Os olhos ardentes de Ares me fizeram ver coisas que eu no queria - sangue, fumaa e corpos no campo 
de batalha. 

 

- Eu sei de tudo sobre sua misso, seu imprestvel. Quando aquele item foi roubado, Zeus enviou seus 
melhores para procur-lo: Apolo, Atena, rtemis e, naturalmente, eu. Se eu no consegui farejar uma 
arma to poderosa... - Ele lambeu o beio, como se a prpria idia do raio-mestre o tivesse deixado com 
fome. - Bem... se eu no consegui encontr-lo, voc no tem nenhuma chance. Entretanto, estou tentando 
lhe dar o beneficio da dvida. Seu pai e eu nos conhecemos h muito tempo. Afinal, fui eu quem lhe 
contou minhas suspeitas sobre o velho Bafo de Cadver. 

 

- Voc disse a ele que Hades roubou o raio? 

 

- Claro. Acirrar os nimos para uma guerra. O truque mais antigo de todos. Eu o reconheci imediatamente. 
De certo modo, voc tem de agradecer a mim por sua missozinha. 

 

- Obrigado - resmunguei. 

 

- Ei, sou um cara generoso. Faa meu servicinho e eu o ajudarei em sua viagem. Vou arranjar uma carona 
para oeste para voc e seus amigos. 

 

- Estamos indo muito bem sozinhos. 

 

- Sim, certo. Sem dinheiro. Sem rodas. Sem nenhuma pista do que vo enfrentar. Ajude-me, e talvez eu 
lhe conte algo sobre que precisa saber. Algo sobre a sua me. 

 

- Minha me? 

 

Ele sorriu. 

 

- Isso despertou sua ateno. O parque aqutico fica um quilmetro e meio a oeste, na Delancy. No h 
como errar. Procurem o Tnel do Amor. 

 

- O que interrompeu seu namoro? - perguntei. - Alguma coisa o assustou? 

 

Ares arreganhou os dentes, mas eu j tinha visto aquela cara ameaadora antes, em Clarisse. Havia nela 
algo de incerto, quase um nervosismo. 

 

- Voc tem sorte de ter me encontrado, imprestvel, e no um dos olimpianos. Eles no so to 
indulgentes com a grosseria quanto eu. Encontrarei voc aqui novamente quando tiver terminado. No me 
desaponte. 

 

Depois disso eu devo ter desmaiado, ou entrado em um transe, pois quando voltei a abrir os olhos Ares 
havia desaparecido. Podia ter pensado que toda a conversa fora um sonho, mas a expresso de Annabeth 
e Grover me dizia outra coisa. 

 

- Nada bom - disse Grover. - Ares o procurou, Percy. Isso no  nada bom. 

 

Olhei pela janela. A motocicleta havia desaparecido. 

 

Ser que Ares realmente sabia algo sobre minha me, ou estava apenas jogando comigo? Agora que ele 
se fora, toda a minha raiva passara. Percebi que Ares devia adorar bagunar as emoes das pessoas. 
Era esse o seu poder - exacerbar tanto as paixes que elas atrapalhavam nossa capacidade de pensar. 

 

- Deve ser algum tipo de truque - falei. - Esqueam Ares. Vamos embora e pronto. 

 

- No podemos - disse Annabeth. - Olhe, detesto Ares tanto quanto qualquer um, mas no  possvel 
ignorar os deuses a no ser que se deseje um azar tremendo. Ele no destava brincando sobre 
transformar voc em um roedor. 

 

#
Baixei os olhos para meu cheesburguer, que de repente no parecia mais to apetitoso. 

 

- Por que ele precisa de ns? 

 

- Talvez seja um problema que requeira inteligncia - disse Annabeth. - Ares tem fora.  tudo o que 
tem. Mesmo s vezes tem de se curvar  sabedoria. 

 

- Mas esse parque aqutico... ele agiu quase como se estivesse apavorado. O que faria um deus da 
guerra fugir desse jeito? 

 

Annabeth e Grover se entreolharam nervosamente. 

 

Annabeth disse: 

 

- Acho que teremos de descobrir. 

 

***** 

 

Quando encontramos o parque aqutico, o sol estava se pondo atrs das montanhas. A julgar pela 
placa, ele outrora se chamara AQUALNDIA,mas agora algumas letras haviam sido arranca, ento 
ela dizia AQU L D A. 

 

O porto principal estava fechado com cadeado e tinha no alto arame farpado. Dentro, enormes 
escorregadores, tubos e canos se retorciam por toda parte, secos, desembocando em piscinas 
vazias. Velhos ingressos e folhetos subiam do asfalto com o vento. Com a noite chegando, o lugar 
parecia triste e arrepiante. 

 

- Se Ares traz a namorada aqui para um encontro - falei, olhando para o arame farpado -, no ia 
gostar de ver com aparncia dela. 

 

- Percy - advertiu Annabeth -, tenha mais respeito. 

 

- Por qu? Pensei que voc detestasse Ares. 

 

- Ainda assim, ele  um deus. E a namorada dele  muito temperamental. 

 

- No queremos ofend-la - acrescentou Grover. 

 

- Quem ? Equidna? 

 

- No, Afrodite - disse Grover, um pouco sonhador. - A deusa do amor. 

 

- Pensei que ela fosse casada com algum - disse eu.- Hefesto.. 

 

- E da? - perguntou ele. 

 

- Ah. - De repente, senti que era preciso mudar de assunto. Ento, como fazemos para entrar? 

 

- Maia! - Os tnis de Grover criaram asas. 

 

Ele voou por cima da cerca, deu um mortal involuntrio no ar, depois pousou cambaleando no lado 
oposto. Sacudiu o p dos seus jeans, como se tivesse planejado tudo aquilo. 

 

- Vocs vm? 

 

Annabeth e eu tivemos de escalar  moda antiga, empurrando o arame farpado um para o outro 
enquanto nos arrastvamos por cima do topo. 

 

As sombras se alongaram enquanto caminhvamos pelo parque, conferindo as atraes. Havia a Ilha 
dos Pequeninos, o Por cima da Cabea e o Cara, Cad o Meu Calo? 

#
 

Nenhum monstro chegou para nos pegar. Nada fazia o menor barulho. 

 

Encontramos uma loja de lembrancinhas que fora deixada aberta. Ainda havia mercadorias 
enfileiradas nas prateleiras: globos de neve, lpis, cartes-postais, e prateleiras de... 

 

- Roupas - disse Annabeth. - Roupas limpas. 

 

-  - completei. - Mas voc no pode simplesmente... 

 

- Observe. 

 

Ela agarrou uma fileira inteira de artigos das prateleiras e desapareceu dentro do provador. Poucos 
minutos depois saiu vestindo short estampado de flores da Aqualndia, uma grande camiseta 
vermelha da Aqualndia e sapatilhas de surfe temticas da Aqualndia. Pendurada no ombro, uma 
mochila da Aqualndia, obviamente recheada de outras coisinhas. 

 

- Ora, que se dane. - Grover encolheu os ombros. 

 

Logo ns trs parecamos anncios ambulantes do parque temtico fantasma. 

 

Continuamos procurando pelo Tnel do Amor. Eu tinha a sensao de que o parque inteiro estava 
prendendo a respirao. 

 

- Ento Ares e Afrodite - falei, s para afastar os pensamentos da escurido que aumentava - esto 
tendo um caso? 

 

-  uma fofoca velha, Percy - disse Annabeth. - fofoca de trs mil anos. 

 

- E o mando de Afrodite? 

 

- Bem, voc sabe - disse ela. - Hefesto. O ferreiro ficou aleijado quando beb, atirado de cima do 
Monte Olimpo por Zeus. Ento no  exatamente lindo. Habilidoso com as mos e tudo, mas 
Afrodite no curte inteligncia e talento, entende? 

 

- Ela gosta de motoqueiros. 

 

- Ou isso. 

 

- Hefesto sabe? 

 

- Ah, com certeza - disse Annabeth. - Uma vez ele os pegou juntos. Quer dizer, pegou mesmo, em 
uma rede de ouro, e chamou todos os deuses para ver e rir da cara deles. Hefesto est sempre 
tentando constrang-los. E por isso que eles se encontram em lugares escondidos, como... 

 

Ela se interrompeu, olhando em frente. 

 

- Como aquilo. 

 

Diante de ns havia uma piscina vazia que teria sido sensacional para andar de skate. Tinha pelo 
menos cinquenta metros de largura e forma de bacia. 

 

Em volta da beira, uma dzia de esttuas de Cupido montavam guarda de asas abertas e arcos 
prontos para disparar. Do outro lado abria-se um tnel, provavelmente para onde a gua escoava 
quando a piscina estava cheia. A placa acima dele dizia: EMOCIONANTE PASSEIO DE 
AMOR: ESTE NO  O TNEL DO AMOR DOS SEUS PAIS! 

 

Grover se arrastou at a borda. 

 

- Gente, olhe. 

#
 

Abandonado no fundo da piscina havia um barco de dois lugares rosa e branco, com 
coraezinhos pintados por toda parte. No assento da esquerda, brilhando na luz plida, estava o 
escudo de Ares, um crculo polido de bronze. 

 

- Fcil demais - disse eu. - Ento  s descer at l e peg-lo? 

 

Annabeth correu os dedos pela base da esttua de Cupido mais prxima. 

 

- H uma letra grega entalhada aqui - disse ela. - Eta. Imagino... 

 

- Grover - falei -, sente cheiro de algum monstro? 

 

Ele farejou o vento. 

 

- Nada. 

 

- Nada do tipo no-Arco-voc-no-sentiu-o-cheiro-de-Equidna ou realmente nada? 

 

Grover pareceu ofendido. 

 

- Disse a voc, aquilo foi num subterrneo. 

 

- Certo, desculpe. - Eu respirei fundo. - Vou descer at l. 

 

- Vou com voc. - Grover no pareceu muito entusiasmado, mas tive a impresso de que ele estava 
tentando compensar pelo que acontecera em St. Louis. 

 

- No - disse a ele. - Quero que fique no alto com os tnis voadores. Voc  nosso s da aviao, 
est lembrado? Vou contar com voc para dar apoio, caso alguma coisa d errado. 

 

Grover estufou um pouco o peito. 

 

- Claro. Mas o que poderia dar errado? 

 

- No sei. S urna sensao. Annabeth, venha comigo... 

 

- Est brincando? - Ela olhou para mim como se eu tivesse acabado de cair da Lua. Suas bochechas 
estavam num tom vermelho vivo. 

 

- Qual o problema agora? - perguntei. 

 

- Eu... ir com voc para um... um "Emocionante Passeio de Amor"? Que coisa mais embaraosa! E se 
algum me vir? 

 

- Quem  que vai ver? - Mas agora a minha cara tambm estava queimando. S mesmo uma 
menina para complicar as coisas. - Otimo - disse a ela. - Vou fazer isso sozinho, quando comecei a 
descer pela lateral da piscina, ela me seguiu resmungando sobre como os meninos sempre complicam 
as coisas. 

 

Chegamos ao barco. O escudo estava apoiado em um banco e ao lado havia um leno feminino de 
seda. Tentei imaginai Afrodite ali, um casal de deuses se encontrando em um brinquedo de parque 
de diverses sucateado. Por qu? Ento notei algo no tinha visto de cima: espelhos por toda a volta 
da borda da piscina, voltados para aquele ponto. Podamos nos ver, no importa em que direo 
olhssemos. Tinha de ser isso. Enquanto Ares e Afrodite estavam se agarrando, podiam ver suas 
pessoas favoritas: eles mesmos. 

 

Peguei o leno. Tinha um brilho rosado, e o perfume indescritvel - rosas, ou louro. Alguma coisa boa. 
Sorri, um sonhador, e estava quase passando o leno no rosto quando Annabeth o arrancou da minha 
mo e enfiou em seu bolso. 

#
 

- Ah, no, no faa isso. Fique longe dessa magia de amor. 

 

- O qu? 

 

- Apenas pegue o escudo, Cabea de Alga, e vamos dar o fora daqui. 

 

No momento em que toquei o escudo, vi que estvamos encrencados. Minha mo arrebentou algo 
que o conectava ao pra-brisa. Uma teia de aranha, pensei, mas ento olhei para um fio invisvel 
na minha palma e vi que era algum tipo de filamento metlico, to fino que era quase invisvel. 
Uma armadilha. 

 

- Espere - disse Annabeth. 

 

- Tarde demais. 

 

- H uma outra letra grega na lateral do barco, um outro eta. Trata-se de uma armadilha. 

 

Um rudo irrompeu a nossa volta, um milho de engrenagensrangendo, como se a piscina inteira 
estivesse se transformando em uma mquina gigante. 

 

Grover gritou: 

 

- Gente! 

 

L em cima na borda, as esttuas de Cupido armavam os arcos; Antes que eu pudesse sugerir que 
nos abaixssemos, dispararam, mas no contra ns. Dispararam uma contra a outra, atravessando a 
piscina. Cabos de seda foram levados pelas flechas, fazendo um arco por cima da piscina e 
fincando-se no cho para formar um imenso asterisco dourado. Ento fios metlicos menores 
comearam a se tecer magicamente por entre os principais, formando uma rede. 

 

- Temos de dar o fora - disse eu. 

 

- Ah,  mesmo? - disse Annabeth. 

 

Agarrei o escudo e corremos, mas subir pela inclinao da piscina no era to fcil quanto descer. 

 

- Venham! - gritou Grover. 

 

Ele estava tentando manter uma seo da rede aberta para ns, mas onde quer que a tocasse, os 
fios dourados comeavam a envolver suas mos. 

 

A cabea dos Cupidos se abriu de repente. De l, saram cmeras de vdeo. Luzes se ergueram 
por toda a volta da piscina, cegando-nos com a claridade, e um alto-falante soou: 

 

- Ao vivo para o Olimpo em um minuto... Cinqenta e nove segundos, cinquenta e oito... 

 

- Hefesto! - gritou Annabeth. - Como eu sou estpida! Eta  .H.. Ele fez essa armadilha para 
pegar a mulher dele com Ares. Agora vamos ser transmitidos ao vivo para o Olimpo e parecer 
completos idiotas! 

 

Estvamos quase conseguindo chegar  borda quando a fileira de espelhos se abriu como 
escotilhas e milhares de... coisinhas metlicas jorraram para fora. 

 

Annabeth gritou. 

 

Era um exrcito de bichos rastejantes de corda: corpo de engrenagens de bronze, pernas 
compridas e finas, bocas em pequenas pinas, todos correndo em nossa direo em uma onda de 
estalando e zumbindo. 

 

#
- Aranhas! - disse Annabeth. - Ar... ar... aaaaaaaah! 

 

Eu nunca a tinha visto daquele jeito. Ela caiu para trs , aterrorizada e quase se rendeu s aranhas-
robs antes que eu a puxasse para cima e a arrastasse de volta em direo ao barco. 

 

Aquelas coisas vinham de todos os lados, milhes delas, inundando o centro da piscina, cercando-
nos completamente. Disse a mim mesmo que no estavam programadas para matar, apenas para nos 
encurralar, nos morder e nos fazer parecer idiotas. Mas, por outro lado, era uma armadilha para 
deuses. E no ramos deuses. 

 

Annabeth e eu subimos para dentro do barco. Comecei a chutar as aranhas para longe quando se 
acumulavam a bordo. Gritei para Annabeth me ajudar, mas ela estava paralisada demais para fazer 
qualquer coisa alm de gritar. 

 

- Trinta, vinte e nove - anunciou o alto-falante. 

 

As aranhas comearam a cuspir fios de metal, tentando nos amarrar. De incio os fios eram fceis de 
romper, mas havia muitos deles, e as aranhas simplesmente continuavam a chegar. Tirei uma da 
perna de Annabeth com um chute, e suas pinas arrancaram um pedao da minha nova sapatilha de 
surfista. 

 

Grover pairava acima da piscina com seus tnis voadores, tentando soltar a rede, mas ela no cedia. 

 

Pense, disse a mim mesmo, pense. 

 

A entrada para o Tnel do Amor ficava embaixo da rede. Polamos us-la como sada, mas estava 
bloqueada por um milho de aranhas-robs. 

 

- Quinze, catorze - anunciou o alto-falante. gua, pensei. De onde vem a gua para o passeio? 

 

Ento vi: enormes canos atrs dos espelhos, de onde tinham vindo as aranhas. E acima da rede, 
perto de um dos Cupidos, uma cabine com janelas de vidro que devia ser a estao de controle. 

 

- Grover! - gritei. - Entre naquela cabine! Encontre o boto de ligar! 

 

- Mas... 

 

- Faa isso! - Era uma esperana louca, mas era a nossa nica chance. As aranhas j estavam 
por toda a proa do barco, Annabeth gritava sem parar. Eu tinha de nos tirar dali. 

 

Grover estava agora na cabine de controle, malhando os botes. 

 

- Cinco, quatro... 

 

Ele olhou para mim desamparado, erguendo as mos. Estava sinalizando que j tinha apertado 
todos os botes, mas nada acontecia. 

 

Fechei os olhos e pensei em ondas, gua correndo, o no Mississipi. Senti um aperto familiar na 
garganta. Tentei imaginar que estava arrastando o oceano at Denver. 

 

- Dois, um, zerol 

 

A gua explodiu para fora dos canos. Entrou rugindo na piscina, varrendo as aranhas para longe. 
Puxei Annabeth para ao lado do meu e prendi seu cinto de segurana bem quando a onda gigante 
atingiu o barco, de cima, expulsando as aranhas e nos encharcando completamente, mas sem virar 
o barco. Ele girou, erguido pela inundao, e circulou no redemoinho. 

 

A gua estava cheia de aranhas em curto-circuito, algumas colidindo contra a parede de concreto 
da piscina com tamanha fora que explodiam. 

 

#
As luzes brilharam sobre ns. As cmeras dos Cupidos estavam transmitindo ao vivo para o 
Olimpo. 

 

Mas eu s podia me concentrar em controlar o barco,. Desejei que ele seguisse a corrente, que 
ficasse afastado da parede. Talvez fosse minha imaginao, mas o barco pareceu reagir. Pelo 
menos no se quebrou em um milho de pedaos. Circulamos uma ltima vez, e o nvel da gua j era 
quase suficiente para nos retalhar contra a rede de metal. Ento o nariz do barco se virou para o 
tnel e disparamos como um foguete para dentro das trevas. 

 

Annabeth e eu nos seguramos com fora, os dois gritando quanto o barco se atirava em curvas e 
rodeava cantos e dava mergulhos de quarenta e cinco graus, passando por figuras de Romeu e 
Julieta e montes de outras bugigangas de Dia dos Namorados. 

 

Ento estvamos fora do tnel, o ar da noite assobiando em nossos cabelos enquanto o barco 
seguia em alta velocidade para a sada. 

 

Se o brinquedo estivesse em perfeito funcionamento, teramos navegado por uma rampa entre os 
Portes Dourados do Amor e cado em segurana na piscina de sada. Mas havia um problema. Os 
Portes do Amor estavam fechados com correntes. Dois barcos que haviam sido arrastados para fora 
do tnel antes de ns estavam empilhados contra a barricada - um submerso e o outro partido ao 
meio. 

 

- Solte seu cinto de segurana - gritei para Annabeth. 

 

- Est maluco? 

 

- A no ser que queira morrer esmagada. - Prendi o escudo de Ares no brao. - Vamos ter de pular. - 
Minha ideia era simples e insana. Quando o barco colidisse, amos usar a fora do impacto como 
um trampolim para pular por cima do porto. Ouvi falar de pessoas que sobreviveram a desastres de 
automvel desse jeito, lanadas a dez ou vinte metros de distncia do acidente. Com sorte, cairamos 
na piscina. 

 

Annabeth pareceu entender. Ela apertou minha mo quando os portes se aproximaram. 

 

- Quando eu der o sinal - falei. 

 

- No! Quando eu der o sinal - corrigiu ela. 

 

- O qu? 

 

- Fsica bsica! - gritou ela. - A fora multiplicada pelo ngulo da trajetria... 

 

- Est bem! - gritei. - Quando voc der o sinal! 

 

Ela hesitou... hesitou... e ento gritou: 

 

- Agora! 

 

 Crack! 

 

Annabeth estava certa. Se tivssemos pulado quando eu achava devamos, teramos nos arrebentado 
contra os portes. Ela conseguiu o mximo de impulso. 

 

Por azar, foi um pouco maior do que precisvamos. Nosso barco foi atirado na pilha e fomos lanados 
para o ar, por cima do porto, por cima da piscina, e na direo do asfalto duro. 

 

Alguma coisa me segurou por trs. 

 

Annabeth gritou: 

 

#
- Aaai! 

 

Grover! 

 

Em pleno ar, ele tinha me agarrado pela camisa, e agarrado Annabeth pelo brao, e tentava impedir 
que nos arrebentssemos no cho, mas Annabeth e eu ainda estvamos com toda a energia do 
impulso. 

 

- Vocs so pesados demais! - disse Grover. - Estamos caindo! 

 

Descemos em espiral, com Grover fazendo o que podia para reduzir a velocidade da queda. 

 

Batemos contra um painel de fotografia. A cabea de Grover entrou bem no buraco onde os turistas 
enfiavam a cara, fingindo ser Nu-Nu, a Baleia Camarada. Annabeth e eu desmoronam no cho, 
machucados, porm vivos. O escudo de Ares ainda preso ao meu brao. 

 

Depois que recuperamos o flego, Annabeth e eu tiramos Grover do painel e o agradecemos 
por salvar nossa vida. Olhei para o Emocionante Passeio de Amor atrs de ns. A gua estava 
baixando. Nosso barco em pedaos, esmagado contra os portes. 

 

A cem metros, na piscina de entrada do tnel, os Cupidos ainda filmavam. As esttuas tinham se 
virado de modo que as cmeras estavam apontadas para ns, os holofotes em nossos rostos. 

 

- Acabou o show! - gritei. - Obrigado! Boa noite! 

 

Os Cupidos voltaram s posies originais. As luzes se apagaram. O parque ficou novamente em 
silncio e no escuros, a no ser pelo brilho fraco da gua na piscina da sada do Emocionante 
Passeio de Amor. Imaginei se o Olimpo estaria em um inervalo comercial, e se nossos ndices de 
audincia haviam sido bons. 

 

Eu detestava ser provocado. Detestava ser enganado. E tinha vasta experincia de lidar com valentes 
que gostavam de fazer isso comigo. Levantei o escudo em meu brao e me virei para os meus 
amigos. 

 

- Precisamos ter uma conversinha com Ares. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
DEZESSEIS  A ida de uma zebra para Las Vegas. 

 

O deus da guerra nos esperava no estacionamento do restaurante. 

 

- Bem, bem - disse ele. - Voc conseguiu no ser morto. 

 

- Voc sabia que era uma armadilha - retruquei. 

 

Ares me deu um sorriso malvado. 

 

- Aposto que aquele ferreiro aleijado ficou surpreso quando pegou na rede um par de crianas 
estpidas. Voc ficou bem na tev. 

 

Empurrei o escudo para ele. 

 

- Voc  um imbecil. 

 

Annabeth e Grover pararam de respirar. 

 

Ares agarrou o escudo e o girou no ar como massa de pizza. escudo mudou de forma, 
transformando-se em um colete  prova de balas. Ele o pendurou nas costas. 

 

- Esto vendo aquele caminho logo ali? - Apontou um caminho de dezoito rodas estacionado do 
outro lado da rua. -  a carona de vocs. Vai lev-los direto a Los Angeles, com uma parada em 
Vegas. 

 

O caminho tinha uma placa na parte de trs, que eu s pude ler porque estava pintada ao 
contrrio, em branco sobre preto, uma boa combinao para a dislexia: CARIDADE INTERNACIONAL: 
TRANSPORTE HUMANITRIO DE ZOOLGICO. CUIDADO: ANIMAIS SELVAGENS VIVOS 

 

Eu disse: 

 

- Fala srio! 

 

Ares estalou os dedos. A porta traseira do caminho se destrancou. 

 

- Carona grtis para oeste, imprestvel. Pare de reclamar. E aqui est uma coisinha por ter feito o 
servio. 

 

Ele suspendeu uma mochila de nilon azul do seu guidom e a jogou para mim. 

 

Dentro havia roupas limpas para todos ns, vinte dlares em dinheiro, uma bolsa cheia de dracmas 
de ouro e uma embalagem de biscoito Oreo recheado. 

 

Eu disse: 

 

- No quero a porcaria do seu... 

 

- Obrigado, Senhor Ares - interrompeu Grover, me fuzilando com seu melhor olhar de alerta 
vermelho. - Muito obrigado. 

 

Rangi os dentes. Devia ser um insulto mortal recusar algo de um deus, mas eu no queria nada que 
Ares tivesse tocado. Pendurei a mochila no ombro relutando. Sabia que minha raiva era causada 
pela presena do deus da guerra, mas ainda sentia uma vontadezinha de lhe dar um murro no 
nariz. Ele me lembrou de todos os valentes que j havia enfrentado: Nancy Bobofit, Clarisse, Gabe 
Cheiroso, professores debochados - todos os imbecis que me chamaram de estpido na escola ou 
riram de mim quando fui expulso. 

 

Olhei para o restaurante atrs de mim, que tinha agora apenas um ou dois clientes. A garonete que 
nos servira o jantar olhava, nervosa, pela janela, como se tivesse medo de que Ares nos machucasse. 

#
Ela arrastou o cozinheiro de dentro da cozinha para ver. Disse algo a ele. Ele assentiu, ergueu uma 
pequena cmera descartvel e tirou uma foto de ns. 

 

Boa, pensei. Amanh vamos estar de novo nos jornais. 

 

Imaginei a manchete: CRIMINOSO DE DOZE ANOS ESPANCA MOTOCICLISTA INDEFESO. 

 

- Voc me deve mais uma coisa - disse a Ares, tentando manter o volume de minha voz. - Voc 
me prometeu informaes sobre minha me. 

 

- Tem certeza de que  capaz de suportar a notcia? - Ele deu a partida no pedal da moto. - Ela no 
est morta. 

 

O cho pareceu girar embaixo de mim. 

 

- O que quer dizer? 

 

- Quero dizer que ela foi levada pelo Minotauro antes de morrer. Foi transformada em uma chuva 
de ouro, certo? Isso  metamorfose. No morte. Ela est sendo mantida presa. 

 

- Presa. Por qu? 

 

- Voc precisa estudar guerra, coisinha imprestvel. Refns. Voc prende algum para controlar 
outro algum. 

 

- Ningum est me controlando. 

 

Ele riu. 

 

- Ah, no? A gente se v por a, garoto. 

 

Cerrei os punhos. 

 

- Voc  bem convencido, Senhor Ares, para um cara que foge de esttuas de Cupido. 

 

Atrs dos culos escuros, o fogo brilhou. Senti um vento quente nos cabelos. 

 

- Ns nos encontraremos novamente, Percy Jackson. Na prxima vez em que estiver numa briga, 
cuide de sua retaguarda. 

 

Ele ps a Harley em movimento e saiu roncando pela rua Delancy. 

 

Annabeth disse: 

 

- Isso no foi muito inteligente, Percy. 

 

- No estou nem a. 

 

- Voc no quer um deus como inimigo. Especialmente esse deus. 

 

- Ei, gente - disse Grover. - Detesto interromper, mas... 

 

Ele apontou na direo do restaurante. No caixa, os dois ltimos clientes estavam pagando suas 
contas, dois homens de macaces pretos idnticos, com uma logomarca branca nas costas que 
combinava com a do caminho da CARIDADE INTERNACIONAL. 

 

- Se vamos pegar o expresso do zoolgico - disse Grover -, precisamos nos apressar. 

 

Eu no tinha gostado daquilo, mas no havia opo melhor. Alm disso, j tinha visto o suficiente de 
Denver. 

#
 

Atravessamos a rua correndo e subimos na traseira do veculo enorme,, fechando as portas atrs de 
ns. 

 

***** 

 

A primeira coisa que percebi foi o cheiro. Era como a maior caixa de areia para coc de gato do 
mundo. 

 

O interior da carreta estava escuro at eu tirar a tampa de Anaklusmos. A lmina lanou uma leve luz 
de bronze sobre uma cena muito triste. Em uma fileira de jaulas metlicas imundas havia trs dos 
mais patticos animais de zoolgico que eu j vira: uma zebra, um leo albino e um tipo estranho de 
antlope, cujo o nome eu no sabia. 

 

Algum jogara para o leo um saco de nabos que ele obviamente no queria comer. A zebra e o 
antlope tinham ganhado uma bandeja de isopor de carne de hambrguer cada um. A crina da zebra 
estava toda emaranhada em goma de mascar, como se algum ficasse cuspindo nela nas horas 
vagas. O antlope tinha um estpido balo de aniversrio amarrado em um dos seus chifres que 
dizia PASSEI DA IDADE! 

 

Tudo indicava que ningum quisera chegar perto o bastante do leo para mexer com ele, mas o 
pobre andava de um lado para outro em cima de cobertores sujos, em um espao que era mais do 
que muito pequeno para ele, arfando com o ar abafado da carreta. Moscas zumbiam em volta de seus 
olhos cor-de-rosa, e as costelas apareciam no plo branco. 

 

- Isso  caridade? - gritou Grover. - Transporte humanitrio de zoolgico? 

 

Ele provavelmente teria sado de volta para bater nos caminhoneiros com suas flautas de bambu, e eu 
o teria ajudado, mas bem naquele momento o motor roncou, a carreta comeou a chacoalhar e 
fomos forados a nos sentar ou cair. 

 

Ns nos amontoamos no canto em cima de alguns sacos de rao embolorados, tentando ignorar o 
cheiro, o calor e as moscas. Grover falou com os animais em uma srie de balidos de bode, mas eles 
apenas olharam tristemente para ele. Annabeth era a favor de arrombar as jaulas e solt-los ali 
mesmo, mas argumentei que isso no ia adiantar muito at o caminho parar de se mover. Alm 
disso, tinha a sensao de que, para o leo, poderamos paracer bem mais apetitosos do que 
aqueles nabos. 

 

Achei um jarro de gua e reabasteci as tigelas deles, depois usei Anaklusmos para puxar os alimentos 
trocados para fora das jaulas. Dei a carne ao leo e os nabos para a zebra e o antlope. 

 

Grover acalmou o antlope enquanto Annabeth usava sua faca para tirar o balo preso ao chifre. 
Pensou tambm em cortar a goma de mascar da crina da zebra, mas conclumos que seria 
muito arriscado com o caminho aos solavancos. Pedimos a Grover para prometer aos animais 
que os ajudaramos mais pela manh, e ento nos acomodamos para a noite. 

 

Grover se enrodilhou sobre um saco de nabos; Annabeth abriu nosso pacote de Oreos e mordiscou 
um deles sem muito entusiasmo, tentei ficar animado com a idia de que estvamos a meio 
caminho de Los Angeles. Prximo de nosso destino. Ainda era 14 junho. O solstcio s aconteceria 
no dia 21. Tnhamos tempo de sobra. 

 

Por outro lado, no tinha idia do que nos esperava. Os deuses estavam brincando comigo. Pelo 
menos Hefesto teve a decncia de ser honesto quanto a isso - instalou cmeras e me anunciou 
como entretenimento. Mas at quando no havia cmeras filmando eu tinha a sensao de que a 
minha misso estava sendo observada. Eu era uma fonte de diverso para os deuses. 

 

- Ei - disse Annabeth. - Sinto muito por ter me apavorado l no parque aqutico, Percy. 

 

- Tudo bem. 

 

#
-  s que... - Ela estremeceu. - Aranhas. 

 

- Por causa da histria de Aracne - adivinhei. - Ela foi transformada em aranha por desafiar sua me 
para uma competio de tecelagem, certo? 

 

Annabeth assentiu. 

 

- Os filhos de Aracne tm se vingado nos filhos de Atena desde ento. Se houver uma aranha a um 
quilmetro de distncia de mim, ela me encontrar. Eu odeio aquelas coisinhas rastejantes. De 
qualquer jeito, lhe devo uma. 

 

- Somos uma equipe, est lembrada? Alm disso, Grover fez aquele vo fantstico. 

 

Pensei que estivesse dormindo, mas ele murmurou do seu canto: 

 

- Fui o mximo, no fui? 

 

Annabeth e eu demos risada. 

 

Ela separou as duas partes do biscoito recheado e me deu uma. 

 

- Na mensagem de ris...Luke realmente no disse nada? 

 

Mastiguei meu biscoito e pensei em como responder. A conversa via arco-ris me incomodara a 
noite toda. 

 

- Luke disse que voc e ele se conhecem h muito. Tambm disse que Grover no iria fracassar 
dessa vez. Ningum seria transformado em pinheiro. 

 

Na plida luz de bronze da lmina da espada, era difcil ler a expresso deles. 

 

Grover soltou um balido lamentoso. 

 

- Eu devia ter contado a verdade a voc desde o comeo. - Sua voz tremia. - Pensei que, se 
soubesse o fracasso que eu era, no iria querer que eu viesse junto. 

 

- Voc era o stiro que tentou salvar Thalia, a filha de Zeus. 

 

Ele assentiu, com tristeza. 

 

- E os outros dois meios-sangues que Thalia protegeu, os que chegaram ao acampamento em 
segurana... - Olhei para Annabeth. - Eram voc e Luke, no ? 

 

Ela ps seu biscoito de lado, intocado. 

 

- Como voc disse, Percy, uma meio-sangue de sete anos de idade no teria chegado muito 
longe sozinha. Atena me guiou at a ajuda. Thalia tinha doze anos. Luke, catorze. Os dois haviam 
fugido de casa, como eu. Ficaram contentes em me levar com eles. Eram... fantsticos combatentes 
de monstros, mesmo sem treino. Viajamos da Virgnia para o norte sem nenhum plano de verdade, 
nos defendemos dos monstros por cerca de duas semanas antes de Grover nos encontrar. 

 

- Eu devia escoltar Thalia at o acampamento - disse ele, fungando. - Somente Thalia. Tinha ordens 
estritas de Quron: no faa nada que atrase o resgate. Sabamos que Hades estava atrs dela, 
entende, mas eu no podia simplesmente abandonar Luke e Annabeth. Achei... achei que 
conseguiria levar todos os trs at um lugar seguro. Foi minha culpa as Benevolentes nos 
alcanarem. Eu fiquei paralisado. Fiquei apavorado no caminho de volta ao acampamento e peguei 
alguns desvios errados. Se tivesse sido um pouco mais rpido... 

 

- Pare com isso - disse Annabeth. - Ningum culpa voc. Thalia tambm no o culpou. 

 

#
- Ela se sacrificou para nos salvar - disse ele, desconsolado. Sou culpado pela morte dela. O 
Conselho dos Ancios de Casco Fendido disse isso. 

 

- Porque voc no deixou outros dois meios-sangues para trs? - disse eu. - Isso no  justo. 

 

- Percy tem razo - disse Annabeth. - Eu no estaria aqui hoje se no fosse por voc, Grover. Nem 
Luke. No estamos nem a para o que diz o conselho. 

 

Grover continuou fungando no escuro. 

 

-  a minha sina. Sou o mais fraco dos stiros, e encontro os dois meios-sangues mais poderosos do 
sculo, Thalia e Percy. 

 

- Voc no  fraco - insistiu Annabeth. - Tem mais coragem do que qualquer stiro que j conheci. 
Cite outro que se atreveria a ir para o Mundo Inferior. Aposto que Percy est muito contente por voc 
estar aqui agora. 

 

Ela me chutou na canela. 

 

- Sim - falei, o que teria feito mesmo sem o chute. - No foi por sina que voc encontrou Thalia e eu, 
Grover. Voc tem o maior corao entre todos os stiros. Voc  um buscador natural.  isso que  
voc quem vai achar Pan. 

 

Ouvi um suspiro profundo e satisfeito. Esperei que Grover dissesse algo, mas sua respirao s 
ficou mais pesada. Quando o som se transformou em ronco, percebi que ele tinha cado no 
sono. 

 

- Como ele faz isso? - maravilhei-me. 

 

- No sei - disse Annabeth. - Mas foi realmente legal o que voc disse a ele. 

 

- Eu fui sincero. 

 

Viajamos em silncio por alguns quilmetros, sacudindo acima dos sacos de rao. A zebra mascou 
um nabo. O leo lambeu o que restara da carne de hambrguer dos lbios e olhou para mim 
esperanoso. 

 

Annabeth esfregou seu colar como se estivesse bolando grandes estratgias. 

 

- Essa conta do pinheiro - disse eu. -  do seu primeiro ano? 

 

Ela olhou. No havia percebido o que estava fazendo. 

 

-  - falou. - Todo ms de agosto os conselheiro escolhem o evento mais importante do vero, e o 
pintam nas contas daquele ano. Eu fiquei com o pinheiro de Thalia, uma trirreme grega em 
chamas, um centauro vestido para um baile... bem, aquele foi um vero estranho... 

 

- E o anel de formatura  do seu pai? 

 

- Isso no  da sua... - Ela se interrompeu. - Sim. Sim, . 

 

- Voc no precisa me contar. 

 

- No... tudo bem. - Ela respirou fundo, vacilante. - Meu pai o mandou para mim dentro de uma 
carta, h dois veres. O anel era, bem, sua maior recordao de Atena. Ele no teria conseguido 
terminar o doutorado em Harvard sem ela...  uma longa histria. De qualquer modo, ele disse que 
queria que eu ficasse com o anel. Desculpou-se por ser um idiota, disse que me amava e 
sentia saudades de mim. Queria que eu fosse para casa. 

 

- Isso no parece to ruim assim. 

#
 

- , mas... o problema  que eu acreditei nele. Tentei ir para casa naquele ano escolar, mas minha 
madrasta era a mesma de sempre. No queria ver seus filhos em perigo por viver com uma 
aberrao. Monstrons atacavam. A gente brigava. Monstros atacavam. A gente brigava. No 
agentei nem mesmo at as frias inverno. Chamei Quron e voltei direto para o Acampamento 
Meio-Sangue. 

 

- Voc acha que vai tentar viver com seu pai de novo? 

 

Ela no me olhou nos olhos. 

 

- Por favor. No estou a fim de me autoflagelar. 

 

- Voc no devia desistir - falei. - Devia lhe escrever uma carta, ou coisa assim. 

 

- Obrigada pelo conselho - disse ela, friamente -, mas meu pai escolheu com quem quer viver. 
Passamos mais alguns quilmetros em silncio. 

 

- Ento, se os deuses brigarem - falei -, as coisas vo ficar como na Guerra de Tria? Ser Atena 
contra Poseidon? 

 

Ela encostou a cabea na mochila que Ares nos dera e fechou olhos. 

 

- No sei o que a minha me vai fazer. S sei que vou lutar junto com voc. 

 

- Por qu? 

 

- Porque voc  meu amigo, cabea de alga. Mais alguma pergunta boba? 

 

No consegui pensar em uma resposta para aquilo. Felizemente, no precisei. Annabeth estava 
dormindo. 

 

Tive dificuldade em seguir o exemplo dela, com Grover roncando e um leo albino me olhando com ar 
esfomeado, mas por fim fechei os olhos. 

 

***** 

 

Meu pesadelo comeou como um milho de vezes antes: eu sendo forado a fazer um teste usando uma 
camisa-de-fora. Todas as outras crianas estavam saindo para o recreio, e o professor dizendo: Vamos, 
Percy. Voc no  burro, no ? Pegue seu lpis. 

 

Ento o sonho tomou um rumo diferente. 

 

Olhei para a carteira ao lado e vi uma menina sentada, que tambm usava uma camisa-de-fora. Tinha a 
minha idade, com um cabelo preto rebelde, estilo punk, delineador escuro em volta dos olhos verdes 
tempestuosos, e sardas no nariz. De algum modo, eu sabia quem era. Thalia, filha de Zeus. 

 

Ela se debateu na camisa-de-fora, olhou para mim com raiva e frustrao, e disparou: E ento, cabea de 
alga? Um de ns precisa sair daqui. 

 

Ela tem razo, pensei no sonho. Vou voltar para aquela caverna. Vou dizer o que penso na cara de Hades. 

 

A camisa-de-fora se dissolveu e fiquei livre. Ca atravs do piso da sala de aula. A voz do professor 
mudou at ficar fria e maligna, ecoando das profundezas de um grande abismo. 

 

Percy Jackson, disse. Sim, a troca foi bem, estou vendo. 

 

Eu estava novamente na caverna escura, com os espritos dos mortos flutuando  minha volta. De dentro 
do poo, sem ser vista, a coisa monstruosa falava, mas no se dirigia a mim. O poder entorpecedor de sua 
voz parecia dirigir-se a outro lugar. 

#
 

E ele no suspeita de nada?, perguntou. 

 

Outra voz, uma que quase reconheci, respondeu junto ao meu ombro: Nada, meu senhor. Ele  to 
ignorante quanto o resto. 

 

Ohei, mas no havia ningum l. Quem falara estava invisvel. 

 

Mentira em cima de mentira, refletiu em voz alta a coisa no poo. Excelente. 

 

Na verdade, meu senhor, disse a voz ao meu lado, o nome O Trapaceiro lhe foi muito bem aplicado, mas 
aquilo foi de fato necessrio? Eu poderia ter trazido o que roubei diretamente para o senhor... 

 

Voc?, escarneceu o monstro. Voc j mostrou seus limites. Teria falhado completamente sem minha 
interveno. 

 

Mas, meu senhor... 

 

Por favor, pequeno servo. Nossos seis meses nos renderam muito. A ira de Zeus cresceu. Poseidon jogou 
sua cartada mais desesperada. Agora devemos us-la contra ele. Logo voc ter a recompensa que 
deseja, e sua vingana. E assim que ambos os itens forem entregues em minhas mos... mas espere. Ele 
est aqui. 

 

O qu? 

 

O servo invisvel de repente pareceu tenso. 

 

Acaso o convocou, meu senhor? 

 

No. 

 

Toda a fora da ateno do monstro agora se despejava sobre mim, paralisando-me. 

 

Maldito seja o sangue de seu pai - ele  inconstante demais, imprevisvel demais. O menino trouxe a si 
mesmo para c. 

 

Impossvel!, exclamou o servo. 

 

Para algum fraco como voc, talvez, rosnou a voz. Depois sua fora glida se voltou de novo para mim. 
Ento... voc quer sonhar com sua misso, meio-sangue? Pois vou atend-lo. 

 

O cenrio mudou. 

 

Eu estava numa vasta sala com um trono, com paredes de mrmore negro e piso de bronze. O horripilante 
trono vazio era feito de ossos humanos fundidos. Postada ao p do degrau estava minha me, uma 
esttua de luz dourada tremeluzente, os braos estendidos. 

 

Tentei avanar em sua direo, mas minhas pernas no se moviam. Estendi a mo para ela, apenas 
para perceber que minhas mos haviam murchado at os ossos. Esqueletos sorridentes de armadura 
grega se juntavam ao meu redor, vestindo-me com mantos de seda, coroando-me com louros que 
fumegavam com veneno da Quimera, queimando-me o couro cabeludo. 

 

A voz maligna comeou a rir. Vivas ao heri conquistador! 

 

***** 

 

Acordei assustado. 

 

Grover sacudia meu ombro. 

 

#
- O caminho parou - disse ele. - Achamos que eles vm checar os animais. 

 

- Escondam-se! - Annabeth falou baixinho. 

 

Para ela foi fcil. Ps na cabea seu bon mgico e desapareceu. Grover e eu tivemos de mergulhar atrs 
dos sacos de rao e torcer para parecermos dois nabos. 

 

As portas da carreta se abriram com um rangido. A luz e o calor do sol entraram. 

 

- Cara! - disse um dos caminhoneiros, abanando a mo na frente do nariz feio. - Queria estar 
transportando eletrodomsticos. - Ele trepou para dentro e despejou um pouco dgua nas vasilhas dos 
animais. 

 

- Com calor, garoto? - perguntou ao leo, e ento esvaziou o resto do balde direto na cara do animal. O 
leo rugiu de indignao. 

 

- Certo, certo, certo - disse o homem. 

 

Ao meu lado, embaixo dos sacos de nabos, Grover se resetou. Para um herbvoro amante da paz, ele 
parecia absolutarnente sanguinrio. 

 

O caminhoneiro jogou um saco meio esmagado de McLanche Feliz para o antlope. E arreganhou um 
sorriso para a zebra: 

 

- Tudo em cima, Listradona? Ao menos nos livraremos de voc nesta parada. Gosta de shows de 
mgica? Vai adorar este. Vo serrar voc no meio! 

 

A zebra, com os olhos arregalados de medo, olhou diretamente para mim. 

 

No houve som nenhum, mas claro como o dia, eu a ouvi dizer: Liberte-me, senhor. Por favor. 

 

Fiquei perplexo demais para reagir. 

 

Houve um forte toque-toque-toque na lateral da carreta. 

 

O caminhoneiro que estava dentro, conosco, gritou: 

 

- O que voc quer, Eddie? 

 

Uma voz do lado de fora - deve ter sido a de Eddie - gritou volta: 

 

- Maurice? O que voc disse? 

 

- Por que est batendo? 

 

Toque-toque-toque. 

 

De fora, Eddie gritou: 

 

- Quem est batendo? 

 

O nosso cara, Maurice, revirou os olhos e voltou para fora, xingando Eddie por ser to idiota. 

 

Um segundo depois, Annabeth apareceu ao meu lado. Devia ser ela quem fez as batidas, para tirar 
Maurice da carreta. Ela isse: 

 

- Esse negcio de transporte no deve ser legal. 

 

- Mentira? - disse Grover. Ele fez uma pausa, como se estivesse escutando. - O leo diz que esses 
caras so contrabandistas de animais! 

#
 

 verdade, disse a voz da zebra dentro da minha cabea. 

 

- Temos de libert-los! - disse Grover. Ele e Annabeth olharam para mim, esperando meu comando. 

 

Eu tinha ouvido a zebra falar, mas no o leo. Por qu? Talvez fosse mais uma deficincia de 
aprendizado... Ser que eu s podia entender zebras? Ento pensei: cavalos. O que Annabeth dissera 
sobre Poseidon criar cavalos? Uma zebra seria prxima o bastante de um cavalo? Ser que era por isso 
que eu podia entend-la? 

 

A zebra disse: Abra minha jaula, senhor. Por favor. Ficarei bem, depois disso. 

 

Do lado de fora, Eddie e Maurice ainda estavam gritando um com o outro, mas eu sabia que eles 
entrariam a qualquer minuto para atormentar os animais. Agarrei Contracorrente e cortei com um 
golpe a tranca da gaiola da zebra. 

 

A zebra disparou para fora. Virou-se para mim e inclinou a cabea. Obrigada, senhor. 

 

Grover ergueu as mos e disse algo a ela em sua fala de bode, como uma bno. 

 

No momento em que Maurice enfiava a cabea para verificar que barulho era aquele l dentro, a 
zebra saltou por cima dele para a rua. Houve berros, gritos e carros buzinando. Corremos para as 
portas da carreta a tempo de ver a zebra galopando por uma avenida ladeada por hotis, cassinos e 
letreiros de non. Tnhamos acabado de soltar uma zebra em Las Vegas. 

 

Maurice e Eddie correram atrs dela, com alguns policiais correndo atrs deles e gritando: 

 

- Ei! Vocs precisam de permisso para isso! 

 

- Agora seria um bom momento para dar o fora - disse Annabeth. 

 

- Primeiro os outros animais - disse Grover. 

 

Cortei as trancas com minha espada. Grover ergueu as mos e falou a mesma bno de bode que 
usara para a zebra. 

 

- Boa sorte - disse aos animais. O antlope e o leo dispararam para fora das jaulas e foram juntos 
para as ruas. 

 

Alguns turistas gritaram. A maioria recuou e tirou fotos, provavelmente pensando que se tratasse de 
algum tipo de show de um dos cassinos. 

 

- Os animais vo ficar bem? - perguntei a Grover. - Quer dizer, o deserto e tudo... 

 

- No se preocupe - disse ele. - Eu lhes dei uma bno de stiro. 

 

- O que quer dizer isso? 

 

- Quer dizer que chegaro  floresta em segurana - disse ele. - Encontraro gua, comida, sombra, 
e o que mais precisarem at acharem um lugar seguro para viver. 

 

- Por que voc no pode fazer uma orao dessas para ns? - perguntei. 

 

- S funciona com animais. 

 

- Ento s iria afetar Percy - ponderou Annabeth. 

 

- Ei! - protestei. 

 

- Brincadeirinha - disse ela. - Venha. Vamos sair desse caminho imundo. 

#
 

Cambaleamos para fora, para a tarde do deserto. Fazia quarenta e trs graus, fcil, e devamos estar 
parecendo vagabundos fritos, mas todos estavam interessados demais nos animais selvagens para 
prestar muita ateno em ns. 

 

Passamos pelo Monte Carlo e pela MGM. Passamos por pirmides, por um navio pirata e pela 
Esttua da Liberdade, que era uma rplica bem pequena, mas ainda assim me deixou com 
saudades de casa. 

 

No sabia muito bem o que estvamos procurando. Talvez apenas um lugar para fugir do calor por 
alguns minutos, achar um sanduche e um copo de limonada, bolar um novo plano para chegar ao 
oeste. 

 

Provavelmente, entramos numa rua errada, pois chegamos em um beco sem sada, em frente ao 
Hotel e Cassino Lotus. A entrada era uma enorme flor de non, as ptalas acendendo e piscando. 
Ningum entrava nem saa, mas as reluzentes portas cromadas estavam abertas, espalhando ar 
condicionado com cheiro de flores - flor-de-ltus, quem sabe. Eu nunca cheirara uma, por isso no 
tinha certeza. 

 

O porteiro sorriu para ns. 

 

- Ei, crianas. Vocs parecem cansados. Querem entrar e sentar? 

 

Tinha aprendido a ser desconfiado, mais ou menos na ltima semana. Imaginava que qualquer um 
poderia ser um monstro ou um deus. No dava para saber. Mas aquele cara era normal. Era s olhar. 
Alm disso, fiquei to aliviado de ouvir algum que parecia simptico que assenti e disse que 
adoraramos entrar. Dentro, demos uma olhada em volta e Grover disse: 

 

- Uau. 

 

O saguo inteiro era uma sala de jogos gigante. E no estou falando de joguinhos vagabundos como 
o velho Pac-Man ou os caa-nqueis. Havia um tobogua serpenteando em volta do elevador de vidro, 
que subia pelo menos quarenta andares. Havia uma parede de escalada ao lado de um edifcio, e 
uma ponte interna para bungee-jumping. Trajes de realidade virtual com pistolas laseres que 
funcionavam. E centenas de videogames, cada qual do tamanho de uma tev widesmen. Basicamente, 
o que voc disser, o lugar tinha. Havia algumas outras crianas jogando, mas no muitas. No havia 
espera para nenhum dos jogos. Garonetes e lanchonetes estavam por toda parte, servindo todo 
tipo de comida que se possa imaginar. 

 

- Ei! - disse um mensageiro. Plos menos achei que fosse um mensageiro. Usava uma camisa havaiana 
branca e amarela com desenhos de ltus, short e sandlias de dedo. - Bem-vindos ao Cassino Ltus. 
Aqui est a chave do seu quarto. 

 

Eu gaguejei: 

 

- Ahn, mas... 

 

- No, no - disse ele, rindo. - A conta j foi paga. Sem taxas extras, sem gorjetas. Vocs s precisam 
subir para o ltimo andar, quarto 4001. Se precisarem alguma coisa, como mais espuma para a 
banheira quente ou alvos para tiro ao prato, ou o que for,  s ligar para a recepo. Aqui esto os seus 
cartes GranaLtus. Eles funcionam nos restaurantes e em todos os jogos e brinquedos. 

 

Ele entregou a cada um de ns um carto de crdito de plstico verde. 

 

Eu sabia que devia haver algum engano. Obviamente ele pensara que ramos crianas milionrias. Mas 
peguei o carto e disse: 

 

- Quanto tem aqui? 

 

Ele juntou as sobrancelhas. 

#
 

- O que quer dizer? 

 

- Quero dizer quanto temos de crdito? 

 

Ele riu. 

 

- Ah,  uma piada. Ei, legal. Aproveitem sua estada. 

 

Subimos de elevador e conferimos nosso quarto. Era uma sute com trs dormitrios separados e um bar 
cheio de doces, refrigerantes e salgadinhos. Uma linha direta para o servio de quarto. Toalhas fofas e 
camas d'gua com travesseiros de penas. Uma televiso enorme com satlite e Internet banda larga. A 
varanda tinha sua prpria banheira quente e, de fato, uma mquina de lanar pratos e uma espingarda - 
dava para lanar pombos de loua sobre a paisagem de Las Vegas e acert-los com a espingarda. No 
ntendi como aquilo podia ser permitido, mas achei muito legal. 

 

A vista para a Vegas Boulevard e o deserto era maravilhosa, muito embora eu duvidasse que 
teramos tempo para admirar a paisagem com um quarto como aquele. 

 

- Ah, deuses - disse Annabeth. - Este lugar ... 

 

- Maravilhoso - disse Grover. - Supermaravilhoso. 

 

Havia roupas no armrio, e cabiam em mim. Franzi a testa, achando um pouco estranho. 

 

Joguei a mochila de Ares na lata de lixo. No precisaria mais daquilo. Quando fssemos embora, 
poderia comprar uma nova loja do hotel. 

 

Tomei um banho, o que foi uma sensao tima depois de uma semana de viagem suja. Troquei de 
roupa, comi um saco de salgadinhos, bebi trs Cocas e no me sentia to bem havia muito 
tempo. Bem no fundo da cabea, um probleminha me incomodava. Eu tivera um sonho, ou coisa 
assim... Precisava falar com meus amigos. Mas certamente aquilo podia esperar. 

 

Sa do quarto e vi que Annabeth e Grover tambm tinham tomado banho e trocado de roupa. Grover 
estava comendo batatinhas at se fartar, enquanto Annabeth sintonizava o National Geographic 
Channel. 

 

- Todos esses canais - disse a ela -, e voc liga no National Geographic. Est maluca? 

 

-  interessante. 

 

- Eu me sinto bem - disse Grover. - Adoro este lugar. 

 

Sem que ele se desse conta, as asas apareceram nos seus tnis e o suspenderam a trinta 
centmetros do cho, depois o desceram de novo. 

 

- Ento, o que fazemos agora? - perguntou Annabeth. - Dormimos? 

 

Grover e eu nos entreolhamos e sorrimos. Ambos erguemos os nossos cartes GranaLtus de 
plstico verde. 

 

- Hora do recreio - falei. 

 

No conseguia me lembrar da ltima vez em que me divertira tanto. Eu vinha de uma famlia 
relativamente pobre. Para ns esbanjar era comer fora no Burger King e alugar um vdeo. Um hotel 
cinco estrelas em Vegas? Nem pensar. 

 

Pulei de bungee-jump no saguo cinco ou seis vezes, andei no tobogua, fiz snowboard na rampa de 
neve artificial, joguei lasertag e atirador de elite do FBI em realidade virtual. Vi Grover algumas vezes, 
indo de jogo em jogo. Ele tinha gostado mesmo daquela coisa do caador s avessas - em que os 

#
cervos saem e atiram contra os caipiras. Vi Annabeth jogando trvia e outros jogos de cabeudos. 
Havia um Sim enorme em 3D, no qual voc podia construir sua prpria cidade e realmente ver os 
edifcios hologrfico subirem no tabuleiro. No dei muita importncia para esse, mas Annabeth 
adorou. 

 

No sei muito bem quando percebi que algo estava errado. 

 

Provavelmente, foi quando reparei no cara que estava em p ao meu lado no jogo dos atiradores de 
elite virtuais. Tinha cerca de treze anos, eu acho, mas suas roupas eram esquisitas. Achei que 
fosse filho de algum dubl do Elvis Presley. Usava jeans boca-de-sino e uma camiseta vermelha 
com enfeites pretos, e o cabelo era cacheado e cheio de gel, como o de uma garota de New Jersey 
em noite de reunio de ex-alunos. 

 

Brincamos juntos no jogo de atiradores, e ele disse: 

 

- Joinha, bicho. Estou aqui h duas semanas e os jogos esto cada vez melhores 

 

Joinha, bicho? 

 

Mais tarde, enquanto conversvamos, eu disse que alguma coisa era "irada" e ele me olhou meio 
surpreso, como se nunca tivesse ouvido a palavra ser usada daquele jeito antes. 

 

Disse que seu nome era Darrin, mas assim que comecei a fazer perguntas ele se aborreceu e fez 
meno de voltar para a tela do computador. 

 

Eu disse: 

 

- Ei, Darrin? 

 

- O qu? 

 

- Em que ano estamos? Ele franziu a testa para mim. 

 

- No jogo? 

 

- No. Na vida real. Ele precisou pensar. 

 

- Mil novecentos e setenta e sete. 

 

- No - falei, comeando a ficar um pouco assustado. - De verdade. 

 

- Ei, bicho. Vibraes ruins. Estou no meio de um jogo. 

 

Depois disso ele me ignorou totalmente. 

 

Comecei a falar com as pessoas e descobri que no era fcil. 

 

Elas estavam grudadas na tela da tev ou no videogame ou no que fosse. Achei um cara que me disse 
que era 1985. Outro cara me disse que era 1993. Todos alegavam no estar ali h muito tempo, alguns 
dias, algumas semanas no mximo. Realmente no sabiam, nem se importavam com isso. 

 

Ento me ocorreu: havia quanto tempo eu estava ali? Pareciam apenas algumas horas, mas seriam 
mesmo? 

 

Tentei lembrar por que estvamos ali. amos para Los Angeles. Deveramos encontrar a entrada para o 
Mundo Inferior. Minha me... por um momento apavorante, tive dificuldade de lembrar o nome dela. 
Sally. Sally Jackson. Eu tinha de encontr-la. precisava impedir Hades de desencadear a Terceira Guerra 
Mundial. 

 

Achei Annabeth ainda construindo sua cidade. 

#
 

- Vamos - disse a ela. - Precisamos sair daqui. 

 

Nenhuma resposta. 

 

- Annabeth? 

 

Ela ergueu os olhos, aborrecida. 

 

- O qu? 

 

- Escute. O Mundo Inferior. A nossa misso! 

 

- Ora, vamos, Percy. S mais alguns minutos. 

 

- Annabeth, h gente aqui desde 1977. Crianas que nunca cresceram. Quando voc entra, fica para 
sempre. 

 

- E dai? - perguntou ela. - Voc pode imaginar lugar melhor? 

 

Agarrei o pulso dela e a arranquei do jogo. 

 

- Ei! - ela gritou e me bateu, mas ningum sequer se incomodou em olhar. Estavam ocupados demais. 

 

Eu a fiz olhar em meus olhos. Falei: 

 

- Aranhas. Grandes aranhas peludas. 

 

Aquilo mexeu com ela. Sua viso clareou. 

 

- Ah, meus deuses - falou. - H quanto tempo ns... 

 

- No sei, mas temos de encontrar Grover. 

 

Samo  procura dele, e o encontramos ainda jogando Caador de Cervos Virtual. 

 

- Grover! - gritamos juntos. 

 

Ele disse: 

 

- Morra, ser humano! Morra, pessoa tola e poluente! 

 

- Grover! 

 

Ele apontou a arma de plstico para mim e comeou a clicar, como se eu fosse apenas mais uma imagem 
na tela. 

 

Olhei para Annabeth e juntos pegamos Grover pelos braos e o arrastamos para longe. Os tnis 
voadores despertaram e comearam a puxar as pernas dele na dirao oposta, enquanto ele gritava: 

 

- No! Acabei de passar de nvel! No! 

 

O mensageiro do Ltus correu at ns. 

 

- E ento, esto prontos para os seus cartes platinum? 

 

- Estamos indo embora - disse a ele. 

 

- Que pena - disse ele, e tive a sensao de que ele estava sendo sincero, de que amos 
despedaar seu corao partindo. - Acabamos de anexar um novo andar cheio de jogos para 

#
portadores de cartes platinum. 

 

Ele mostrou os cartes, e eu queria um. Sabia que, se pegasse jamais iria embora. Ficaria ali, feliz 
para sempre, jogando para sempre, e logo esqueceria minha me, e minha misso, e talvez at 
meu prprio nome. Ficaria jogando Atirador Virtual com o bicho joinha Darrin Discoteca para 
sempre. 

 

Grover estendeu a mo para o carto, mas Annabeth puxou o brao dele e disse: 

 

- No, obrigada. 

 

Fomos andando em direo  porta, e quando fizemos isso, o cheiro de comida e os sons dos jogos 
pareceram ficar mais e mais convidativos. Pensei em nosso quarto l em cima. Podamos s 
passar a noite, dormir em uma cama de verdade para variar... 

 

Ento disparamos pelas portas do Cassino Ltus e samos correndo pela calada. A sensao era 
de meio de tarde, mais ou menos a mesma hora que havamos entrado no cassino, mas algo 
estava errado. O tempo mudara completamente. Estava tempestuoso, com raios de calor 
relampejando no deserto. 

 

A mochila de Ares estava pendurada em meu ombro, o que era estranho, pois eu tinha certeza de 
que a jogara na lata de lixo do quarto 4001. Mas naquele momento eu tinha outros problemas com 
que me preocupar. 

 

Corri para o jornal mais prximo e li o ano primeiro. Graas aos deuses, era o mesmo ano de quando 
entramos. Ento reparei na data: 20 de junho. 

 

Tnhamos ficado no Cassino Ltus por cinco dias. 

 

Restva-nos s um dia at o solstcio de vero. Um dia para completar nossa misso. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
DEZESSETE  Vamos comprar camas dgua. 

 

A idia foi de Annabeth. 

 

Ela nos meteu no banco de trs de um txi de Las Vegas como se realmente tivssemos dinheiro, e disse 
ao motorista: 

 

- Los Angeles, por favor. 

 

O taxista mascou seu charuto e nos mediu com os olhos. 

 

- So quatrocentos e oitenta e dois quilmetros. Para isso, vocs tm de pagar adiantado. 

 

- Aceita carto de dbito de cassinos? - perguntou Annabeth. 

 

Ele deu de ombros. 

 

- Alguns. Funcionam como os cartes de crdito. Preciso passar o carto primeiro. 

 

Annabeth estendeu o carto GranaLtus verde para ele. 

 

O motorista olhou com ar desconfiado. 

 

- Passe o carto - convidou Annabeth. 

 

Ele fez isso. 

 

O taxmetro comeou a crepitar. Luzes se acenderam. Por fim, um smbolo do infinito apareceu ao lado do 
cifro. 

 

O charuto caiu da boca do motorista. Ele olhou para ns de olhos arregalados. 

 

- Em que lugar de Los Angeles... ahn... Sua Alteza? 

 

- O per Santa Monica. - Annabeth endireitou um pouco o corpo. Dava para perceber que ela gostara 
daquilo de "Sua Alteza.. - Leve-nos depressa, e pode ficar com o troco. 

 

Talvez ela no devesse ter dito aquilo. 


O velocmetro do txi no caiu nem por um instante abaixo de cento e sessenta ao longo de todo o 
percurso pelo deserto de Mojave. 

 

***** 

 

Na estrada, tivemos tempo  vontade para conversar. Contei a Annabeth e Grover sobre meu ltimo 
sonho, mas, quanto mais tentava me lembrar, mais imprecisos foram ficando os detalhes. O Cassino Ltus 
parecia ter causado um curto-circuito na minha memria. Eu no conseguia me lembrar de como era o 
som da voz do servo, embora tivesse certeza de que era de algum que eu conhecia. O servo chamara o 
monstro no abismo de algum outro nome alm de "meu senhor"... Algum nome ou ttulo especial... 

 

- O Silencioso? - sugeriu Annabeth. - O Rico? Ambos so apelidos de Hades. 

 

- Talvez... - falei -, embora nenhum dos dois parecesse muito certo. 

 

- A sala do trono parece ser a de Hades - disse Grover. -  assim que costumam descrev-la. 

 

Eu sacudi a cabea. 

 

- Alguma coisa est errada. A sala do trono no era a parte principal do meu sonho. E aquela voz no 
abismo... Eu no sei. Simplesmente no parecia a voz de um deus. 

#
 

Os olhos de Annabeth se arregalaram. 

 

- O que foi? - perguntei. 

 

- Ah... nada. Eu estava s... No, tem de ser Hades. Talvez ele tenha mandado esse ladro, essa 
pessoa invisvel, para pegar o raio-mestre, e algo tenha dado errado... 

 

- Tipo o qu? 

 

- Eu... eu no sei - disse ela. - Mas se ele roubou o smbolo do poder de Zeus do Olimpo, e os 
deuses o estavam caando, quer dizer, uma poro de coisas poderia dar errado, ou ele o perdeu 
de algum modo. De qualquer jeito, no conseguiu lev-lo at Hades. Foi isso o que a voz disse no 
seu sonho, certo? O cara fracassou. Isso explicaria o que as Frias estavam procurando quando 
vieram atrs de ns no nibus. Talvez achem que recuperamos o raio. 

 

No sabia muito bem o que estava errado com ela. Parecia plida. 

 

- Mas se eu j tivesse recuperado o raio - falei -, por que estaria viajando para o Mundo Inferior? 

 

- Para ameaar Hades - sugeriu Grover. - Para suborn-lo ou chantage-lo para devolver sua me. 

 

Eu assobiei. 

 

- Voc tem pensamentos perversos para um bode. 

 

- Ora, obrigado. 

 

- Mas a coisa no abismo disse que estava esperando dois - falei. - Se o raio-mestre  um, qual  o 
outro? 

 

Grover sacudiu a cabea, claramente perplexo. 

 

Annabeth olhava para mim como se soubesse qual seria a minha prxima pergunta e estivesse 
desejando silenciosamente que eu no a fizesse. 

 

- Voc tem idia do que poderia estar naquele abismo tem? - perguntei a ela. - Quer dizer, se no 
for Hades. 

 

- Percy... no vamos falar sobre isso. Porque se no for Hades... No. Tem de ser Hades. 

 

A desolao passava por ns. Passamos por uma placa que dizia DIVISA DO ESTADO DA 
CALIFRNIA, VINTE QUILMETROS. 

 

Tive a sensao de que estava deixando de notar alguma informao simples e crucial. Era como 
quando eu olhava para uma palavra que deveria conhecer, mas ela no fazia sentido porque uma ou 
duas letras estavam flutuando fora do lugar. Quanto mais eu pensava sobre minha misso, mais 
certeza tinha de que confrontar Hades no era a verdadeira resposta. Havia algo mais acontecendo, algo 
ainda mais perigoso. 

 

O problema era: estvamos disparados na direo do Mundo Inferior a cento e sessenta quilmetros 
por hora, apostando que que Hades tinha o raio-mestre. Se chegssemos l e descobrssemos que 
estvamos errados, no teramos tempo para corrigir o erro. O prazo do solstcio passaria e a guerra 
comearia. 

 

- A resposta est no Mundo Inferior - assegurou Annabeth. - Voc viu os espritos dos mortos, Percy. 
S h um lugar onde isso  possvel. Estamos fazendo a coisa certa. 

 

Ela tentou levantar a nossa moral sugerindo estratgias engenhosas para entrar na Terra dos Mortos, 
mas meu corao no estava naquilo. O fato  que havia muitos fatores desconhecidos. Era como 

#
estudar loucamente para uma prova sem saber qual  o assunto. E, acredite-me, isso eu j fizera 
muitas vezes. 

 

O txi ia a toda para oeste. Cada rajada de vento no Vale da Morte parecia um esprito dos mortos. 
Cada vez que os freios chiavam atrs de um caminho de dezoito rodas, aquilo me lembrava a voz 
reptiliana de Equidna. 

 

***** 

 

Ao pr-do-sol, o txi nos deixou na praia de Santa Monica. Era exatamente como as praias de Los 
Angeles que se vem nos filmes, s que o cheiro era pior. Havia carrossis de parque de diverso 
ao longo do per, palmeiras nas caladas, sem-teto dormindo nas dunas e surfistas esperando a 
onda perfeita. 

 

Grover, Annabeth e eu caminhamos at a beira-mar. 

 

- E agora? - perguntou Annabeth. 

 

O Pacfico estava ficando dourado ao sol poente. Pensei em quanto tempo se passara desde 
que estivera na praia de Montauk, do outro lado do pas, olhando para um mar diferente. 

 

Como podia haver um deus capaz de controlar aquilo tudo? O que meu professor de cincias dizia - 
dois teros da superfcie da Terra so cobertos de gua? Como eu podia ser filho de algum to 
poderoso? 

 

Entrei na arrebentao. 

 

- Percy? - disse Annabeth. - O que est fazendo? 

 

Continuei andando, at a gua chegar  minha cintura, depois ao peito. 

 

Ela gritou para mim: 

 

- Tem idia de quanto essa gua est poluda? H todos os tipos de coisas txicas... 

 

Foi quando minha cabea submergiu. 

 

De incio, prendi a respirao.  difcil inalar gua de propsito. Por fim no pude mais aguentar. 
Inspirei. De fato, eu conseguia respirar normalmente. 

 

Desci andando at os bancos de areia. No deveria conseguie enxergar naquelas guas escuras, 
mas de algum modo podia dizer onde tudo estava. Conseguia sentir a textura ondulada do fundo. 
Podia distinguir colnias de estrelas-do-mar pontilhando os bancos de areia. Podia at ver as 
correntes, quentes e frias, rodopiando juntas. 

 

Senti algo roando a minha perna. Olhei para baixo e pulei para fora da gua como um mssil. 
Deslizando ao meu lado, havia um tubaro-sombreiro de um metro e meio de comprimento. 

 

Mas ele no estava atacando, apenas esfregava o nariz em mim. Estava nos meus calcanhares 
como um cachorro. Vacilante, toquei sua barbatana dorsal. Ele resistiu um pouco, como se estivesse me 
convidando a segurar mais forte. Agarrei a barbatana com as duas mos. Ele partiu, me puxando. 
O tubaro me arrastou para o fundo, para a escurido, e me largou  beira do oceano propriamente 
dito, onde o banco de areia despencava em um imenso abismo. Era como estar na beira do Grand 
Canyon  meia-noite, sem conseguir ver muita coisa mas sabendo que o vazio estava bem ali. 

 

A superfcie tremeluzia a uns cinquenta metros. Eu sabia que devia ter sido esmagado pela 
presso. Mas, por outro lado, o natural era que tambm no respirasse. Fiquei imaginando se 
haveria um limite at o qual eu poderia avanar, e se era possvel descer direto at o fundo do 
Pacfico. 

 

#
Ento vi algo reluzindo na escurido abaixo, ficando maior e mais brilhante  medida que subia na 
minha direo. Uma voz de mulher, como a da minha me, chamou: 

 

- Percy Jackson. 

 

Quando ela chegou mais perto, sua forma ficou mais clara. Tinha cabelos pretos soltos e usava 
um vestido de seda verde. A luz tremeluzia a seu redor, e os olhos eram to perturbadoramente 
bonitos que mal notei o cavalo-marinho do tamanho de um corcel em que ela estava montando. 

 

Ela desmontou. O cavalo-mannho e o tubaro-sombreiro se afastaram rapidamente e comearam 
uma brincadeira que parecia esconde-esconde. A dama submarina sorriu para mim. 

 

- Voc chegou longe, Percy Jackson. Muito bem! 

 

Eu no sabia muito bem o que fazer, ento me curvei. 

 

- Voc  a mulher que falou comigo no rio Mississipi. 

 

- Sim, criana. Eu sou uma nereida, um esprito do mar. No foi fcil aparecer to longe, rio acima, 
mas as niades, minhas primas da gua doce, ajudaram a sustentar minha fora vital. Elas honram o 
Senhor Poseidon, embora no sirvam em sua corte. 

 

- E... voc serve na corte de Poseidon? 

 

Ela assentiu. 

 

- Muitos anos se passaram desde que nasceu uma criana do Deus do Mar. Ns o observamos com 
grande interesse. 

 

De repente me lembrei dos rostos nas ondas perto da praia de Montauk quando eu era pequeno, 
reflexos de mulheres sorridentes. Como com tantas coisas estranhas em minha vida, nunca havia 
pensado muito naquilo. 

 

- Se meu pai se interessa tanto por mim - falei -, por que no est aqui? Por que no fala comigo? 

 

Uma corrente fria subiu das profundezas. 

 

- No julgue o Senhor do Mar to duramente - disse-me a nereida. - Ele est prestes a lutar em 
uma guerra indesejada. Tem muito com que ocupar seu tempo. Alm disso, est proibido de ajud-lo 
diretamente. Os deuses no podem demonstrar tal favoritismo. 

 

- Mesmo com seus prprios filhos? 

 

- Especialmente com estes. Os deuses s podem agir por influncia indireta. E por isso que lhe dou 
um aviso, e um presente. 

 

Ela estendeu a mo aberta e trs prolas brancas brilharam. 

 

- Sei de sua jornada aos domnios de Hades - disse. - Poucos mortais j fizeram isso e 
sobreviveram: Orfeu, que possua grande talento musical; Hrcules, que tinha grande fora; Houdini, 
que podia escapar at mesmo das profundezas do Trtaro. Voc tem esses talentos? 

 

- Ahn... no, senhora. 

 

- Ah, mas voc tem algo mais, Percy. Possui dons que esta apenas comeando a descobrir. Os 
orculos vaticinaram um grande e extraordinrio futuro para voc, desde que sobreviva at a idade 
adulta. Poseidon no aceitar que morra antes do tempo, Portanto pegue estas prolas, e quando 
estiver em apuro, esmague elas a seus ps. 

 

- O que vai acontecer? 

#
 

- Depende do apuro. Mas lembre: o que pertence ao mar sempre retornar ao mar. 

 

- E o aviso? 

 

Os olhos dela brilharam com uma luz verde. 

 

- Faa o que seu corao manda, ou perder tudo. Hades se alimenta de dvidas e desesperana. 
Ele o enganar se puder, o far desconfiar de seu prprio julgamento. Depois que estiver nos 
domnios dele, Hades jamais permitir voluntariamente que voc parta. Mantenha a f. Boa sorte, 
Percy Jackson. 

 

Ela chamou seu cavalo-marinho e partiu para o vazio. 

 

- Espere! - gritei. - No rio, voc disse para no confiar em presentes. Que presentes? 

 

- Adeus, jovem heri - gritou ela de volta, a voz desaparecendo nas profundezas. - Voc deve ouvir 
seu corao. - Ela se transformou em um ponto verde luminoso e depois desapareceu. Eu quis 
segui-la para as profundezas escuras. Quis ver a corte de Poseidon. Mas ergui os olhos para o 
crepsculo que se transformava em noite na superfcie. Meus amigos estavam esperando. Tnhamos 
to pouco tempo... 

 

Tomei impulso para cima em direo  arrebentao. 

 

Quando cheguei  praia, minhas roupas secaram instantaneamente. Contei a Grover e a Annabeth o 
que acontecera, e mostrei as prolas a eles. 

 

Annabeth fez uma careta. 

 

- Nenhum presente vem sem um preo. 

 

- Elas foram de graa. 

 

- No. - Ela sacudiu a cabea. - "No existe almoo grtis."  um antigo ditado grego que se aplica 
perfeiramente hoje em dia. Haver um preo. Aguarde. 

 

Com esse pensamento feliz, demos as costas para o mar. 

 

***** 

 

Tomamos o nibus para West Hollywood com um pouco dos trocados que sobraram na mochila de 
Ares. Mostrei ao motorista o recibo com o endereo do Mundo Inferior que eu pegara no Emprio 
de Anes de Jardim da Tia Eme, mas ele nunca ouvira falar nos Estdios de Gravao M.A.C. - 
Morto ao Chegar. 

 

- Voc me lembra algum que vi na tev - falou, ator infantil, ou coisa assim? 

 

- Ahn... eu sou dubl... de uma poro de atores infantis. 

 

- Ah! Est explicado. 

 

Agradeci e desci rapidamente na parada seguinte. 

 

Perambulamos por quilmetros  procura do M.A.C. Ningum parecia saber onde era. No 
constava da lista telefnica. 

 

Duas vezes nos esquivamos para becos, para evitar viaturas de polcia. 

 

Fiquei paralisado na frente da vitrine de uma loja de eletrodomsticos porque uma televiso 
mostrava uma entrevista com algum que pareceu muito familiar - meu padrasto, Gabe Cheiroso. 

#
Ele estava falando com Barbara Walters - parecendo uma grande celebridade. Ela o entrevistava 
em nosso apartamento, no meio de um jogo de pquer, e havia uma jovem loira sentada ao lado 
dele, afagando-lhe a mo. 

 

Uma lgrima falsa brilhou na bochecha dele enquanto ele dizia: 

 

- Honestamente, sra. Walters, se no fosse aqui pela Fofinha, minha conselheira nas horas tristes, eu 
estaria um caco. Meu enteado levou tudo o que me era caro... Minha esposa... meu Camaro... Eu.. 
desculpe. Sinto dificuldade em falar sobre isso. 

 

- Ai est, Amrica. - Barbara Walters voltou-se para a cmera. - Um homem destroado. Um 
menino adolescente com srios problemas. Deixem-me mostrar agora a ltima foto desse 
problemtico jovem fugitivo, tirada h uma semana em Denver. 

 

A tela cortou para uma foto granulada em que eu, Annabeth e Grover do lado de fora do 
restaurante Colorado estvamos falando com Ares. 

 

- Quem so as outras crianas nesta foto? - perguntou Barbara Walters com dramaticidade. - Quem 
 o homem que est com elas? Percy Jackson  um delinquente, um terrorista ou uma vtima da 
lavagem cerebral de uma nova e assustadora seita? Quando voltarmos, vamos conversar com uma 
renomada psicloga infantil. Fique conosco, Amrica. 

 

- Vamos - disse-me Grover. Ele me arrastou para longe antes que eu abrisse um buraco na vitrine da 
loja de eletrodomsticos com um murro. 

 

Anoiteceu, e personagens de aparncia esfomeada comearam a sair para as ruas para representar 
seus papis. No me entendam mal. Sou nova-iorqumo. No me assusto facilmente. Mas estar em 
Los Angeles era bem diferente de estar em Nova York. Onde eu morava tudo parecia perto. Embora 
fosse uma grande cidade, era possvel se chegar a qualquer lugar sem se perder. O padro das ruas e o 
metr faziam sentido. Havia um critrio de funcionamento das coisas. Desde que no fosse bobo, um 
garoto podia se sentir seguro l. 

 

Los Angeles no era assim. Era espalhada, catica, ficava difcil se locomover. Fazia lembrar Ares. 
Para Los Angeles, no bastava ser grande; era preciso tambm provar-se grande sendo barulhenta, 
estranha e difcil de navegar. Eu no sabia como iramos encontrar a entrada para o Mundo 
Inferior at o dia seguinte, o solstcio de vero. 

 

Passamos por gangues, vagabundos e camels, que nos olhavam como se tentassem avaliar se nos 
atacar seria um bom negcio. 

 

Quando passamos apressados pela entrada de um beco, uma voz disse no escuro: 

 

- E, voc. 

 

Como um idiota, parei. 

 

Antes que nos dssemos conta, estvamos cercados, Uma gangue de garotos estava ao nosso redor. 
Seis ao todo - garotos brancos com roupas caras e expresso perversa. Como os garotos da 
Academia Yancy; moleques ricos brincando de ser malvados. 

 

Por instinto, destampei Contracorrente. 

 

Quando a espada apareceu do nada, eles recuaram, mas seu lder ou era muito estpido ou muito 
valente, porque continuou avanando em minha direo com um canivete de mola. 

 

Cometi o erro de desferir um golpe. 

 

O garoto deu um grito agudo. Mas ele devia ser cem por cento mortal, porque a lmina passou 
inofensiva por seu peito. Ele olhou para baixo. 

 

#
- Mas que... 

 

Calculei que teria mais ou menos trs segundos antes que o choque dele se transformasse em 
raiva. 

 

- Corram! - gritei para Annabeth e Grover. 

 

Empurramos dois deles para fora do caminho e dsparamos pela rua, sem saber aonde estvamos 
indo. Dobramos uma esquina numa curva bem fechada. 

 

- Ali! - gritou Annabeth. 

 

Somente uma loja do quarteiro parecia aberta, as vitrines brilhando em non. O letreiro acima da porta 
dizia algo como LACIPO ADS MASCA GDUS OS SCRATO. 

 

- Palcio das Camas d'gua do Crosta? - traduziu Grover. 

 

No parecia o tipo de lugar onde eu entraria a no ser em uma emergncia, mas sem dvida era 
essa a situao. 

 

Irrompemos pelas portas, corremos para trs de uma cama dgua e nos abaixamos. Uma frao de 
segundo depois, a gangue de garotos passou correndo do lado de fora. 

 

- Acho que os despistamos - ofegou Grover. 

 

Uma na voz atrs de ns retumbou: 

 

- Despistaram quem? 

 

Nos trs pulamos. 

 

Logo atrs, em p, estava um cara que parecia um tiranossauro em trajes de passeio. Tinha pelo 
menos dois metros e tanto de altura, completamente careca. A pele era cinzenta e curtida como 
couro, olhos de plpebras grossas e sorriso frio, reptiliano. Aproximava-se lentamente, mas tive a 
sensao de que poderia se mover depressa se precisasse. 

 

Seu traje parecia sado do Cassino Ltus. Era dos gloriosos anos 70. A camisa era de seda 
estampada, desabotoada at a metade do peito sem plos. As lapelas do casaco de veludo eram 
largas como pistas de pouso. Eram tantas correntes de prata no pescoo que nem consegui contar. 

 

- Eu sou o Crosta - disse com um sorriso amarelo de tanto trtaro. 

 

Resisti ao impulso de dizer, Sim, est na cara. 

 

- Desculpe a invaso - falei. - Estamos s, ahn, dando uma olhada. 

 

- Voc quer dizer, se escondendo daqueles garotos mal-encarados - resmungou ele. - Eles ficam 
vadiando por aqui todas as noites. Entra uma poro de gente na loja, graas a eles. Digam, 
querem ver uma cama d'gua? 

 

Eu j ia dizer No, obrigado quando ele ps uma pata enorme no meu ombro e me empurrou mais para 
dentro do salo da loja. 

 

Havia todos os tipos de camas d'gua que voc possa imaginar: diferentes tipos de madeira, lenis 
de padronagem variadas; queen-size, king-size, gigantescas. 

 

- Este  meu modelo de maior sucesso. - Crosta passou as mos orgulhosamente sobre uma cama 
coberta com cetim preto, com lmpadas de lava embutidas na cabeceira. O colcho vibrava, e a 
coisa ficava parecendo gelatina de petrleo. 

 

#
- Massagem de um milho mos - disse Crosta. - Vo em frente, experimentem. Tirem uma soneca, 
mandem ver. Eu no importo. Tem pouco movimento hoje. 

 

- Ahn - falei. - No acho que... 

 

- Massagem de urn milho de mos! - exclamou Grover, e mergulhou na cama. - Ah, gente! Isso  
legal. 

 

- Hummm - disse Crosta, coando o seu queixo de couro. - Quase, quase. 

 

- Quase o qu? - perguntei. 

 

Ele olhou para Annabeth. 

 

- Faa-me um favor e experimente aquela l, meu bem. Pode servir. 

 

Annabeth disse: 

 

- Mas o que... 

 

Ele lhe deu algumas palmadinhas tranqilizadoras no ombro e a levou para o modelo Safri Deluxe, 
com lees de teca entalhados na armao e um acolchoado de leopardo. Como Annabeth no quis 
deitar, Crosta a empurrou. 

 

- Ei! - protestou ela. 

 

Crosta estalou do dedos. 

 

- Ergo! 

 

Cordas pularam das laterais da cama e envolveram Annabeth como chicotes, prendendo-a ao 
colcho. 

 

Grover tentou se levantar, mas cordas pularam tambm de sua cama de cetim preto, e o prenderam. 

 

- N-no  l-l-legal! - gritou ele, a voz vibrando com a massagem de um milho de mos. - N-n-nada l-l-
legal! 

 

O gigante olhou para Annabeth, voltou-se para mim e arreganhou um sorriso. 

 

- Quase. Droga. 

 

Tentei me afastar, mas a mo dele se arremessou e me agarrou pela nuca. 

 

- Opa, garoto. No se preocupe. Vamos achar uma para voc em um segundo. 

 

- Solte meus amigos. 

 

- Ah, certamente, eu vou. Mas vou ter de ajust-los primeiro. 

 

- O que quer dizer? 

 

- Todas as camas tm exatamente um metro e oitenta, sabia? Seus amigos so baixinhos demais. 
Tenho de ajust-los para servir nas camas. 

 

Annabeth e Grover continuaram se debatendo. 

 

- No tolero medidas imperfeitas - resmungou Crosta.  Ergo! 

 

Um novo conjunto de cordas pulou dos ps e da cabeceira da cama, enrolando-se nos tornozelos e 

#
axilas de Grover e Annabeth. As cordas comearam a se esticar, puxando meus amigos pelas duas 
extremidades. 

 

- No se preocupe - disse Crosta para mim. -  um servicinho de estiramento. Talvez uns oito 
centmetros a mais nas colunas deles. Podem at sobreviver. Agora, por que no achamos 
uma cama de que voc goste, heim? 

 

- Percy! - gritou Grover. 

 

Minha cabea estava a mil. Sabia que no conseguiria dominar sozinho aquele gigante vendedor de 
camas d'gua. Ele quebraria meu pescoo antes mesmo que eu pegasse a espada. 

 

- Seu nome de verdade no  Crosta, ? - perguntei. 

 

- Na certido  Procrusto - admitiu ele. 

 

- O Esticador. 

 

Lembrei-me da histria: o gigante que tentara matar Teseu excesso de hospitalidade a caminho 
de Atenas. 

 

- Sim - disse o vendedor. - Mas quem  capaz de pronunciar Procrusto?  ruim para os negcios. 
Agora, "Crosta' um pode dizer. 

 

- Tem razo. Soa muito bem. Os olhos dele se iluminaram. 

 

- Acha mesmo? 

 

- Ah, sem dvida - disse eu. - E o acabamento dessas camas? Fabuloso! 

 

Ele abriu um enorme sorriso, mas os dedos no afrouxaram em meu pescoo. 

 

- Digo isso aos meus fregueses. Sempre. Ningum se preocupa em examinar o acabamento. 
Quantas lmpadas de lava embutidas voc j viu? 

 

- No muitas. 

 

- Claro! 

 

- Percy! - gritou Annabeth. - O que est fazendo? 

 

- No ligue para ela - disse eu a Procrusto. - Ela impossvel. 

 

O gigante riu. 

 

- Todos os meus fregueses so. Nunca tm um metro e oitenta exato. Muito desatencioso. E 
depois se queixam do ajuste. 

 

- O que voc faz quando eles tm mais de um metro e oitenta? 

 

- Ora, isso acontece sempre.  um ajuste simples. 

 

Ele soltou meu pescoo, mas antes que eu pudesse reagir esticou o brao para trs de um balco 
prximo e de l tirou um enorme machado de bronze com lmina dupla. Ele disse: 

 

-  s centralizar o fregus o melhor possvel e aparar o que estiver sobrando nas duas extremidades. 

 

- Ah - falei, engolindo em seco. - Sensato. 

 

- Estou to satisfeito em cruzar com um fregus inteligente! 

#
 

Agora as cordas estavam realmente esticando meus amigos. Annabeth estava ficando plida. 
Grover fazia sons gorgolejantes, como um ganso estrangulado. 

 

- Ento, Crosta... - falei, tentando manter a voz despreocupada. Olhei de relance para a cama 
Lua-de-Mel Especial, em forma de corao. - Esta aqui tem mesmo estabilizadores dinmicos para 
compensar o movimento ondulatrio? 

 

-  claro. Experimente. 

 

Sim, talvez eu experimente. Mas funcionaria tambm para um cara grande como voc? Sem 
nenhuma ondulao? 

 

- Garantido. 

 

- No acredito. 

 

- Pode acreditar. 

 

- Mostre. 

 

Ele sentou com vontade na cama e deu uma palmadmha no colcho. 

 

- Nenhuma ondulao. Viu? 

 

Estalei os dedos. 

 

- Ergo! 

 

As cordas saltaram em volta de Crosta e o achataram no colcho. 

 

- Ei! - gritou ele. 

 

- Centralizar bem - falei. 

 

As cordas se reajustaram ao meu comando. A cabea inteira de Crosta ficou para fora da cabeceira. 
Os ps ficaram para fora na outra ponta. 

 

- No! - disse ele. - Espere! E s uma demonstrao. 

 

Destampei Contracorrente. 

 

- Alguns ajustezinhos... 

 

No tive nenhum escrpulo quanto ao que estava prestes a fazer. Se Crosta no fosse humano, 
eu, de qualquer jeito, no poderia feri-lo. Se fosse um monstro, merecia ser transformado em p 
por algum tempo. 

 

- Voc negocia duro - disse-me ele. - Dou-lhe trinta por cento de desconto nos modelos em 
exposio! 

 

- Acho que vou comear com a parte de cima. - Ergui a espada. 

 

- Sem entrada! Financiamento em seis meses sem juros! 

 

Desci a espada. Crosta parou de fazer ofertas. 

 

Cortei as cordas nas outras camas. Annabeth e Grover puseram-se em p, gemendo e se 
encolhendo e me xingando muito. 

 

#
- Vocs parecem mais altos - falei. 

 

- Muito engraado - disse Annabeth. - Da prxima vez seja mais rpido. 

 

Olhei para o quadro de avisos atrs do balco de Crosta. Havia uma propaganda do Servio de 
Entregas Hermes e outra do Guia Completo dos Monstros na rea de Los Angeles - "As nicas 
Pginas Amarelas Monstruosas de que voc vai precisar!". Embaixo daquilo, um panfleto em laranja 
vivo dos Estdios de Gravao M.A.C. oferecendo comisses por almas de heris. "Estamos sempre a 
procura de de novos talentos!" O endereo estava logo abaixo, com um mapa. 

 

- Vamos - disse a meus amigos. 

 

- Espere s um minuto - queixou-se Grover. - Fomos praticamente esticados at a morte! 

 

- Ento esto preparados para o Mundo Inferior - falei. - Fica apenas uma quadra daqui. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
DEZOITO  Annabeth usa a aula de adestramento. 

 

 

Estvamos nas sombras da Valncia Boulevard, olhando para as letras douradas gravadas no mrmore 
negro: ESTDIOS DE GRAVAO M.A.C. 

 

Embaixo, impresso nas portas de vidro, PROIBIDA A ENTRADA DE ADVOGADOS, VAGABUNDOS E 
VIVENTES. 

 

J era quase meia-noite, mas o saguo estava iluminado e cheio de gente. Atrs do balco da segurana 
estava sentado um guarda de aparncia agressiva, com culos escuros e um fone de ouvidos. 

 

Virei-me para meus amigos. 

 

- Certo. Vocs se lembram do plano. 

 

- O plano - Grover engoliu seco. - Isso. Adoro o plano. 

 

Annabeth disse: 

 

- O que vai acontecer se o plano no funcionar? 

 

- Sem pensamentos negativos. 

 

- Certo - disse ela. - Estamos entrando na Terra dos Mortos e eu no devo ter pensamentos negativos. 

 

Tirei as prolas do bolso, as trs esferas cor de leite que a nereida me dera em Santa Monica. Elas no 
pareciam un recurso para o caso de algo dar errado. 

 

Annabeth ps a mo em meu ombro. 

 

- Desculpe, Percy. Voc tem razo, vamos conseguir. Vai dar tudo certo. 

 

Ela deu uma cutucada em Grover. 

 

- Ah, est certo! - concordou ele. - Chegamos ate aqui. Vamos encontrar o raio-mestre e salvar sua 
me. Sem problemas. 

 

OIhei para os dois e me senti realmente grato. Alguns minutos antes, eu quase os tinha feito ser esticados 
at a morte em camas dgua de luxo, e agora eles tentavam bancar os corajosos por minha causa, 
tentavam fazer com que me sentisse melhor. 

 

 Enfiei as prolas de volta no bolso. 

 

- Vamos chutar alguns traseiros no Mundo Inferior. 

 

Entramos no saguo do M.A.C. 

 

Alto-falantes embutidos tocavam uma msica ambiente suave. O carpete e as paredes eram cinza-
chumbo. Cactos cresciam nos cantos como mos de esqueletos. Os mveis eram de couro preto, e 
todos os assentos estavam ocupados. Havia gente sentada em sofs, gente em p, gente olhando 
pela janela ou aguardando o elevador. Ningum se mexia, nem falava, no faziam nada. Com o canto 
do olho, eu podia v-los muito bem, mas, se me concentrasse em qualquer um em particular, eles 
comeavam a parecer... transparentes. Dava para ver atravs dos seus corpos. 

 

O balco da segurana ficava em cima de um degrau, portanto tnhamos de olhar para o alto para falar 
com o guarda. 

 

#
Ele era alto e elegante, com pele na cor de chocolate e cabelo tingido de loiro, cortado em estilo militar. 
Usava armao de tartaruga e um terno de seda italiano que combinava com o cabelo. Uma rosa negra 
estava presa  lapela, embaixo de um crach de prata. 

 

Lio nome no crach e olhei para ele perplexo. 

 

- Seu nome  Quron? 

 

Ele se inclinou por cima da mesa. No consegui ver nada em seus culos exceto meu prprio reflexo, mas 
seu sorriso era doce e frio, como o de uma jibia exatamente antes de devorar voc. 
- Que rapaz mais engraadinho. - Ele tinha um sotaque estranho... ingls, talvez, mas como se tivesse 
aprendido ingls como segunda lngua. - Diga-me, parceiro, eu pareo um centauro? 
- N-no. 
- Senhor - acrescentou ele suavemente. 
- Senhor - falei. 
Ele segurou o crach e correu o dedo embaixo das letras. 


- Consegue ler isto, parceiro? Aqui diz C-A-R-O-N-T-E. Diga comigo: CA-RON-TE. 

 

- Caronte. 

 

- Fantstico! Agora: senhor Caronte. 

 

- Senhor Caronte - disse eu. 

 

- Muito bem. - Ele se recostou. - Detesto ser confundido com aquele homem-cavalo. E agora, como 
posso ajud-los, pequenos defuntos? 

 

A pergunta dele me acertou o estmago como uma bola de beisebol. Olhei para Annabeth em 
busca de ajuda. 

 

- Queremos ir para o Mundo Inferior - disse ela. 

 

A boca de Caronte repuxou-se. 

 

- Bem, isso  revigorante. 

 

-  mesmo? - perguntou ela. 

 

- Direto e honesto. Sem gritos. Sem "Deve haver algum engano, sr. Caronte". - Ele nos olhou de 
cima a baixo. - Ento, como vocs morreram? 

 

Cutuquei Grover. 

 

- Ah - disse ele. - Ahn... afogados... na banheira. 

 

- Os trs? - perguntou Caronte. 

 

Ns assentimos. 
- Que banheira grande. - Caronte pareceu levemente impressionado. - Suponho que vocs no tm 
moedas para passagem. Com adultos, vocs sabem, eu poderia debitar no carto de crdito, ou 
acrescentar o preo da travessia na sua ltima conta de telefone. Mas com crianas... infelizmente, vocs 
nunca morrem preparadas. Acho que tero de ficar sentados por alguns sculos. 
- Ah, mas ns temos moedas. - Pus trs dracmas de ouro sobre o balco, parte da proviso que eu 

#
encontrara na mesa do escritrio de Crosta. 
- Ora vejam... - Caronte umedeceu os lbios. - Dracmas de verdade. No vejo uma dessas faz... 
Seus dedos pairaram avidamente sobre as moedas. 
Estvamos muito perto. 
Ento Caronte me olhou. O olhar frio atrs dos culos pareceu abrir um buraco em meu peito. 
- Mas voc no conseguiu ler meu nome direito. Voc  dislxico, rapaz? 
- No. Sou um morto. 
Caronte inclinou-se para a frente e deu uma cheirada. 
- Voc no est morto. Eu devia saber.  um filhote de deus. 


- Temos de chegar ao Mundo Inferior - insisti. 


Caronte rosnou no fundo da garganta. 

 

No mesmo instante, todas as pessoas na sala de espera se levantaram e comearam a andar de 
um lado para outro, agitadas, acendendo cigarros, passando as mos pelos cabelos ou olhando 
para os relgios de pulso. 

 

- Vo embora enquanto podem - disse-nos Caronte. - Vou ficar com estas moedas e esquecer que 
os vi. 

 

Ele comeou a esticar a mo para as moedas, mas eu as puxei de volta. 

 

- Sem servio, sem gorjeta. -Tentei parecer mais valente do que me sentia. 

 

Caronte rosnou de novo  um som profundo, de gelar sangue. Os espritos dos mortos comearam 
a bater nas portas do elevador. 

 

-  uma pena - suspirei. -Tnhamos mais para oferecer. 

 

Ergui a sacola inteira com o tesouro de Crosta. Tirei um punhado de dracmas e deixei as moedas 
escorregarem entre os dedos. 

 

O rosnado de Caronte se transformou em algo mais parecido com um ronronar de leo. 

 

- Acha que pode me comprar, filhote de deus? Ahn... curiosidade, quanto voc tem a? 

 

- Muito - falei. - Aposto que Hades no lhe paga o bastante por um trabalho to duro. 

 

- Ah, voc no sabe nem da metade. Iria gostar de ser bab desses espritos o dia inteiro? Sempre 
com "Por favor, no me deixe ficar morto" ou "Por favor, deixe-me atravessar de graa.. No tenho 
um aumento h trs mil anos. Acha que ternos como este custam barato? 

 

- Voc merece coisa melhor - concordei. - Algum reconhecimento. Respeito. Bom salrio. 

 

A cada palavra, eu empilhava outra moeda de ouro no balco. 

 

Caronte baixou os olhos para o palet de seda italiana, como se estivesse se imaginando com algo 
ainda melhor. 

 

- Devo dizer, rapaz, que a gente est comeando a falar a mesma lngua. Um pouco. 

 

#
Empilhei mais algumas moedas. 

 

- Eu poderia mencionar um aumento de salrio quando estiver falando com Hades. 

 

Ele suspirou. 

 

- Bem, o barco j est quase cheio. Poderia muito bem encaixar vocs trs e zarpar. 

 

Ele se ps de p, pegou nosso dinheiro e disse: 

 

- Venham comigo. 

 

Abrimos caminho entre a multido de espritos que aguardavam, os quais comearam a puxar 
nossas roupas como o vento, ds vozes sussurrando coisas que eu no podia distinguir. Caronte 
empurrou-os do caminho, resmungando: 

 

- Parasitas. 

 

Ele nos escoltou at o elevador, que j estava apinhado de algumas dos mortos, todos segurando 
um carto de embarque verde. Caronte agarrou dois espritos que tentavam entrar conosco e os 
empurrou de volta para o saguo. 

 

- Muito bem. Agora, ningum comece a ter idias enquanto eu estiver fora - anunciou ele para a 
sala de espera. - E se algum tirar minha estao de msica de sintonia novamente, farei vocs 
ficarem aqui por outro milnio. Entendido? 

 

Ele fechou as portas. Enfiou um carto-chave em uma fenda no painel do elevador e comeamos a 
descer. 

 

- O que acontece com os espritos que ficam esperando no saguo? - perguntou Annabeth. 

 

- Nada - disse Caronte. 

 

- Por quanto tempo? 

 

- Para sempre, ou at eu me sentir generoso. 

 

- Ah - disse ela. - Isso ... justo. 

 

Caronte ergueu uma sobrancelha. 

 

- Quem disse que a morte era justa, mocinha? Espere at chegar a sua vez. Voc vai morrer em pouco 
tempo, no lugar est indo. 

 

- Vamos sair vivos - falei. 

 

- Ah. 

 

Tive de repente uma sensao de vertigem. No estvamos mais indo para baixo, mas para a frente. O 
ar ficou enevoado. Os espritos  minha volta comearam a mudar de forma. Suas roupas modernas 
tremiam e se transformavam em mantos cinzentos com capuz. O piso do elevador comeou a oscilar. 

 

Pisquei com fora. Quando abri os olhos, o terno creme italiano de Caronte fora substitudo por um longo 
manto negro. Seus culos de tartaruga haviam desaparecido. Onde deviam estar os olhos havia 
rbitas vazias - como os olhos de Ares, s que os de Caronte eram totalmente escuros, repletos de 
noite, trevas e desespero. 

 

Ele me viu olhando e disse: 

 

- O qu? 

#
 

- Nada - consegui dizer. 

 

Achei que ele estivesse sorrindo, mas no era isso. A pele de seu rosto estava ficando transparente, 
deixando que eu visse at o crnio. 

 

O cho continuou oscilando. 

 

Grover disse: 

 

- Acho que estou ficando enjoado. 

 

Quando pisquei de novo, o elevador no era mais um elevador. Estvamos dentro de uma barcaa de 
madeira. Caronte usava uma vara para nos mover ao longo de um rio escuro, cheio de leo, com ossos, 
peixes mortos e outras coisas estranhas girando na superfcie... bonecas de plstico, cravos esmagados, 
diplomas encharcados com bordas douradas. 

 

- O rio Styx - murmurou Annabeth. -  to... 

 

- Poludo - disse Caronte. - H milhares de anos vocs, seres humanos, quando o atravessam, jogam 
tudo nele... esperanas, sonhos, desejos que jamais se tornam realidade. Um modo irresponsvel de 
tratar seu lixo, se querem saber. 

 

A nvoa subia em espirais da gua imunda. Acima de ns, quase perdido nas sombras, havia um teto de 
estalactites. A frente, a costa distante brilhava com uma luz esverdeada, a cor do veneno. 

 

O pnico obstruiu minha garganta. O que eu estava fazendo ali? Aquelas pessoas ao meu redor... 
estavam mortas. 

 

Annabeth agarrou minha mo. Em circunstncias normais, isso teria me embaraado, mas entendi como 
ela se sentia. Queria se assegurar de que mais algum estava vivo naquele barco. 

 

Percebi que eu murmurava uma orao, embora no soubesse bem para quem estava rezando. Ali 
embaixo s um deus importava, e era ele que eu fora confrontar. 

 

A praia do Mundo Inferior surgiu  vista. Rochas escarpadas e areia vulcnica negra se estendiam terra 
adentro por cerca de cem metros at um muro alto de pedra, que se prolongava para os lados at onde a 
vista podia alcanar. De algum lugar por perto nas sombras verdes, veio um som, reverberando nas 
pedras - o uivo de um grande animal. 

 

- O velho Trs-Caras est com fome - disse Caronte. Seu sorriso se tornou esqueltico  luz esverdeada. - 
M sorte para vocs, filhotes de deuses. 

 

O fundo do nosso barco deslizou sobre a areia preta. Os mortos comearam a desembarcar. Uma mulher 
segurando a mo de uma menininha. Um casal de idosos capengando lentamente, de braos. Um menino que 
no era mais velho que eu arrastava os ps em silncio em seu manto cinzento. 

 

Caronte disse: 

 

- Eu lhe desejaria sorte, parceiro, mas isso no existe por aqui. Lembre-se, no deixe de mencionar 
meu aumento de salrio. 

 

Ele contou nossas moedas de ouro em sua bolsa, depois a vara. Gorjeou algo que parecia uma 
cano de Barry Manilow enquanto empurrava a barcaa de volta atravs do rio. 

 

Seguimos os espritos por um caminho j muito percorrido. 

 

***** 

 

#
No sei muito bem o que estava esperando - os Portes do Cu, uma ponte levadia grande e 
escura ou coisa assim. Mas a entrada para o Mundo Inferior parecia uma mistura de segurana de 
aeroporto com a auto-estrada de New Jersey. 

 

Havia trs entradas separadas embaixo de um enorme arco negro que dizia VOC EST ENTRANDO 
EM REBO. Em cada entrada havia um detector de metais com cmeras de segurana instaladas no 
alto. Depois disso, havia cabines de pedgio operadas por ghouls como Caronte. 

 

Os uivos de animal faminto eram agora muito altos, mas eu no conseguia ver de onde vinham. 
O co de trs cabeas, Crbero, que deveria guardar a porta do Hades, no estava em lugar 
nenhum. 

 

Os mortos formaram trs filas, duas identificadas como ATENDENTE DE SERVIO e uma como 
MORTE ESPRESSA. A fila MORTE EXPRESSA estava avanando sem parar. As outras duas se 
arrastavam. 

 

- O que voc imagina? - perguntei a Annabeth. 

 

- A fila rpida deve ir diretamente para os Campos Asfdelos - disse ela. - Sem contestao. Eles 
no querem se arriscar ao julgamento do tribunal, porque pode ir contra eles. 

 

- Existe um tribunal para gente morta? 

 

- Sim. Trs juizes. Eles se revezam na na magistratura. O rei Minos, Thomas Jefferson, 
Shakespeare... pessoas assim. s vezes olham para uma vida e concluem que aquela pessoa precisa 
de uma recompensa especial: os Campos Elsios. s vezes decidem por um castigo. Mas a maioria 
das pessoas, bem, elas apenas viveram. Nada de especial, nem bom nem mau. Ento vo para os 
Campos Asfdelos. 

 

- E fazem o qu? Grover disse: 

 

- Imagine-se em um campo de trigo no Kansas. Para sempre. 

 

- Dureza - disse eu. 

 

- No tanto quanto aquilo - murmurou Grover. - Olhe. 

 

Uma dupla de ghouls de mantos negros havia puxado um esprito para o lado e o estava revistando 
junto  mesa da segurana. O rosto do morto parecia vagamente familiar. 

 

- Ele  o pregador que saiu no noticirio, est lembrado? - perguntou Grover. 

 

- Ah, sim - eu lembrava. Ns o tnhamos visto na tev uma ou duas vezes no dormitrio da Academia 
Yancy. Era um tele-evangelista chato do norte do estado de Nova York que arrecadara milhes de 
dlares para orfanatos e depois foi pego gastando o dinheiro em artigos para a sua manso, como 
assentos de privada foleados a ouro e um campo de mmigolfe. Morrera numa perseguio da polcia 
quando seu "Lamborghini abenoado" despencou de um penhasco. 

 

- O que esto fazendo com ele? - perguntei. 

 

O castigo especial de Hades - adivinhou Grover. - As pessoas realmente ms recebem ateno 
particular dele quando chegam. As Fr... as Benevolentes vo preparar uma tortura para ele. 

 

Pensar nas Frias me fez estremecer. Percebi que naquele MOmento estava no territrio delas. A velha 
sra. DodJds devia estar lambendo os beios de expectativa. 

 

- Mas se ele  um pregador - falei -, e acredita em um inferno diferente... 

 

Grover encolheu os ombros. 

 

#
- Quem disse que ele est vendo este lugar do mesmo modo que ns? Os seres humanos vem o 
que querem ver. Vocs so muito teimosos... ahn, persistentes, nisso. 

 

Chegamos mais perto dos portes. Os uivos ali eram to altos que sacudiam o cho embaixo de 
meus ps, mas ainda assim eu no conseguia perceber de onde vinham. 

 

Ento, cerca de quinze metros  nossa frente, a nvoa verde tremulou. Exatamente no lugar onde o 
caminho se dividia em trs estava um monstro enorme e indistinto. 

 

Eu no o tinha visto antes porque ele era meio transparente, como os mortos. At se mexer, sua 
imagem se fundia com o quer que estivesse atrs dele. Somente os olhos e os dentes pareciam 
slidos. Ele estava me encarando. 

 

Meu queixo caiu. Tudo o que pude pensar em dizer foi: 

 

-  um rottweiler. 

 

Sempre imaginara Crbero como um grande mastim preto. Mas ele era obviamente um rottweiler 
de raa pura, a no ser,  claro, por ter duas vezes o tamanho de um mamute, ser quase invisvel e 
ter trs cabeas. 

 

Os mortos andavam na direo dele - sem nenhum medo. As filas das placas ATENDENTE EM 
SERVIO se separavam, cada uma para um lado do monstro. Os espritos de MORTE EXPRESSA caminhavam 
direto por entre as patas da frente e por baixo da barriga, o que podiam fazer sem sequer se abaixar. 

 

Estou comeando a v-lo melhor - murmurei. - Por que ser? 

 

- Acho... - Annabeth umedeceu os lbios. - Sinto muito, mas acho que  porque estamos mais perto 
de ser pessoas mortas. 

 

A cabea do meio do co se esticou em nossa direo. Ele farejou o ar e rosnou. 

 

- Ele consegue farejar os vivos - falei. 

 

- Mas est tudo bem - disse Grover, trmulo ao meu lado. Porque temos um plano. 

 

- Certo - disse Annabeth. Nunca tinha ouvido a voz dela soar to baixa. - Um plano. 

 

Avanamos na direo do monstro. 

 

A cabea do meio rosnou para ns, depois latiu to alto que minhas pupilas chacoalharam. 

 

- Voc consegue entender? - perguntei a Grover. 

 

- Ah, sim - disse ele. - Eu consigo entender. 

 

- O que ele est dizendo? 

 

- No acredito que os seres humanos possuam um palavro to grande assim. 

 

Peguei um pedao de madeira que tinha na mochila - um p de cama que eu tinha arrancado de um 
modelo em exposio de Crosta, a Safri Deluxe. Segurei-o no alto e tentei canalizar pensamentos 
caninos felizes para o Crbero - comerciais de rao, ces engraadinhos, postes. Tentei sorrir, como 
se no estivesse prestes a morrer. 

 

- Ei, garoto - gritei. - Aposto que eles no brincam muito com voc aqui. 

 

"GRRRRRRRRRAU" 

 

- Bom menino - falei, fraquejando. 

#
 

Acenei o basto. A cabea do meio do co acompanhou o movimento. As outras duas fixaram os olhos 
em mim, ignorando completamente os espritos. Eu tinha toda a ateno de Crbero. No sabia 
muito bem se isso era bom. 

 

- V buscar! - atirei o basto para as sombras, um lanamento perfeito. Ouvi o tbum! no no Styx. 

 

Crbero me olhou, feroz, nada impressionado. Os olhos eram cheios de dio e frios. 

 

Fim do plano. 

 

O monstro agora produzia um novo tipo de rosnado, mais profundo nas suas trs gargantas. 

 

- Ahn - disse Grover. - Percy? 

 

- Sim? 

 

- Apenas achei que voc gostaria de saber. 

 

- Sim? 

 

- Crbero... Ele est dizendo que temos dez segundo rezar para o deus que escolhermos. Depois disso... 
bem... ele est com fome. 

 

- Espere! - disse Annabeth. Ela comeou a revirar sua mochila. 

 

Epa, pensei. 

 

- Cinco segundos - disse Grover. - Corremos agora? 

 

Annabeth surgiu com uma bola de borracha vermelha do tamanho de uma grapefruit. A etiqueta dizia 
PARQUE AQUTICO AQUALNDIA  DENVER, COLORADO. Antes que eu pudesse impedi-a, ergueu a bola e 
marchou na direo de Crbero. 

 

Ela gritou: 

 

- Est vendo a bola? Quer a bola, Crbero? Senta! 

 

Crbero parecia to perplexo quanto ns. 

 

As trs cabeas se inclinaram de lado. Seis narinas se dilataram. 

 

- Senta! - gritou Annabeth outra vez. 

 

Eu tinha certeza de que a qualquer momento ela se transformaria no maior biscoito para cachorro do 
mundo. 

 

Em vez disso, porm, Crbero lambeu seus trs pares de lbios, sacudiu o traseiro e sentou, esmagando 
imediatamente uma dzia de espritos que passavam por baixo dele na fila MORTE EXPRESSA. Os espritos 
produziram um chiado abafado ao se dissipar, como ar escapando de pneus. 

 

- Bom menino! - disse Annabeth. 

 

E atirou a bola para Crbero. 

 

Ela a agarrou com a boca do meio. A bola mal tinha tamanho suficiente para ele morder, e as outras 
cabeas comearam a avanar na do meio, tentando pegar o novo brinquedo. 

 

- Solta! - ordenou Annabeth. 

 

#
As cabeas de Crbero pararam de brigar e olharam para ela, A boIa estava presa entre dois dos seus 
dentes como um pedacinho de chiclete. Ele soltou um lamento alto e assustador, depois largou a bola, 
gosmenta e quase rasgada no meio, aos ps de Annabeth. 

 

- Bom menino. - Annabeth pegou a bola, ignorando a baba de monstro. 

 

Ela se virou para ns. 

 

- Vo, agora. Fila da MORTE EXPRESSA... essa anda mais rpido. 

 

- Mas... - argumentei. 

 

- Agora! - ordenou ela, no mesmo tom que estava usando com o co. 

 

Grover e eu avanamos devagarzinho, cautelosos. 

 

Crbero comeou a rosnar. 

 

- Fica! - ordenou Annabeth ao monstro. - Se quer a bola, fica! 

 

Crbero ganiu, mas ficou onde estava. 

 

- E voc? - perguntei a Annabeth quando passamos por ela. 

 

- Sei o que estou fazendo, Percv - murmurou ela. - Pelo menos, tenho quase certeza... 

 

Grover e eu seguimos por entre as pernas do monstro. 

 

Por favor, Annabeth, eu rezei. No o mande sentar de novo. 

 

Conseguimos passar. Crbero no era menos assustador visto de trs. 

 

- Bom cachorro! - disse Annabeth. 

 

Ela ergueu a bola vermelha esfrangalhada e, provavelmente, chegou  mesma concluso que eu - 
se recompensasse Crebro, no restaria nada para mais um truque. 

 

Assim mesmo, ela jogou a bola. A boca esquerda do monstro a agarrou imediatamente, s para ser 
atacada pela cabea do meio enquanto a cabea da direita gemia em protesto. 

 

Enquanto o monstro estava distrado, Annabeth marchou energicamente por baixo da barriga dele e 
juntou-se a ns perto do detector de metais. 

 

- Como fez aquilo? - perguntei, admirado. 

 

- Aula de adestramento - disse ela sem flego, e fiquei surpreso ao ver que havia lgrimas em seus 
olhos. - Quando eu pequena, na casa do meu pai, ns tnhamos um dobermann... 

 

- No tem importncia - disse Grover puxando minha camisa. - Vamos! 

 

Estvamos a ponto de disparar pela fila de MORTE EXPRESSA quando Crbero gemeu de dar d, 
com todas as trs bocas. Annabeth parou. 

 

Crbero arfava ansioso, a pequenina bola vermelha despedaada em uma lagoa de baba a seus ps. 

 

- Bom menino - disse Annabeth, mas sua voz pareceu melcolica e insegura. 

 

As cabeas do monstro se inclinaram, como se ele estivesse preocupado com ela. 

 

- Logo vou trazer uma bola nova para voc  prometeu Annabeth, insegura. - Voc quer? 

#
 

O monstro choramingou. Eu no precisava falar lngua de cachorro para saber que Crbero ainda 
estava esperando a bola. 

 

- Bom cachorro. Venho logo visitar voc. Eu... eu prometo. Annabeth virou-se para ns. Vamos. 

 

Grover e eu passamos pelo detector de metais, que imediatamente soou e disparou a piscar luzes 
vermelhas. 

 

"Pertences no autorizados! Mgica detectada!" 

 

Crbero comeou a latir. 

 

Ns nos lanamos pelo porto MORTE EXPRESSA, o que disparou ainda mais alarmes, e corremos 
para dentro do Mundo Inferior. 

 

Alguns minutos depois, estvamos nos escondendo, sem flego, no tronco apodrecido de uma 
imensa rvore negra, enquanto os espritos da segurana passavam correndo, berrando pela ajuda 
das Frias. 

 

Grover murmurou: 

 

- Bem, Percy, o que aprendemos hoje? 

 

- Que ces de trs cabeas preferem bolas de borracha a pedaos de pau? 

 

- No - disse Grover. - Aprendemos que seus planos so muito, muito ruins! 

 

Eu no tinha essa certeza. Talvez fosse o caso de eu e Annabeth termos tido a idia certa. Mesmo ali, no 
Mundo Inferior, todo mundo - at mesmo os monstros - precisa de um pouco de ateno de vez em 
quando. 

 

Pensei nisso enquanto espervamos que os ghouls passassem. Fingi que no vi Annabeth enxugar uma 
lgrima ao ouvir o lamento triste de Crbero a distncia, sentindo falta da nova amiga. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
DEZENOVE  De certa forma, descobrimos a verdade. 

 

 

Imagine a maior aglomerao de gente que voc j viu em um show, um campo de futebol lotado com um 
milho de fs. 

 

Agora imagine um campo um milho de vezes maior do que esse, lotado, e imagine que a energia eltrica 
falhou e no h barulho, no h luz, nem aquelas bolas gigantes quicando por cima da multido. Algo de 
trgico aconteceu nos bastidores. Uma massa sussurrante de gente fica simplesmente vagueando nas 
sombras sem direo, esperando um show que nunca vai comear. 

 

Se  capaz de imaginar isso, tem uma boa idia de como so os Campos de Asfdelos. A grama preta 
tinha sido pisoteada por eras de ps mortos. Um vento morno e mido soprava como o hlito de um 
pntano. rvores negras - Grover me disse que eram choupos - cresciam em grupos aqui e ali. 

 

O teto da caverna era to alto acima de ns que poderia passar por uma massa de nuvens de 
tempestade, a no ser pelas estalactites, que brilhavam em um cinza plido e pareciam malvadamente 
pontudas. Tentei no imaginar que poderiam cair sobre ns a qualquer momento, mas havia vrias delas 
salpicadas ao redor, que caram e empalaram a si mesmas na grama preta. Acho que os mortos no 
precisavam se preocupar com pequenos riscos como ser espetados por estalactites do tamanho de 
foguetes. 

 

Annabeth, Grover e eu tentamos nos misturar com a multido permanecendo de olho nos ghouls da 
segurana. No pude deixar de procurar rostos familiares entre os espritos de Asfdelos, mas  
difcil olhar para os mortos. Seus rostos tremulam. Todos parecem ligeiramente zangados ou 
confusos. Eles at nos vem e falam, mas a voz soa como trepidaes, como o chiado de morcegos. 
Depois que eles percebem que voc no consegue entend-los, fecham a cara e se afastam. 

 

Os mortos no so assustadores. So apenas tristes. 

 

Arrastamo-nos, seguindo a fila de recm-chegados que serpenteava desde os portes principais em 
direo a uma grande tenda, negra com uma faixa que dizia: 

 

JULGAMENTOS PARA O ELSIO E PARA A DANAO ETERNA 

 

Bem-vindos, Recm-Falecidos! 

 

Do fundo da tenda saam duas filas muito menores. 

 

 esquerda, espritos flanqueados por espritos maligno de segurana marchavam por um caminho 
pedregoso rumo aos Campos de Punio, que incandesciam e fumegavam a distncia, uma 
vastido desrtica e rachada com rios de lava e campos minados, e quilmetros de arame farpado 
separando as diferentes reas de tortura. Mesmo de longe, pude ver pessoas sendo perseguidas 
por ces infernais, queimadas na fogueira, foradas a correr nuas por plantaes de cactos ou ouvir 
msica de pera. Pude apenas distinguir uma colina minscula com o vulto do tamanho de uma 
formiga de Ssifo lutando para empurrar sua pedra at o topo. E vi tambm torturas piores - coisas 
que nem quero descrever. 

 

A fila que vinha do lado direito do pavilho dos julgamento era muito melhor. Dava num pequeno 
vale cercado de muros - uma comunidade com portes, que parecia ser a nica parte feliz do 
Mundo Inferior. Alm do porto de segurana havia belas casas de todos os perodos da histria, 
vilas romanas, castelos medievais e manses vitorianas. Flores de prata e ouro floresciam nos 
campos. A grama ondulava nas cores do arco-ris. Dava para ouvir os risos e sentir o cheiro de 
churrasco. 

 

Elsio. 

 

No meio daquele vale havia um brilhante lago azul, com trs pequenas ilhas como um hotel de lazer 
nas Bahamas. As Ilhas dos Abenoados, para pessoas que escolheram renascer trs vezes, e trs 

#
vezes conquistaram o Elsio. No mesmo instante eu soube que era para l que queria ir quando 
morresse. 

 

-  isso mesmo - disse Annabeth como se estivesse lendo meus pensamentos. - Este  o lugar para 
os heris. 

 

Mas percebi como havia poucas pessoas no Elsio, como era minsculo em comparao com os 
Campos de Asfdelos ou at os Campos da Punio. Portanto, poucas pessoas se davam bem em 
suas vidas. Era deprimente. 

 

Deixamos o pavilho dos julgamentos e nos aprofundamos mais nos Campos de Asfdelos. Ficou 
mais escuro. As cores se esvaram das nossas roupas. As multides de espritos tagarelas 
comearam a rarear. 

 

Depois de alguns quilmetros de caminhada, passamos a ouvir guinchos familiares a distncia. 
Agigantando-se longe estava um palcio de obsidiana negra, brilhante. Acima dos baluartes 
rodopiavam trs criaturas escuras semelhantes a morcegos: as Frias. Tive a sensao de que nos 
aguardavam. 

 

- Talvez seja tarde demais para voltar atrs - disse Grover com tristeza. 

 

- Vai dar tudo certo. -Tentei parecer confiante. 

 

- Talvez devssemos procurar em alguns dos outros lugares primeiro - sugeriu Grover. - Como o 
EIsio, por exemplo... 

 

- Venha, menino-bode. - Annabeth agarrou-lhe o brao. 

 

Grover ganiu. Seus tnis criaram asas e as pernas saltaram para a frente, puxando-o para longe de 
Annabeth. Ele aterrissou de costas na grama. 

 

- Grover - ralhou Annabeth. - Pare de embromar. 

 

- Mas eu no... 

 

Ele ganiu de novo. Os tnis estavam agora batendo as asas como loucos. Levitaram do cho e 
comearam a arrast-lo para longe de ns. 

 

- Maia! - gritou ele, mas a palavra mgica parecia no fazer mais efeito. - Maia, agora mesmo! Um-
nove-zero! Socorro! 

 

Eu me refiz da perplexidade e tentei agarrar a mo de Grover, mas era tarde demais. Ele estava 
ganhando velocidade, escorregando colina abaixo como um tren. 

 

Corremos atrs dele. 

 

Annabeth gritou: 

 

- Desamarre os tnis! 

 

Foi uma idia esperta, mas acho que isso no  to fcil quando os seus sapatos o esto 
arrastando para a frente a toda velocidade. Grover tentou sentar, mas no conseguiu alcanar os 
cadaros. 

 

Continuamos correndo atrs dele, tentando mant-lo  vista enquanto disparava por entre as 
pernas dos espritos que matraqueavam para ele, aborrecidos. 

 

Eu tinha certeza de que Grover iria passar direro dos portes do palcio de Hades, mas de repente 
os tnis desviaram para a direita e o arrastaram na direo oposta. 

 

#
A ladeira ficou mais ngreme. Grover ganhou velocidade. Annabeth e eu tivemos de correr a toda 
para acompanh-lo. As paredes da caverna se estreitaram dos dois lados, e me dei conta de que 
estvamos entrando em algum tipo de tnel lateral. No havia mais grama preta nem rvores, 
apenas pedras sob os ps, e a luz plida das estalactites acima. 

 

- Grover! - gritei, minha voz reverberando. - Segure em alguma coisa! 

 

- O qu? - gritou ele de volta. 

 

Estava agarrando os pedregulhos, mas no havia nada grande o bastante para reduzir sua 
velocidade. 

 

O tnel ficou mais escuro e frio. Os plos dos meus braos se arrepiaram. O cheiro ali embaixo era 
nauseabundo. Me fez pensar em coisas que nem devia saber  sangue derramado sobre um antigo 
altar de pedra, o hlito ftido de um assassino. 

 

Ento vi o que estava  nossa frente e, de repente, estanquei. 

 

O tnel se alargava para uma enorme caverna escura, e no meio havia um abismo do tamanho de um 
quarteiro da cidade. 

 

Grover estava escorregando direto para a borda. 

 

- Venha, Percy! - gritou Annabeth, puxando-me pelo pulso. 

 

- Mas aquilo... 

 

- Eu sei! - gritou ela. - O lugar que voc descreveu de seu sonho! Mas Grover vai cair se no o 
pegarmos. - Ela estava certa,  claro. O apuro de Grover fez com que me mexesse de novo. 

 

Ele estava gritando, arranhando o cho, mas os tnis alados continuavam a arrast-lo em direo ao 
poo, e no parecia possvel chegar at ele a tempo. 

 

O que o salvou foram seus cascos. 

 

Os tnis voadores sempre ficaram folgados nele, e quando Grover chocou-se com uma grande 
pedra, seu tnis esquerdo saiu voando e disparou para as trevas, abismo abaixo. O tnis direito 
continuou a pux-lo, mas no to depressa. Grover consegui reduzir a velocidade agarrando-se  
grande pedra e usando-a como ncora. 

 

Estava a trs metros da borda do abismo quando ns pegamos e o puxamos de volta ladeira 
acima. O outro tnis alado se desprendeu, circulou em volta de ns furiosamente e chutou 
nossas cabeas em protesto antes de voar para dentro do abismo a fim de juntar-se a seu par. 

 

Todos desabamos exaustos sobre os pedregulhos de obsidiana. Meus membros pareciam feitos 
de chumbo. At minha mochila parecia mais pesada, como se algum a tivesse enchido de 
pedras. 

 

Grover estava muito arranhado. Suas mos sangravam. As pupilas dos olhos se transformaram em 
fendas, no estilo dos bodes como sempre acontecia quando ele estava aterrorizado. 

 

- Eu no sei como... - arquejou ele. - Eu no... 

 

- Espere - falei. - Escute. 

 

Eu tinha ouvido algo. Um sussurro profundo na escurido. 

 

Mais alguns segundos, e Annabeth disse: 

 

- Percy, este lugar... 

#
 

- Psiu. - Fiquei em p. 

 

O som estava ficando mais alto, uma voz murmurante, malvola, vinda de longe, muito longe abaixo 
de ns. Vinda do abismo. Grover sentou-se. 

 

- O... o que  esse rudo? 

 

Agora Annabeth tambm ouvira. Pude ver em seus olhos. 

 

- Trtaro. A entrada para o Trtaro. Destampei Anaklusmos. 

 

A espada de bronze se expandiu, brilhando no escuro, e a voz. maligna pareceu vacilar, s por um 
momento, antes de retomar seu canto. 

 

Eu agora quase conseguia distinguir palavras, palavras muito, muito antigas, ainda mais antigas 
que o grego. Como se... 

 

- Mgica - falei. 

 

- Temos de dar o fora daqui - disse Annabeth. Juntos, arrastamos Grover para cima dos cascos e 
comeamos a voltar pelo tnel. Minhas pernas no se moviam depressa o bastante. Minha mochila 
pesava. A voz ficou mais alta e irada atrs de ns, e desandamos a correr. 

 

Bem na hora. 

 

Uma rajada fria de vento nos aspirou pelas costas, como se o abismo inteiro estivesse inalando. 
Por um momento aterronzante eu perdi o controle, e meus ps comearam a escorregar nos 
pedregulhos. Se estivssemos mais perto da borda, teramos sido sugados para dentro. 

 

Continuamos fazendo fora para a frente e finalmente chegamos ao topo do tnel, onde a caverna 
se abria para os Campos de Asfdelos. O vento parou. Um lamento de indignao ecoou no 
fundo. Alguma coisa no estava feliz por termos escapado. 

 

- O que era aquilo?  ofegou Grover quando desabamos na relativa segurana de um bosque de 
choupos negros, - Um dos bichinhos de estimao de Hades? 

 

Annabeth e eu nos entreolhamos. Eu podia ver que ela acalentava uma ideia, provavelmente a 
mesma que tivera durante a viagem de txi a Los Angeles, mas estava apavorada demais para 
dividi-la comigo. Isso j era o bastante para me aterrorizar. 

 

Pus a tampa na minha espada, pus a caneta de volta no bolso. 

 

- Vamos andando. - Olhei para Grover. - Consegue andar? 

 

Ele engoliu em seco. 

 

- Sim, com certeza. Nunca gostei muito daqueles tnis mesmo. 

 

Ele tentou parecer valente, mas estava tremendo tanto quanto Annabeth e eu. O que quer que 
estivesse naquele abismo, no era bichinho de estimao de ningum. Era indizivelmente velho e 
poderoso. Nem mesmo Equidna me dera aquela sensao. Fiquei quase aliviado de dar as costas 
para aquele tnel e me dirigir para o palcio de Hades. 

 

Quase. 

 

***** 

 

As Frias rodeavam os baluartes, l no alto, nas trevas. As muralhas externas da fortaleza 
brilhavam em negro e os portes de bronze com dois andares de altura estavam escancarados. 

#
 

De perto, vi que as gravaes nos portes eram cenas de morte. Algumas de tempos modernos - 
uma bomba atmica explodindo sobre uma cidade, uma trincheira cheia de soldados usando 
mscaras de gs, uma fila de africanos vtimas da fome aguardando com tigelas vazias -, mas todas 
pareciam ter sido gravadas no bronze havia milhares de anos. Fiquei pensando se estava olhando 
para profecias que se tornaram realidade. 

 

Dentro do ptio havia o jardim mais estranho que j vi. Cogumelos multicoloridos, arbustos 
venenosos e plantas luminosas fantasmagricas cresciam sem a luz do sol. Gemas preciosas 
supriam a falta de flores, pilhas de rubis grandes como meu punho, aglomerados de diamantes 
brutos. Aqui e ali, como convidados de uma festa que foram congelados, havia esttuas de jardim 
da Medusa - crianas, stiros e centauros petrificados - todos sorrindo grotescamente. 

 

No centro do jardim havia um pomar de romzeiras, suas flores alaranjadas brilhando como non no 
escuro. 

 

- O jardim de Persfone - disse Annabeth. - Continue andando. 

 

Entendi por que ela quis seguir andando. O cheiro cido daquelas roms era quase irresistvel. Tive 
um sbito desejo de com-las, mas ento me lembrei da histria de Persfone. Uma mordida de 
um alimento do Mundo Inferior e nunca mais poderamos sair. Puxei Grover para longe, para 
impedi-lo de colher uma delas, grande e suculenta. 

 

Subimos os degraus do palcio, entre colunas negras, passando por um prtico de mrmore negro, 
para dentro da casa de Hades. O vestbulo tinha um piso de bronze polido que parecia ferver  luz 
refletida das tochas. No havia teto, apenas o teto da caverna muito acima. Acho que eles nunca 
precisaram se preocupar com chuva aqui embaixo. 

 

Todas as portas laterais eram guardadas por um esqueleto com trajes militares. Alguns usavam 
armaduras gregas, outros, uniformes ingleses de casacas vermelhas, e havia ainda os que vestiam 
roupas camufladas com bandeiras americanas esfarrapadas nos ombros. Carregavam lanas, 
mosquetes ou fuzis. Nenhum deles nos incomodou, mas suas rbitas ocas nos seguiram enquanto 
andvamos pelo vestbulo em direo ao grande conjunto de portas no extremo oposto. 

 

Dois esqueletos de fuzileiros navais americanos guardavam as portas. Eles sorriram para ns, com 
lanadores de granadas atravessadas no peito. 

 

- Sabem de uma coisa - murmurou Grover -, aposto que Hades no tem problemas para despachar 
vendedores de porta a porta. 

 

Minha mochila agora pesava uma tonelada. Eu no conseguia imaginar por qu. Quis abri-la, verificar se 
por acaso havia colhido alguma bola de boliche perdida, mas aquele no era o momento. 

 

- Bem, gente - disse. - Acho que devemos... bater? 


Um vento quente soprou pelo corredor e as portas se abriram. Os guardas deram um passo para o lado. 

 

- Acho que isso significa entrez-vous - disse Annabeth. 


L dentro a sala era exatamente como em meu sonho, s que dessa vez o trono de Hades estava 
ocupado. 

 

Era o terceiro deus que eu conhecia, mas o primeiro que realmente me impressionava como deus. 

 

Para incio de conversa, ele tinha pelo menos trs metros de altura, e usava mantos de seda preta e uma 
coroa de ouro tranado. Sua pele era branca como a de um albino, o cabelo comprido at os ombros era 
preto-azeviche. No era corpulento como Ares, mas irradiava fora. Reclinava-se em seu trono de ossos 
humanos fundidos parecendo flexvel, elegante e perigoso como uma pantera. 

 

#
No mesmo instante tive a sensao de que ele deveria dar as ordens. Sabia mais do que eu. Devia ser 
meu mestre. Ento disse a mim mesmo para dar o fora. 

 

A aura de Hades estava me afetando, assim como acontecera com a de Ares. O Senhor dos Mortos 
lembrava retratos que eu tinha visto de Adolf Hitler, ou Napoleo, ou dos lderes terroristas que controlam 
os homens-bomba. Hades tinha o mesmo olhar intenso, o mesmo tipo de carisma hipnotizador e maligno. 

 

- Voc  corajoso de vir at aqui, Filho de Poseidon - disse ele com uma voz untuosa. - Depois do que me 
fez, voc  muito valente, sem dvida. Ou talvez seja simplesmente muito tolo. 

 

Um entorpecimento se insinuou nas minhas juntas, tentando-me a deitar e tirar uma pequena soneca aos 
ps de Hades. Queria me enroscar ali e dormir para sempre. 

 

Lutei contra a sensao e dei um passo  frente. Sabia o que tinha de dizer. 

 

- Senhor e tio, trago dois pedidos. 

 

Hades ergueu uma sobrancelha. Quando ele chegou mais para a frente em seu trono, rostos sombrios 
apareceram nas dobras dos seus mantos negros, rostos atormentados, como se o traje fosse feito de 
almas dos Campos da Punio pegas ao tentar escapar, costuradas umas nas outras. Minha poro 
transtorno do dficit de ateno se perguntou se o resto das roupas dele era feito do mesmo modo. Que 
coisas horrveis algum teria de fazer em vida para merecer ser parte da roupa de baixo de Hades? 

 

- S dois pedidos? - disse Hades. - Criana arrogante. Como se voc j no tivesse recebido o bastante. 
Fale, ento. Acho divertido esperar um pouco para fulminar voc. 

 

Engoli em seco. Aquilo estava indo mais ou menos to bem quanto eu temia. 

 

Relanceei para o trono menor, vazio, ao lado do de Hades. Tinha a forma de uma flor negra, decorada em 
ouro. Desejei que a rainha Persfone estivesse ali. Lembrei-me de algo nos mitos sobre como ela podia 
acalmar os humores do marido. Mas era vero.  claro que Persfone estaria acima no mundo de luz com 
me, a deusa da agricultura, Demeter. Suas visitas, e no a inclinao do planeta, criavam as estaes. 

 

Annabeth pigarreou. Seu dedo me cutucou nas costas. 

 

- Senhor Hades - disse eu. - Olhe, senhor, no pode haver uma guerra entre os deuses. Isso seria... 
ruim. 

 

- Realmente ruim - acrescentou Grover, querendo ajudar. 

 

- Devolva o raio-mestre de Zeus para mim - disse eu. Por favor, senhor, deixe-me lev-lo para o Olimpo. 

 

Os olhos de Hades brilharam perigosamente. 

 

- Voc se atreve a continuar com essa farsa, depois de tudo o que fez? 

 

Dei uma olhada para os meus amigos atrs de mim. Pareciam to confusos quanto eu. 

 

- Ahn... tio - falei. - Voc fica dizendo "depois de tudo oque voc fez". O que foi, exatamente, que eu fiz? 

 

A sala do trono tremeu com tanta fora que, provavelmente, o impacto foi sentido l em cima, em Los 
Angeles. Fragmentos de rocha caram do teto da caverna. Portas se abriram violentamente em todas as 
paredes, e guerreiros esquelticos marcharam para dentro, centenas deles, de todas as pocas e naes 
da civilizaio ocidental. Enfileiraram-se nos quatro cantos da sala, bloquendo as sadas. 

 

Hades urrou: 

 

- Voc acha que eu quero a guerra, filhote de deus? 

 

#
Tive vontade de dizer, Bem, esses caras no se parecem muito com ativistas pela paz. Mas achei que 
poderia ser uma resposta perigosa. 

 

- Voc  o Senhor dos Mortos - falei com cautela. - Uma guerra iria expandir seu remo, certo? 

 

- E bem caracterstico dos meus irmos dizerem uma coisa dessas! Acha que preciso de mais sditos? 
No est vendo a grandeza dos Campos de Asfdelos? 

 

- Bem... 

 

- Voc tem idia de quanto meu reino inchou s neste ltimo sculo, quantas subdivises tive de criar? - 
Abri a boca para responder, mas Hades agora estava embalado. 

 

- Mais espritos de segurana - queixou-se. - Problemas de trnsito no pavilho de julgamentos. Horas 
extras em dobro para o pessoal. Eu era um deus rico, Percy Jackson. Controlo todos os metais preciosos 
embaixo da terra. Mas as minhas despesas! 

 

- Caronte quer um aumento de salrio - despejei, acabando de me lembrar do fato. Assim que falei, pensei 
que perdera uma tima chance de ficar calado. 

 

- No me fale de Caronte! - gritou Hades. - Ele est impossvel desde que descobriu os ternos italianos! 
Problemas em toda parte, e eu tenho de lidar com todos eles pessoalmente. O tempo de viagem entre o 
palcio e os portes j  suficiente para me deixar insano! E os mortos continuam chegando. No, filhote 
de deus, eu no preciso de ajuda para arranjar sditos! No pedi essa guerra. 

 

- Mas voc pegou o raio-mestre de Zeus. 

 

- Mentiras! - Mais estrondos. Hades ergueu-se do trono, ficando da altura de uma trave de futebol. - Seu 
pai pode enganar Zeus, menino, mas eu no sou to estpido. Enxergo o plano dele. 

 

- O plano dele? 

 

- Voc foi o ladro no solstcio de inverno - disse ele. - Seu pai pensou em mant-lo como seu pequeno 
segredo. Ele o man dou para a sala do trono no Olimpo. Voc pegou o raio-mestre e meu elmo. Se eu no 
tivesse enviado minha Fria para descobri-lo na Academia Yancy, Poseidon talvez tivesse conseguido 
escon der o plano para desencadear uma guerra. Mas agora voc foi forado a aparecer. Ser exposto 
como o ladro de Poseidon, e eu terei meu elmo de volta! 

 

- Mas... - falou Annabeth. Pude perceber que a cabea dela estava a um milho de quilmetros por hora. - 
Senhor Hades, seu elmo das trevas tambm desapareceu? 

 

-No banque a inocente comigo, menina. Voc e o stiro estiveram ajudando este heri, que veio aqui me 
ameaar sem dvida em nome de Poseidon, a me trazer um ltimato. Poseidon acha que posso ser 
chantageado para apoi-lo? 

 

- No! - falei. - Poseidon no... eu no... 

 

-No falei nada do desaparecimento do elmo - rosnou Hades - porque no tenho iluses de que algum no 
Olimpo me faa justia, que me d alguma ajuda. No posso permitir que vaze a notcia de que minha 
arma mais poderosa est desaparecida. Portanto procurei por voc eu mesmo, e quando ficou claro que 
voc vinha a mim para fazer sua ameaa, no tentei det-lo. 

 

- Voc no tentou nos deter? Mas... 

 

- Devolva meu elmo agora, ou vou interromper a morte - ameaou Hades. - Esta  a minha 
contraproposta. Abrirei a terra e mandarei os mortos se despejarem de volta em seu mundo. 
Transformarei suas terras em um pesadelo. E voc, Percy Jackson... o seu esqueleto liderar o meu 
exrcito para fora do Hades. 

 

Todos os soldados esquelticos deram um passo  frente, com as armas de prontido. 

#
 

A essa altura, eu deveria ter ficado aterrorizado. O estranho foi que eu me senti ofendido. Nada me deixa 
mais zangado do que ser acusado de algo que no fiz. J tivera uma poro de experincias com isso. 

 

- Voc  to mau quanto Zeus - disse eu. - Acha que roubei voc? E por isso que mandou as Frias atrs 
de mim? 

 

-  claro - disse Hades. 

 

- E os outros monstros? 


Hades franziu o lbio. 

 

- No tive nada a ver com eles. Eu no queria uma morte rpida para voc; queria voc diante de mim, 
vivo, para enfrentar todas as torturas dos Campos da Punio. Por que acha que o deixei entrar no meu 
reino to facilmente? 

 

- Facilmente? 

 

- Devolva o que me pertence! 

 

- Mas eu no tenho o seu elmo. Vim buscar o raio-mestre. 

 

- Que voc j possui! - bradou Hades. - Voc veio aqui com ele, pequeno idiota, achando que poderia me 
ameaar! 

 

- No  verdade! 

 

- Ento abra a sua mochila. 

 

Um pensamento horrvel me assaltou. O peso da minha mochila, como uma bola de boliche... No podia 
ser... 

 

Tirei a mochila dos ombros e abri o zper. Dentro havia um cilindro de metal de sessenta centmetros de 
comprimento, com uma ponta de cada lado, zumbindo de energia. 

 

- Percy - disse Annabeth. - Como... 

 

- Eu... eu no sei. No entendo. 

 

- Vocs, heris, so sempre iguais - disse Hades. - Seu orgulho os torna tolos, achando que podem trazer 
uma arma as sim diante de mim. Eu no pedi o raio de Zeus, mas j que ele est aqui, voc o entregar a 
mim. Tenho certeza de que ser um excelente instrumento de barganha. E agora... o meu elmo. Onde 
est? 

 

Eu estava sem fala. No tinha elmo nenhum. No tinha idia de como o raio-mestre fora parar na minha 
mochila. Quis pensar que Hades estava armando algum tipo de truque. Hades era o vilo. Mas de repente 
o mundo virar de lado. Percebi que havia sido usado. Algum fizera Zeus, Poseidon e Hades quererem a 
caveira um do outro. O raio-mestre estava na minha mochila, e eu recebera a mochila de... 

 

- Senhor Hades, espere - disse eu. - Isso tudo  um engano. 

 

- Um engano? - rugiu Hades. 

 

Os esqueletos apontaram as armas. L no alto houve um bater de asas coriceas, e as trs Frias voaram 
para baixo para empoleirar-se nas costas do trono do seu senhor. A que tinha as feies da sra. Dodds 
arreganhou um sorriso vido para mim e estalou o seu chicote. 

 

- No h engano nenhum - disse Hades. - Sei por que voc veio, e sei a razo real por que trouxe o raio. 
Voc veio negociar por ela. 

#
 

Hades soltou uma bola de fogo dourado da palma de sua mo Ela explodiu nos degraus diante de mim, e 
l estava a minha me congelada em uma chuva de ouro, exatamente como no momento em que o 
Minotauro comeou a apert-la at a morte. 

 

No pude falar. Estendi a mo para toc-la, mas a luz era quente como uma fogueira. 

 

- Sim - disse Hades com satisfao. - Eu a tomei. Eu sabia, Percy Jackson, que voc por fim viria 
barganhar comigo. Devolva o meu elmo, e talvez eu a deixe ir. Ela no est morta, voc sabe. Ainda no. 
Mas, se voc me desagradar, isso ir mudar. 

 

Pensei nas prolas no meu bolso. Talvez elas pudessem me safar daquilo. Se ao menos eu conseguisse 
libertar a minha me... 

 

- Ah, as prolas - disse Hades, e meu sangue gelou. - Sim meu irmo e os seus truquezinhos. Apresente-
as, Percy Jackson. 

 

Minha mo se moveu contra a vontade e eu apresentei as prolas. 

 

- Apenas trs - disse Hades. - Que pena. Voc sabe que cada qual protege uma s pessoa. Tente levar a 
sua me, ento filhotinho de deus. E qual dos seus amigos voc deixar para trs para passar a 
eternidade comigo? V em frente. Escolha. Ou me d a mochila e aceite as minhas condies. 

 

Olhei para Annabeth e Grover. Suas expresses eram soturnas. 

 

- Fomos enganados - disse-lhes. - Pegos numa armadilha. 

 

- Sim, mas por qu? - perguntou Annabeth. - E a voz no abismo... 

 

- Ainda no sei - disse eu. - Mas pretendo perguntar. 

 

- Decida, menino! - gritou Hades. 

 

- Percy. - Grover ps a mo no meu ombro. - Voc no pode lhe entregar o raio. 

 

- Eu sei disso. 

 

- Deixe-me aqui - disse ele. - Use a terceira prola par; a sua me. 

 

- No! 

 

- Eu sou um stiro - disse Grover. - Ns no temos almas como os seres humanos. Ele pode me torturar 
at a morte, mas no ficar comigo para sempre. Eu reencarnarei em uma flor, ou alguma outra coisa.  o 
melhor jeito. 

 

- No. - Annabeth sacou a sua faca de bronze. - Vocs dois continuam. Grover, voc tem de proteger 
Percy. Voc tem de conseguir a sua licena de buscador e comear a sua misso por Pan. Tire a me 
dele para fora daqui. Eu lhes darei cobertura. Planejo cair lutando. 

 

- Nem pensar - disse Grover. - Eu vou ficar para trs. 

 

- Pense de novo, menino-bode - disse Annabeth. 

 

- Parem, vocs dois! - Era como se o meu corao estivesse sendo rasgado ao meio. Ambos passaram 
por tanta coisa comigo. Lembrei-me de Grover bombardeando a medusa no jardim de esttuas, e de 
Annabeth nos salvando de Crbero; ns sobrevivemos ao Parque Aqutico de Hefesto, ao Arco de St. 
Louis, ao Cassino Ltus. Passei milhares de quilmetros preocupado porque seria trado por um amigo, 
mas aqueles amigos jamais fariam isso. Eles no fizeram nada a no ser me salvar, vezes e vezes 
seguidas, e agora queriam sacrificar suas vidas pela minha me. 

 

#
- Eu sei o que fazer - disse eu. - Segurem isto. Entreguei uma prola a cada um deles. Annabeth 
disse: 

 

- Mas, Percy... 

 

Virei-me e encarei minha me. Queria desesperadamente me sacrificar e usar a ltima prola para ela, 
mas sabia o que ela iria dizer. Ela jamais permitiria isso. Eu tinha de levar o raio de volta para o Olimpo e 
contar a verdade a Zeus. Tinha de impedir a guerra. Ela jamais me perdoaria se eu a salvasse em vez 
disso. Pensei na profecia feita na Colina Meio-Sangue, que parecia ter sido um milho de anos atrs. No 
fim voc no conseguir salvar aquilo que mais importa. 

 

- Desculpe - disse a ela. - Eu voltarei. Vou encontrar um jeito. 

 

A expresso presunosa na cara de Hades se apagou. Ele disse: 

 

- Filhote de deus...? 

 

- Vou encontrar o seu elmo, tio - disse a ele. - Vou devolv-lo. Lembre-se do aumento de salrio de 
Caronte. 

 

- No me desafie... 

 

- E no faria mal brincar com Crbero de vez em quando. Ele gosta de bolas de borracha vermelhas. 

 

- Percy Jackson, voc no vai... 

 

Eu gritei: 

 

- Agora! 

 

Esmagamos as prolas aos nossos ps. Por um momento apavorante, nada aconteceu. Hades gritou: 

 

- Destruam-nos! 

 

O exrcito de esqueletos avanou, espadas desembainhadas fuzis engatilhados no modo totalmente 
automtico. As Frias mergulharam, os chicotes explodindo em chamas. 

 

Exatamente quando os esqueletos abriram fogo, os fragmentos; de prola aos meus ps explodiram em 
luz verde e uma rajada de ar fresco do mar. Eu fui encapsulado em uma esfera branca leitosa que 
comeava a flutuar para fora do cho. 

 

Annabeth e Grover estavam bem atrs de mim. Lanas e balas centelharam inofensivamente nas bolhas 
de prola enquanto flutuvamos para cima. Hades gritou com tamanha raiva que a fortaleza inteira se 
sacudiu e eu soube que aquela no seria uma noite tranqila em Los Angeles. 

 

- Olhem para cima! - gritou Grover. -Vamos bater! 

 

Sem dvida, estvamos indo direto para as estalactites, as quais imaginei que iriam estourar as nossas 
bolhas e nos espetar. 

 

- Como se controla essas coisas? - gritou Annabeth. 

 

- Acho que no se controla! - gritei de volta. 


Gritamos quando as bolhas colidiram com o teto e... Escurido. 

 

Ser que estvamos mortos? 

 

#
No, eu ainda tinha a sensao de velocidade. Estvamos indo para cima, atravs da rocha slida, to 
facilmente quanto uma bolha de ar na gua. Aquele era o poder das prolas, eu me dei conta - o que 
pertence ao mar sempre retornar ao mar. 

 

Por alguns momentos, no vi nada alm das paredes macias da minha esfera, ento minha prola 
irrompeu no fundo do oceano. As outras duas esferas leitosas, Annabeth e Grover, me acompanharam 
enquanto disparvamos para cima atravs da gua. E... pimba! 

 

Explodimos na superfcie, no meio da baa de Santa Monica, jogando um surfista para fora da sua prancha 
com um indignado "Ei, cara!". 

 

Agarrei Grover e o arrastei at uma bia salva-vidas. Peguei Annabeth e a arrastei tambm. Um tubaro 
curioso dava voltas em torno de ns, um grande tubaro branco com cerca de trs metros e meio de 
comprimento. 

 

Eu disse: 

 

- Cai fora! 

 

O tubaro se virou e fugiu apressado. 

 

O surfista gritou alguma coisa sobre cogumelos estragados e se afastou de ns patinhando o mais rpido 
que podia. 

 

De algum modo, eu sabia que horas eram: incio da manh, 21 de junho, o dia do solstcio de vero. 

 

A distncia, Los Angeles estava em chamas, nuvens de fumaa subindo de bairros por toda a cidade. 
Tinha havido um terremoto sem dvida, e a culpa era de Hades. Provavelmente estava mandando um 
exrcito de mortos atrs de mim naquele instante. 

 

Mas, naquele momento, o Mundo Inferior no era o meu maior problema. 

 

Eu tinha de chegar at a praia. Tinha de levar o raio de Zeus de volta para o Olimpo. Mais que tudo, eu 
precisava ter uma conversa sria com o deus que me enganara. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
VINTE  A luta contra o meu parente imbecil. 

 

 

Um barco da Guarda Costeira nos recolheu, mas eles estavam ocupados demais para ficar conosco por 
muito tempo, ou para querer saber por que trs crianas com roupas casuais foram parar no meio da baa. 
Havia um desastre para cuidar. Seus rdios estavam entupidos de chamados de emergncia. 

 

Eles nos largaram no per Santa Monica com toalhas em volta dos ombros e garrafas d'gua que diziam EU 
SOU UM GUARDA-COSTEIRO MIRIM! e saram s pressas para salvar mais gente. 

 

Nossas roupas estavam encharcadas, inclusive as minhas. Quando o barco da Guarda Costeira apareceu, 
eu implorei baixinho que eles no me tirassem da gua e me achassem perfeitamente seco, o que teria 
feito algumas sobrancelhas se erguerem. Ento desejei ficar encharcado. Sem dvida, minha mgica  
prova d'gua me abandonara. Eu tambm estava descalo, porque entregara meus sapatos a Grover. Era 
melhor a Guarda Costeira se perguntar por que um de ns estava descalo do que se perguntar por que 
um de ns tinha cascos. 

 

Depois de chegar a terra firme, samos cambaleando pela praia vendo a cidade queimar contra um lindo 
pr-do-sol. Era como se tivesse acabado de retornar do mundo dos mortos  o que era verdade. Minha 
mochila estava pesada, com o raio-mestre de Zeus. Meu corao estava ainda mais pesado por ter visto 
minha me. 

 

- Eu no acredito - disse Annabeth. - A gente passou por tudo aquilo e... 

 

- Foi um truque - disse eu. - Uma estratgia digna de Atena. 

 

- Ei - avisou. 

 

- Voc entendeu, no ? 

 

Ela baixou os olhos, a raiva murchou. 

 

- Sim. Entendi. 

 

- Bem, eu no entendi! - reclamou Grover. - Ser que algum poderia... 

 

- Percy... - disse Annabeth. - Eu sinto muito pela sua me. Sinto tanto... 

 

Fiz que no estava ouvindo. Se eu falasse sobre a minha me, ia comear a chorar como uma criancinha. 

 

- A profecia estava certa - disse eu. - "Voc deve ir para o oeste, e enfrentar o deus que se tornou desleal". 
Mas no era Hades. Hades no queria guerra entre os Trs Grandes. Algum outro executou o roubou. 
Algum roubou o raio-mestre de Zeus, e o elmo de Hades, e tramou contra mim porque sou filho de 
Poseidon. Poseidon ser culpado por ambos os lados. Ao pr-do-sol de hoje, haver uma guerra trplice. 
E eu a terei causado. 

 

Grover sacudiu a cabea, desconcertado. 

 

- Mas quem seria to fingido? Quem iria querer uma guerra to ruim? 

 

Parei bruscamente, olhando para a praia. 

 

- Puxa, deixem-me pensar. 

 

Ali estava ele, aguardando por ns, em seu casaco preto de couro, e culos escuros, um basto de 
beisebol de alumnio ao ombro. A motocicleta roncava ao seu lado, o farol deixando a areia vermelha. 

 

- Ei, garoto - disse Ares, parecendo genuinamente contente em me ver. - Voc devia estar morto. 

 

- Voc me enganou - disse eu. - Voc roubou o elmo e o raio-mestre. 

#
 

Ares arreganhou um sorriso. 

 

- Bem, mas eu no os roubei pessoalmente. Deuses tirando smbolos de poder uns dos outros, n-n-n, 
isso  inaceitvel. Mas voc no  o nico heri do mundo que pode dar recados. 

 

- Quem voc usou? Clarisse? Ela estava l no solstcio de inverno. 

 

A idia pareceu diverti-lo. 

 

- No importa. A questo, garoto,  que voc est impedindo o esforo de guerra. Entenda, voc precisa 
morrer no Mundo Inferior. Ento o Velho Alga do Mar vai ficar furioso com Hades por mat-lo. O Hlito de 
Cadver ficar com o raio-mestre de Zeus, e assim Zeus ficar furioso com ele. E Hades ainda est pro-
curando por isto... 

 

Ele tirou do bolso um capuz de esqui - do tipo que os ladres de banco usam - e o colocou no meio do 
guido da sua moto. Imediatamente, o capuz se transformou em um elaborado capacete de guerra em 
bronze. 

 

- O elmo das trevas - arfou Grover. 

 

- Exatamente - disse Ares. - Mas onde  mesmo que eu estava? Ah, sim, Hades ficar furioso com ambos, 
Zeus e Poseidon, porque ele no sabe quem pegou isto. Logo logo teremos uma bela pancadariazinha 
trplice em andamento. 

 

- Mas eles so a sua famlia! - protestou Annabeth. 


Ares encolheu os ombros. 

 

- O melhor tipo de guerra. Sempre a mais sangrenta. Nada como ficar olhando seus parentes lutarem, eu 
sempre digo. 

 

- Voc me deu a mochila em Denver - disse eu. - O raio-mestre estava l o tempo todo. 

 

- Sim e no - disse Ares. - Provavelmente  complicado demais para o seu pequeno crebro mortal 
acompanhar, mas a mochila  a bainha do raio-mestre, apenas um pouco adaptada. O raio est conectado 
a ela, tipo aquela sua espada, garoto. Ela sempre volta para o seu bolso, certo? 

 

No estava bem certo de como Ares sabia disso, mas acho que um deus da guerra precisa tratar de 
conhecer tudo sobre armas. 

 

- De qualquer modo - continuou Ares - eu modifiquei a mgica um pouquinho, para que o raio s 
retornasse  bainha depois de voc chegar ao Mundo Inferior. Chegou perto de Hades... Bingo! Voc 
recebeu um e-mail. Se voc morresse no caminho, no haveria perda. Eu ainda teria a arma. 

 

- Mas por que voc simplesmente no ficou com o raio para voc? - disse eu. - Por que mand-lo para 
Hades? 

 

O queixo de Ares crispou-se. Por um momento, foi quase como se ele estivesse ouvindo uma outra voz, 
bem no fundo da cabea. 

 

- Por que eu no... sim... com esse tipo de poder de fogo... 


Ele manteve o transe por um segundo... dois segundos... 


Troquei olhares nervosos com Annabeth. 

 

A cara de Ares clareou. 

 

- Porque eu no queria ter problemas. Melhor voc ser pego em flagrante, segurando a coisa. 

#
 

- Voc est mentindo - disse eu. - Mandar o raio para o Mundo Inferior no foi idia sua, foi? 

 

-  claro que foi! - Fumaa escapou por baixo dos seus culos escuros, como se eles estivessem a ponto 
de pegar fogo. 

 

- Voc no ordenou o roubo - adivinhei. - Algum mais enviou um heri para roubar os dois itens. Ento, 
quando Zeus mandou voc ca-lo, voc pegou o ladro. Mas voc no o entregou a Zeus. Alguma coisa 
o convenceu a deix-lo ir. Voc guardou os itens at que outro heri pudesse vir e completar a entrega. 
Aquela coisa no abismo est dando ordens a voc. 

 

- Eu sou o deus da guerra! No aceito ordens de ningum! Eu no tenho sonhos! 

 

Eu hesitei. 

 

- Quem foi que disse alguma coisa sobre sonhos? 

 

Ares pareceu agitado, mas tentou encobrir isso com um sorriso forado. 

 

- Vamos voltar ao problema em pauta, garoto. Voc est vivo. Eu no posso deixar que leve aquele raio 
para o Olimpo. Pode ser que consiga convencer aqueles idiotas cabeas-duras a ouvi-lo. Portanto preciso 
mat-lo. No  nada pessoal. 

 

Ele estalou os dedos. A areia explodiu aos seus ps e surgiu um javali feroz investindo, ainda maior e 
mais feio que aquele cuja cabea estava pendurada acima da porta do chal 7 do Acampamento Meio-
Sangue. A besta escarvou a areia, olhando furiosamente para mim com olhos pequenos e brilhantes 
enquanto abaixava os presas afiadas como navalhas e aguardava a ordem para matar. 

 

Eu entrei na arrebentao. 

 

- Enfrente-me voc mesmo, Ares. 

 

Ele riu, mas ouvi um pouco de tenso na sua risada... um certo constrangimento. 

 

- Voc s tem um talento, garoto, que  fugir. Voc fugiu da Quimera. Voc fugiu do Mundo Inferior. No 
tem coragem para me enfrentar. 

 

- Com medo? 

 

- S nos seus sonhos de adolescente. - Mas seus culos escuros estavam comeando a derreter com o 
calor dos olhos. - Nada de envolvimento direto. Sinto muito, garoto. Voc no est no meu nvel. 

 

Annabeth disse: 

 

- Percy, corra! 

 

O javali gigante atacou. 

 

Mas eu j estava cansado de correr de monstros. Ou de Hades, ou de Ares, ou de qualquer um. 

 

Quando o javali investiu contra mim, eu destampei minha caneta e dei um passo para o lado. 
Contracorrente apareceu nas minhas mos. Dei um golpe para cima. A presa direita decepada do javali 
caiu aos meus ps, enquanto o animal desorientado investia contra o mar. 

 

Eu gritei: 

 

- Onda! 

 

Imediatamente uma onda surgiu do nada e engolfou o javali, enrolando-se nele como um cobertor. A besta 
guinchou uma vez, aterrorizada. E ento se foi, engolida pelo mar. 

#
 

Voltei-me novamente para Ares. 

 

- Voc vai lutar comigo agora? - perguntei. - Ou vai se esconder de novo atrs de um porquinho de 
estimao? 

 

A cara de Ares estava roxa de raiva. 

 

- Tome cuidado, garoto. Eu poderia transform-lo em... 

 

- Uma barata - disse eu. - Ou uma lombriga. Sim, eu tenho certeza. Isso o salvaria de ter o seu divino 
couro chicoteado, no  mesmo? 

 

Chamas danaram por cima dos seus culos. 

 

- Ah, voc realmente est pedindo para ser esmagado at virar uma poa de gordura. 

 

- Se eu perder, me transforme no que quiser. Fique com o raio. Se eu vencer, o elmo e o raio so meus, e 
voc tem de ir embora. 

 

Ares me olhou com uma expresso de escrnio. 

 

Ele brandiu o basto de beisebol que trazia ao ombro. 

 

- Como gostaria de ser esmagado: modo clssico ou moderno? 

 

Eu lhe mostrei a minha espada. 

 

- Legal, menino morto - disse ele. - Modo clssico ento. - O basto de beisebol transformou-se em uma 
enorme espada de duas mos. A guarda era uma grande caveira de prata com um rubi na boca. 

 

- Percy - disse Annabeth. - No faa isso. Ele  um deus. 

 

- Ele  um covarde - disse eu para ela. Ela engoliu em seco. 

 

- Use isto pelo menos. Para dar sorte. 

 

Ela tirou o seu colar, com cinco anos de contas do acampamento e o anel do pai dela e colocou em volta 
do meu pescoo. 

 

- Reconciliao - disse ela. - Atena e Poseidon juntos. Meu rosto ficou um pouco quente, mas consegui 
sorrir. 

 

- Obrigado. 

 

- E pegue isto - disse Grover. Ele me entregou uma lata achatada que parecia estar no seu bolso h mil 
quilmetros. - Os stiros lhe do respaldo. 

 

- Grover... eu no sei o que dizer. 

 

Ele me deu uma palmadinha no ombro. Enfiei a lata no meu bolso de trs. 

 

- Vocs j se despediram? - Ares veio em minha direo, o comprido casaco de couro preto se arrastando 
atrs dele, a espada faiscando como fogo ao nascer do sol. - Eu venho lutando h uma eternidade, garoto. 
Minha fora  ilimitada e eu no posso morrer. O que voc tem? 

 

Um ego menor, pensei, mas no disse nada. Mantive os ps na arrebentao, recuando na gua at os 
tornozelos. Pensei no que Annabeth havia dito no restaurante de Denver, tanto tempo atrs: Ares tem 
fora.  tudo o que ele tem. Mesmo a fora s vezes tem de se curvar  sabedoria. 

 

#
Ele desceu a espada, tentando rachar ao meio a minha cabea, mas eu no estava l. 

 

Meu corpo pensava por mim. A gua pareceu me empurrar para o ar e eu me lancei para cima dele, 
golpeando para o lado com a espada ao descer. Mas Ares foi igualmente rpido. Torceu o corpo e o golpe 
que deveria t-lo pego diretamente na espinha foi desviado para fora pela guarda da sua espada. 

 

Ele sorriu. 

 

- Nada mau, nada mau. 

 

Ele atacou de novo e fui forado a pular para a terra seca. Tentei sair de lado, para voltar  gua, mas 
Ares parecia saber o que eu queria. Ele foi mais habilidoso, me pressionando tanto que tive de me 
concentrar totalmente em no ser cortado em pedaos. Continuei recuando para longe da arrebentao. 
No conseguia achar nenhuma abertura para atacar. O alcance da espada- dele era bem maior que o de 
Anaklusmos. 

 

Chegue perto, Luke me dissera uma vez, em nossa aula de esgrima. Quando a sua lmina  a mais curta, 
chegue perto. 

 

Avancei com uma estocada, mas Ares estava esperando por isso. Ele arrancou a espada das minhas 
mos e me chutou no peito. Eu sa voando  cinco, talvez dez metros.Teria quebrado as costas se no 
tivesse desabado sobre a areia fofa de uma duna. 

 

- Percy! - gritou Annabeth. - Polcia! 

 

Estava vendo tudo dobrado. Parecia que o meu peito tinha sido atingido por um arete, mas consegui me 
pr em p. 

 

Eu no podia desviar os olhos de Ares por medo de que ele me cortasse ao meio, mas com o canto do 
olho vi as luzes vermelhas piscando na avenida beira-mar. Portas de carros batiam. 

 

- Ali, guarda! - gritou algum. - Est vendo? 

 

Uma voz brusca de policial: 

 

- Parece aquele garoto da tev... que diabo... 

 

- Aquele cara est armado - disse outro policial. - Pea reforos. 

 

Rolei para o lado e a lmina de Ares cortou a areia. 

 

Corri para a minha espada, peguei-a e desferi um golpe contra o rosto de Ares, apenas para ver a minha 
lmina desviada de novo. 

 

Ares parecia saber exatamente o que eu ia fazer um momento antes. 

 

Recuei para a arrebentao, forando-o a me seguir. 

 

- Admita, garoto - disse Ares. - Voc est perdido. Estou s brincando com voc. 

 

Meus sentidos estavam fazendo hora extra. Agora eu entendia o que Annabeth dissera sobre como o 
transtorno do dficit de ateno pode manter voc vivo na batalha. Eu estava totalmente desperto, 
notando cada pequeno detalhe. 

 

Eu podia ver onde Ares estava se retesando. Podia dizer de que lado ia atacar. Ao mesmo tempo, tinha 
conscincia de Annabeth e Grover, dez metros  minha esquerda. Vi uma segunda viatura parando, a 
sirene uivando. Espectadores, pessoas que perambula viam pelas ruas por causa do terremoto, 
comeavam a se juntar. 

 

#
No meio da multido, pensei ver alguns andando com aquele estranho passo de trote de stiros 
disfarados. Havia tambm vultos rebrilhantes de espritos, como se os mortos tivessem se erguido do 
Hades para assistir  batalha. Ouvi o bater de asas coriceas circulando em algum lugar acima. 

 

Mais sirenes. 

 

Avancei mais para dentro da gua, mas Ares foi rpido. A ponta da sua espada rasgou a manga da minha 
roupa e roou o meu antebrao. 

 

A voz de um policial no megafone disse: 

 

- Larguem as espingardas! Coloquem na areia. Agora! 


Espingardas? 

 

Olhei para a arma de Ares, e ela parecia estar tremeluzindo; s vezes parecia uma espingarda, s vezes 
uma espada de duas mos. Eu no sabia o que os seres humanos estavam vendo nas minhas mos, mas 
tinha certeza de que no os faria gostar de mim. 

 

Ares virou-se para olhar ferozmente para os nossos espectadores, o que me deu um momento para 
respirar. Havia cinco viaturas de polcia agora, e uma fileira de policiais abaixados atrs delas, com 
pistolas apontadas para ns. 

 

- Este  um assunto particular! - berrou Ares. - Vo embora! 

 

Ele fez um movimento circular com a mo, e uma parede de chamas vermelhas passou atravs das 
viaturas. Os policiais mal tiveram tempo de mergulhar para se proteger antes de os carros explodirem. A 
multido se dispersou aos gritos. 

 

Ares soltou uma gargalhada retumbante. 

 

- Agora, heroizinho. Vamos acrescentar voc ao churrasco. 


Ele golpeou. Eu desviei da lmina. Cheguei perto o bastante para atacar, tentei engan-lo com uma ginga, 
mas o meu golpe foi rechaado. As ondas agora estavam me atingindo nas costas. Ares estava 
mergulhado at as coxas, avanando atrs de mim. 

 

Senti o ritmo do mar, as ondas ficando maiores enquanto a mar avanava, e de repente tive uma idia. 
Ondas pequenas, pensei. E a gua atrs de mim pareceu recuar. Eu estava segurando a mar com a fora 
da minha vontade, mas a tenso se acumulava, como gs carbnico atrs de uma rolha. 

 

Ares avanou, sorrindo confiante. Eu abaixei a minha lmina, como se estivesse exausto demais para 
prosseguir. Aguarde, eu disse para o mar. A presso agora estava quase me levantando acima dos ps. 
Ares ergueu a espada. Eu liberei a mar e pulei, subindo como um rojo em uma onda, passando 
diretamente por cima de Ares. Uma parede de dois metros de gua o atingiu em cheio no rosto, e ele ficou 
praguejando e cuspindo com a boca cheia de algas. Ca em p atrs dele, espirrando gua, e simulei um 
ataque em direo  cabea dele, como j havia feito. Ele se virou a tempo de erguer a espada, mas 
dessa vez estava desorientado e no previu o truque. Mudei de direo, investi para o lado e mandei 
Contracorrente diretamente para baixo na gua, enfiando a ponta no calcanhar do deus. 

 

O rugido que se seguiu fez o terremoto do Hades parecer um evento menor. O prprio mar explodiu para 
longe de Ares, deixaindo um crculo de areia molhada com quinze metros de dimetro. 

 

Icor, o sangue dourado dos deuses, jorrou de um talho profundo na bota do deus. A expresso no seu 
rosto ia alm do dio. Era dor, choque, incredulidade total por ter sido ferido. 

 

Ele veio mancando na minha direo, resmungando antigas pragas gregas. 

 

Alguma coisa o deteve. 

 

#
Era como se uma nuvem tivesse encoberto o sol, mas pior. A luz foi sumindo. Sons e cores se 
extinguiram. Uma presena fria e pesada passou sobre a praia, retardando o tempo, diminuindo a 
temperatura at o congelamento, e fazendo-me sentir que a vida no valia a pena, que lutar era intil. 

 

As trevas se dissiparam. 

 

Ares parecia aturdido. 

 

As viaturas da polcia ardiam atrs de ns. A multido de espectadores fugira. Annabeth e Grover estavam 
plantados na praia, em choque, observando a gua se derramar de volta em torno dos ps de Ares, e o 
seu luminescente icor dourado se diluindo na mar. 

 

Ares abaixou a espada. 

 

- Voc fez um inimigo, filhote de deus - disse-me ele. - Voc selou o seu destino. A cada vez que erguer a 
sua lmina em batalha, a cada vez que voc esperar sucesso, sentir a minha maldio. Cuidado, Perseu 
Jackson. Cuidado. 

 

Seu corpo comeou a brilhar. 

 

- Percy! - gritou Annabeth. - No olhe! 

 

Virei-me enquanto o deus Ares revelava sua verdadeira forma imortal. De algum modo eu sabia que, se 
olhasse, iria me desintegrar em cinzas. 

 

A luz se extinguiu. 

 

Olhei para trs. Ares se fora. A mar recuou para revelar o elmo de bronze das trevas de Hades. Eu o 
recolhi e fui andando na direo dos meus amigos. 

 

Mas, antes de chegar l, ouvi o bater de asas de couro. Trs vovs de aparncia maligna com chapus de 
renda e chicotes flamejantes desceram do cu e pousaram diante de mim. 

 

A Fria do meio, a que tinha sido a sra. Dodds, deu um passo  frente. Seus caninos estavam expostos, 
mas pela primeira vez no tinha um aspecto ameaador. Parecia mais desapontada, como se tivesse 
planejado me comer na ceia, mas percebera que eu podia lhe dar indigesto. 

 

- Ns vimos tudo - sibilou ela. - Ento... realmente no foi voc? 

 

Joguei o capacete para ela, e ela o agarrou, surpresa. 

 

- Devolva isto ao Senhor Hades - disse eu. - Conte-lhe a verdade. Diga-lhe para cancelar a guerra. 

 

Ela hesitou, depois passou uma lngua bifurcada pelos lbios coriceos verdes. 

 

- Viva bem, Percy Jackson. Torne-se um verdadeiro heri. Porque, se voc no o fizer, se algum dia cair 
nas minhas garras de novo... 

 

Ela cacarejou, saboreando a idia. Ento ela e as irms levantaram vo em suas asas de morcego, 
pairaram no cu cheio de fumaa e desapareceram. 

 

Juntei-me a Grover e Annabeth, que olhavam para mim assombrados. 

 

- Percy... - disse Grover. - Aquilo foi to incrivelmente... 

 

- Aterrorizante - disse Annabeth. 

 

- Legal! - corrigiu Grover. 

 

#
Eu no me sentia aterrorizado. Certamente no me sentia legal. Estava cansado, dodo e sem nenhuma 
energia. 

 

- Vocs sentiram aquele... o que era aquilo? - perguntei. 

 

Os dois assentiram, constrangidos. 

 

- Devem ser as Frias l no alto - disse Grover. 

 

Mas eu no tinha tanta certeza. Alguma coisa impedira Ares de me matar, e o que quer que pudesse 
fazer isso era muito mais forte do que as Frias. 

 

Olhei para Annabeth, e tivemos a mesma sacao. Agora eu sabia o que estava naquele abismo, o que 
havia falado da entrada do Trtaro. 

 

Resgatei a minha mochila com Grover e olhei dentro. O raio-mestre ainda estava l. Uma coisa to 
pequena quase causara a Terceira Guerra Mundial. 

 

- Temos de voltar a Nova York - disse eu. - Esta noite. 

 

-  impossvel - disse Annabeth -, a no ser que ns... 

 

- Fssemos voando  completei. Ela arregalou os olhos para mim. 

 

- Voando, tipo num avio, coisa que avisaram voc para nunca fazer, para que Zeus no o fulmine para 
fora do cu, e ainda for cima carregando uma arma que tem mais poder destrutivo do que uma bomba 
nuclear? 

 

-  - disse eu. - Mais ou menos isso. Vamos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
VINTE E UM  Meu acerto de contas. 

 

 gozado como os seres humanos so capazes de enrolar a sua mente em volta das coisas e encaix-las 
na sua verso de realidade. Quron me contara isso muito tempo atrs. Como de costume, eu s dei bola 
para sua sabedoria muito tempo depois. 

 

De acordo com as notcias de Los Angeles, a exploso na praia de Santa Monica tinha sido causada 
quando um seqestrador enlouquecido disparou uma espingarda contra uma viatura da polcia. Ele 
acidentalmente atingiu um tubo principal de gs que se rompera durante o terremoto. 

 

Esse seqestrador enlouquecido (tambm conhecido como Ares) era o mesmo homem que me abduzira 
com dois outros adolescentes em New York e nos trouxera at o outro lado do pas em uma odissia de 
terror que durara dez dias. 

 

O pobrezinho do Percy Jackson, afinal, no era um criminoso internacional. Ele causara uma comoo 
naquele nibus da Greyhound em New Jersey tentando escapar do seu seqestrador (e depois, 
testemunhas chegaram a jurar que tinham visto o homem de roupa de couro no nibus - "Por que no me 
lembrei dele antes?"). O homem enlouquecido causara a exploso no Arco de St. Louis. Afinal, nenhum 
garotinho poderia ter feito aquilo. Uma garonete preocupada de Denver vira o homem ameaar seus 
seqestrados do lado de fora do seu restaurante, chamara um amigo para tirar uma foto, e notificara a 
polcia. Finalmente, o bravo Percy Jackson (eu estava comeando a gostar desse menino) subtrara uma 
espingarda do seu seqestrador em Los Angeles e lutara contra ele, espingarda contra rifle, na praia. A 
polcia chegara bem a tempo. Mas, na espetacular exploso, cinco viaturas da polcia foram destrudas e o 
seqestrador fugira. No houve mortes. Percy Jackson e seus dois amigos estavam em segurana, sob 
custdia da polcia. 

 

Os reprteres nos forneceram essa histria inteira. Ns apenas assentimos e nos fizemos de chorosos e 
exaustos (o que no foi difcil), e representamos o papel de crianas vitimizadas para as cmeras. 

 

- Tudo o que eu quero - disse eu, contendo as lgrimas -,  ver o meu adorado padrasto de novo. Toda 
vez que o via na tev me chamando de punk delinqente, eu sabia... de algum modo... que tudo ia dar 
certo. E eu sei que ele vai querer recompensar uma por uma todas as pessoas desta linda cidade de Los 
Angeles com um eletrodomstico grtis, dos grandes, da sua loja. Aqui est o nmero do telefone. - A 
polcia e os reprteres ficaram to comovidos que passaram o chapu e levantaram dinheiro para trs 
passagens no prximo avio para Nova York. 

 

Eu sabia que no havia escolha seno voar. Esperava que Zeus me desse algum tempo de lambuja, 
consideradas as circunstncias. Mas ainda assim foi difcil me forar a embarcar no vo. 

 

A decolagem foi um pesadelo. Cada momento de turbulncia era mais assustador que um monstro grego. 
Eu no larguei dos braos da poltrona at pousarmos em segurana no aeroporto de La Guardia. A 
imprensa local aguardava por ns do lado de fora da segurana, mas conseguimos escapar graas a 
Annabeth, que atraiu para longe com o seu bon dos Yankees invisvel, gritando: 

 

- Eles esto l, perto da sorveteria! Venham!  e depois juntou a ns na rea de retirada de bagagem. 

 

Separamo-nos no ponto de txi. Eu disse a Annabeth e Grover para voltar  Colina Meio-Sangue e contar 
a Quron o que acontecera. Eles protestaram, e era difcil deix-los partir depois de tudo que passamos 
juntos, mas eu sabia que tinha de cumprir essa ltima parte da minha misso sozinho. Se as coisas 
dessem errado, se os deuses no acreditassem em mim... eu queria que Annabeth e Grover 
sobrevivessem para contar a verdade a Quron. 

 

Embarquei em um txi e segui para Manhattan. 

 

***** 

 

Trinta minutos depois, entrei no saguo do Edifcio Empire State. Devo ter parecido uma criana 
abandonada, com minhas roupas esfarrapadas e minha cara toda arranhada. Eu no dormia havia pelo 
menos vinte e quatro horas. 

 

#
Fui at o guarda na mesa da recepo e disse: 

 

- Seiscentsimo andar. 

 

Ele estava lendo um livro enorme com a figura de um feiticeiro na capa. Eu no curto muito fantasia, mas 
acho que o livro era bom, porque o guarda levou algum tempo para erguer os olhos. 

 

- Esse andar no existe, garoto. 

 

- Eu preciso de uma audincia com Zeus. Ele me deu um sorriso vago. 

 

- O qu? 

 

- Voc me ouviu. 

 

Eu j estava quase concluindo que aquele cara era apenas um mortal comum, e era melhor eu correr 
antes que ele chamasse a patrulha da camisa-de-fora, quando ele disse: 

 

- Sem hora marcada, nada de audincia, garoto. O Senhor Zeus no atende ningum sem aviso prvio. 

 

- Ah, eu acho que ele vai abrir uma exceo. - Tirei a mochila das costas e abri o zper. 

 

O guarda olhou para o cilindro metlico l dentro sem entender o que era por alguns segundos. Ento seu 
rosto empalideceu. 

 

- Isto no ... 

 

- Sim,  - garanti. - Voc quer que eu o tire e... 

 

- No! No! - Ele se ergueu atabalhoadamente da sua cadeira, tateou em volta da mesa procurando um 
carto-chave, e o entregou para mim. - Insira na fenda de segurana. Certifique-se de que ningum mais 
esteja no elevador com voc. 

 

Fiz o que ele me disse. Assim que as portas do elevador se fecharam, enfiei o carto na fenda. O carto 
desapareceu e um novo boto apareceu no quadro, um boto vermelho que dizia 600. 

 

Apertei e esperei, e esperei. 

 

Havia msica tocando. "Raindrops keepfalling on my head..." 

 

Finalmente, plim. As portas se abriram. Sa e quase tive um ataque do corao. 

 

Eu estava em um estreito caminho de pedra no meio do ar. Abaixo de mim se encontrava Manhattan, da 
altura de um avio. Diante de mim, degraus de mrmore branco subiam em espiral pelo meio de uma 
nuvem at o cu. Meus olhos seguiram a escada at o fim, onde meu crebro simplesmente no pde 
aceitar o que vi. 

 

Olhem outra vez, disse meu crebro. 

 

Estamos olhando, meus olhos insistiram. Est realmente l. 

 

Do topo das nuvens se erguia o pico decapitado de uma montanha, o cume coberto de neve. Na encosta 
da montanha havia dzias de palcios com vrios nveis - uma cidade de manses -, todos com prticos 
de colunas brancas, terraos dourados e braseiros de bronze brilhando com mil fogos. Estradas se 
enroscavam de um jeito maluco at o pico, onde o maior dos palcios resplandecia contra a neve. Jardins 
precariamente encarapitados floresciam com oliveiras e roseiras. Pude distinguir um mercado a cu aberto 
cheio de tendas coloridas, um anfiteatro de pedra construdo em um lado da montanha, um hipdromo e 
um coliseu do outro. Era uma cidade grega antiga, s que no estava em runas. Era nova, limpa e 
colorida, como Atenas deve ter sido h dois mil e quinhentos anos. 

 

#
Este palcio no pode estar aqui, disse para mim mesmo. A ponta de uma montanha pendurada em cima 
da cidade de Nova York como um asteride de um bilho de toneladas? Como podia uma coisa assim 
estar ancorada acima do Edifcio Empire Statem a plena vista de milhes de pessoas, e no ser notada? 

 

Mas aqui estava. E aqui estava eu. 

 

Minha viagem pelo Olimpo foi deslumbrante. Passei por algumas ninfas das florestas que deram 
risadinhas e me atiraram azeitonas do seu pomar. No mercado, mascates se ofereceram para vender 
ambrosia-no-palito, um escudo novo e uma rplica genuna do Velocino de Ouro em tecido cintilante, 
conforme anunciado na tev Hefesto. As nove musas afinavam seus instrumentos para um concerto no 
parque enquanto uma pequena multido se reunia - stiros, niades e um bando de adolescentes de boa 
aparncia que talvez fossem deuses e deusas menores. Ningum parecia preocupado com uma guerra 
civil iminente. De fato, todo mundo parecia estar num estado de nimo festivo. Vrios se voltaram para me 
ver passar e cochicharam entre si. 

 

Subi pela estrada principal rumo ao grande palcio no pico. Era uma cpia invertida do palcio no Mundo 
Inferior. L, tudo era preto e bronze. Aqui, tudo rebrilhava em branco e prata. 

 

Dei-me conta de que Hades deve ter construdo o seu palcio para se parecer com este. Ele no era bem-
vindo no Olimpo, exceto no solstcio de inverno, ento construiu seu prprio Olimpo embaixo da terra. A 
despeito da minha m experincia com ele, senti pena do cara. Ser banido deste palcio parecia 
realmente injusto. Era de deixar qualquer um amargo. 

 

Degraus levavam a um ptio central. Alm dele, a sala do trono. 

 

Sala no  exatamente a palavra certa. O lugar fazia a Grande Estao Central parecer um armrio de 
vassouras. Colunas macias se erguiam at um teto abobadado, que era decorado com constelaes que 
se moviam. 

 

Doze tronos, construdos para seres do tamanho de Hades, estavam arrumados em um U invertido, 
exatamente como os chals do Acampamento Meio-Sangue. Uma enorme fogueira crepitava no braseiro 
central. Os tronos estavam vazios com exceo de dois no fim: o trono principal  direita e um 
imediatamente  sua esquerda. Ningum precisou me dizer quem eram os dois deuses que estavam 
sentados l, esperando que eu me aproximasse. Cheguei  frente deles com as pernas tremendo. 

 

Os deuses estavam em forma humana gigante, como Hades estivera, mas eu mal podia olhar para eles 
sem sentir um formigamento, como se o meu corpo estivesse comeando a queimar. Zeus, o Senhor dos 
Deuses, usava um terno risca-de-giz azul-escuro. Estava sentado em um trono simples de platina macia. 
Tinha uma barba bem aparada, cinza-mrmore e preta, como uma nuvem de tempestade. Seu rosto era 
orgulhoso belo e severo, os olhos tinham o tom cinzento da chuva. 

 

Quando me aproximei dele, o ar estralejou e senti cheiro de oznio. 

 

O deus sentado ao lado dele era seu irmo, sem dvida, mas estava vestido de modo muito diferente. 
Lembrou-me um catador de praia de Key West. Usava sandlias de couro, bermudas caqui e uma camisa 
marca Tommy Bahama toda estampada de coqueiros e papagaios. Sua pele tinha um bronzeado escuro e 
as mos eram marcadas de cicatrizes como as de um velho pescador. O cabelo era preto, como o meu. 
Seu rosto tinha o mesmo ar taciturno que sempre me fez ser rotulado de rebelde. Mas os olhos, verde-mar 
como os meus, eram rodeados de rugas que me diziam que ele tambm sorria muito. 

 

Os deuses no estavam se movendo nem falando, mas havia tenso no ar, como se tivessem acabado de 
discutir. 

 

Aproximei-me do trono do pescador e me ajoelhei aos seus ps. 

 

- Pai. - No ousei olhar para cima. Meu corao estava disparado, eu podia sentir a energia que emanava 
dos dois deuses. Se eu dissesse a coisa errada, no havia dvida de que eles poderiam me reduzir a p. 

 

A minha esquerda, Zeus falou: 

 

#
- Voc no deveria se dirigir primeiro ao senhor desta casa, menino? 

 

Mantive a cabea baixa e esperei. 

 

- Paz, irmo - disse por fim Poseidon. Sua voz mexeu com as minhas lembranas mais antigas: aquela 
sensao morna de que me lembrava, de quando eu era beb, a sensao da sua mo de deus sobre a 
minha testa. - O menino submete-se ao seu pai. Est certo. 

 

- Ento voc ainda o reclama como seu? - perguntou Zeus, ameaadoramente. - Voc reclama esta 
criana que procriou contrariando o nosso sagrado juramento? 

 

- Eu admiti a minha transgresso - disse Poseidon. - E agora vou ouvi-lo falar. 

 

Transgresso. 

 

Senti um n na garganta. Era isso tudo o que eu era? Uma transgresso? O resultado do erro de um 
deus? 

 

- Eu j o poupei uma vez - resmungou Zeus. - Ousando voar atravs dos meus domnios... bah! Eu devia 
t-lo mandado pelos ares, para fora do cu pelo seu atrevimento. 

 

- E correr o risco de destruir seu prprio raio-mestre? - perguntou Poseidon calmamente. - Vamos ouvi-lo, 
irmo. 

 

Zeus resmungou mais um pouco. 

 

- Ouvirei - resolveu. - E ento decidirei se atirarei ou no este menino para fora do Olimpo. 

 

- Perseu - disse Poseidon. - Olhe para mim. 

 

Fiz isso, e no sei ao certo o que vi no seu rosto. No havia sinal claro de amor ou aprovao. Nada para 
me encorajar. Era como olhar para o oceano: em alguns dias, era possvel dizer como estava o seu 
humor. Na maioria dos dias, no entanto, era impossvel de ler, misterioso. 

 

Tive a sensao de que Poseidon na verdade no sabia o que pensar de mim. No sabia se estava feliz 
por ter-me como filho ou no. De um modo estranho, eu estava contente por Poseidon estar to distante. 
Se ele tivesse tentado se desculpar, ou dito que me amava, ou mesmo sorrido, teria parecido falso. Como 
um pai humano, dando alguma desculpa pouco convincente por no estar presente. Eu poderia viver com 
isso. Afinal, eu mesmo tambm no estava muito seguro a respeito dele. 

 

- Dirija-se ao Senhor Zeus, menino - disse-me Poseidon. 


- Conte a ele a sua histria. 

 

Ento contei tudo a Zeus, exatamente como havia acontecido. Tirei da mochila o cilindro de metal, que 
comeou a fagulhar na presena do Deus do Cu, e o pus aos seus ps. 

 

Houve um longo silncio, quebrado apenas pelo crepitar do fogo no braseiro. 

 

Zeus abriu a palma da sua mo. O raio voou para dentro dela. Quando ele fechou o punho, os pontos 
metlicos fulguraram com eletricidade, at ele ficar segurando o que parecia mais um relmpago clssico, 
um dardo de seis metros feito de energia com centelhas chiantes que fez os meus cabelos se eriarem. 

 

- Sinto que o menino diz a verdade - murmurou Zeus. 

 

- Mas no  nada tpico de Ares fazer uma coisa assim. 

 

- Ele  orgulhoso e impulsivo - disse Poseidon. - E coisa de famlia. 

 

- Senhor? - chamei. Ambos disseram: 

#
 

- Sim? 

 

- Ares no agiu sozinho. Outra pessoa - ou outra coisa teve a idia. 

 

Descrevi os meus sonhos e a sensao que tive na praia, o momentneo hlito do mal que parecera 
parar o mundo e fizera Ares desistir de me matar. 

 

- Nos meus sonhos - disse eu -, a voz me disse para levar o raio ao Mundo Inferior. Ares insinuou que 
tambm estava tendo sonhos. Acho que ele estava sendo usado, assim como eu, par comear uma 
guerra. 

 

- Voc est acusando Hades, afinal? - perguntou Zeus. 

 

- No - disse eu. - Quer dizer, Senhor Zeus, eu estive na presena de Hades. A sensao na praia foi 
diferente. Era a mesma coisa que senti quando cheguei perto daquele abismo. Aquela era entrada para o 
Trtaro, no era? Alguma coisa poderosa e maligna est se agitando l embaixo... alguma coisa ainda 
mais antiga que os deuses. 

 

Poseidon e Zeus se entreolharam. Eles tiveram uma rpida e intensa discusso em grego antigo. S 
peguei uma palavra. Pai. 

 

Poseidon fez algum tipo de sugesto, mas Zeus o cortou. Poseidon tentou discutir. Zeus ergueu a mo, 
zangado. 

 

- No vamos mais falar disso - disse Zeus. - Preciso ir pessoalmente purificar este raio nas guas de 
Lemnos, para remover a mcula humana do seu metal. - Ele se levantou e olhou para mim. Sua expresso 
se suavizou uma frao de um grau. 

 

- Voc me prestou um servio, menino. Poucos heris poderiam ter conseguido tanto. 

 

- Eu tive ajuda, senhor - disse eu. - Grover Underwood e Annabeth Chase... 

 

- Para demonstrar minha gratido, pouparei sua vida. No confio em voc, Perseu Jackson. No gosto do 
que a sua chegada significa para o futuro do Olimpo. Mas, em nome da paz na famlia, eu o deixarei viver. 

 

- Ahn... obrigado, senhor. 

 

- No ouse voar de novo. No me deixe encontr-lo aqui quando eu voltar. Ou ir provar este raio. E ser 
a sua ltima sensao. 

 

Um trovo sacudiu o palcio. Com um claro ofuscante, Zeus se foi. 

 

Eu estava sozinho na sala do trono com meu pai. 

 

- O seu tio - suspirou Poseidon -, sempre teve um talento especial para sadas teatrais. Acho que ele teria 
se sado bem como o deus do teatro. 

 

Um silncio constrangedor. 

 

- Senhor - disse eu -, o que havia naquele abismo? Poseidon olhou atentamente para mim. 

 

- Voc no adivinhou? 

 

- Cronos - disse eu. - O rei dos Tits. 

 

Mesmo na sala do trono do Olimpo, longe doTrtaro, o nome Cronos escureceu o ambiente, e fez o fogo 
no braseiro no parecer mais to quente nas minhas costas. 

 

Poseidon segurou o seu tridente. 

#
 

- Na Primeira Guerra Mundial, Percy, Zeus cortou o nosso pai Cronos em mil pedaos, exatamente como 
Cronos fizera com seu prprio pai, Uranos. Zeus lanou os restos de Cronos no mais escuro abismo do 
Trtaro. O exrcito dos Tits foi dispersado, sua fortaleza na montanha sobre o Etna, destruda, seus 
monstruosos aliados foram expulsos para os cantos mais distantes da Terra. E, contudo, Tits no podem 
morrer, no mais que ns, deuses. O que resta de Cronos ainda vive de algum modo hediondo, ainda 
consciente em seu sofrimento eterno, ainda com fome de poder. 

 

- Ele est se curando - disse eu. - Ele vai voltar. 


Poseidon sacudiu a cabea. 

 

- De tempos em tempos, no decorrer das eras, Cronos se agita. Ele entra nos pesadelos dos homens e 
exala pensamentos malignos. Desperta monstros inquietos das profundezas. Mas sugerir que ele pode 
erguer-se do abismo  outra coisa. 

 

 o que ele pretende, pai.  o que ele disse. 


Poseidon ficou em silncio por um bom tempo. 

 

- O Senhor Zeus encerrou a discusso sobre o assunto. Ele no permitir que se fale de Cronos. Voc 
completou a sua misso, criana.  tudo o que precisa fazer. 

 

- Mas... - eu me interrompi. Discutir no iria adiantar nada. Muito possivelmente, irritaria o nico deus que 
eu tinha do meu lado. - Como... como queira, pai. 

 

Um leve sorriso brincou nos lbios dele. 

 

- A obedincia no lhe vem naturalmente, no ? 

 

- No... senhor. 

 

- Devo ter alguma culpa por isso, imagino. O mar no gosta de ser contido. - Ele se ergueu em toda a sua 
altura e pegou seu tridente. Ento tremeluziu e ficou do tamanho de um homem normal, em p diante de 
mim. - Voc precisa ir, criana. Mas primeiro saiba que sua me retornou. 

 

Olhei para ele, completamente perplexo. 

 

- Minha me? 

 

- Voc a encontrar em casa. Hades a enviou quando recuperou seu elmo. At mesmo o Senhor da Morte 
paga as suas dvidas. 

 

Meu corao disparou. Eu mal podia acreditar. 

 

- Voc... voc vai... 

 

Eu queria perguntar se Poseidon viria comigo para v-la, mas ento percebi que isso era ridculo. 
Imaginei-me embarcando com o Deus do Mar em um txi e levando-o para o Upper East Side. Se durante 
todos aqueles anos ele tivesse desejado ver minha me, teria visto. E tambm era preciso pensar que 
Gabe Cheiroso estava l. 

 

Os olhos de Poseidon ficaram um pouco tristes. 

 

- Quando voc voltar para casa, Percy, precisar fazer uma escolha importante. Ir encontrar um pacote 
esperando por voc no seu quarto. 

 

- Um pacote? 

 

- Voc entender quando o vir. Ningum pode escolher o seu caminho, Percy. Voc ter de decidir. 

#
 

Assenti, embora sem saber o que ele queria dizer. 

 

- Sua me  uma rainha entre as mulheres - disse Poseidon saudosamente. - No conheci nenhuma 
mulher mortal como ela em mil anos. Ainda assim... sinto muito por voc ter nascido, criana. Eu trouxe 
para voc um destino de heri, e um destino de heri nunca  feliz. No passa de um destino trgico. 

 

Tentei no me sentir magoado. Ali estava o meu prprio pai, dizendo que sentia muito por eu ter nascido. 

 

- Eu no me importo, pai. 

 

- Ainda no, talvez - disse ele. - Ainda no. Mas foi um erro imperdovel da minha parte. 

 

- Vou deix-lo, ento. - Eu me inclinei, desajeitado. - No... no vou incomod-lo de novo. 

 

Eu estava a cinco passos de distncia quando ele chamou: 

 

- Perseu. 


Eu me virei. 

 

Havia uma luz diferente em seus olhos, um tipo flamejante de orgulho. 

 

- Voc se saiu bem, Perseu. No me entenda mal. O que quer que ainda faa, saiba que voc  meu. 
Voc  um verdadeiro filho do Deus do Mar. 

 

Enquanto eu caminhava de volta pela cidade dos deuses, as conversas se interromperam. As musas 
pararam seu concerto. Pessoas, stiros e niades, todos se voltavam para mim, os rostos plenos de 
respeito e gratido, e quando eu passava eles se ajoelhavam, como se eu fosse algum tipo de heri. 

 

***** 

 

Quinze minutos depois, ainda em transe, eu estava de volta s ruas de Manhattan. 

 

Peguei um txi para o apartamento da minha me, toquei a campainha, e l estava ela - minha linda me, 
cheirando a hortel e alcauz, e o cansao e a preocupao se evaporaram do seu rosto assim que ela 
me viu. 

 

- Percy! Oh, graas a Deus! Oh, meu querido. 

 

Ela me apertou at no poder mais. Ficamos no vestbulo enquanto ela chorava e passava as mos pelos 
meus cabelos. 

 

Eu admito - meus olhos tambm ficaram um pouco nublados. Eu tremia, de to aliviado que estava por v-
la. 

 

Ela me contou que simplesmente aparecera no apartamento naquela manh, deixando Gabe meio fora de 
si de to apavorado. No se lembrava de nada desde o Minotauro, e no pde acreditar quando Gabe lhe 
disse que eu era um criminoso procurado, viajando pelo pas e explodindo monumentos nacionais. Ficara 
louca de preocupao o dia inteiro porque no ouvira as notcias. Gabe a forara a ir trabalhar, dizendo 
que ela precisava um ms de salrio para compensar, e era melhor comear. 

 

Engoli a raiva e contei-lhe minha prpria histria. Tentei fazer que parecesse menos apavorante do que 
fora, mas no era fcil. Estava justamente chegando  luta com Ares quando a voz de Gabe irrompeu da 
sala de estar. 

 

- Ei, Sally! Aquele bolo de carne j est pronto ou no? 


Ela fechou os olhos. 

 

#
- Ele no vai ficar muito feliz em v-lo, Percy. A loja recebeu um milho de telefonemas de Los Angeles 
hoje... alguma coisa sobre eletrodomsticos grtis. 

 

- Ah, sim. Quanto a isso... Ela conseguiu sorrir fracamente. 

 

- S no o deixe ainda mais zangado, certo? Venha. 

 

No ms em que estive fora, o apartamento se transformara em Gabelndia. Havia lixo no tapete at a 
altura dos tornozelos. 

 

O sof tinha sido estofado de novo com latas de cerveja. Meias e roupas de baixo sujas estavam 
penduradas nos abajures. 

 

Gabe e trs dos seus amigos cretinos estavam sentados  mesa jogando pquer. 

 

Quando Gabe me viu, o charuto caiu da boca. A cara dele ficou mais vermelha que lava. 

 

- Voc  muito descarado de vir aqui, seu pequeno punk. Eu pensei que a polcia... 

 

- Ele no  um fugitivo, afinal - interrompeu minha me. - No  maravilhoso, Gabe? 

 

Gabe olhou para um lado e para outro entre ns. No parecia achar que a minha volta para casa fosse 
assim to maravilhosa. 

 

- J no basta ter de devolver o dinheiro do seu seguro de vida, Sally - rosnou ele. - Me d o telefone. Vou 
chamar a polcia. 

 

- Gabe, no! 

 

Ele ergueu as sobrancelhas. 

 

- Voc disse no! Acha que eu vou ter de agentar esse punk de novo? Ainda posso registrar queixa 
contra ele por destruir o meu Camaro. 

 

- Mas... - Ele levantou a mo e minha me se encolheu. 

 

Pela primeira vez me dei conta de uma coisa. Gabe j tinha batido na minha me. No sei quando, nem 
quanto. Talvez estivesse acontecendo h anos, quando eu no estava por perto. 

 

Um balo de raiva comeou a se expandir no meu peito. Avencei para Gabe, instintivamente tirando 
minha caneta do bolso. Ele apenas riu. 

 

- O que foi, punk? Vai escrever em mim? Encoste em mim, e ir para a cadeia para sempre, entendeu? 

 

- Ei, Gabe - seu amigo Eddie interrompeu. - Ele  s uma criana. 

 

Gabe olhou para ele irritado e macaqueou em voz de falsete: 

 

- Ele  s uma criana! 

 

Seus outros amigos riram como idiotas. 

 

- Eu vou ser bonzinho com voc, punk. - Gabe mostrou os dentes manchados de tabaco. - Vou lhe dar 
cinco minutos para pegar suas coisas e dar o fora. Depois disso, chamo a polcia. 

 

- Gabe! - implorou minha me. 

 

- Ele fugiu - disse Gabe a ela. - Que continue fugido. 


#
Eu estava sentindo uma comicho para destampar Contracorrente, mas mesmo que fizesse isso, a lmina 
no podia ferir seres humanos. E Gabe, segundo a mais vaga das definies, era um ser humano. 

 

Minha me segurou meu brao. 

 

- Por favor, Percy. Venha. Vamos para o seu quarto. 


Deixei que ela me puxasse, as mos ainda tremendo de raiva. 


Meu quarto tinha sido completamente abarrotado com o lixo de Gabe. Havia pilhas de baterias velhas de 
carro, um buqu apodrecido de flores de solidariedade com um carto de algum que assistira sua 
entrevista com Barbara Walters. 

 

- Gabe est apenas chateado, querido - disse minha me. - Vou falar com ele mais tarde. Tenho certeza 
de que vai dar certo. 

 

- Mame, nunca vai dar certo. No enquanto Gabe estiver aqui. 

 

Ela torceu as mos nervosamente. 

 

- Eu posso... vou levar voc comigo para o trabalho durante o resto do vero. No outono talvez haja algum 
outro internato... 

 

- Mame. 

 

Ela baixou os olhos. 

 

- Estou tentando, Percy. Eu s... s preciso de algum tempo. 

 

Um pacote apareceu em cima da minha cama. Pelo menos, eu poderia jurar que no estava l um 
momento antes. 

 

Era uma caixa de papelo surrada mais ou menos do tamanho certo para conter uma bola de basquete. O 
endereo na etiqueta estava na minha prpria caligrafia: 

 

Aos deuses 

Monte Olimpo, 

600 andar, 

Edifcio Empire State 

Nova York, NY 

 

Com os melhores votos, 

Percy Jackson 

 

No topo da caixa, em marcador preto, na caligrafia clara e forte de um homem, estava o endereo do 
nosso apartamento, e as palavras: RETORNAR AO REMETENTE. 

 

De repente entendi o que Poseidon me dissera no Olimpo. 

 

Um pacote. Uma deciso. 

 

O que quer que ainda faa, saiba que voc  meu. Voc  um verdadeiro filho do Deus do Mar. 

 

Olhei para a minha me. 

 

- Me, voc quer se livrar do Gabe? 

 

- Percy, no  to simples. Eu... 

 

#
- Me, apenas me diga. Aquele cretino est batendo em voc. Voc quer que ele se v ou no? 

 

Ela hesitou, depois assentiu quase imperceptivelmente. 

 

- Sim, Percy. Eu quero. E estou tentando reunir coragem para dizer a ele. Mas voc no pode fazer isso 
por mim. Voc no pode resolver os meus problemas. 

 

Eu olhei para a caixa. 

 

Eu podia resolver o problema dela. Queria abrir aquele pacote, bot-lo sobre a mesa de pquer e tirar o 
que havia dentro. Podia comear o meu prprio jardim de esttuas bem ali na sala de estar. 

 

E o que um heri grego faria nas histrias, pensei.  o que Gabe merece. 

 

Mas a histria de um heri sempre termina em tragdia. Poseidon me dissera isso. 

 

Lembrei-me do Mundo Inferior. Pensei no esprito de Gabe  deriva nos Campos de Asfdelos, ou 
condenado a alguma tortura horrvel atrs do arame farpado dos Campos da Punio - sentado em um 
eterno jogo de pquer, mergulhado at a cintura em leo fervente ou ouvindo msica de pera. Ser que 
eu tinha o direito de mandar algum para l? Mesmo Gabe? 

 

Um ms atrs, eu no teria hesitado. Agora... 

 

- Eu posso fazer isso - disse  minha me. - Uma espiada para o que h dentro desta caixa, e ele nunca 
mais a incomodar de novo. 

 

Ela deu uma olhada para o pacote e pareceu entender imediatamente. 

 

- No, Percy - disse ela afastando-se. - Voc no pode. 

 

- Poseidon chamou voc de rainha - contei-lhe. - Ele disse que no conheceu nenhuma mulher como voc 
em mil anos. 

 

Suas faces coraram. 

 

- Percy... 

 

- Voc merece coisa melhor do que isso, me. Voc devia ir para a faculdade, tirar o seu diploma. Podia 
escrever o seu romance, conhecer um cara legal, quem sabe, e viver numa bela casa. Voc no precisa 
mais me proteger ficando com Gabe, Deixe que eu me livre dele. 

 

Ela enxugou uma lgrima do rosto, 

 

- Voc se parece tanto com o seu pai - disse ela, - Uma vez props parar a mar por mim. Props 
construir um palcio para mim no fundo do mar, Achava que podia resolver todos os meus problemas com 
um aceno de mo. 

 

- O que h de errado nisso? 

 

Seus olhos multicoloridos pareceram investigar dentro de mim. 

 

- Eu acho que voc sabe, Percy, Eu acho que voc  parecido o bastante comigo para entender, Se  
para a minha vida ter algum significado, tenho de viv-la eu mesma. No posso deixar que um deus cuide 
de mim,,, ou meu filho, Eu preciso,,, encontrar a coragem sozinha, A sua misso me fez lembrar disso, 

 

Ouvimos o som das fichas de pquer e pragas, e a ESPN n televiso da sala de estar, 

 

- Vou deixar a caixa - disse eu, - Se ele a ameaar,,, Ela empalideceu, mas assentiu. 

 

- Aonde voc vai, Percy? 

#
 

- Colina Meio-Sangue, 

 

- Passar o vero,,, ou para sempre? 

 

- Ainda no sei, 

 

Nossos olhos se encontraram, e eu senti que tnhamos um acordo. Veramos como estariam as coisas no 
fim do vero. 

 

Ele beijou a minha testa, 

 

- Voc ser um heri, Percy, O maior de todos. 


Passei os olhos pelo quarto pela ltima vez,Tinha a sensao de que nunca mais o veria de novo. Ento fui 
com minha me at a porta da frente. 

 

- Indo embora to cedo, punk? - gritou Gabe atrs de mim. - J vai tarde! 

 

Senti uma ltima ponta de dvida. Como eu podia rejeitar a oportunidade perfeita para me vingar dele? Eu 
estava indo embora daqui sem salvar a minha me. 

 

- Ei, Sally! - berrou ele. - E aquele bolo de carne, heim? 


Uma expresso de raiva, dura como ao, brilhou nos olhos da minha me, e eu pensei, quem sabe, talvez 
eu a estivesse deixando em boas mos afinal. As dela mesma. 

 

- O bolo de carne j est saindo, meu bem - disse ela a Gabe. - Um bolo de carne surpresa. 

 

Olhou para mim e piscou. 

 

A ltima coisa que vi quando a porta se fechou foi minha me olhando para Gabe com jeito de quem 
imagina que ele daria uma tima esttua de jardim. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

#
VINTE E DOIS - A profecia se cumpre. 

 

Fomos os primeiros heris a retornar vivos  Colina Meio-Sangue desde Luke, portanto  claro que todos 
nos trataram como se tivssemos ganho algum prmio de reality show na tev. De acordo com a tradio 
do acampamento, usamos coroas de louros em um grande banquete preparado em nossa honra, depois 
lideramos um cortejo at a fogueira, onde queimamos as mortalhas que tinham sido feitas para ns na 
nossa ausncia. 

 

A mortalha de Annabeth era lindssima - seda cinzenta co corujas bordadas -, e eu disse que era uma 
pena no poder enterr-la com ela. Ela me deu um soco e me mandou calar a boca. 

 

Por ser filho de Poseidon, eu no tinha nenhum companheiro de chal, e assim o chal de Ares se 
ofereceu para fazer a minha mortalha. Eles pegaram um lenol velho e pintaram carinhas sorridentes nas 
bordas, com XX no lugar dos olhos, e a palavra PE DERDOR em tamanho realmente grande no meio. 

 

Foi divertido queim-la. 

 

Enquanto o chal de Apoio liderava a cantoria e passava guloseimas, fui rodeado pelos meus 
companheiros do chal de Hermes, pelos amigos de Annabeth de Atena e pelos colegas stiros de 
Grover, que estavam admirando a licena de buscador nova em folha que ele recebera do Conselho dos 
Ancios de Casco Fendido. O conselho chamara o desempenho de Grover na misso de "Bravo a ponto 
de dar indigesto. Chifres-e-barba acima de tudo t) que j vimos no passado." 

 

Os nicos que no estavam com um esprito festivo eram Clarisse e seus companheiros de chal, cujos 
olhares venenosos me diziam que jamais me perdoariam por envergonhar o pai deles. 

 

Por mim, tudo bem. 

 

At mesmo o discurso de boas-vindas de Dioniso foi insuficiente para abafar o meu bom humor. 

 

- Sim, sim, o molequinho no se deixou matar e agora vai ficar ainda mais presunoso. Bem, um viva para 
isso. Entre outros comunicados, no haver corridas de canoas neste sbado... 

 

Mudei-me de volta para o chal 3, mas ele no parecia mais to solitrio. Tinha os meus amigos para 
treinar durante o dia.  noite, ficava acordado e ouvia o mar, sabendo que meu pai estava l fora. Talvez 
ele ainda no se sentisse muito seguro a meu respeito, talvez ainda no quisesse que eu tivesse nascido, 
mas estava observando. E, at agora, estava orgulhoso do que eu havia feito. 

 

Quanto  minha me, ela teve chance de uma vida nova. A carta dela chegou uma semana depois que 
voltei ao acampamento. Ela me contou que Gabe partira misteriosamente - desaparecera da face do 
planeta, de fato. Ela deu queixa do desaparecimento dele  polcia, mas tinha uma sensao engraada 
de que jamais o encontrariam. 

 

Mudando completamente de assunto, ela tinha vendido a sua primeira escultura de concreto em tamanho 
natural, intitulada O jogador de pquer, para um colecionador, atravs de uma galeria de arte do Soho. 
Recebera tanto dinheiro por ela que dera entrada em um novo apartamento e fizera o pagamento do 
primeiro semestre do seu curso na Universidade de Nova York. A galeria do Soho estava clamando por 
mais trabalhos dela, que eles chamaram de "um grande passo do neo-realismo do superfeio". 

 

Mas no se preocupe, escreveu a minha me. Para mim, chega de escultura. Livrei-me daquela caixa de 
ferramentas que voc deixou para mim. J  hora de eu voltar a escrever. 

 

No fim, ela escreveu um P.S.: Percy, encontrei uma boa escola particular aqui na cidade. Fiz um depsito para 
reservar um lugar para voc, caso queira se matricular na stima srie. Voc poder morar em casa. Mas, se 
quiser ficar o ano inteiro na Colina Meo-Sangue, vou entender. 

 

Dobrei a carta cuidadosamente e a pus na minha mesa-de-cabeceira. Todas as noites antes de dormir eu 
a leio de novo, e tento decidir como responder a ela. 

 

***** 

#
 

No Quatro de Julho, o acampamento inteiro se reuniu na praia para um espetculo pirotcnico por conta 
do chal 9. Como filhos de Hefesto, no iriam se contentar com exploses comuns em vermelho, branco e 
azul. Eles ancoraram uma barcaa longe da costa e a carregaram com foguetes do tamanho de msseis 
Patriot. De acordo com Annabeth, que j tinha visto o espetculo antes, as exploses seriam to bem 
seqenciadas que pareceriam quadros de animao no cu. O final deveria ser um par de guerreiros 
espartanos de trinta metros de altura que iriam crepitar para a vida acima do oceano, travar uma batalha e 
ento explodir em um milho de cores. 

 

Enquanto Annabeth e eu estendamos toalhas de piquenique, Grover apareceu para se despedir de ns. 
Usava os jeans, a camiseta e os tnis de sempre, mas nas ltimas semanas comeara a parecer mais 
velho, quase com idade de secundarista. Seu cavanhaque ficara mais espesso. Ganhara peso. Seus 
chifres haviam crescido pelo menos trs centmetros, de modo que agora tinha de usar o seu bon 
rastafri o tempo todo para passar por ser humano. 

 

- Estou de partida - disse ele. - Vim s dizer... bem, vocs sabem. 

 

Tentei me sentir feliz por ele. Afinal, no era todo dia que um stiro conseguia permisso para procurar o 
grande deus Pan. Mas era difcil dizer adeus. Eu s conhecia Grover fazia um ano, e no entanto ele era o 
meu amigo mais antigo. 

 

Annabeth deu-lhe um abrao. Ela lhe disse para usar sempre os seus ps falsos. 

 

Perguntei-lhe onde iria procurar primeiro. 

 

- Tipo segredo - disse ele, parecendo embaraado. - Gostaria que vocs pudessem vir comigo, mas seres 
humanos e Pan... 

 

- A gente entende - disse Annabeth. - Voc tem latas suficientes para a viagem? 

 

- Sim. 

 

- E se lembrou das suas flautas de bambu? 

 

- Puxa, Annabeth - resmungou ele. - Voc parece uma velha mame-cabra. 

 

Mas ele no pareceu aborrecido de verdade. 

 

Ele agarrou sua bengala e jogou uma mochila por cima dos ombros. Parecia um caroneiro desses que se 
vem nas estradas - nada parecido com o menino baixinho que eu costumava defender dos valentes na 
Academia Yancy. 

 

- Bem - disse ele -, desejem-me boa sorte. 

 

Ele deu outro abrao em Annabeth. Bateu no meu ombro, e ento retornou atravs das dunas. 

 

Fogos de artifcio explodiram acima de ns: Hrcules matando o leo da Nemia, rtemis perseguindo o 
javali, George Washington (que, alis, era um filho de Atena) cruzando o rio Delaware. 

 

- Ei, Grover - chamei. 

 

Ele se voltou  margem do bosque. 

 

- Aonde quer que esteja indo, espero que faam boas enchiladas. 

 

Grover sorriu, e se foi; as rvores se fechando em volta dele. 

 

- Ns o veremos de novo - disse Annabeth. 

 

#
Tentei acreditar nisso. O fato de que nenhum buscador jamais voltara em dois mil anos... bem, decidi no 
pensar nisso. Grover ia ser o primeiro. Tinha de ser. 

 

***** 

 

Julho se foi. 

 

Eu passava os meus dias bolando novas estratgias para a captura da bandeira e fazendo alianas com 
os outros chals para manter o estandarte fora das mos de Ares. Cheguei at o topo da parede de 
escalada pela primeira vez sem ser tostado pela lava. 

 

De tempos em tempos, eu passava pela Casa Grande, dava uma olhada nas janelas do sto e pensava 
no Orculo. Tentei convencer a mim mesmo que a sua profecia se completara. 

 

Voc deve ir para o oeste, e enfrentar o deus que se tornou desleal. 

 

Estive l, fiz isso - mesmo que no fim o deus traidor fosse Ares, e no Hades. 

 

Voc deve encontrar o que foi roubado e devolver em segurana. 

 

Confere. Um raio-mestre entregue. Um elmo das trevas de volta na cabea untuosa de Hades. 

 

Voc ser trado por aquele que o chama de amigo. 

 

Essa linha ainda me incomodava. Ares fingira ser meu amigo e depois me trara. Devia ser isso que o 
Orculo queria dizer... 

 

E no fim no conseguir salvar aquilo que mais importa. 

 

Eu no conseguira salvar minha me, mas s porque eu a deixara se salvar sozinha, e sabia que era a 
coisa certa a fazer. 

 

Ento por que ainda estava incomodado? 

 

***** 

 

A ltima noite da sesso de vero chegou depressa demais. 

 

Os campistas fizeram uma ltima refeio juntos. Queimamos parte do nosso jantar para os deuses. Junto 
 fogueira, os conselheiros mais velhos entregaram as contas de fim de vero. 

 

Ganhei o meu prprio colar de couro, e quando vi a conta pelo meu primeiro vero, fiquei contente porque 
a luz da fogueira encobriu o vermelho na minha cara. O desenho era preto como piche, com um tridente 
verde-mar cintilando no centro. 

 

- A escolha foi unnime - anunciou Luke. - Esta conta comemora o primeiro Filho do Deus do Mar neste 
acampamento, e a misso que ele assumiu para a parte mais escura do Mundo Inferior para impedir uma 
guerra! 

 

O acampamento inteiro se ps de p e aplaudiu. Mesmo o chal de Ares se sentiu na obrigao de 
levantar. O chal de Atenas empurrou Annabeth para a frente para que ela pudesse compartilhar os 
aplausos. 

 

Acho que nunca na vida me senti ao mesmo tempo to feliz ou e to triste como naquele momento. 
Finalmente encontrara uma famlia, gente que se preocupava comigo e achava que eu tinha feito alguma 
coisa de modo certo. E, pela manh, a maior parte deles ficaria fora o resto do ano. 

 

Na manh seguinte encontrei uma carta padronizada na minha mesa-de-cabeceira. 

 

Soube que devia ter sido preenchida por Dioniso, pois ele insistia teimosamente em errar o meu nome: 

#
 

Caro ________ Peter Johnson ___ , 

 

Se voc pretende permanecer no Acampamento Meio-Sangue o ano inteiro, precisa informar a Casa 
Grande at o meio-dia de hoje. Caso no anuncie suas intenes, presumiremos que voc vagou o 
seu chal ou morreu de uma morte horrvel. Harpias da limpeza comearo seu trabalho ao pr-do-
sol. Elas estaro autorizadas a comer qualquer campista no registrado. Todos os artigos pessoais 
deixados para trs sero incinerados no poo de lava. 

Tenha um bom dia! 

Senhor D (Dioniso) 

Diretor do Acampamento, Conselho Olimpiano n 12 

 

***** 

 

Essa  mais uma questo do transtorno do dficit de ateno. Os prazos simplesmente no existem para 
mim at que no tenha mais jeito. O vero acabara, e eu ainda no havia respondido para a minha me, 
nem para o acampamento, se iria ficar. Agora tinha apenas algumas horas para decidir. 

 

A deciso tinha tudo para ser fcil. Quer dizer, nove meses treinando para heri, ou nove meses sentado 
numa sala de aula - fala srio! 

 

Mas havia a minha me para considerar. Pela primeira vez eu tinha oportunidade de morar com ela por 
um ano inteiro, sem Gabe. Tinha chance de estar em casa e perambular pela cidade nas horas livres. 
Lembrei-me do que Annabeth dissera tanto tempo atrs sobre a nossa misso: O mundo real  onde os 
monstros esto.  onde a gente aprende se serve para alguma coisa ou no. 

 

Pensei no destino de Thalia, filha de Zeus. Fiquei pensando quantos monstros me atacariam se eu 
deixasse a Colina Meio-Sangue. Se eu ficasse em um s lugar durante todo um ano escolar, sem Quron 
e meus amigos em volta para me ajudar, ser que minha me e eu sobreviveramos at o prximo vero? 
E isso presumindo que os testes de ortografia e os ensaios de cinco pargrafos no me matassem. Decidi 
ir at a arena e praticar um pouco de esgrima. Talvez isso me clareasse a cabea. 

 

A rea do acampamento estava deserta na maior parte, tremeluzindo no calor de agosto. Todos os 
campistas estavam nos seus chals fazendo as malas, ou correndo de um lado para outro com vassouras 
e esfreges, preparando-se para a inspeo final. Argos estava ajudando algumas filhas de Afrodite a 
carregar suas malas e estojos de maquiagem Gucci para o outro lado da colina, onde o nibus do 
acampamento estaria esperando para lev-las ao aeroporto. 

 

No pense em partir ainda, disse para mim mesmo. Apenas treine. 

 

Cheguei  arena dos espadachins e descobri que Luke tivera a mesma idia. Sua sacola estava jogada na 
beirada da arena. Ele estava treinando sozinho, investindo violentamente contra bonecos com uma 
espada que eu nunca tinha visto antes. Devia ser uma espada toda de ao, pois decepava de um golpe as 
cabeas dos bonecos e atravessava com estocadas as suas tripas recheadas de palha. Sua camisa 
laranja de conselheiro pingava de suor. A expresso dele era to intensa que dava para pensar que sua 
vida estava realmente em perigo. Eu assisti, fascinado, enquanto ele destripava toda a fileira de bonecos, 
cortando fora os membros e basicamente os reduzindo a uma pilha de palha e armaduras. 

 

Eram apenas bonecos, mas ainda assim eu no podia deixar de ficar assombrado com a habilidade de 
Luke. O cara era um guerreiro incrvel. Aquilo me fez pensar, novamente, como ele podia ter falhado em 
sua misso. 

 

Por fim ele me viu e interrompeu-se no meio de um golpe. 

 

- Percy. 

 

- Ahn, desculpe - disse eu, embaraado. - Eu s... 

 

- Tudo bem - disse ele, abaixando a espada. - Estava s dando uma treinada de ltimo minuto. 

 

#
 

- Aqueles bonecos nunca mais vo incomodar ningum. Luke encolheu os ombros. 

 

- Ns fazemos novos todo vero. 

 

Agora que a espada no estava mais rodopiando de um lado para outro, pude ver algo de estranho nela. 
A lmina era feita com dois tipos de metal diferentes - um fio de bronze, o outro de ao. 

 

Luke reparou que eu estava olhando. 

 

- Ah, isso? Brinquedo novo. Esta  a Malvada. 

 

- Malvada? 

 

Luke virou a lmina na luz, e a fez brilhar de um jeito maligno. 

-Um lado  de bronze celestial. O outro  de ao temperado. Funciona tanto em mortais como em 
imortais. 

 

Pensei no que Quron tinha me dito quando eu comecei a minha misso - que um heri jamais deve ferir 
mortais a no ser que seja absolutamente necessrio. 

 

- Eu no sabia que eles podiam fazer armas como esta. 

 

- Eles provavelmente no - concordou Luke. - Esta aqui  nica. 

 

Ele me deu um sorrisinho mnimo e ento enfiou a espada na bainha. 

 

- Escute. Eu estava indo procurar por voc. O que me diz de irmos at a floresta uma ltima vez, para 
procurar algo para enfrentar? 

 

No sei por que hesitei. Devia ter me sentido aliviado por Luke estar sendo to amigvel. Desde que eu 
voltara da misso ele vinha agindo de modo um pouco distante. Estava com medo de que ele estivesse 
ressentido com toda a ateno que eu recebera. 

 

- Voc acha que  uma boa idia? - perguntei. - Quero dizer... 

 

- Ora, vamos. - Ele remexeu na sua sacola e tirou de l uma embalagem de seis Cocas. - Bebidas por 
minha conta. 

 

Olhei para as Cocas, me perguntando onde diabo as teria conseguido. No havia refrigerantes mortais 
comuns na loja do acampamento. No havia como consegui-los a no ser que a gente falasse com um 
stiro, talvez. 

 

Naturalmente, as taas mgicas do jantar se encheriam com qualquer coisa que a gente quisesse, mas 
no tinham exatamente o mesmo gosto de uma Coca de verdade, sada da lata. 

 

Acar e cafena. Minha fora de vontade desmoronou. 

 

- Claro - decidi. - Por que no? 

 

Fomos andando at a floresta e perambulamos sem rumo  procura de algum tipo de monstro para 
enfrentar, mas estava quente demais. Todos os monstros com um mnimo de bom senso deviam estar 
fazendo a sesta nas suas cavernas agradveis e frescas. 

 

Encontramos um lugar  sombra junto ao regato onde eu quebrara a lana de Clarisse durante meu 
primeiro jogo de captura da bandeira. Sentamo-nos em uma grande pedra, bebemos as nossas Cocas e 
ficamos olhando para a luz do sol na floresta. 

 

Depois de algum tempo, Luke disse: 

 

#
- Sente falta de estar em uma misso? 

 

- Com monstros me atacando a cada passo? Fala srio! 

 

Luke ergueu uma sobrancelha. 

 

- Sim, eu sinto falta - admiti. - E voc? 

 

Uma sombra passou pelo seu rosto. 

 

Eu estava acostumado a ouvir as meninas dizerem como Luke era bonito, mas naquele momento ele 
pareceu cansado, zangado e nem um pouco bonito. Seu cabelo loiro estava cinzento  luz do sol. A 
cicatriz no rosto parecia mais funda que de costume. Parecia estar vendo um velho. 

 

- Vivo na Colina Meio-Sangue o ano inteiro desde que tinha catorze anos - contou-me. - Desde que 
Thalia... bem, voc sabe. Treinei, treinei e treinei. Nunca cheguei a ser um adolescente normal, l fora no 
mundo real. Ento eles me jogaram numa misso, e quando voltei, foi tipo, "Certo, o passeio acabou. 
Passe bem". 

 

Ele amarrotou a sua Coca e a atirou no regato, o que realmente me chocou. Uma das primeiras coisas 
que a gente aprende no Acampamento Meio-Sangue : no jogue lixo no cho. Voc ser repreendido 
pelas ninfas e niades. Elas ajustaro as contas. Voc cai na cama uma noite e encontra os lenis cheios 
de centopias e lama. 

 

- Para o diabo com as coroas de louros - disse Luke. - No vou terminar como aqueles trofus 
empoeirados no sto da Casa Grande. 

 

- Voc est parecendo algum que vai embora. 


Luke me deu um sorriso torto. 

 

- Oh, eu estou indo embora, sem dvida, Percy. Trouxe voc aqui para dizer adeus. 

 

Ele estalou os dedos. Um pequeno fogo queimou um buraco no cho aos meus ps. De l, saiu se 
arrastando alguma coisa preta e brilhante, mais ou menos do tamanho da minha mo. Um escorpio. 

 

Comecei a procurar a minha caneta. 

 

- Eu no faria isso - advertiu Luke. Escorpies das profundezas podem pular at cinco metros. Seu ferro 
pode perfurar as suas roupas. Voc estaria morto em sessenta segundos. 

 

- Luke, o que... 


Ento caiu a ficha. 

 

Voc ser trado por aquele que o chama de amigo. 

 

- Voc - disse eu. 

 

Ele se levantou calmamente e sacudiu o p dos seus jeans. 

 

O escorpio no lhe deu ateno. Seus olhos pequenos e brilhantes continuavam fixos em mim, 
apertando as pinas enquanto se arrastava para cima do meu sapato. 

 

- Eu vi muita coisa l fora no mundo, Percy - disse Luke. - Voc no sentiu... a escurido se acumulando, 
os monstros ficando mais fortes? No percebeu como tudo  intil? Todos os feitos hericos... Ns no 
passamos de pees dos deuses. Eles j deviam ter sido derrubados h milhares de anos, mas persistem, 
graas a ns, meios-sangues. 

 

Eu no podia acreditar no que estava acontecendo. 

#
 

- Luke... voc est falando dos nossos pais - disse eu. 


Ele riu. 

 

- E por isso eu preciso am-los? A sua preciosa "civilizao ocidental"  uma doena, Percy. Ela est 
matando o mundo. O nico meio de det-la  queim-la completamente e comear tudo de novo com algo 
mais honesto. 

 

- Voc  to louco quanto Ares. 


Seus olhos flamejaram. 

 

- Ares  um tolo. Ele nunca percebeu quem  o verdadeiro mestre a quem est servindo. Se eu tivesse 
tempo, Percy, poderia explicar. Mas infelizmente voc no vai viver tanto. 

 

O escorpio se arrastou para cima da perna das minhas calas. 

 

Tinha de haver um meio de sair dessa. Eu precisava de tempo para pensar. 

 

- Cronos - disse eu. -  a ele que voc serve. O ar ficou mais frio. 

 

- Voc devia ter cuidado com nomes - avisou Luke. 

 

- Cronos fez voc roubar o raio-mestre e o elmo. Ele falou com voc nos seus sonhos. 

 

O olho de Luke se contraiu. 

 

- Ele falou com voc tambm, Percy. Devia ter ouvido. 

 

- Ele est fazendo uma lavagem cerebral em voc, Luke. 

 

- Voc est errado. Ele me mostrou que os meus talentos esto sendo desperdiados. Voc sabe qual foi 
a minha misso dois anos atrs, Percy? Meu pai, Hermes, queria que eu roubasse um pomo de ouro do 
jardim das Hesprides e o levasse ao Olimpo. Depois de todo o treinamento que fiz, aquilo foi o melhor em 
que ele pde pensar. 

 

- Essa no  uma misso fcil - disse eu. - Hrcules fez isso. 

 

- Exatamente - disse Luke. - Onde est a glria em repetir o que outros j fizeram? Tudo o que os deuses 
sabem fazer  repetir o passado. Meu corao no estava naquilo. O drago do jardim me deu isto - ele 
apontou para a cicatriz -, e quando voltei, tudo o que ganhei foi piedade. Eu queria destruir o Olimpo pedra 
por pedra naquele momento, mas esperei pelo momento certo. Comecei a sonhar com Cronos. Ele me 
convenceu a roubar alguma coisa que valesse a pena, algo que nenhum heri jamais tivera a coragem de 
pegar. Quando fomos naquela excurso do solstcio de inverno, enquanto os outros campistas dormiam, 
entrei furtivamente na sala do trono e peguei o raio-mestre de Zeus bem em cima da cadeira dele. O elmo 
das trevas de Hades tambm. 

 

Voc no tem idia como foi fcil. Os olimpianos so to arrogantes; eles nunca nem sonharam que 
algum se atrevesse a roub-los. A segurana deles  horrvel. Eu j estava a meio caminho atravs de 
New Jersey antes de ouvir as tempestades troando, e soube que eles tinham descoberto o meu roubo. 

 

O escorpio agora estava parado no meu joelho, me olhando com seus olhos brilhantes. Tentei manter a 
voz no mesmo nvel. 

 

- Ento por que no levou os objetos para Cronos? 


O sorriso de Luke vacilou. 

 

#
- Eu... eu fiquei confiante demais. Zeus mandou seus filhos e filhas para encontrar o raio roubado: rtemis, 
Apoio, meu pai, Hermes. Mas foi Ares quem me pegou. Eu podia t-lo vencido, mas no fui bastante 
cuidadoso. Ele me desarmou, tomou de mim os objetos de poder, ameaou devolv-los ao Olimpo e me 
queimar vivo. Ento a voz de Cronos veio a mim e me falou o que dizer. Pus na cabea de Ares a idia de 
uma grande guerra entre os deuses. Disse que tudo o que ele teria de fazer seria esconder os objetos por 
algum tempo e ficar assistindo enquanto os outros lutavam. Um brilho perverso surgiu nos olhos de Ares. 
Eu sabia que ele estava fisgado. Ele me deixou ir, e eu voltei ao Olimpo antes que algum notasse a 
minha ausncia. - Luke sacou a sua nova espada. Ele correu o polegar pela parte achatada da lmina, 
como se estivesse hipnotizado por sua beleza. - Depois, o Senhor dos Tits... e-ele me castigou com 
pesadelos. Eu jurei no falhar outra vez. De volta ao Acampamento Meio-Sangue, em meus sonhos, me 
foi dito que um segundo heri chegaria, um que poderia ser enganado para levar o raio e o elmo o resto do 
caminho, de Ares at o Trtaro. 

 

- Voc convocou o co infernal aquela noite na floresta. 

 

- Tnhamos de fazer Quron pensar que o acampamento no era seguro para voc, e assim ele iria dar 
incio  sua misso. Tnhamos de confirmar seus temores de que Hades estava atrs de voc. E 
funcionou. 

 

- Os tnis voadores estavam amaldioados - disse eu. 

 

- Eles deveriam me arrastar com a mochila para dentro do Trtaro. 

 

- E teriam, se voc os estivesse usando. Mas voc os deu ao stiro, o que no era parte do plano. Grover 
baguna tudo o que ele toca. Confundiu at a maldio. 

 

Luke baixou os olhos para o escorpio, que estava agora parado na minha coxa. 

 

- Voc devia ter morrido no Trtaro, Percy. Mas no se preocupe. Vou deix-lo com o meu pequeno amigo 
para corrigir as coisas. 

 

- Thalia deu a vida dela para salv-lo - disse eu rangendo os dentes. - E  assim que voc retribui? 

 

- No fale de Thalia! - berrou ele. - Os deuses a deixaram morrer! Essa  uma das muitas coisas pelas 
quais eles pagaro. 

 

- Voc est sendo usado, Luke. Voc e Ares, os dois. No d ouvidos a Cronos. 

 

- Eu estou sendo usado? - A voz de Luke ficou estridente. 

 

- Olhe para voc mesmo. O que o seu pai j fez por voc? Cronos se erguer. Voc apenas retardou os 
seus planos. Ele ir lanar os olimpianos no Trtaro e mandar a humanidade de volta para as cavernas. 
Todos menos os mais fortes; aqueles que o servem. 

 

- Chame de volta o seu bicho rastejante - disse eu. - Se voc  to forte, lute comigo voc mesmo. 

 

Luke sorriu. 

 

- Boa tentativa, Percy. Mas eu no sou Ares. Voc no pode me engabelar. Meu senhor est esperando, e 
ele tem muitas misses para mim. 

 

- Luke... 

 

-Adeus, Percy. Uma nova Idade do Ouro est chegando. Voc no ser parte dela. 

 

Ele traou um arco com a espada e desapareceu numa onda de escurido. 

 

O escorpio deu o bote. 

 

#
Eu o joguei de lado com a mo e destampei a espada. A coisa pulou em cima de mim e eu a cortei ao 
meio no ar. 

Estava a ponto de me congratular quando olhei para a minha mo. Na palma havia um enorme vergo 
vermelho, que destilava uma secreo amarela e fumegante. A coisa me pegara, afinal. 

 

Meus ouvidos latejavam. Minha viso ficou embaada. A gua, pensei. Ela j me curara antes. 

 

Cambaleei at o regato e mergulhei a mo, mas nada pareceu acontecer. O veneno era forte demais. 
Minha viso estava escurecendo. Eu mal conseguia ficar em p. 

 

Sessenta segundos, Luke me dissera. 

 

Eu tinha de voltar ao acampamento. Se desmaiasse aqui, meu corpo seria o jantar de algum monstro. 
Ningum jamais saberia o que aconteceu. 

 

Minhas pernas pareciam feitas de chumbo. Minha testa queimava. Fui cambaleando at o acampamento, 
e as ninfas despertaram de suas rvores. 

 

- Socorro - grasnei. - Por favor... 

 

Duas delas seguraram os meus braos e me puxaram para frente. Lembro-me de chegar at a clareira, de 
um conselheiro gritando por ajuda, de um centauro tocando uma trombeta de concha. 

 

Ento tudo escureceu. 

 

   

 

Acordei com um canudinho na boca. Estava bebendo alguma coisa que tinha gosto de biscoitos de flocos 
de chocolate lquidos. Nctar. 

 

Abri os olhos. 

 

Estava reclinado na cama no quarto de doentes da Casa Grande, a mo direita enfaixada como um 
pedao de pau. Argos montava guarda no canto. Annabeth estava sentada ao meu lado, segurando o 
copo de nctar e enxugando a minha testa com uma toalha. 

 

- Aqui estamos ns outra vez - disse eu. 

 

- Seu idiota - disse Annabeth, e foi como eu percebi que ela estava radiante por me ver consciente. - Voc 
estava verde e ficando cinzento quando o encontramos. Se no fosse o tratamento de Quron... 

 

- Vamos, vamos - disse a voz de Quron. - A constituio de Percy merece parte do crdito. 

 

Ele estava sentado perto do p da minha cama em forma humana, e foi por isso que eu no o notara 
antes. Sua parte inferior estava magicamente compactada na cadeira de rodas, e a parte superior usava 
casaco e gravata. Ele sorriu, mas seu rosto parecia cansado e plido, como quando passava a noite em 
claro corrigindo provas de latim. 

 

- Como est se sentindo? - perguntou. 

 

- Como se as minhas entranhas tivessem sido congeladas e depois assadas no microondas. 

 

- Apropriado, considerando que foi veneno de escorpio das profundezas. Agora voc tem de me contar, 
se puder, exatamente o que aconteceu. 

 

Entre goles de nctar, contei-lhes a histria. 

 

O quarto ficou em silncio por um longo tempo. 

 

#
- Eu no posso acreditar que Luke... - A voz de Annabeth vacilou. Sua expresso ficou zangada e triste. - 
Sim. Sim, eu posso acreditar. Que os deuses o amaldioem... Ele nunca mais foi o mesmo depois da sua 
misso. 

 

- Isso deve ser relatado ao Olimpo - murmurou Quron. 

 

- Irei imediatamente. 

 

- Luke est l fora agora - disse eu. - Preciso ir atrs dele. 

 

Quron sacudiu a cabea. 

 

- No, Percy. Os deuses... 

 

- Nem mesmo falam sobre Cronos - disparei. - Zeus declarou o assunto encerrado! 

 

- Percy, eu sei que  difcil. Mas voc no deve correr atrs de vingana. Voc no est preparado. 

 

Eu no gostei, mas parte de mim suspeitava que Quron estava certo. Bastava uma olhada para a minha 
mo e dava para ver que no haveria lutas de espada to cedo. 

 

- Quron... a sua profecia do Orculo... era sobre Cronos, no era? Eu estava nela? E Annabeth? 

 

Quron olhou nervosamente para o teto. 

 

- Percy, no cabe a mim... 

 

- Voc recebeu ordens de no falar comigo sobre isso, no foi? 

 

Seus olhos eram solidrios, mas tristes. 

 

- Voc ser um grande heri, criana. Darei o melhor de mim para prepar-lo. Mas se estou certo quanto 
ao caminho  sua frente... - O trovo ribombou acima, chacoalhando as janelas. 

 

- Est certo! - gritou Quron. - Perfeito! - Ele suspirou com frustrao. - Os deuses tm suas razes, Percy. 
Saber demais sobre o prprio futuro nunca  uma boa coisa. 

 

- No podemos simplesmente ficar sentados sem fazer nada - disse eu. 

 

- Ns no vamos ficar sentados - prometeu Quron. - Mas voc precisa ter cuidado. Cronos quer que voc 
seja destrudo. Ele quer a sua vida interrompida, os seus pensamentos obscureci- dos por medo e raiva. 
No d a ele o que ele quer. Treine pacientemente. O seu momento chegar. 

 

- Presumindo que eu esteja vivo at l. 


Quron pousou a mo no meu tornozelo. 

 

- Voc ter de confiar em mim, Percy. Voc viver. Mas primeiro precisa decidir seu caminho para o 
prximo ano. No posso dizer a voc qual  a escolha certa... - Tive a impresso de que ele tinha uma 
opinio muito bem definida, e estava usando toda a sua fora de vontade para no me aconselhar. - Mas 
voc precisa decidir se vai ficar no Acampamento Meio-Sangue o ano inteiro, ou se vai voltar ao mundo 
mortal para a stima srie e ser um campista de vero. Pense nisso. Quando eu voltar do Olimpo, voc ter 
de me contar a sua deciso. 

 

Eu quis protestar. Quis lhe fazer mais perguntas. Mas sua expresso me disse que no haveria mais 
discusso; ele j dissera tudo o que podia. 

 

- Estarei de volta assim que puder - prometeu Quron. 

 

- Argos o proteger. 

#
 

Ele lanou um olhar para Annabeth. 

 

- Ah, e minha querida... quando estiver pronta, eles esto aqui. 

 

- Quem est aqui? - perguntei. 

 

Ningum respondeu. 

 

Quron rodou para fora do quarto. Ouvi o som metlico abafado das rodas da sua cadeira descendo 
cautelosamente os degraus da frente, dois de cada vez. 

 

Annabeth estudou o gelo na minha bebida. 

 

- O que est errado? - perguntei a ela. 

 

- Nada. - Ela ps o copo sobre a mesa. - Eu... apenas aceitei o seu conselho sobre algo. Voc... ahn... 
precisa de alguma coisa? 

 

- Sim. Ajude-me a levantar. Quero ir para fora. 

 

- Percy, no  uma boa idia. 

 

Arrastei as pernas para fora da cama. Annabeth me agarrou antes que eu desabasse no cho. Uma onda 
de nusea me acometeu. 

 

Annabeth disse: 

 

- Eu falei... 

 

- Estou timo - insisti. Eu no queria ficar deitado na cama como um invlido enquanto Luke estava l fora 
planejando destruir o mundo ocidental. 

 

Consegui dar um passo para a frente. Depois outro, ainda me apoiando pesadamente em Annabeth. 
Argos nos seguiu para fora, mas manteve distncia. 

 

Quando chegamos  varanda, meu rosto estava molhado de suor. Meu estmago se contorcia em ns. 
Mas eu conseguira ir at a cerca. 

 

Estava anoitecendo. O acampamento parecia completamente deserto. Os chals estavam escuros e a 
quadra de vlei, silenciosa. Nenhuma canoa cortava a superfcie do lago. Alm dos bosques e dos 
campos de morangos, o estreito de Long Island brilhava com os ltimos raios do sol. 

 

- O que voc vai fazer? - perguntou-me Annabeth. 

 

- Eu no sei. 

 

Disse a ela que tinha a sensao de que Quron queria que eu ficasse o ano inteiro, para ter mais tempo 
de treinamento individual, mas eu no tinha certeza de que era isso o que queria. Porm admiti que me 
sentia mal por deix-la sozinha, com Clarisse por companhia... 

 

Annabeth apertou os lbios e ento disse baixinho: 

 

- Eu vou passar o ano em casa, Percy. Eu olhei para ela. 

 

- Voc quer dizer, com o seu pai? 

 

Ela apontou para o cume da Colina Meio-Sangue. Junto ao pinheiro de Thalia, bem no limite das fronteiras 
mgicas do acampamento, havia uma famlia em silhueta - duas crianas pequenas, uma mulher e um 

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homem alto de cabelos loiros. Pareciam estar aguardando. O homem segurava uma mochila parecida 
com a que Annabeth pegara no Parque Aqutico em Denver. 

 

- Eu escrevi uma carta para ele quando voltamos - disse Annabeth. - Como voc sugeriu. Eu disse a ele... 
que sentia muito. Que iria para casa passar o ano escolar se ele ainda me quisesse. Ele respondeu na 
mesma hora. Ns decidimos... que amos tentar de novo. 

 

- Foi preciso coragem para isso. 

 

Ela apertou os lbios. 

 

- Voc no vai tentar nada de estpido durante o ano escolar, vai? Pelo menos... no sem me mandar 
uma mensagem de ris? Consegui sorrir. 

 

- No vou procurar encrenca. Normalmente eu no preciso. 

 

- Quando eu voltar no prximo vero - disse ela -, vamos caar Luke. Vou pedir uma misso, mas se no 
tivermos aprovao, vamos sair escondidos e fazer isso do mesmo jeito. De acordo? 

 

- Parece um plano digno de Atena. 


Ela estendeu a mo. Eu a apertei. 

 

- Cuide-se, Cabea de Alga - disse Annabeth. - Mantenha os olhos abertos. 

 

- Voc tambm, Sabidinha. 

 

Fiquei olhando enquanto ela subia a colina para se juntar  famlia. Ela deu um abrao meio sem jeito no 
pai e olhou para o vale atrs dela uma ltima vez. Tocou o pinheiro de Thalia e ento se deixou levar por 
cima do cume e para dentro do mundo mortal. 

 

Pela primeira vez no acampamento, me senti verdadeiramente s. Olhei para o estreito de Long Island e 
me lembrei do meu pai dizendo: O mar no gosta de ser contido. 

 

Tomei minha deciso. 

 

Fiquei pensando: se Poseidon estivesse vendo, ele aprovaria a minha escolha? 

 

Estarei de volta no prximo vero - prometi a ele. - Sobreviverei at l. Afinal, eu sou seu filho. - Pedi a 
Argos para me levar at o chal 3, para eu arrumar as minhas coisas antes de ir para casa. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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